Escrevo, comento, opino, analiso em busca de uma linguagem mais simples e direta, mais compreensível. Assumo as minhas idéias e gosto de discuti-las. Aceito as diferenças e recuso os preconceitos e o autoritarismo. Respeito a vida, a natureza, a humanidade, as culturas e as filosofias coerentes com a paz.
sábado, 4 de agosto de 2012
A solidariedade anônima gera uma cultura humanista
Importante pesquisa do IBGE mostra que no Brasil existem 35 milhões de cidadãos que já exerceram funções de solidariedade junto a instituições sociais ou médicas, dando uma parte do seu tempo para levar apoio e carinho a quem sofre. O número de jovens vem crescendo, principalmente nos hospitais e casas para idosos, prestando serviços gratuitamente como a distribuição de livros e revistas, ou jogos e brinquedos para as crianças, contam histórias e encenam peças de teatro que ajudam a passar o tempo e criar um ambiente alegre para os que estão em tratamento.
Recordo a presença por todo o país da Pastoral da Criança ensinando as famílias mais pobres a alimentarem os seus filhos com uma farinha fortificante produzida com folhas de grande valor nutricional, casca de ovos moída e produtos de baixo custo. No primeiro domingo de cada mês as voluntárias efetuam a pesagem dos bebês para constatar a superação do risco de subalimentação tão comum no Brasil. Por outro lado, aquela associação desenvolveu uma efetiva campanha para que cada família soubesse combater a desidratação causadora do maior número de mortes nas crianças brasileiras. O seu trabalho foi fundamental para a redução dos óbitos infantis no país.
Em várias escolas públicas existem alunos que se oferecem para ajudar os colegas que têm mais dificuldade nos estudos e até podem repetir a matéria em uma aula de recuperação para vários colegas. Devido aos pedidos dos alunos da Escola Cruzeiro no Rio de Janeiro, foi desenvolvido um projeto com alunos com melhores notas para ajudar os colegas em horas extras.
Os exemplos de solidariedade são incontáveis e ultrapassam a forma apreciada pelo IBGE. Conhecendo a inércia tradicional que mina a maioria dos serviços de atendimento social no Brasil, cria obstáculos "burocráticos" para desprezar a urgência que muitos cidadãos reclamam para solucionar os seus problemas de subsistência e de saúde, merecem a classificação de "militantes da solidariedade humana" os funcionários abnegados que fazem todo o possível para atender com o devido respeito o cidadão necessitado de atenção, por iniciativa própria e mesmo que a administração do serviço permaneça alheia. Estes casos que, felizmente existem, revelam a qualidade de pessoas que assumem a responsabilidade de atender o cidadão que procura o serviço público não pelo salário que recebe nem por qualquer outra forma de compensação, mas pelos seus princípios humanistas e sociais. Também é comum esta atitude desencadear o desagrado entre colegas e até chefes que estão acomodados na prática, chamada "burocrática", de guardar na gaveta durante anos a reclamação difícil de resolver à espera de que o reclamante desista ou morra.
Diferentes interesses promovem a solidariedade
Como em relação à defesa da natureza, a mídia deu destaque ao interesse pela solidariedade demonstrado por empresários (que deixam a filosofia como tema para a publicidade das iniciativas) e calculam o lucro derivado do trabalho voluntário que agrega valor aos serviços prestados e, ao mesmo tempo, dá uma formação agregada à que o funcionário apresenta: sociabilidade e simpatia, iniciativa e responsabilidade, capacidade de trabalho em grupo, idéias de gestão, administração e disciplina, liderança.
Entrevistada pela Globonews, a presidente da Riovoluntário, com base na referida pesquisa que indicou 5% dos voluntários dando apenas 5 horas por mês, portanto 60 horas/ano cada um, calculou que se trata de 2 milhões e 400 mil voluntários nessa categoria, trabalhando 144 milhões de horas por ano. Supondo o valor mínimo de 20 reais por hora, em um ano serão agregados 2 bilhões e 880 milhões de reais aos serviços de atendimento social, apenas por estes 5 % de voluntários que dispõem de menos tempo que a maioria dos 35 milhões de brasileiros.
Um psicólogo, também entrevistado no programa televisivo "Cidades e Soluções", ressalta o valor da atividade solidária como excelente recurso contra o estado depressivo, na medida em que o voluntário torna-se reconhecidamente útil e bom para os demais.
A internet divulga a história do Centro Voluntário da Vida - CVV - que há 50 anos realiza por telefone um trabalho de prevenção do suicídio em que o voluntário aprende a dialogar com quem está em desespero e trabalha para o dissuadir da morte aprimorando a sua iniciativa de ajudar o outro.
A história do voluntariado no Brasil
O modelo padrão, tradicional, de ação voluntária está vinculado às práticas das diferentes seitas religiosas. De fato, na história do Brasil, foram os Jesuítas que primeiro introduziram esta prática social, com a promessa de compensações divinas pelo trabalho gratuito e, para os jovens, a formação profissional. O interesse dos religiosos, fosse no aproveitamento de uma mão de obra gratuita ou apenas paga com a alimentação ( melhor situação do que a escravidão), fosse na caridade da preparação de indígenas marginalizados para a aculturação e inserção social, era regido pelas crenças cristãs da época, inclusive com as ameaças de punição divina.
Mais tarde surgiram outras seitas cristãs, católicas e protestantes, que marcaram com as suas diferenças internas a conduta em relação ao ensino e aproveitamento do espírito de solidariedade. Também seitas espíritas e de religiões africanas e asiáticas foram surgindo na sociedade brasileira e fazendo uso similar da promoção da solidariedade que alcança um valor épico junto à coletividade que a experimenta. Mas a formação humanista nem sempre foi de inspiração religiosa. O sentimento patriótico e de solidariedade comunitária deu origem às manifestações de resistência política e social que marcou a história nacional. A Coluna Prestes, durante dois anos saiu do Rio Grande do Sul e percorreu o interior nordestino do Brasil em defesa das populações rurais abandonadas pelo sistema republicano vigente. Foi uma experiência guerrilheira que revolucionou a estratégia de luta revolucionária, mais tarde utilizada em outros países com grande êxito para o processo socialista, e serviu de alavanca ideológica no Brasil para ultrapassar os limites políticos do domínio ruralista latifundiário, caracteristicamente elitista e egoísta.
Os valores que os empresários modernos apregoam - de formação do indivíduo mais capaz e com auto-controle - tornou-se incentivo à promoção dos mais bem sucedidos na hierarquia dos servidores das igrejas (o heroísmo de alguns inspirou as santificações), assim como no plano político e social na formação de líderes.
No século XIX a militância política de diferentes tendências ideológicas e de movimentos específicos de lutas sociais, desenvolveram a prática da solidariedade social substituindo os estímulos religiosos anteriores pela construção de uma nova sociedade mais justa apoiada na formação humanista dos militantes contrários ao egoísmo individualista da elite dominante.
Qualquer que seja a motivação para a produção de serviços sociais, religiosa ou filosófica, com interesses pessoais de promoção pessoal ou desinteressados, a solidariedade introduz na organização da sociedade uma contribuição positiva de caráter democrático e humanista que contraria os princípios filosóficos do sistema capitalista.
Objetivos egoistas embutidos em valores altruistas
Para "reformar" o sistema capitalista, a tendência social-democrata criou uma versão do "capitalismo humanitário" que se apropriou de conceitos de cooperativas, participação popular, solidariedade comunitária, amplamente aplicados nos programas internacionais do Banco Mundial, da FAO e outros organismos da ONU.
Sob estas orientações formalmente humanistas, foram feitas experiências nos países mais pobres da América Latina, África e Ásia, que obtiveram êxito inicial devido aos investimentos aplicados mas a médio e longo prazo promoveram graves desastres naturais e sociais devidos ao peso da exploração financeira que está no cerne da ideologia capitalista. Hoje são revelados os gravíssimos problemas ( previstos por especialistas que não foram ouvidos) de destruição do solo na India durante a Revolução Verde, pulverização da união política entre trabalhadores rurais em países onde foram realizadas Reformas Agrárias com a divisão das propriedades de agricultura extensiva em micro explorações familiares, incentivo a cooperativas que encerram condições de sociedades submetidas ao poder econômico destruindo os laços de solidariedade entre os cooperantes e quebra das tradições culturais equilibradas com as condições naturais e humanas existentes na região.
A verdadeira solidariedade exige um comprometimento com a possibilidade de apoiar os grupos humanos carenciados no seu desenvolvimento para que possam alcançar melhores condições de ida sem perderem a sua independência e as características culturais que formam a sua personalidade. Doações externas podem ser positivas, mas não têm o valor da solidariedade porque podem ser apenas uma "compra" disfarçada.
Zillah Branco
terça-feira, 17 de julho de 2012
O PRECO DA CHUVA E O TRÁFICO DE COMEIAS
Assistindo ao evento Rio + 20, de longe e pelas lentes da mídia, a vontade geral dos manifestantes, inclusive de alguns chefes de Estado de países mais pobres que estão em luta pelo desenvolvimento democrático que integra a participação popular, foi unânime pela criação de ações imediatas de defesa da natureza e das populações mais carentes. Uma grande conquista conceitual foi incorporar a proteção dos recursos naturais à da integridade da humanidade que paga com a própria vida os desmandos de uma elite predatória.
O documento assinado revela as restrições impostas pelo sistema político amarrado às conveniências diplomáticas que contornam o medo da transparência imposto pelos "donos da guerra". Esta é uma realidade que inibe a democracia e castra a independência dos países ameaçados, oprime os defensores da democracia e atemoriza os responsáveis pela Paz mundial.
O interessante do momento histórico presente é que instalou-se uma dicotomia de interesses entre "poderosos que ameaçam com guerra" e "trabalhadores, empresários e populares" que querem construir um planeta livre de ameaças de qualquer tipo contra a humanidade e a natureza de que depende.
Os que redigiram o documento da Rio + 20 conseguiram equilibrar as intenções manifestadas pela população "livre daquelas condições diplomáticas" que se organizara como ONGs ou grupo de estudos específicos, com as pressões exercidas pela polícia imperialista. Foi uma obra prima de equilíbrio que mereceu a crítica de que não explicita valores e datas de ação para cumprir as linhas de recomendação que inverte o caminho da destruição da natureza e da humanidade no planeta.
Dentro dos limites estreitos suportados pelos 191 países representados no Encontro Rio + 20 alguns Presidentes, no entanto, falaram com perfeita clareza coincidindo com o que a população militante ansiava: Evo Morales, da Bolívia (que foi aplaudido três vezes pela platéia presente) criticou o sistema capitalista e o conceito de economia verde, que classificou como um novo termo para fazer prosperar o colonialismo. Ele ressaltou ainda a importância de os recursos naturais dos países não ficarem nas mãos de empresas privadas e, sim, sob o comando do Estado.
"Sinto informar que analisei com seriedade e acompanhei o que se convencionou chamar de economia verde. Isso não passa de um novo colonialismo para submeter os povos mais pobres ao capitalismo. Vamos refletir sobre isso. Se queremos que esse evento seja histórico, não temos outra alternativa a não ser acabar com essas políticas do lucro, acabar com o humanicídio", afirmou.
“A economia verde coloniza e privatiza a biodiversidade a serviço de poucos. Verticaliza os recursos naturais e transforma a natureza em uma mercadoria. Converte todas as fontes da natureza em um bem privado a serviço de poucos”, condenou.
Segundo Morales, é preciso acabar com o modelo econômico capitalista como forma de garantir o futuro do planeta. "Seria importante refletir sobre as gerações futuras, acabando com esse modelo de saques, de depredação dos recursos naturais, acabar com o capitalismo".
Morales acusou os países mais ricos de quererem obrigar os países do Sul a serem os guardiães pobres das florestas e afetarem sua soberania ditando como devem utilizar seus recursos naturais. “Querem criar mecanismos de intromissão, para julgar e monitorar nossas políticas nacionais com argumentos ambientalistas”, declarou.
