sábado, 24 de novembro de 2012

Trabalhadores da Europa, Uní-vos!


A ação da União Europeia, com o pretexto da crise financeira, sobre os países mais pobres do Continente Europeu, torna-se cada vez mais explícita como consequência das decisões tomadas pelo Grupo Bilderberg, criado em 1954 por um grupo sionista sediado nos Estados Unidos e políticos da direita européia, que corrigiram o plano de Hitler para dominar o mundo sem recorrer às chacinas e selvajerias do que se chamou "holocausto".

Com habilidade diplomática os pretensos "donos do mundo" deram início aos encontros anuais com a participação das monarquias europeias e políticos que aceitavam altos cargos nos seus países, inclusive de Presidentes ou Primeiros Ministros, para desenvolverem uma política social-democrática, oposta ao espírito de luta revolucionária dos comunista, que cativasse as populações com promessas de elevação do nível de vida gradual em um sistema capitalista "humanizado". Trabalharam arduamente para destruir a União Soviética que sempre fora considerada a força inimiga durante a Grande Guerra, mas que foi decisiva na vitória contra o fascismo de Hitler impondo a sua presença na divisão da Alemanha vencida e no convívio internacional como potência que era.

A guerra fria contra o importante bloco socialista com quem se viram aliados para vencer a Guerra, durante mais de 40 anos minou o sistema socialista que precisou investir em armamentos e na competição com o poder imperialista, os recursos que deveria aplicar no fortalecimento do Estado Social para promover o desenvolvimento das forças produtivas e sociais para libertar os povos do atraso em que viviam subordinados às elites exploradoras.

Em meados da década de 1980 atingiram a meta provocando a implosão da União Soviética e a destruição de todo o sistema socialista na Europa. Como símbolo, os vencedores derrubaram o Muro de Berlim e uniram os primeiros 12 países da Europa na Comunidade Europeia com fortes laços de endividamento para cumprir um programa de modernização dentro do modelo capitalista neo-liberal do Estado Mínimo.

Investiram fortemente na construção de estradas e nos recursos de comunicação, aperfeiçoaram um sistema de legislação que permite abrir as fronteiras e criaram a moeda única através do qual é unificado o poder financeiro europeu. Destruíram o caminho democrático aberto com o 25 de Abril de 1974 em Portugal que derrubara a ditadura de Salazar e o sistema colonial libertando vários países africanos. Criaram as condições para a grande crise que foi gerada pelo sistema capitalista que, em busca de um domínio centralizado do mundo, caminha pelos escombros deixados pelas guerras, acaba com o Estado Social, e esmaga as populações trabalhadoras para que sejam escravizados os que sobreviverem à fome, às doenças, ao desespero, à redução da população mundial que a elite pretende.

A resposta popular em Portugal

A organização de trabalhadores em Portugal, na luta iniciada pela CGTP com o apoio do PCP, contra a subordinação do Governo às imposições da União Europeia e do FMI, passou a receber a participação do Bloco de Esquerda com o movimento "A Troika que se lixe" que congrega artistas e técnicos de comunicação social capazes de atrair numeroso público de classe média de várias tendências políticas. Das forças partidárias de centro-direita o PSD que está no Governo, começa a perder alguns dos seus antigos políticos que preferem manter-se do lado popular no protesto contra a austeridade que traz a fome e a quebra da produção. O PS fica em cima do muro, enquanto a sua base segue as organizações de massa lideradas pela esquerda. A ação da UE junto com o FMI vai cortando os Orçamentos Nacionais enquanto abastece os bancos e beneficia as multinacionais, destruindo a economia existente, levando pequenos e médios empresários à falência ( na região norte de Portugal já existe um " cemitério" das empresas falidas), destruindo o sistema nacional de saúde, cortando os salários da função pública, as pensões e aposentadorias.

São promovidas manifestações grandiosas em todo o país, inclusive um marcha durante uma semana vinda do Norte e do Sul para Lisboa e greves nacionais. Cada grande setor específico - Polícias, Bombeiros, Saúde Pública, Bolseiros do Ensino Internacional, Militares, Deficientes, Mulheres, estudantes, trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos e da TAP- tem feito manifestações em diferentes dias com a apresentação das suas reivindicações específicas além de participarem dos protestos nacionais junto aos demais trabalhadores.