"A indústria do Norte transforma tudo em algo a ser vendido. Privatiza a riqueza e socializa a pobreza. Usurpa a natureza, que é a herança comum de todo ser vivo", disse ao citar o líder cubano Fidel Castro.
Ele lembrou a realização da Eco-92, a conferência da ONU sobre meio ambiente realizada há 20 anos no Rio de Janeiro, e citou o discurso de Fidel no encontro. "Como um homem muito sábio que é, ele nos disse na época: "vamos acabar com a fome e não com o homem, paguemos a dívida ambiental e não a dívida externa". Se passaram vinte anos e ainda precisamos deixar de lado a dívida imposta pelo modo capitalista", afirmou.
Ao destacar que, naquele dia, era feriado na Bolívia para comemorar o festival do Sol, em uma homenagem à natureza, Morales criticou a privatização dos recursos naturais. "O sistema imperialista extrai cada recurso natural e transforma em um negócio, em lucro. O faz com visão de curto prazo, de privatização dessa riqueza para garantir mais ganhos. Colonializa a natureza, transformando uma fonte de vida em ativo privado para benefício de poucos."
O presidente também citou como exemplo a política adotada em seu país de nacionalizar os recursos naturais, antes nas mãos de grandes conglomerados internacionais, como o setor de petróleo. "Nossa economia mudou após recuperarmos a posse dos combustíveis fósseis. Com todo respeito, os países da África e todas as nações pobres precisam fazer o mesmo, precisam recuperar seus recursos naturais, que não devem ser de posse dos negócios privados", disse ao citar que, na Bolívia, os serviços de telefonia e água foram nacionalizados. "Isso é obrigação do Estado, não é um negócio internacional", completou.
O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que também falou na plenária, foi breve e ameno em seu discurso e disse acreditar que a conferência chegará a alcançar um modelo de desenvolvimento coerente com os interesses sociais e econômicos dos países. “O legado do Rio continua vivo e deve continuar assim para o bem das futuras gerações.”
Foi a expressão típica de um Chefe de Estado mais preocupado com as pressões externas que com as necessidades do seu povo.
Em outro momento foi o Presidente do Irão, Ahmadinejad, que defendeu idéias humanistas que levem as diversas religiões a exprimirem com as suas filosofias sobre a vida e o ser humano a necessidade imperiosa de defender a natureza e acabar com a miséria no mundo. Estas também foram as reivindicações de Leonardo Boff apresentou, do lado de fora do Encontro, com a liberdade democrática que gozava junto ao seu grupo.
A MIDIA NÃO DIVULGA TUDO
Provavelmente muitos outros lideres nacionais, da Africa, da Asia e da América Latina, expressaram o mesmo que a população livre de compromissos diplomáticas sem que as suas palavras pudessem aparecer no documento da ONU. Não foram também divulgadas pela mídia, que por razões diferentes das que tolheram os diplomatas, preferiram dar voz aos que, como o representante de Israel, se opuseram aos Presidentes que contrariaram os interesses antidemocráticos que o sistema capitalista impõe.
Acompanhando atentamente o que ocorreu em torno do Encontro Rio + 20, mesmo sem ter acesso aos textos escritos ou orais de todos os intervenientes, ficou claro que houve uma profunda mudança na consciência política das populações nestes 20 últimos anos. E foi no programa Painel da Globo News (25/06/12) que se ouviu uma conclusão espantosa vindo de expoentes da elite brasileira coordenados por William Waack. Nas palavras de um diplomata, ex-embaixador: " O sistema político diplomático que exerce a governança no planeta está bloqueado"(...) "É necessário criar um novo sistema, um novo modo de produção e de consumo". Será que aplaudiram Evo Morales e Ahmadnejad?
Em outro encontro "livre", onde estiveram presentes vários economistas ligados aos bancos, empresários ambientalistas interessados em lançar as novas tecnologias que não agrida a natureza mas garanta o crescimento econômico criticaram os paises ricos que não quiseram participar do Encontro de interesse mundial. Dirigidos pelo ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, fizeram claras críticas aos países ricos que não mandaram seus representantes ao Encontro Rio + 20. "A crise não é desculpa, pois há muitos técnicos em cada governo que podem ser destacados"(...) "os empresários têm de considerar que a defesa da natureza está ligada ao combate à desigualdade, e que se incorpora nos lucros". Têm uma visão mais moderna do capitalismo que também percebe que o caminho imperialista levará à destruição das suas empresas, da humanidade e da natureza.
EXTERNALIDADES À VENDA
Em Portugal, os apicultores têm sofrido um novo prejuizo , "o roubo das colméias". Parece uma novidade absurda para quem não acompanha os problemas da agro-indústria da Suiça, da Alemanha e dos Estados Unidos, que sofrem com o desaparecimento das pequenas produções de mel que garantiam as abelhas para polinizarem "gratuitamente"as grandes produções agrícolas. Os economistas das grandes empresas já calcularam que cada colméia tem preço de 1.200 dolares, que é o valor agregado pela polinização ao dos produtos agrícolas. O rendimento das colméias é maior na função de polinizadores do que na produção de mel. Daí a explicação dos roubos em Portugal.
Com o novo conceito da economia relativo às "externalidades" que hoje recebem valores financeiros de custo e benefício, abriu-se a oportunidade, para os adoradores do mercado como "o guia teórico e prático" da ciência econômica, darem algum valor à humanidade e aos recursos naturais. Começaram a se preocupar com a sobrevivência dos consumidores e a formação dos trabalhadores para que possam vender e produzir os seus produtos sem sacrificar o lucro.
Mais recente é a atribuição de valor aos "bens naturais", como a chuva que aumenta a produção da energia, os micro-organismos que enriquecem a terra e a protegem da destruição pelo uso agrícola, o ar não poluído que garante a saúde tanto dos produtos como dos consumidores. Hoje aceitam as razões filosóficas e ideológicas de esquerda que há milênios defendem os seres humano e naturais porque conseguem quantificar o custo e benefício que a empresa vai incorporar. Oportunisticamente utilizam, nas formas publicitárias, os velhos conceitos filosóficos que são aceitos pela maioria da população apesar do seu impulso inicial seja claramente a ambição de lucro.
E é esta adoção falsa de uma filosofia que, para os comandantes do sistema capitalista nunca foi respeitada (e ao contrário, sempre ajudaram a reprimir), que revolta alguns contra o termo "economia verde" que, como disse uma participante camponesa, "de verde esta nova economia só tem as notas de dolares".
Ficamos com as palavras e com a permanente diferença entre os que lutam com fundamentos filosóficos e ideológicos e os que só buscam os lucros. A nível do discurso a
linguagem se confunde e parece homogenea, mas diante de um compromisso político nacional a pouca clareza dos conceitos dificulta as assinaturas e impede que os objetivos sejam datados e os seus custos quantificados.
A ONU reúne os mais diferentes países do planeta mas não elimina a história de saque e destruição dos produtos naturais da época do colonialismo que ainda sucede no tempo moderno pela via dos instrumentos criados pelo imperialismo. A India não conseguiu ainda corrigir os erros criados com o programa da "revolução verde" orientada pelo Banco Mundial, que esterilizou o solo e destruiu a seleção tradcional das sementes de arroz com o uso de agro-tóxicos e criação de transgênicos. O mesmo aconteceu em quase todo o continente africano e grande parte da América Latina. Quem vai assumir os custos da correção dos desastres ecológicos que beneficiaram os que hoje são os países ricos e levaram à miséria os que estão lutando pelo desenvolvimento. Ainda é impossível uma uma assinatura "entre nações irmãs" sem antes dividirem as heranças históricas que também são "externalidades" quantificáveis.
O documento assinado revela as restrições impostas pelo sistema político amarrado às conveniências diplomáticas que contornam o medo da transparência imposto pelos "donos da guerra". Esta é uma realidade que inibe a democracia e castra a independência dos países ameaçados, oprime os defensores da democracia e atemoriza os responsáveis pela Paz mundial.
O interessante do momento histórico presente é que instalou-se uma dicotomia de interesses entre "poderosos que ameaçam com guerra" e "trabalhadores, empresários e populares" que querem construir um planeta livre de ameaças de qualquer tipo contra a humanidade e a natureza de que depende.
Os que redigiram o documento da Rio + 20 conseguiram equilibrar as intenções manifestadas pela população "livre daquelas condições diplomáticas" que se organizara como ONGs ou grupo de estudos específicos, com as pressões exercidas pela polícia imperialista. Foi uma obra prima de equilíbrio que mereceu a crítica de que não explicita valores e datas de ação para cumprir as linhas de recomendação que inverte o caminho da destruição da natureza e da humanidade no planeta.
Dentro dos limites estreitos suportados pelos 191 países representados no Encontro Rio + 20 alguns Presidentes, no entanto, falaram com perfeita clareza coincidindo com o que a população militante ansiava: Evo Morales, da Bolívia (que foi aplaudido três vezes pela platéia presente) criticou o sistema capitalista e o conceito de economia verde, que classificou como um novo termo para fazer prosperar o colonialismo. Ele ressaltou ainda a importância de os recursos naturais dos países não ficarem nas mãos de empresas privadas e, sim, sob o comando do Estado.
"Sinto informar que analisei com seriedade e acompanhei o que se convencionou chamar de economia verde. Isso não passa de um novo colonialismo para submeter os povos mais pobres ao capitalismo. Vamos refletir sobre isso. Se queremos que esse evento seja histórico, não temos outra alternativa a não ser acabar com essas políticas do lucro, acabar com o humanicídio", afirmou.
“A economia verde coloniza e privatiza a biodiversidade a serviço de poucos. Verticaliza os recursos naturais e transforma a natureza em uma mercadoria. Converte todas as fontes da natureza em um bem privado a serviço de poucos”, condenou.
Segundo Morales, é preciso acabar com o modelo econômico capitalista como forma de garantir o futuro do planeta. "Seria importante refletir sobre as gerações futuras, acabando com esse modelo de saques, de depredação dos recursos naturais, acabar com o capitalismo".
Morales acusou os países mais ricos de quererem obrigar os países do Sul a serem os guardiães pobres das florestas e afetarem sua soberania ditando como devem utilizar seus recursos naturais. “Querem criar mecanismos de intromissão, para julgar e monitorar nossas políticas nacionais com argumentos ambientalistas”, declarou.
"A indústria do Norte transforma tudo em algo a ser vendido. Privatiza a riqueza e socializa a pobreza. Usurpa a natureza, que é a herança comum de todo ser vivo", disse ao citar o líder cubano Fidel Castro.
Ele lembrou a realização da Eco-92, a conferência da ONU sobre meio ambiente realizada há 20 anos no Rio de Janeiro, e citou o discurso de Fidel no encontro. "Como um homem muito sábio que é, ele nos disse na época: "vamos acabar com a fome e não com o homem, paguemos a dívida ambiental e não a dívida externa". Se passaram vinte anos e ainda precisamos deixar de lado a dívida imposta pelo modo capitalista", afirmou.
Ao destacar que, naquele dia, era feriado na Bolívia para comemorar o festival do Sol, em uma homenagem à natureza, Morales criticou a privatização dos recursos naturais. "O sistema imperialista extrai cada recurso natural e transforma em um negócio, em lucro. O faz com visão de curto prazo, de privatização dessa riqueza para garantir mais ganhos. Colonializa a natureza, transformando uma fonte de vida em ativo privado para benefício de poucos."
O presidente também citou como exemplo a política adotada em seu país de nacionalizar os recursos naturais, antes nas mãos de grandes conglomerados internacionais, como o setor de petróleo. "Nossa economia mudou após recuperarmos a posse dos combustíveis fósseis. Com todo respeito, os países da África e todas as nações pobres precisam fazer o mesmo, precisam recuperar seus recursos naturais, que não devem ser de posse dos negócios privados", disse ao citar que, na Bolívia, os serviços de telefonia e água foram nacionalizados. "Isso é obrigação do Estado, não é um negócio internacional", completou.
O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, que também falou na plenária, foi breve e ameno em seu discurso e disse acreditar que a conferência chegará a alcançar um modelo de desenvolvimento coerente com os interesses sociais e econômicos dos países. “O legado do Rio continua vivo e deve continuar assim para o bem das futuras gerações.”
Foi a expressão típica de um Chefe de Estado mais preocupado com as pressões externas que com as necessidades do seu povo.
Em outro momento foi o Presidente do Irão, Ahmadinejad, que defendeu idéias humanistas que levem as diversas religiões a exprimirem com as suas filosofias sobre a vida e o ser humano a necessidade imperiosa de defender a natureza e acabar com a miséria no mundo. Estas também foram as reivindicações de Leonardo Boff apresentou, do lado de fora do Encontro, com a liberdade democrática que gozava junto ao seu grupo.
A MIDIA NÃO DIVULGA TUDO
Provavelmente muitos outros lideres nacionais, da Africa, da Asia e da América Latina, expressaram o mesmo que a população livre de compromissos diplomáticas sem que as suas palavras pudessem aparecer no documento da ONU. Não foram também divulgadas pela mídia, que por razões diferentes das que tolheram os diplomatas, preferiram dar voz aos que, como o representante de Israel, se opuseram aos Presidentes que contrariaram os interesses antidemocráticos que o sistema capitalista impõe.
Acompanhando atentamente o que ocorreu em torno do Encontro Rio + 20, mesmo sem ter acesso aos textos escritos ou orais de todos os intervenientes, ficou claro que houve uma profunda mudança na consciência política das populações nestes 20 últimos anos. E foi no programa Painel da Globo News (25/06/12) que se ouviu uma conclusão espantosa vindo de expoentes da elite brasileira coordenados por William Waack. Nas palavras de um diplomata, ex-embaixador: " O sistema político diplomático que exerce a governança no planeta está bloqueado"(...) "É necessário criar um novo sistema, um novo modo de produção e de consumo". Será que aplaudiram Evo Morales e Ahmadnejad?
Em outro encontro "livre", onde estiveram presentes vários economistas ligados aos bancos, empresários ambientalistas interessados em lançar as novas tecnologias que não agrida a natureza mas garanta o crescimento econômico criticaram os paises ricos que não quiseram participar do Encontro de interesse mundial. Dirigidos pelo ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, fizeram claras críticas aos países ricos que não mandaram seus representantes ao Encontro Rio + 20. "A crise não é desculpa, pois há muitos técnicos em cada governo que podem ser destacados"(...) "os empresários têm de considerar que a defesa da natureza está ligada ao combate à desigualdade, e que se incorpora nos lucros". Têm uma visão mais moderna do capitalismo que também percebe que o caminho imperialista levará à destruição das suas empresas, da humanidade e da natureza.
EXTERNALIDADES À VENDA
Em Portugal, os apicultores têm sofrido um novo prejuizo , "o roubo das colméias". Parece uma novidade absurda para quem não acompanha os problemas da agro-indústria da Suiça, da Alemanha e dos Estados Unidos, que sofrem com o desaparecimento das pequenas produções de mel que garantiam as abelhas para polinizarem "gratuitamente"as grandes produções agrícolas. Os economistas das grandes empresas já calcularam que cada colméia tem preço de 1.200 dolares, que é o valor agregado pela polinização ao dos produtos agrícolas. O rendimento das colméias é maior na função de polinizadores do que na produção de mel. Daí a explicação dos roubos em Portugal.
Com o novo conceito da economia relativo às "externalidades" que hoje recebem valores financeiros de custo e benefício, abriu-se a oportunidade, para os adoradores do mercado como "o guia teórico e prático" da ciência econômica, darem algum valor à humanidade e aos recursos naturais. Começaram a se preocupar com a sobrevivência dos consumidores e a formação dos trabalhadores para que possam vender e produzir os seus produtos sem sacrificar o lucro.
Mais recente é a atribuição de valor aos "bens naturais", como a chuva que aumenta a produção da energia, os micro-organismos que enriquecem a terra e a protegem da destruição pelo uso agrícola, o ar não poluído que garante a saúde tanto dos produtos como dos consumidores. Hoje aceitam as razões filosóficas e ideológicas de esquerda que há milênios defendem os seres humano e naturais porque conseguem quantificar o custo e benefício que a empresa vai incorporar. Oportunisticamente utilizam, nas formas publicitárias, os velhos conceitos filosóficos que são aceitos pela maioria da população apesar do seu impulso inicial seja claramente a ambição de lucro.
E é esta adoção falsa de uma filosofia que, para os comandantes do sistema capitalista nunca foi respeitada (e ao contrário, sempre ajudaram a reprimir), que revolta alguns contra o termo "economia verde" que, como disse uma participante camponesa, "de verde esta nova economia só tem as notas de dolares".
Ficamos com as palavras e com a permanente diferença entre os que lutam com fundamentos filosóficos e ideológicos e os que só buscam os lucros. A nível do discurso a
linguagem se confunde e parece homogenea, mas diante de um compromisso político nacional a pouca clareza dos conceitos dificulta as assinaturas e impede que os objetivos sejam datados e os seus custos quantificados.
A ONU reúne os mais diferentes países do planeta mas não elimina a história de saque e destruição dos produtos naturais da época do colonialismo que ainda sucede no tempo moderno pela via dos instrumentos criados pelo imperialismo. A India não conseguiu ainda corrigir os erros criados com o programa da "revolução verde" orientada pelo Banco Mundial, que esterilizou o solo e destruiu a seleção tradcional das sementes de arroz com o uso de agro-tóxicos e criação de transgênicos. O mesmo aconteceu em quase todo o continente africano e grande parte da América Latina. Quem vai assumir os custos da correção dos desastres ecológicos que beneficiaram os que hoje são os países ricos e levaram à miséria os que estão lutando pelo desenvolvimento. Ainda é impossível uma uma assinatura "entre nações irmãs" sem antes dividirem as heranças históricas que também são "externalidades" quantificáveis.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
Consciência de cidadania no Estado
A primeira diferença entre o Estado como instrumento de domínio de uma elite ou o Estado como a institucionalização do poder do seu povo é revelada pelo comportamento dos seus funcionários, do balcão de atendimento aos chefes e diretores dos serviços.
Isto será possível como resultado de um processo que revolucione a cultura, o comportamento social, a consciência de todos os agentes sociais para que aprendam a respeitar o cidadão com espirito de solidariedade e o desenvolvimento nacional para fortalecer a sociedade independente. É o que traduz a dignidade pessoal e nacional democrática.
Os brasileiros são herdeiros de uma cultura colonialista carregada de autoritarismo, quando em situação de mando, e de sujeição acovardada quando em condição de subordinado, gerada pela história imposta ao longo de cinco séculos de dependência nacional de poderes externos.
Com a prática da sobrevivência na penúria, aprendida com os povos aqui escravizados, souberam preservar como forma de resistência a alegria de viver e a poderosa inteligência criativa que abre caminhos para superar as carências. Os regimes políticos que se sucederam na sociedade oligárquica (que ainda perdura em setores da elite mesmo com o desenvolvimento de princípios democráticos que vagarosamente vão sendo institucionalizados), foram responsáveis pela omissão ou alienação mental de cidadãos que cumprem funções anti-éticas e até criminosas para garantirem o emprego público ou privado. São os que se consideram apenas "agentes" como se fossem instrumentos inconscientes comandados mecanicamente pelo patronato elitista.
A existência de tal cultura, que aceita o oportunismo e a quebra da dignidade pessoal e social em nome de uma obediência cega ao chefe, conduziu o país a incorporar como um fato histórico a "impunidade" que encontra fundamentação jurídica em leis que são obstáculos à plena democratização do Brasil.
O agente policial ou militar que tortura e mata um prisioneiro indefeso cumpre uma função criminosa e pode extrair prazer não só sádico, mas que lhe dá um momento de poder social como têm os ditadores. Um funcionário que nega tratamento de saúde ou conforto previdenciário a quem necessita para sobreviver, pode alegar condições burocráticas para permanecer omisso à solidariedade humana necessária, mas a verdade é que se tornou inútil à função pela qual é remunerado e lesa o Estado. São duas situações diferentes que têm em comum uma inadequação à função social que desempenham para o Estado e para a sociedade.
Também a mesma análise cabe a um funcionário de uma empresa privada, pois a função das empresas é atender à demanda social, seja pela prestação de serviços, como um banco ou agência turística, seja na venda de produtos para o mercado. Uma funcionária de um banco nega as informações necessárias para que a cliente realize uma operação bancária de compra de moeda estrangeira até que o valor cresça beneficiando o banco que vende a moeda mais cara. É uma ação criminosa de roubo, mesmo que a orientação seja da responsabilidade da direção do banco (este caso ocorreu e foi registrado na Ouvidoria do banco em 2012). O cidadão, simples trabalhador ou alto político, não pode sacrificar a sua dignidade humana em uma função social para receber uma recompensa, pois isto configura a corrupção que é crime.
O caminho para a expansão da consciência de cidadania foi revelado durante os anos negros da ditadura militar no Brasil em ações individuais ou de grupos isolados que procuraram atuar junto a comunidades mais pobres visando uma alimentação melhor para as crianças, formação de hortas comunitárias, soluções técnicas para construção de cisternas, produção de energia e recursos de saneamento, chegando a inspirar alguns municípios a praticarem políticas com participação popular, melhoria do atendimento escolar, discussão dos planos de desenvolvimento local. Mas, foi com a eleição de Lula em 2002 que o Governo aderiu explicitamente à criação de programas nacionais de democratização do Estado baseados no conceito de direito à cidadania.
A evolução deste processo exige uma preparação profunda que vai desde a mudança das leis e normas que orientam os serviços até à formação de um comportamento social coerente, pelos políticos e responsáveis e trabalhadores do Estado, que crie as bases para o exercício da democracia. O setor empresarial tem se adaptado à linguagem democrática criando na sua contabilidade uma despesa com o social e aderindo às normas de defesa da natureza que vão sendo preconizadas na sociedade.
Uma importante ação de alguns setores nacionais, como o judiciário, o da educação e do Congresso Nacional, foi a criação de canais específicos de televisão para informar e formar o cidadão com programas de alta qualidade e transparência. Como complemento, têm sido abertos sites para que o cidadão entre em contato pessoal com as estruturas dos ministérios e serviços públicos. No entanto, esta abertura ao cidadão nem sempre tem resposta que ultrapasse a velha burocracia omissa às necessidades do cidadão.
O Brasil, na sua lenta adoção de um regime democrático, caminha a passos largos quando aceita a participação popular e se arrasta quando estão em causa os interesses pessoais, e de classe, da velha elite política. A imagem do poder apresenta duas faces antagônicas e de ideologia democrática oposta. O vergonhoso espetáculo que temos assistido pela mídia de tentativas de julgamento dos freqüentes casos de corrupção ativa e passiva de altos funcionários do Estado e de políticos eleitos, dilui-se na memória nacional favorecido por manobras jurídicas que a atual estrutura judicial permite.
Enquanto isso, a população e suas organizações sociais e políticas exigem que os candidatos nas eleições nacionais tenham "fichas limpas" de processos e condenações criminais e assistem a uma fuga escorregadia das responsabilidades pelos poderes constituídos devidos a velhos hábitos de receber benesses que também pertencem à categoria da corrupção "oficial" do regime oligárquico que permanece colado no sistema político. A elite é uma espécie de carrapato imune aos ataques gentis da burguesia bem remunerada.
Debates sobre a necessidade de maior investimento nos setores sociais - educação, saúde e segurança social - são recusados no cálculo economicista que o Ministério da Fazenda faz, lembrando a crise mundial, o desinteresse da China pela importação de matéria prima brasileira, o enfraquecimento dos recursos do Estado e outras questões financeiras - mas não revela quanto investiu no comércio de carros (poluidores) pela isenção de impostos e nem o que deveria investir na produção siderúrgica nacional para utilizar a matéria prima que iria para a China e pode alimentar a economia nacional criando empregos e incorporando o valor do trabalho no produto.