Para o dia 14 de Novembro foram programadas greves nacionais e manifestações em 15 países da Europa de rejeição ao Orçamento Europeu da austeridade que reduz o Estado Social - Portugal, Espanha, França, Bélgica, Grécia, Itália, Suíça, Áustria, República Checa, Roménia, Croácia, Holanda, Alemanha, Inglaterra,
Em Portugal a CGTP realizou 39 manifestações em vários municipios do país dentro da programação da Greve Nacional. A UGT não aderiu à greve por ter feito um acordo com o Governo, mas vários dos seus sindicatos aderiram.

A adesão de 29 países europeus, incluindo a Turquia e antigos países do leste que agora fazem parte da União Europeia, tornou a greve do dia 14 a maior da Europa e de um valor importante para a unidade entre os movimentos sindicais do Continente Europeu.

Apesar da presença de elementos mais exaltados, ou provocadores infiltrados para provocar incidentes com a polícia, ficou clara a posição da CGTP em Portugal que os seus seguidores insistem nesta fase de diálogo para impedir que o Governo ceda às pressões da Troika e da UE representada por Angela Merkel para que a austeridade caia sobre os trabalhadores que são as maiores vítimas da crise financeira de um sistema falido em todo o mundo.

Setores de um camada de classe média empresária e de altos executivos demonstram a sua solidariedade com os mais pobres. Por um lado são movidos pelo repúdio à miséria que já se traduz em fome já constatada nas escolas (10 mil crianças deverão receber alimentação escolar para não sucumbirem) e do crescimento do número de pedintes nas ruas das grandes cidades, por outro a produção nacional despencou causando inúmeras falências e desemprego que pesam em toda a economia e arrasta o PIB para números negativos. São vistos antigos políticos do PSD, partido do primeiro ministro atual, incentivando a organização do Banco de Alimentos e da Caritas para, com o apoio de restaurantes, evitar que a fome sacrifique a nova classe média baixa.

De facto este setor de ascensão recente não sabe mais viver na pobreza de onde saiu pelas "mágicas" da própria União Européia na sua fase publicitária contra as conquistas da Revolução dos Cravos, e está totalmente preso às dívidas para sustentar o novo ( e falso) status social. Os mais pobres recorrem agora ao trabalho informal e à inadimplência e desenvolvem a consciência de cidadania participando nas manifestações sindicais e dos partidos de esquerda, mas quem ficou com a ambição de decolar com o milagre da UE vê- se perdido e traído.

Uma declaração do banqueiro Ricardo Salgado sobre a Troika, refere o seu espanto diante da "incapacidade dos seus representantes se entenderem" na apresentação das orientações ao Governo de Portugal. Generaliza-se a oposição à política imperialista traçada pela União Europeia e o FMI.

Zillah Branco

sábado, 10 de novembro de 2012

O retorno à Idade Média no século 21



Austeridade para crescer é a palavra de ordem apregoada pelo Banco Central Europeu, pelo Fundo Monetário Internacional e todos os seus acólitos. A recomendação é para os Governos cortarem os gastos com os setores sociais, despedirem funcionários públicos, suprimirem os benefícios que corrigiam as carências salariais, as pensões dos idosos, o atendimento da saúde púbica, e criarem maiores impostos, cobrarem propinas no ensino superior e de especialidades a nível médio. enfim, é para o povo apertar o cinto enquanto que a elite dominante esbanja os recursos públicos. oSoa como um catecismo que assinala os princípios morais básicos da humanidade:

. Poupar o que não faz falta para sobreviver
. Garantir o essencial: alimento,saúde, educação
. Investir na formação cívica e cultural
. Trabalhar sem descanso e com salários baixos
. Pagar os impostos e não protestar
. Evitar consumismo de supérfluos e modismos
. Transformar os objetos fora de uso, adaptando-os a novas funções
. Construir soluções com técnica, ciência e arte

Estas são as recomendações básicas para enfrentar as crises (sejam elas a nível pessoal, doméstico ou nacional). A União Europeia, no entanto, conduziu os países mais pobres da Europa a fazerem exatamente o contrário.  A partir de 1974, quando a CEE cria o Fundo de Desenvolvimento Regional para atrair a associação dos países mais pobres da Europa, desenvolve-se uma pressão subtil para que o clima de liberdade criado pela queda das ditaduras não levasse as nações a se tornarem independentes do sistema  elaborado desde 1958 para dominar o bloco europeu nas malhas do império capitalista internacional.

Portugal empobrecido sob a ditadura de Salazar que fez do pais "um jardim à beira-mar plantado" e negou todos os direitos trabalhistas (inclusive o do salário mínimo) levando a população à miséria, renasceu com a Revolução do 25 de Abril em 1974 que nacionalizou os pilares da economia nacional e incentivou a produção. Logo no primeiro ano a produção agrícola alcançou os maiores índices da sua história, abrindo caminho para a industrialização e a exportação. Ao mesmo tempo o Estado investiu em infra-estruturas e nos recursos sociais da saúde, educação, cultura e segurança social. Foi o Estado a enfrentar com responsabilidade e capacidade de gestão a austeridade para fortalecer a economia nacional e beneficiar a população.

Com a adesão à União Europeia em Janeiro de 1986, os políticos neoliberais em Portugal, deslumbrados com a possibilidade de expandirem o luxo dos europeus mais ricos a quem se associaram, abriram grandes estradas (algumas inúteis, que ainda hoje permanecem vazias dia e noite), cederam espaços públicos e reduziram impostos (que deveriam ser investidos no desenvolvimento nacional) às multinacionais que transformaram Portugal em um imenso "centro comercial". Do "jardim" da ditadura a nação foi promovida a "loja" de luxo. A perspectiva governamental é a mesma de Salazar, e o desprezo pelo povo igualmente criminoso. A nova ditadura foi sendo construída através dos endividamentos que fortaleceram o poder dos bancos e empresas financeiras multinacionais. 

Da luta entusiasta que assistimos em 1974/5 na Reforma Agrária, na formação de Cooperativas de Produção, na defesa das empresas nacionais pelos trabalhadores, passamos ao esbanjamento de espaço territorial e recursos financeiros cedidos pelos governantes para beneficiar um poder externo espoliador da riqueza portuguesa. Da riqueza material que deveria ser a base do desenvolvimento nacional e da riqueza cultural que fazia de cada português um cidadão consciente dos seus direitos e do dever de participar na construção de uma sociedade independente e justa, Portugal passou a arrancar as suas vinhas e laranjeiras que não combinavam com o padrão industrializado da União Europeia, destruiu a reforma agrária abrindo espaço para o turismo e acolhimento de estrangeiros não adaptados nos seus ricos países, retomou o caminho da emigração por razões econômicas. Voltou ao tempo da miséria e da subordinação aos desmandos governamentais.

A Associação Portuguesa de Centros Comerciais, criada em 1984 e filiada ao "International Council of Shopping Centers" e ao  "European Property Foundantion" com sede em Bruxelas, desenvolveu um mega projeto para dar escoamento aos produtos dos países membros da União Europeia. Em 2012 indica a existência de 9.286 pequenos (empresas que têm rede de lojas) e grandes comerciantes associados em Portugal que ocupam, com suas lojas, uma área bruta locável (sem somar a área subterrânea dos imensos estacionamentos) de 2.895.688 de metros quadrados distribuídos por todas as regiões do país, ocupando 100 mil trabalhadores diretos e 200 mil indiretos como mão de obra.

Com a crise na Europa, os grandes fabricantes de roupa, produtos de uso doméstico, quinquilharias e alimentos de pastelaria, passaram a oferecer nos Centros Comerciais, ao lado das suas mercadorias caras e de luxo, produtos de baixo custo (e de baixa qualidade) em algumas das grandes lojas, atraindo um setor da classe média que já se habituara ao comercializado pelos chineses um pouco por todo o país. 

Essa foi a forma escolhida para "educar", com a publicidade enganadora dos grandes centros comerciais, a população mais pobre que consome o mais barato e vê a imagem da superioridade dos que podem comprar produtos de luxo tida como o "ideal" de vida. Aos poucos vai-se definindo quem é "povo" e quem é "elite" no convívio consumista. É o contrário do que se recomenda para enfrentar a crise com austeridade, em substituição à consciência de cidadania dos princípios democráticos que a Revolução de Abril havia introduzido em Portugal.