Por outro lado, quando é autorizada a elevação salarial de uma categoria de trabalho não há coragem de rever a má distribuição de renda dentro dos quadros de funcionários que foram desequilibrados por privilégios inexplicáveis de um ponto de vista democrático. Assim, serão os mais bem pagos que vão consumir a verba aprovada acentuando as injustiças e as carências reais. Os setores sociais não podem ser vistos pela ótica do financista nem pode descartar, em um país em desenvolvimento como o Brasil, com grande parte da população vivendo miseravelmente, que deve destinar a maior parte do investimento governamental para dar as condições elementares de sobrevivência aos mais pobres antes de entregar o serviço de educação, saúde e segurança social de forma igualitária entre todos os que recorrem àqueles serviços.
Sintetizando, a consciência de cidadania deve ser exigida também, e principalmente, aos agentes do sistema político nacional no Brasil para viabilizar a implantação do regime democrático o quanto antes.
Publicado no Portal Vermelho 11/07/2012
Isto será possível como resultado de um processo que revolucione a cultura, o comportamento social, a consciência de todos os agentes sociais para que aprendam a respeitar o cidadão com espirito de solidariedade e o desenvolvimento nacional para fortalecer a sociedade independente. É o que traduz a dignidade pessoal e nacional democrática.
Os brasileiros são herdeiros de uma cultura colonialista carregada de autoritarismo, quando em situação de mando, e de sujeição acovardada quando em condição de subordinado, gerada pela história imposta ao longo de cinco séculos de dependência nacional de poderes externos.
Com a prática da sobrevivência na penúria, aprendida com os povos aqui escravizados, souberam preservar como forma de resistência a alegria de viver e a poderosa inteligência criativa que abre caminhos para superar as carências. Os regimes políticos que se sucederam na sociedade oligárquica (que ainda perdura em setores da elite mesmo com o desenvolvimento de princípios democráticos que vagarosamente vão sendo institucionalizados), foram responsáveis pela omissão ou alienação mental de cidadãos que cumprem funções anti-éticas e até criminosas para garantirem o emprego público ou privado. São os que se consideram apenas "agentes" como se fossem instrumentos inconscientes comandados mecanicamente pelo patronato elitista.
A existência de tal cultura, que aceita o oportunismo e a quebra da dignidade pessoal e social em nome de uma obediência cega ao chefe, conduziu o país a incorporar como um fato histórico a "impunidade" que encontra fundamentação jurídica em leis que são obstáculos à plena democratização do Brasil.
O agente policial ou militar que tortura e mata um prisioneiro indefeso cumpre uma função criminosa e pode extrair prazer não só sádico, mas que lhe dá um momento de poder social como têm os ditadores. Um funcionário que nega tratamento de saúde ou conforto previdenciário a quem necessita para sobreviver, pode alegar condições burocráticas para permanecer omisso à solidariedade humana necessária, mas a verdade é que se tornou inútil à função pela qual é remunerado e lesa o Estado. São duas situações diferentes que têm em comum uma inadequação à função social que desempenham para o Estado e para a sociedade.
Também a mesma análise cabe a um funcionário de uma empresa privada, pois a função das empresas é atender à demanda social, seja pela prestação de serviços, como um banco ou agência turística, seja na venda de produtos para o mercado. Uma funcionária de um banco nega as informações necessárias para que a cliente realize uma operação bancária de compra de moeda estrangeira até que o valor cresça beneficiando o banco que vende a moeda mais cara. É uma ação criminosa de roubo, mesmo que a orientação seja da responsabilidade da direção do banco (este caso ocorreu e foi registrado na Ouvidoria do banco em 2012). O cidadão, simples trabalhador ou alto político, não pode sacrificar a sua dignidade humana em uma função social para receber uma recompensa, pois isto configura a corrupção que é crime.
O caminho para a expansão da consciência de cidadania foi revelado durante os anos negros da ditadura militar no Brasil em ações individuais ou de grupos isolados que procuraram atuar junto a comunidades mais pobres visando uma alimentação melhor para as crianças, formação de hortas comunitárias, soluções técnicas para construção de cisternas, produção de energia e recursos de saneamento, chegando a inspirar alguns municípios a praticarem políticas com participação popular, melhoria do atendimento escolar, discussão dos planos de desenvolvimento local. Mas, foi com a eleição de Lula em 2002 que o Governo aderiu explicitamente à criação de programas nacionais de democratização do Estado baseados no conceito de direito à cidadania.
A evolução deste processo exige uma preparação profunda que vai desde a mudança das leis e normas que orientam os serviços até à formação de um comportamento social coerente, pelos políticos e responsáveis e trabalhadores do Estado, que crie as bases para o exercício da democracia. O setor empresarial tem se adaptado à linguagem democrática criando na sua contabilidade uma despesa com o social e aderindo às normas de defesa da natureza que vão sendo preconizadas na sociedade.
Uma importante ação de alguns setores nacionais, como o judiciário, o da educação e do Congresso Nacional, foi a criação de canais específicos de televisão para informar e formar o cidadão com programas de alta qualidade e transparência. Como complemento, têm sido abertos sites para que o cidadão entre em contato pessoal com as estruturas dos ministérios e serviços públicos. No entanto, esta abertura ao cidadão nem sempre tem resposta que ultrapasse a velha burocracia omissa às necessidades do cidadão.
O Brasil, na sua lenta adoção de um regime democrático, caminha a passos largos quando aceita a participação popular e se arrasta quando estão em causa os interesses pessoais, e de classe, da velha elite política. A imagem do poder apresenta duas faces antagônicas e de ideologia democrática oposta. O vergonhoso espetáculo que temos assistido pela mídia de tentativas de julgamento dos freqüentes casos de corrupção ativa e passiva de altos funcionários do Estado e de políticos eleitos, dilui-se na memória nacional favorecido por manobras jurídicas que a atual estrutura judicial permite.
Enquanto isso, a população e suas organizações sociais e políticas exigem que os candidatos nas eleições nacionais tenham "fichas limpas" de processos e condenações criminais e assistem a uma fuga escorregadia das responsabilidades pelos poderes constituídos devidos a velhos hábitos de receber benesses que também pertencem à categoria da corrupção "oficial" do regime oligárquico que permanece colado no sistema político. A elite é uma espécie de carrapato imune aos ataques gentis da burguesia bem remunerada.
Debates sobre a necessidade de maior investimento nos setores sociais - educação, saúde e segurança social - são recusados no cálculo economicista que o Ministério da Fazenda faz, lembrando a crise mundial, o desinteresse da China pela importação de matéria prima brasileira, o enfraquecimento dos recursos do Estado e outras questões financeiras - mas não revela quanto investiu no comércio de carros (poluidores) pela isenção de impostos e nem o que deveria investir na produção siderúrgica nacional para utilizar a matéria prima que iria para a China e pode alimentar a economia nacional criando empregos e incorporando o valor do trabalho no produto.
Por outro lado, quando é autorizada a elevação salarial de uma categoria de trabalho não há coragem de rever a má distribuição de renda dentro dos quadros de funcionários que foram desequilibrados por privilégios inexplicáveis de um ponto de vista democrático. Assim, serão os mais bem pagos que vão consumir a verba aprovada acentuando as injustiças e as carências reais. Os setores sociais não podem ser vistos pela ótica do financista nem pode descartar, em um país em desenvolvimento como o Brasil, com grande parte da população vivendo miseravelmente, que deve destinar a maior parte do investimento governamental para dar as condições elementares de sobrevivência aos mais pobres antes de entregar o serviço de educação, saúde e segurança social de forma igualitária entre todos os que recorrem àqueles serviços.
Sintetizando, a consciência de cidadania deve ser exigida também, e principalmente, aos agentes do sistema político nacional no Brasil para viabilizar a implantação do regime democrático o quanto antes.
Publicado no Portal Vermelho 11/07/2012
sábado, 30 de junho de 2012
Saga de uma cidadã para conseguir a sua aposentadoria
Ha 10
anos luto por uma aposentadoria. Em 2002 poderia ter recebido em Portugal, onde
vivi por 21 anos e trabalhei descontando para a Previdência por cerca de 9 anos. Para complementar o prazo
requerido para obter a aposentadoria de acordo com os salários, precisava obter a comunicação do INSS no Brasil comprovando os 60 meses que eu podia
comprovar com documentos. Mas o INSS nada fez. Portugal deu-me o direito a
receber uma pensão de sobrevivência fora do processo de aposentadoria por tempo de
trabalho.
Voltei ao
Brasil reivindicando, então a aposentadoria para a qual
somaria os 60 meses e mais 30 retirados da informação dada por Portugal sobre o meu trabalho lá. O INSS negou esta possibilidade e eu recorri ao JEF que
depois de 2 anos publicou uma sentença a meu favor.
Para
minha surpresa o INSS determinou que me fosse paga uma semi- pensão de 265 reais mensais explicando que cada tempo trabalhado
em Portugal REDUZ o valor da pensão mínima. Portanto, quem emigra é
punido com a perda de um salário mínimo nacional.
Recorro a
todas as instituições brasileiras que tratem da
matéria JUSTIÇA para que me expliquem qual a lógica da conclusão aplicada pela Previdência no Brasil Segue a minha saga por 10 anos que me
conduziu à miséria no meu país.
DEZ ANOS DE ENGANOS
Recusei
qualquer caminho que fizesse uso de privilégios - fosse a busca de uma
pessoa influente na instituição como apoio pessoal, ou a
oferta de pagamento como forma de agilizar o andamento do processo (nem sempre
identificado como corrupção, o que era corrente, por
exemplo, no INSS, o pagamento de taxa relativa ao salário mínimo nacional pelo número de meses necessário para completar a soma
exigida para a concessão de aposentadoria).
Assim
preservava os meus princípios éticos que não poderiam ser contrariados
por princípios jurídicos existentes. Tal atitude foi algumas vezes criticada
por parecer ingênua diante de uma realidade
amplamente conhecida pelas suas falhas habitualmente superadas pela pressão de caráter oligárquico, do poder pessoal acima de razões burocráticas ou pela "compra do
esforço especial do funcionário" para apressar o andamento do processo. Não me importei com a figura ingênua que me atribuíram, apesar da conotação pejorativa que a identifica com "ignorância de uma realidade institucional". A militância em um processo que se quer revolucionário, exige que sejam controlados os naturais sentimentos de
autodefesa para manter a coerência com os princípios éticos que nos movem.
A minha
conduta, em relação aos serviços públicos de que dependo, é reivindicativa e crítica, procurando manter um
comportamento educado nem sempre fácil, porque de modo geral o
atendimento nos serviços públicos é autoritário, incisivo e sem esclarecimentos, com ameaças de eventuais punições policiais e judiciais, além de haver autonomia para deixar de atender o cidadão por alegadas razões burocráticas utilizadas como má
fé ou incompetência. Não é fácil manter a calma e o
respeito formal ao se perceber que o funcionário
trata o cidadão com petulância e desprezo como se ele fosse um inimigo.
Esta
forma de militância é individual e raramente encontra apoio institucional ou
partidário. As formas de denúncia dependem da existência de Ouvidores isentos e
competentes que aceitem assumir a denúncia como uma questão a ser investigada para melhorar o atendimento
institucional. O mais comum é a resposta evasiva de
"sinto muito, você tem razão, mas a solução não depende de mim". Este é
o padrão da cultura oligárquica na qual as relações são pessoais e quem critica o funcionamento institucional
corre o risco também de ser visto como inimigo e
receber punição interna como trabalhador.
Por tais
razões, quem reclama deve ter
coragem para suportar toda e qualquer consequência,
como um cristão no império romano ou um "Don Quixote". Para reunir condições de saúde e de vida para adotar a
postura do militante social, defensor da democracia nos serviços públicos do Brasil, esperei
chegar aos 60 anos quando já não tinha responsabilidade pela criação dos filho já adultos, e com uma reserva
financeira e patrimonial para viver de forma independente sem riscos de cair.