Enquanto as estatísticas demonstram que as áreas de produção e floresta têm vindo a ser  reduzidas e que milhares de pequenos empresários industriais e comerciais vão à falência, multiplicam-se as grandes superfícies dos centros comerciais. Há algumas décadas essas estruturas de comercialização que engolem e aniquilam os pequenos estabelecimentos, apareciam em livros de ficção. Hoje é uma realidade, tão adversa aos costumes compatíveis com o poder aquisitivo dos trabalhadores, como os desastres ecológicos que ameaçam o planeta.

Portugal, com 10 milhões de habitantes (sendo que 2 milhões estão na linha de miséria, com salário abaixo do mínimo nacional) vivendo no território de 92 mil quilômetros quadrados, onde 13.800 Km2 é área urbana, ocupa perto de 3 mil km2 com grandes superfícies comerciais - as maiores da Europa - onde são vendidos os produtos que vêm dos países mais desenvolvidos. Ou seja, 3,2% da área territorial portuguesa é um luxuoso balcão para dar escoamento aos produtos estrangeiros. E, para que o consumo seja facilitado, foi construída uma imensa rede rodoviária com pouco movimento nacional para  servir aos visitantes e turistas. 

Desde a integração de Portugal à União Europeia o país vem sofrendo esta gestão governamental, que reproduz a da ditadura de Salazar, sem preocupação com o desenvolvimento da produção nacional e a formação do seu povo com os direitos de cidadania. Agora, com a crise financeira mundial, os países mais ricos e o FMI impõem a austeridade às populações empobrecidas e formadas na cultura de "cinderela" diante da riqueza da elite que se comporta como a velha monarquia passeando impunemente a sua beleza diante do olhar esfomeado dos que vão caindo no desemprego crescente.

Repetindo o comportamento da realeza na Idade Média, apregoa-se como "virtude moral" a austeridade para as camadas mais pobres, a dos trabalhadores e suas famílias, eliminando as importantes conquistas sociais e jurídicas alcançadas ao longo de quase dois séculos de lutas em toda a Europa.

O procedimento da União Europeia hoje, em relação aos países que aceitaram créditos bancários para praticar a nefasta gestão para a "mágica do enriquecimento" do modelo UE, segue os passos do Banco Mundial e do FMI que endividaram os países do Terceiro Mundo por mais de meio século com os igualmente nefastos projetos de "revolução verde" e de substituição de culturas agro-pastorís de sobrevivência, por produção para a agro-indústria controlada por empresas estrangeiras. Tais projetos de investimento foram largamente denunciados por especialistas inclusive do Banco Mundial (.  ) por beneficiarem empresas multinacionais de produtos químicos e agro-indústrias e destruírem as culturas tradicionais de sobrevivência das populações do Terceiro Mundo. Na India, hoje, procura-se recuperar o solo das regiões onde foi realizada a "revolução verde", tornado absolutamente árido com o uso de produtos químicos que extinguiram a vida natural que era a base da agricultura de sobrevivência local.  

A "extinção da vida não é força de expressão", é a realidade que ameaça a humanidade com a destruição do planeta, hoje bastante conhecida. A moderna gestão recomendada pela UE e o FMI leva à extinção das condições de vida dos povos. É uma chacina social.

Percebe-se com  facilidade a destruição da natureza - do solo fértil, das culturas agrícolas, dos pastos e das florestas. Em consequência desaparecem as profissões dos que aí trabalhavam extraindo da natureza o produto agrícola ou animal e os seus derivados, os artesãos das indústrias caseiras de queijos, pães e bolos, doces, mobiliários, carros e ferramentas de uso rural, tecidos etc. Menos visível é o desaparecimento da cultura tradicional que formava os seres no convívio social, que se sentiam protegidos na comunidade solidária com os seus hábitos e costumes equilibrados nas condições de vida existente. Surge a necessidade de emigrar e as ambições de adquirirem os modelos de existência dos ricos que a publicidade internacional divulga através de todos os meios de comunicação. A população é prejudicada, principalmente os mais jovens, por viverem uma  ficção construída criminosamente como se fosse a realidade da vida na sociedade enquanto o processo de produção e as condições de vida real vão sendo destruídas.