CAMINHO
PARA OBTER A APOSENTADORIA
Desde
1995, quando voltei a viver no Brasil depois de ter emigrado para Portugal em
1974, iniciei uma luta aparentemente inglória que fui obrigada a travar
para que o INSS desse entrada a um processo de contagem do tempo trabalhado
para que me fosse concedida a necessária aposentadoria. Em Portugal
eu teria a possibilidade de obter uma aposentadoria com base no último salário pago naquele país desde que a Previdência no Brasil fornecesse a
contagem do tempo trabalhado por mim no Brasil.
O INSS de
Itanhaém recusou receber os meus
documentos comprovativos da vida laboral que eu apresentava todos os anos - de1995
a 2002 - alegando a falta da Carteira de Trabalho desaparecida. Em Janeiro de
2003, creio que devido à lufada de ar democrático trazida pela eleição de Lula para a Presidência da República, foi aberto o processo
35527.000055/2003-16.
Frequentei
a agência ouvindo risos e respostas
cínicas que me fizeram adoecer
pela impotência em obter resposta. O
processo não saia do lugar. Com a
impossibilidade de obter a informação devida pela Previdência no Brasil para que em Portugal fosse aprovada a
aposentadoria com base salarial, aceitei uma pensão
de sobrevivência naquele país e voltei a lutar no Brasil para que aqui fossem somados
os anos de trabalho em Portugal para que eu obtivesse uma aposentadoria
condigna. Informaram que eu poderia pagar a taxa sobre o salário mínimo proporcional a 15 anos
para ter direito à aposentadoria por idade. E,
sem saber se este pagamento seria legal, exigi a contagem do tempo, o que não foi feito nem explicada a razão da sua negação.
Procurei
a Ouvidoria do MPS (ABE 13 526 em 23/9/2004) e informei sobre a situação repetindo as palavras que ouvira da funcionária do INSS e pedindo ajuda.
Obtive a
contagem de parte do tempo - apenas o que trabalhei no Brasil - e a negação do benefício 134.486.345-8. Troquei
correspondência com a Ouvidoria que se
disse "procuradora dos meus interesses", mas nada resolveu até o ano 2008 quando, depois de uma reclamação apresentada pelo telefone 135, a Ouvidoria recomendou-me
voltar à agência do INSS.
Fiz um
agendamento para três meses mais tarde e voltei a
entregar novo pedido de Beneficio 144.630.878-0 no dia 31/10/2008 a um funcionário que disse ser o meu problema difícil porque trabalhei no Chile e em Portugal que devem ser
somados aos 60 meses que já reconheceram por ser no
Brasil. Mas nada fizeram para realizar contatos nem com Portugal, nem com o
Chile, com base nos documentos que desde 2003 constavam do meu processo.
Mais uma
vez a contagem do tempo foi resumida ao período
trabalhado no Brasil, que soma 60 meses. Exigiam 135 meses (contestado mais
tarde pelo JEF que determina 90 meses), mas não
aceitavam o documento que Portugal me dera com os registros do período que lá trabalhei pagando as taxas
previdenciárias.
RECORRI
AO APOIO DO JUIZADO ESPECIAL FEDERAL
Em
outubro de 2009 apresentei uma denúncia contra o INSS por me
impedir – ao não entregar a contagem de tempo de trabalho no Brasil - de
obter uma aposentadoria por cálculo salarial, e de me negar
uma aposentadoria por idade no Brasil à luz do convênio existente com Portugal a partir de 2003 quando foi
iniciado o processo com todos os documentos necessários.
Foram 14
anos - de 1995 a 2009 - de insistência desgastante, de luta
solitária, para abrir uma
frestazinha na porta de uma instituição responsável pela segurança e pela solidariedade social,
a louvável previdência. Imaginem o contra-senso que encerra um crime contra
os direitos humanos, a solidariedade social e os princípios democráticos que regem a Constituição Brasileira.
Recorri
ao JEF que publicou uma sentença favorável ao pagamento da minha aposentadoria (sem referir o
valor) e reconhecendo que em todo o processo o INSS desconheceu o seu dever
constitucional de atender condignamente o cliente, especialmente o idoso, e
determinou que para responder às solicitações que o trabalhador registra no INSS tem obrigatoriamente
de responde em 30 dias, prolongáveis a 60, a partir de quando
passará a pagar uma multa de um salário mínimo mensal ao solicitante
enquanto não puder responder.
Fiquei
emocionalmente compensada pelo apoio do JEF que reconheceu com respeito e
solidariedade a minha luta que resultou da consciência
de cidadania e dos princípios de dignidade que me
animam. Registrei as minhas contestações ao valor a que foi reduzida
a minha aposentadoria (próxima de um terço do salário mínimo nacional) e o período em que o INSS desconheceu
as informações dadas desde o inicio, em
2003, no processo instaurado, mas tive a surpresa de que a Sentença do JEF não foi levada em consideração.
Será necessário pedir a intervenção da Polícia Federal ?
CRITÉRIOS DE JUSTIÇA A PARTIR DA ÉTICA
Como não sou jurista, analiso as decisões do Estado em função de um conceito elementar de
justiça humana a partir de princípios éticos sociais.
Com tal
raciocínio, responsabilizo o INSS de
Itanhaém e a Ouvidoria da Previdência por:
1. - não ter recebido a documentação
de que eu dispunha para abrir um processo de contagem de tempo de serviço em 1996 (fazendo-o apenas em 2002 depois da eleição de um Governo democrático) sob o nº 35527.0000.55/2003-16;
2. - ter
emperrado o processo até a Ouvidoria por mim
contactada ter transmitido a contagem que eu mesma fiz do tempo trabalhado no
Brasil, mas excluindo o que referia períodos trabalhados no Chile e em
Portugal;
3. - não ter contactado os serviços
Providenciarias do Chile e de Portugal para comprovar a documentação que eu apresentei desde o início;
4. - não ter esclarecido a hipótese
de serem pagos com base no salário mínimo nacional os 30 meses que faltavam para os 90 (e não 135 como afirmavam) que me dariam o direito à aposentadoria por idade solicitada em Janeiro de 2003,
dispensando o recurso às informações do exterior.
5.
Responsabilizo a Ouvidoria do Ministério da Previdência por ter afirmado que representaria os meus interesses
quando discordei do cálculo feito e não me preveniu da necessidade de eu contestar na Agência de Itanhaém o mesmo para levar à revisão necessária (o que permitiu que encerrassem o processo, sem me
avisarem, que só foi reaberto em 2008
prejudicando-me, apesar de manter como base informativa o processe de 2003);
6. - a
Ouvidoria, com a qual mantive extenso diálogo entre 2003 e 2008, deixou
de me informar sobre a punição salarial determinada pelo
Decreto 3048/99 para os trabalhadores que emigraram e trazem o período de trabalho cumprido em países conveniados, para somarem à contagem do tempo no Brasil e me iludiu com a sus
prometida intenção de me apoiar na condução do processo que em Itanhaém
permanecia emperrado e sem informação a mim. Este famigerado
decreto, assinado pelo governo neocapitalista da época,
roubou aos idosos brasileiros o pouco que receberiam na aposentadoria, para
compensar as pensões milionárias que destinou aos seus amigos da elite.
7. -
responsabilizo o INSS por omitir as informações
pertinentes, - que solicitei pessoalmente em Itanhaém, pelo telefone 135 e via internet à Ouvidoria e ao setor de convênios,
- levando-me a reabrir o processo em 2008, depois de 5 anos de enganos, para
que repetissem a mesma contagem do tempo de trabalho (com os erros da anterior
e desprezando a informação de Portugal);
8. -
responsabilizo o INSS por não cumprir as conclusões da Sentença publicada em 16/12/2011
apressando-se em produzir um cálculo da aposentadoria por
idade que sofre deduções devidas aos salários registrados em Portugal (que provavelmente teriam função se fosse uma aposentadoria com base em todos os salários, do Brasil e do exterior), desprezando a determinação judicial de considerar a base exigida de 90 meses
trabalhados e a abertura do processo em 2003.
9. -
responsabilizo o INSS por não pagar a multa prevista na
Sentença enquanto estuda a minha
contestação ao valor (se é que 265 reais, um terço do atual salário mínimo nacional, pode ser
considerado valor) da aposentadoria protocolada em Fevereiro de 2012 que não cumpre as determinações do Juizado Especial
Federal.
10.- A
sensação que eu fiquei é a de que através de Decretos (como o decreto
3048/99, assinado pelo Presidente FHC, que já
recebeu 40 alterações de 1999 a 2010 mas continua
punindo os trabalhadores que emigram ao considerar o tempo de trabalho no
exterior um desvalor que reduz o salário mínimo concedido ao idoso) o funcionário do INSS lança uma arapuca para destruir a
consciência de cidadania que alguém ousou usar em defesa pessoal contra a impunidade habitual
dos servidores públicos que engavetam processos
de acordo com o seu próprio interesse reivindicando
os seus mais legítimos direito de cidadão brasileiro. E ainda, o mais importante para o servidor é reduzir os gastos do Estado com pensões de velhice do que agir com transparência e respeito humano que devem traduzir a honestidade
profissional do seu cargo e a dignidade de cidadão
privilegiado pela função de representante de um serviço público.
11.-
Constato ainda que as denúncias feitas pelos cidadãos comuns, sem apadrinhamentos e privilégios, apenas o desmerecem e não
servem, aos que têm a função de zelar pelo aprimoramento da conduta dos servidores públicos, para estabelecer no Estado Brasileiro os princípios democráticos apregoados politicamente
pelo Governo
12.-
Concluo que o INSS ficou a dever, além de uma pensão por idade que seja justa e com retroativos a partir da
data em que foi aceite o processo inicial, em 2003, uma reparação pelos males que me causou e uma revisão da formação e organização interna dos seus quadros técnicos
para que se adaptem aos princípios democráticos que estão a ser introduzidos nas
instituições nacionais.
A defesa
do patrimônio do Estado deve ser feita,
mas não à custa dos trabalhadores que vivem com salário mínimo. O Brasil, ao manter esta
opção inventada pelo
neocapitalismo está a fazer o mesmo que a Europa
nesta época de crise em que exige a
poupança da população empobrecida para enriquecer os bancos. A democracia não pode existir quando a legislação impõe preconceitos contra os que
precisaram emigrar para sobreviver.
A que
instituição recorrer?
terça-feira, 26 de junho de 2012
A democracia no Brasil e os seus riscos
Lincoln Secco, professor de História na FFCL/USP, fez uma breve intervenção no Seminário Marx ocorrido na Universidade de Lisboa, em Maio/2012, sobre a origem histórica do PT - Partido dos Trabalhadores - no Brasil e o papel político que tem representado no processo de transformação revolucionária da sociedade brasileira. Com base na estrutura da sua intervenção procuro entender a difícil equação que resulta das alianças entre as forças de esquerda - comunistas, trotskistas, radicais, cristãos, socialistas, fora e dentro do PT (com as oscilações internas) e "progressistas" de outros partidos.
A liderança de Lula, em torno da qual foi formado o PT em plena Ditadura quando o anti-comunismo da reação foi somado ao desmoronamento ideológico trabalhado mundialmente com o programa contra a "cortina de ferro" proclamado pelo imperialismo, caracterizou-se pela meta de levantar a maioria da população afogada na miséria e no atraso do subdesenvolvimento como polo para substituir o antigo proletariado da tradicional linguagem comunista. Desde o início unido aos cristãos da Teologia da Libertação, o PT surgiu como uma alternativa democrática que não carregava o compromisso da história dos movimentos comunistas que era o alvo da repressão ditatorial, a condenação da Igreja, a desconfiança da mal definida social-democracia mundial. Representou no Brasil o mesmo papel de movimentos democráticos e unitários um pouco por todo o mundo.
"O tema da transição sempre esteve subjacente aos debates dos comunistas brasileiros. Ele aparecia como uma discussão sobre as etapas da Revolução Brasileira" retardada pelo domínio colonial na primeira fase até a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808, depois pelo mercantilismo europeu representado pela Inglaterra seguida da Holanda e França até ser substituído pelo nascente imperialismo no bojo do neo-capitalismo praticado pelos Estados Unidos durante todo o século XX.
"Caio Prado Jr, o maior historiador brasileiro (membro do Partido Comunista Brasileiro), mostrou que todo o aparato produtivo no Brasil foi montado quase exclusivamente para atender necessidades externas. Para ele a economia brasileira continuou colonial depois da independência política."
"A Revolução Brasileira (portanto a transição ao socialismo) seria, inicialmente, o conjunto de reformas capaz de voltar a produção ao povo e criar o mercado interno de massas e a economia nacional", que desde às lutas pela independência no século XVIII e na formação de um pensamento político influenciou a criação de instituições no nascente Estado brasileiro. Esta ideologia que serviu de base ao desenvolvimento do capitalismo contra o conservadorismo monárquico na Europa, abre caminho para a Independência nacional no Brasil, ainda que liderada pelo Imperador D. Pedro I, e permaneceu como um ideal da intelectualidade sem capacidade para vencer os interesses elitistas que impediam o caminho democrático de participação popular.
"O Partido dos Trabalhadores tornou-se herdeiro dessas idéias, o que não quer dizer necessariamente que as colocou integralmente em prática. O PT surgiu das grandes greves da cintura industrial de São Paulo a partir de 1978. Resultou da crise do processo de acumulação do capital oligopolista sob a ditadura militar. Fundado em 1980 em São Paulo, o partido foi forjado a partir de seis fatores principais:" que tiveram a sua origem nas lutas entre setores da sociedade que disputavam o poder desde o fim da escravidão negra e a proclamação da República, e no nacionalismo promovido por Getúlio Vargas que deu forma ao sindicalismo sob tutela do Estado Novo:
1. A parcela progressista da Igreja Católica influenciada pela Teologia da Libertação; 2. O Novo sindicalismo que se propunha a romper com a estrutura corporativista dos sindicatos tutelados pelo Estado; 3. Militantes trotskistas de organizações que surgiam na segunda metade dos anos setenta; 4. Militantes comunistas (muitos provenientes da luta armada); 5. Intelectuais socialistas e liberais radicais; 6. Políticos estabelecidos na oposição burguesa à Ditadura Militar. "Ao contrário da Social Democracia europeia que caminhou em direção ao centro do espectro político para conquistar a pequena burguesia e as classes médias, o Partido dos Trabalhadores teve outro desafio. No Brasil, abaixo do proletariado sempre houve uma massa miserável, “socialmente indecisa”, numerosa e que não apoiou jamais a esquerda organizada."
A liderança de Lula no movimento sindical da época, claramente independente do Partido Comunista e em busca dos trabalhadores rurais para que se organizassem sindicalmente, consegue atrair forças progressistas que se opõem ao domínio ditatorial dos militares. "Entre 1980 e 1984 o PT é um agregado espontaneista de movimentos sociais. A sua base são os núcleos: um tipo de órgão de base muito diferente das seções socialistas e das células comunistas. A burocracia partidária ainda não se constituiu e nem conseguia se sobrepor à auto-atividade das massas que aderiam ao partido. De 1984 a 1989 o Brasil viveu sua revolução democrática marcada pela fundação da Central Única dos Trabalhadores e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra; pelas “Diretas Já” (maior movimento de massas da história brasileira), pela Assembléia Nacional Constituinte e a Frente Brasil Popular que quase elegeu Lula em 1989."
A DITADURA CEDEU O LUGAR A UM GOVERNO ELEITO
A velha elite vestiu-se de democrática para intermediar a passagem de um regime ditatorial para o eleitoral sem contrariar os interesses de classe da burguesia, abrindo caminho para o neo-capitalismo implantado no Chile de Pinochet pelos norte-americanos com o apoio da Inglaterra de Thatcher e da social-democracia de Helmut Koll que o difundira na Europa.
"Note-se que um ciclo de ascensão das lutas de massas terminou com uma derrota eleitoral. Nos anos 1990 o PT tornou-se a principal oposição parlamentar no país. Nos anos 1980 já se fizera a força social mais importante da esquerda."
Com a feroz perseguição anti-comunista durante os 21 anos de regime militar no Brasil, agravada ainda com a implosão da União Soviética e a queda do socialismo na Europa, a possibilidade de participar das lutas sociais aberta pelo PT atraiu muitos militantes comunistas, trotskistas, ultra-radicais, cristãos e democratas em geral. Foi um momento de unificação das forças de esquerda que pretendiam superar as tradições oligárquicas responsáveis pelo atraso no desenvolvimento da sociedade e na mediocrização cultural mantida pelos meios de comunicação social censurados pela ditadura. "Apesar disso, o PT sofreu uma mudança ideológica que se explica por transformações na sua base material: 1. As greves foram derrotas, reprimidas e isoladas nos anos 90; 2. A terceirização e automação de processos de trabalho diminuíram a base dos dois maiores sindicato “petistas”: bancários de São Paulo e Metalúrgicos do “ABC” paulista; 3. O papado diminuiu a influência da Teologia da Libertação através da repressão e censura e as Igrejas Neopentecostais converteram muitos católicos; 4. O declínio da militância e profissionalização do partido; 5. O redirecionamento deológico das municipalidades dirigidas pelo partido em função da hegemonia neoliberal.
Apesar de tudo isso, este ciclo da década de noventa terminou com uma vitória eleitoral em 2002. Eis a contradição. A vitória de Lula se deveu ao fracasso político do neoliberalismo na América Latina. Todavia, a derrota político-eleitoral do neoliberalismo não significou a sua derrota ideológica. A esquerda vitoriosa, aliada a partidos tradicionais de Direita incorporou valores dos “vencidos”. Daí fica a pergunta: quem exerce a hegemonia? Antonio Gramsci mostrou como Giolitti fazia grande política ao condenar seus adversários a fazer a pequena, mantendo-os no terreno das querelas legislativas menores. Não teria o neoliberalismo mantido os governos progressistas dentro dos limites do seu quadro de valores e da pequena política?"
FORÇAS DE ESQUERDA REALIZAM MUDANÇAS DEMOCRÁTICAS
A eleição de Lula, como líder democrático e anti-imperialista, abriu caminho para que os revolucionários, através dos seus Partidos, movimentos e associações sociais, ONGs, grupos de técnicos, professores, cientistas, artistas, estudantes, profissionais de vários setores, levassem adiante os seus projetos de melhoria das condições de vida da população e de desenvolvimento nacional. Floresceram iniciativas de formação para "meninos de rua", organização de comunidades com acesso às instituições básicas do Estado, criação de emissoras de rádio locais, grupos de pessoal de saúde para atenderem populações remotas, projetos de investigação social, construção de cisternas onde falta água, cadastramento de famílias que estão na miséria, produção artesanal com material reciclado, formação de cooperativas para artesãos colocarem no mercado os seus produtos, mutirão judicial para resolver problemas e registrar a população distante, etc.
O Governo tomou conhecimento destas formas de apoio à cidadania e organizou Secretarias que passaram a apoiar oficialmente, dinamizando setores intelectuais e empresariais, com verbas próprias a levarem os seus conhecimentos como apoio à formação da mão de obra nascente. O Programa Fome Zero, de repercussão internacional, distribui bolsas família para os que estavam abaixo da linha de miséria (687 mil famílias em 2012, com 2,700 mil crianças de 0 a 6 anos que foram vinculadas ao ensino básico) com meta final de 800 mil famílias em 2014. Trata-se de uma política de desenvolvimento que atende indígenas, quilombolas ( descendentes de escravos), agricultores familiares, assentados da reforma agrária, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, catadores de material reciclável, população que vive nas ruas, e outros que se encontravam marginalizados na sociedade .Abre um caminho para a reintegração social da família e combate o trabalho infantil.
O programa não se reduz à alimentação dos que têm fome, mas dá impulso para que ocupem o seu lugar com os direitos de cidadania beneficiados pela transferência de renda, escolarização, integração no mercado de trabalho, nos programas de saúde. Nas Universidades e escolas técnicas surgem projetos específicos que são levados às populações mais pobres para a produção de energia solar ou eólica, para a irrigação subterrânea da terra de plantio, para o combate à desnutrição dos bebês, para a melhoria da produção agrícola e pecuária. Para cadastrar esta população e os seus problemas são criados novos postos de trabalho e profundo conhecimento da realidade social de todo o país que dinamizam o desenvolvimento da formação técnica e acadêmica.
No setor de segurança pública a Polícia é preparada para a pacificação das favelas, para a proteção às escolas, para o combate à droga, que alterou a sua função antes identificada apenas com a repressão. A saúde pública expandiu os seus serviços através das unidades básicas de saúde que se deslocam em busca das comunidades mais remotas. A política externa brasileira tem alcançado importantes posições de independência e combate aos desmandos imperialistas com a promoção da unidade entre países da América Latina, a integração de Cuba nos encontros e formas de associação continental, de apoio às conquistas dos países que elegem governos progressistas. A imagem do Brasil a nível internacional ganhou respeito e admiração em todo o mundo e poderá conquistar posição de destaque nos organismos da ONU.
"Apesar dos avanços sociais, a economia brasileira continua estruturalmente frágil. Produz commodities e foi sustentada pela demanda chinesa. Os economistas discutem se o país passa ou não por uma desindustrialização."
O sistema capitalista adapta-se a um comportamento menos selvagem de exploração contribuindo com ajudas pontuais para trabalhos sociais e financia projetos culturais procurando benefícios junto ao Governo, a banca oferece créditos para animar setores produtivos e de construção civil, grandes empresas combatem formas de escravidão, destruição das florestas, fazem formação profissional, combatem o desemprego, etc.
Certamente adotam formas de progresso capitalista, modernizando o sistema no que tem de obsoleto. Os bancos, dando crédito aos idosos e enfrentando riscos de inadimplência, auferem os maiores lucros da sua história. O setor empresarial brasileiro reconheceu a necessidade de apoiar o PT na conquista do poder e modernizar os seus horizontes para alcançar maior índice de produtividade e criar um maior mercado de consumo para os seus produtos. O Governo algumas vezes cede à estratégia do crescimento econômico e não do desenvolvimento socio-econômico pondo em risco o projeto mais longo de emancipar a Nação Brasileira, com os seus 190 milhões de habitantes, com a formação de trabalhadores ativos e conscientes dos valores de cidadania.
Setores da burguesia aderiram a partidos que formam a base de apoio do Governo e, naturalmente, tentam manter "feudos" dentro do aparelho de Estado que resistem a uma prática democrática eficiente. Este é o caso, por exemplo, do Ministério da Previdência Social que mantem os vícios de um comportamento oligárquico que favorece apadrinhados. O Judiciário, que sempre manteve uma tendência elitista, aos poucos tem-se transformado no sentido democrático com a atuação dos seus membros mais diretamente ligados à representação popular e preocupados com a defesa da ética como parâmetro nas questões contraditórias. Em alguns Ministérios com programas que visam priorizar o atendimento público, como é o caso da Saúde, os investimentos tornam possível um salto de qualidade que é travado pela administração interna incapaz de organizar os serviços libertando-o da burocracia oportunista e dos privilégios herdados da velha cultura oligárquica. O problema da cultura histórica - amarrada por leis incongruentes e privilégios corporativos - atravessa na diagonal todas as formas de transformação da sociedade e permanece como modelo de comportamento ensinado às novas gerações. Os debates no Parlamento e as lutas permanentes contra a corrupção nos mais altos escalões do poder político e empresarial revelam a ainda frágil democracia no plano do pensamento político da elite nacional.
"O Governo Lula inseriu milhões de pessoas no mercado de consumo através de benefícios sociais, aposentadoria de idosos e aumento do emprego e do salário mínimo, embora a maioria dos postos de trabalho seja marcada pela precariedade e rotatividade." Surgiu uma nova "classe média", vista com maior objetividade como "nova camada da classe trabalhadora" que é levada ao consumismo antes de alcançar uma formação mais estável e a consciência de cidadania proposta pela esquerda, e que poderá perder os bens consumidos com créditos que deixará de pagar como "inadimplente". Esta é mais uma contradição para um Governo que divide o aparelho de poder com parceiros que nem sempre têm a mesma ideologia.
"O futuro progressista do Brasil dependerá da correlação de forças interna e externa ao PT, posto que até agora esteve fora do horizonte histórico uma alternativa de esquerda real fora daquele partido."
A esquerda revolucionária apoiou o Governo de Lula e apoia o de Dilma sabendo que a base aliada exige cedências ideológicas que são anti-democráticas. Então denuncia os perigos para fortalecer o Governo no seu combate. Tem conseguido não dar forças à oposição quando surgem impasses devido aos compromissos com a base aliada. Precisamos permanentemente analisar a estratégia de luta diante da fragilidade do apoio eleitoral sem cair na cedência ideológica dos princípios que conduzem um processo revolucionário.
"Este é o desafio para os marxistas latino-americanos: entramos numa encruzilhada que podemos denominar pós-neoliberal. Mas o afixo (pós) significa muito pouco conceitualmente. Precisamos do estudo criativo, mas muito mais de uma solução prática dos dilemas das classes trabalhadoras de “Nuestra América” no sentido do socialismo."
As estruturas orgânicas da esquerda - partidos, sindicatos, movimentos, associações - só poderão desempenhar o seu papel revolucionário com o intransigente apoio popular concreto. Enfrenta também a nova onda atribuída à pretensa liberdade dos meios de comunicação virtual que sofrem o controle das grandes empresas da internet aliadas ao poder imperial. Camuflados na idéia de liberdade ditada pelo mercado de consumo e representada pelo diálogo fácil aberto pelos celulares e as redes de internautas, os defensores do sistema capitalista modernizado usam palavras revolucionária para valorizar a ação individual contra a das organizações históricas de luta social.
Este é o risco das transformações, não só no Brasil mas em todo o mundo, para vencer um sistema capitalista em crise que conta com as elites no poder.
A liderança de Lula, em torno da qual foi formado o PT em plena Ditadura quando o anti-comunismo da reação foi somado ao desmoronamento ideológico trabalhado mundialmente com o programa contra a "cortina de ferro" proclamado pelo imperialismo, caracterizou-se pela meta de levantar a maioria da população afogada na miséria e no atraso do subdesenvolvimento como polo para substituir o antigo proletariado da tradicional linguagem comunista. Desde o início unido aos cristãos da Teologia da Libertação, o PT surgiu como uma alternativa democrática que não carregava o compromisso da história dos movimentos comunistas que era o alvo da repressão ditatorial, a condenação da Igreja, a desconfiança da mal definida social-democracia mundial. Representou no Brasil o mesmo papel de movimentos democráticos e unitários um pouco por todo o mundo.
"O tema da transição sempre esteve subjacente aos debates dos comunistas brasileiros. Ele aparecia como uma discussão sobre as etapas da Revolução Brasileira" retardada pelo domínio colonial na primeira fase até a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808, depois pelo mercantilismo europeu representado pela Inglaterra seguida da Holanda e França até ser substituído pelo nascente imperialismo no bojo do neo-capitalismo praticado pelos Estados Unidos durante todo o século XX.
"Caio Prado Jr, o maior historiador brasileiro (membro do Partido Comunista Brasileiro), mostrou que todo o aparato produtivo no Brasil foi montado quase exclusivamente para atender necessidades externas. Para ele a economia brasileira continuou colonial depois da independência política."
"A Revolução Brasileira (portanto a transição ao socialismo) seria, inicialmente, o conjunto de reformas capaz de voltar a produção ao povo e criar o mercado interno de massas e a economia nacional", que desde às lutas pela independência no século XVIII e na formação de um pensamento político influenciou a criação de instituições no nascente Estado brasileiro. Esta ideologia que serviu de base ao desenvolvimento do capitalismo contra o conservadorismo monárquico na Europa, abre caminho para a Independência nacional no Brasil, ainda que liderada pelo Imperador D. Pedro I, e permaneceu como um ideal da intelectualidade sem capacidade para vencer os interesses elitistas que impediam o caminho democrático de participação popular.
"O Partido dos Trabalhadores tornou-se herdeiro dessas idéias, o que não quer dizer necessariamente que as colocou integralmente em prática. O PT surgiu das grandes greves da cintura industrial de São Paulo a partir de 1978. Resultou da crise do processo de acumulação do capital oligopolista sob a ditadura militar. Fundado em 1980 em São Paulo, o partido foi forjado a partir de seis fatores principais:" que tiveram a sua origem nas lutas entre setores da sociedade que disputavam o poder desde o fim da escravidão negra e a proclamação da República, e no nacionalismo promovido por Getúlio Vargas que deu forma ao sindicalismo sob tutela do Estado Novo:
1. A parcela progressista da Igreja Católica influenciada pela Teologia da Libertação; 2. O Novo sindicalismo que se propunha a romper com a estrutura corporativista dos sindicatos tutelados pelo Estado; 3. Militantes trotskistas de organizações que surgiam na segunda metade dos anos setenta; 4. Militantes comunistas (muitos provenientes da luta armada); 5. Intelectuais socialistas e liberais radicais; 6. Políticos estabelecidos na oposição burguesa à Ditadura Militar. "Ao contrário da Social Democracia europeia que caminhou em direção ao centro do espectro político para conquistar a pequena burguesia e as classes médias, o Partido dos Trabalhadores teve outro desafio. No Brasil, abaixo do proletariado sempre houve uma massa miserável, “socialmente indecisa”, numerosa e que não apoiou jamais a esquerda organizada."
A liderança de Lula no movimento sindical da época, claramente independente do Partido Comunista e em busca dos trabalhadores rurais para que se organizassem sindicalmente, consegue atrair forças progressistas que se opõem ao domínio ditatorial dos militares. "Entre 1980 e 1984 o PT é um agregado espontaneista de movimentos sociais. A sua base são os núcleos: um tipo de órgão de base muito diferente das seções socialistas e das células comunistas. A burocracia partidária ainda não se constituiu e nem conseguia se sobrepor à auto-atividade das massas que aderiam ao partido. De 1984 a 1989 o Brasil viveu sua revolução democrática marcada pela fundação da Central Única dos Trabalhadores e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra; pelas “Diretas Já” (maior movimento de massas da história brasileira), pela Assembléia Nacional Constituinte e a Frente Brasil Popular que quase elegeu Lula em 1989."
A DITADURA CEDEU O LUGAR A UM GOVERNO ELEITO
A velha elite vestiu-se de democrática para intermediar a passagem de um regime ditatorial para o eleitoral sem contrariar os interesses de classe da burguesia, abrindo caminho para o neo-capitalismo implantado no Chile de Pinochet pelos norte-americanos com o apoio da Inglaterra de Thatcher e da social-democracia de Helmut Koll que o difundira na Europa.
"Note-se que um ciclo de ascensão das lutas de massas terminou com uma derrota eleitoral. Nos anos 1990 o PT tornou-se a principal oposição parlamentar no país. Nos anos 1980 já se fizera a força social mais importante da esquerda."
Com a feroz perseguição anti-comunista durante os 21 anos de regime militar no Brasil, agravada ainda com a implosão da União Soviética e a queda do socialismo na Europa, a possibilidade de participar das lutas sociais aberta pelo PT atraiu muitos militantes comunistas, trotskistas, ultra-radicais, cristãos e democratas em geral. Foi um momento de unificação das forças de esquerda que pretendiam superar as tradições oligárquicas responsáveis pelo atraso no desenvolvimento da sociedade e na mediocrização cultural mantida pelos meios de comunicação social censurados pela ditadura. "Apesar disso, o PT sofreu uma mudança ideológica que se explica por transformações na sua base material: 1. As greves foram derrotas, reprimidas e isoladas nos anos 90; 2. A terceirização e automação de processos de trabalho diminuíram a base dos dois maiores sindicato “petistas”: bancários de São Paulo e Metalúrgicos do “ABC” paulista; 3. O papado diminuiu a influência da Teologia da Libertação através da repressão e censura e as Igrejas Neopentecostais converteram muitos católicos; 4. O declínio da militância e profissionalização do partido; 5. O redirecionamento deológico das municipalidades dirigidas pelo partido em função da hegemonia neoliberal.
Apesar de tudo isso, este ciclo da década de noventa terminou com uma vitória eleitoral em 2002. Eis a contradição. A vitória de Lula se deveu ao fracasso político do neoliberalismo na América Latina. Todavia, a derrota político-eleitoral do neoliberalismo não significou a sua derrota ideológica. A esquerda vitoriosa, aliada a partidos tradicionais de Direita incorporou valores dos “vencidos”. Daí fica a pergunta: quem exerce a hegemonia? Antonio Gramsci mostrou como Giolitti fazia grande política ao condenar seus adversários a fazer a pequena, mantendo-os no terreno das querelas legislativas menores. Não teria o neoliberalismo mantido os governos progressistas dentro dos limites do seu quadro de valores e da pequena política?"
FORÇAS DE ESQUERDA REALIZAM MUDANÇAS DEMOCRÁTICAS
A eleição de Lula, como líder democrático e anti-imperialista, abriu caminho para que os revolucionários, através dos seus Partidos, movimentos e associações sociais, ONGs, grupos de técnicos, professores, cientistas, artistas, estudantes, profissionais de vários setores, levassem adiante os seus projetos de melhoria das condições de vida da população e de desenvolvimento nacional. Floresceram iniciativas de formação para "meninos de rua", organização de comunidades com acesso às instituições básicas do Estado, criação de emissoras de rádio locais, grupos de pessoal de saúde para atenderem populações remotas, projetos de investigação social, construção de cisternas onde falta água, cadastramento de famílias que estão na miséria, produção artesanal com material reciclado, formação de cooperativas para artesãos colocarem no mercado os seus produtos, mutirão judicial para resolver problemas e registrar a população distante, etc.
O Governo tomou conhecimento destas formas de apoio à cidadania e organizou Secretarias que passaram a apoiar oficialmente, dinamizando setores intelectuais e empresariais, com verbas próprias a levarem os seus conhecimentos como apoio à formação da mão de obra nascente. O Programa Fome Zero, de repercussão internacional, distribui bolsas família para os que estavam abaixo da linha de miséria (687 mil famílias em 2012, com 2,700 mil crianças de 0 a 6 anos que foram vinculadas ao ensino básico) com meta final de 800 mil famílias em 2014. Trata-se de uma política de desenvolvimento que atende indígenas, quilombolas ( descendentes de escravos), agricultores familiares, assentados da reforma agrária, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, catadores de material reciclável, população que vive nas ruas, e outros que se encontravam marginalizados na sociedade .Abre um caminho para a reintegração social da família e combate o trabalho infantil.
O programa não se reduz à alimentação dos que têm fome, mas dá impulso para que ocupem o seu lugar com os direitos de cidadania beneficiados pela transferência de renda, escolarização, integração no mercado de trabalho, nos programas de saúde. Nas Universidades e escolas técnicas surgem projetos específicos que são levados às populações mais pobres para a produção de energia solar ou eólica, para a irrigação subterrânea da terra de plantio, para o combate à desnutrição dos bebês, para a melhoria da produção agrícola e pecuária. Para cadastrar esta população e os seus problemas são criados novos postos de trabalho e profundo conhecimento da realidade social de todo o país que dinamizam o desenvolvimento da formação técnica e acadêmica.
No setor de segurança pública a Polícia é preparada para a pacificação das favelas, para a proteção às escolas, para o combate à droga, que alterou a sua função antes identificada apenas com a repressão. A saúde pública expandiu os seus serviços através das unidades básicas de saúde que se deslocam em busca das comunidades mais remotas. A política externa brasileira tem alcançado importantes posições de independência e combate aos desmandos imperialistas com a promoção da unidade entre países da América Latina, a integração de Cuba nos encontros e formas de associação continental, de apoio às conquistas dos países que elegem governos progressistas. A imagem do Brasil a nível internacional ganhou respeito e admiração em todo o mundo e poderá conquistar posição de destaque nos organismos da ONU.
"Apesar dos avanços sociais, a economia brasileira continua estruturalmente frágil. Produz commodities e foi sustentada pela demanda chinesa. Os economistas discutem se o país passa ou não por uma desindustrialização."
O sistema capitalista adapta-se a um comportamento menos selvagem de exploração contribuindo com ajudas pontuais para trabalhos sociais e financia projetos culturais procurando benefícios junto ao Governo, a banca oferece créditos para animar setores produtivos e de construção civil, grandes empresas combatem formas de escravidão, destruição das florestas, fazem formação profissional, combatem o desemprego, etc.
Certamente adotam formas de progresso capitalista, modernizando o sistema no que tem de obsoleto. Os bancos, dando crédito aos idosos e enfrentando riscos de inadimplência, auferem os maiores lucros da sua história. O setor empresarial brasileiro reconheceu a necessidade de apoiar o PT na conquista do poder e modernizar os seus horizontes para alcançar maior índice de produtividade e criar um maior mercado de consumo para os seus produtos. O Governo algumas vezes cede à estratégia do crescimento econômico e não do desenvolvimento socio-econômico pondo em risco o projeto mais longo de emancipar a Nação Brasileira, com os seus 190 milhões de habitantes, com a formação de trabalhadores ativos e conscientes dos valores de cidadania.
Setores da burguesia aderiram a partidos que formam a base de apoio do Governo e, naturalmente, tentam manter "feudos" dentro do aparelho de Estado que resistem a uma prática democrática eficiente. Este é o caso, por exemplo, do Ministério da Previdência Social que mantem os vícios de um comportamento oligárquico que favorece apadrinhados. O Judiciário, que sempre manteve uma tendência elitista, aos poucos tem-se transformado no sentido democrático com a atuação dos seus membros mais diretamente ligados à representação popular e preocupados com a defesa da ética como parâmetro nas questões contraditórias. Em alguns Ministérios com programas que visam priorizar o atendimento público, como é o caso da Saúde, os investimentos tornam possível um salto de qualidade que é travado pela administração interna incapaz de organizar os serviços libertando-o da burocracia oportunista e dos privilégios herdados da velha cultura oligárquica. O problema da cultura histórica - amarrada por leis incongruentes e privilégios corporativos - atravessa na diagonal todas as formas de transformação da sociedade e permanece como modelo de comportamento ensinado às novas gerações. Os debates no Parlamento e as lutas permanentes contra a corrupção nos mais altos escalões do poder político e empresarial revelam a ainda frágil democracia no plano do pensamento político da elite nacional.
"O Governo Lula inseriu milhões de pessoas no mercado de consumo através de benefícios sociais, aposentadoria de idosos e aumento do emprego e do salário mínimo, embora a maioria dos postos de trabalho seja marcada pela precariedade e rotatividade." Surgiu uma nova "classe média", vista com maior objetividade como "nova camada da classe trabalhadora" que é levada ao consumismo antes de alcançar uma formação mais estável e a consciência de cidadania proposta pela esquerda, e que poderá perder os bens consumidos com créditos que deixará de pagar como "inadimplente". Esta é mais uma contradição para um Governo que divide o aparelho de poder com parceiros que nem sempre têm a mesma ideologia.
"O futuro progressista do Brasil dependerá da correlação de forças interna e externa ao PT, posto que até agora esteve fora do horizonte histórico uma alternativa de esquerda real fora daquele partido."
A esquerda revolucionária apoiou o Governo de Lula e apoia o de Dilma sabendo que a base aliada exige cedências ideológicas que são anti-democráticas. Então denuncia os perigos para fortalecer o Governo no seu combate. Tem conseguido não dar forças à oposição quando surgem impasses devido aos compromissos com a base aliada. Precisamos permanentemente analisar a estratégia de luta diante da fragilidade do apoio eleitoral sem cair na cedência ideológica dos princípios que conduzem um processo revolucionário.
"Este é o desafio para os marxistas latino-americanos: entramos numa encruzilhada que podemos denominar pós-neoliberal. Mas o afixo (pós) significa muito pouco conceitualmente. Precisamos do estudo criativo, mas muito mais de uma solução prática dos dilemas das classes trabalhadoras de “Nuestra América” no sentido do socialismo."
As estruturas orgânicas da esquerda - partidos, sindicatos, movimentos, associações - só poderão desempenhar o seu papel revolucionário com o intransigente apoio popular concreto. Enfrenta também a nova onda atribuída à pretensa liberdade dos meios de comunicação virtual que sofrem o controle das grandes empresas da internet aliadas ao poder imperial. Camuflados na idéia de liberdade ditada pelo mercado de consumo e representada pelo diálogo fácil aberto pelos celulares e as redes de internautas, os defensores do sistema capitalista modernizado usam palavras revolucionária para valorizar a ação individual contra a das organizações históricas de luta social.
Este é o risco das transformações, não só no Brasil mas em todo o mundo, para vencer um sistema capitalista em crise que conta com as elites no poder.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
A automedicação será inevitável no Brasil
Não é sem fundamento que os marxistas recomendam o
conhecimento da realidade antes da crença nas teorias, por mais elaboradas que
sejam. Dedico-me a defender o atual Governo e fico contente ao tomar
conhecimento dos aperfeiçoamentos que cada Ministério introduz no funcionamento
do Estado que vai sendo levado pela senda democrática.
Concordo plenamente com
as campanhas que o Ministério da Saúde e a mídia fazem para que o cidadão
brasileiro abandone os velhos hábitos de recorrer às tradicionais mezinhas que
a avó ensinava, e que deixe de comprar os medicamentos sem antes recorrer ao
médico. No plano teórico estamos de acordo, mas na prática, pelo menos no meu
caso, isto é uma utopia que leva à falta absoluta de tratamento.
Para marcar uma
consulta médica no SUS em Outubro de 2011 mandaram-me antes fazer um exame
básico com data de 17/11/11. Fiz no horário determinado, mas só depois de um
mês, com os resultados na mão eu poderia solicitar a consulta. No dia aprazado
compareci, mas era véspera de Natal e o enfermeiro dera uma “saidinha” sem hora
para voltar. Dias depois a Agente de Saúde levou-me a indicação de consulta
marcada para o dia 28 de Dezembro.
Cheguei cedo para
evitar a fila e fui bem atendida por um enfermeiro que preencheu a ficha médica
com todo o histórico que relatei. Pediu-me para esperar a médica que entraria
às 13 horas. Chegou às 14horas e começou a atender outra fila. Mais meia hora,
e o enfermeiro trouxe uma receita que eu não havia pedido e, para surpresa
minha afirmou que, para ser atendida pela médica deveria voltar na 4ª feira
para solicitar.
Como eu estava com
dores reumáticas muito fortes, não pude ir senão no dia 18 de Janeiro, e obtive
a promessa de que seria atendida no dia 31 de Março.
Tentei procurar alguém
que me abrisse outra porta, com outro médico ou em outro Centro de Atendimento
do SUS. Foi nesta investigação que deu em zero para o tratamento, que fiquei
sabendo o seguinte: os médicos são contratados pela Prefeitura, assim como os
que administram os serviços do SUS. Forma-se uma panelinha que organiza filas
para inscrição disto e daquilo, que manda fazer exames básicos que protelam a
data da consulta, e que não informam o SUS que a médica que deveria entrar às 8
e às 13horas todos os dias chega às 10 e às 14horas, reduzindo à metade o
serviço que se acumula indefinidamente.
Até aí eu já estava
tomando o chá que a vizinha disse ser ótimo e achei melhor perguntar na
farmácia qual o remédio mais adequado e genérico para o meu tratamento.
Havia de ficar com a
consciência pesada por praticar o autoatendimento que o Ministro da Saúde e eu
mesmo condenamos? E quem iria tratar de mim? Pelo menos não tinha que ir para
as filas às 4ª feiras nem ficar com cara de paciente subdesenvolvida quando
prometiam esta provável atenção médica (cuja eficiência profissional já ponho
em dúvida) para alguns meses mais tarde.
Mas nem sempre dependi
do SUS. Há alguns anos deixei de pagar um convênio médico que durante mais de
um ano prometeu uma consulta especializada mas não conseguiu preencher o lugar
do médico na cidade em que eu moro. Levei o caso ao Tribunal, processei a
empresa responsável pelo convênio, ganhei a causa mas não a indenização “porque
o Tribunal não sabe onde cobrar”.
São tantos os absurdos
oferecidos ao cidadão brasileiro em nome do Estado, que a gente cansa até de
reclamar.
Zillah Branco
sábado, 11 de fevereiro de 2012
O INSS pune os trabalhadores que emigram
Se eu não tivesse
sofrido esta punição teria dificuldade em acreditar que é verdade. Infelizmente
corresponde a uma norma no INSS ao realizar a contagem de tempo de trabalho em
Portugal para completar o que o cidadão cumpriu no Brasil antes de ser impelido
à emigração. O problema é que para o INSS o tempo em que o brasileiro trabalhou
fora do seu país significa um “desvalor”, quer dizer, uma perda do
valor da aposentadoria. Ao mesmo tempo em que soma o número de meses
trabalhados nos dois países, deduz no valor da aposentadoria o mesmo período em
que foi trabalhador emigrante. Foi assim que, para ter direito ao salário
mínimo por tempo de serviço, somaram parte do tempo que trabalhei em Portugal e
deduziram dois terços do valor do
salário mínimo nacional para avaliar a aposentadoria a que tenho direito. Mais
um pouco e, para merecer o título de aposentadoria no meu país eu deveria pagar
pelo crime de ter emigrado ainda jovem.
Confesso não
conseguir entender este raciocínio adotado pelo INSS, que para mim é um absurdo
sem qualquer nexo. Costumo usar a lógica comum da vida onde 1+1 é sempre igual
à sua soma, 2. E estou certa de que a maioria dos cidadãos brasileiros que
esperam viver com a aposentadoria que lhes cabe, pensam com a mesma lógica que
eu.
Então emigrar é
crime no Brasil? Para que se concretize esta prova foram feitos os convénios entre
as instituições previdenciárias dos dois países? Avisem, então, os cidadãos que
saem do seu país por razões de força maior: insegurança (durante os 21 anos de
ditadura) ou falta de emprego nos anos de crise. Ninguém enfrenta as
dificuldades da emigração por gosto, a não ser os que podem ir e voltar como
turistas. Mas será necessário explicar coisa tão óbvia?
O Estado brasileiro
precisa, urgentemente, de uma limpeza dos vícios irresponsáveis e
anti-democráticos que estão colados às suas normas de funcionamento. São
infiltrações que minam a estrutura que deveria organizar as instituições,
sacrificando os de baixo. Enquanto no alto existem imensas fortunas entregues a
título de aposentadoria ou complemento salarial aos ilustres corporativos do
Judiciário e dos outros poderes, em baixo paga-se um terço do salário mínimo
depois de um processo que levou nove anos para terminar. Os de cima e os de
baixo são igualmente cidadãos brasileiros, ou não? O preço do arroz e do
feijão, pelo menos, é equivalente para ricos e pobres.
Ao criticar o Estado na forma como atende aos cidadãos das várias classes socioeconómicas não me identifico com a oposição ao Governo atual, mas sim aponto os problemas reais de pouca visibilidade para os que olham de cima para baixo. Também não acuso os funcionários que cumprem normas arcaicas e determinações mal estudadas à luz do processo democrático que se pretende instaurar. Desvendo as responsabilidades funcionais de setores dos serviços institucionais e deixo aos que devem analisar a eficiência da organização, a função de escolher funcionários capacitados para cumprirem os programas de ação e os planos de desenvolvimento do Estado. Em síntese, a culpa da ineficiência dos serviços do Estado não é dos funcionários que atendem diretamente o público, mas das chefias responsáveis pelo gestão e programação dos serviços. Não basta dar orientação sobre o comportamento afável com que se deve tratar os cidadãos, é preciso que não estejam metendo a faca no coração de quem reivindica os seus direitos disfarçada com boas maneiras.
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