Zillah Branco

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O poder jurídico e a responsabilidade ética e históric




Maria do Carmo Medina, jurista nascida em Portugal em 1925, recebeu em Lisboa, no dia 24/10/2012 uma homenagem promovida pela Comunidade Angolana com emocionados depoimentos de renomados juristas portugueses e ilustres personalidades de Angola, da Embaixada e do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), na oportunidade do lançamento da segunda edição, ampliada, do livro "Angola - Processos da Luta pela Independência", Editora Almedina.

Po Zillah Branco*, de Lisboa


A vida e a obra de uma mulher que ocupou os mais elevados cargos na magistratura e foi jubilada como Juiz do Tribunal Supremo de Angola em 1997, revela os difíceis passos a serem construídos para a formação de uma estrutura judicial, fruto de uma guerra de libertação de uma nação colonizada, com base em pilares sólidos da ética e do humanismo. Apesar da vigência de um regime ditatorial e fascista que fazia uso da violência e daimpunidade para impedir que surgisse na antiga colônia um Estado de Direito baseado em princípios democráticos, a luta popular contou com a participação militante de vários juristas que enfrentaram todas as dificuldades e ameaças de destruição das suas carreiras e da própria vida, na criação de um poder judicial cuja essência invencível reside na pureza da ética e no vínculo concreto com a história que levou aquele povo à sua emancipação nacional.

A queda do Governo Ditatorial em Portugal no 25 de abril de 1974 e a libertação das antigas colônias em África derivam de um mesmo processo histórico e de consciência de luta que ao longo de décadas uniu militantes europeus e africanos na elaboração de condições de vida democrática tanto para o país colonizador como para a sua vítima colonizada.

É a relação íntima da história de luta de um povo com a criação do poder jurídico, que permite conhecer e defender o caminho democrático para a criação de um Estado de Direito. "O jurídico e o relato dos fatos se imbricam um no outro, tornando a investigação mais profunda e completa."

Alguns traços da vida e obra de M.C.Medina Maria do Carmo Medina, muito jovem, fez a escolha de uma difícil carreira: a de defender os que são ofendidos na sua dignidade humana e perseguidos por terem ideias próprias.

Utilizou como armas as instituições jurídicas presentes no Estado, à época opressor, condicionado pela ditadura. A estrutura jurídica do Estado referia os princípios conquistados pela humanidade e definidos como Sistema Jurídico pelas nações ocidentais, apesar de escamotear a sua dignidade com medidas de exceção que tornavam "legais" as práticas de ações arbitrárias contra a liberdade dos cidadãos Mulher de aparência frágil e vontade férrea, tornou-se um exemplo não apenas na luta pela emancipação das mulheres, mas na preparação de uma carreira jurídica que abriu caminhos democráticos numa estrutura de Estado dominado pela ditadura de Salazar.

Com a sua capacidade profissional introduziu a Justiça nos interstícios das instituições que eram usadas para impor o medo aos cidadãos e escravizar os povos. Levou como bagagem a sua formação em Direito, consolidada sobre uma base ética e de militância social adquirida no convívio com o MUD-Juvenil, a Casa dos Estudantes do Império e a organização musical "Sonata" dirigida por Fernando Lopes Graça, onde conheceu uma juventude disposta a acabar com a opressão ditatorial em Portugal e libertar as colónias. Naquele ambiente formaram-se grandes líderes que encabeçaram os movimentos de libertação em África - Agostinho Neto, Lúcio Lara, Amilcar Cabral e tantos outros.

Maria do Carmo também carregou consigo os conceitos humanistas do valor da família e do respeito pela integridade da mulher, das crianças, dos jovens e dos idosos que integram a sociedade e suportam o peso maior dos crimes do totalitarismo que asfixia a vida nacional. Trazia consigo o germe da lutadora pela justiça que amadureceu a sua formação de cidadã ao desvendar a realidade cruel da vida dos povos colonizados onde o Estado de Direito não existia por serem as colónias consideradas, no concerto internacional, como "feudos" do governo ditatorial. A legalidade, que de certa forma existia nos textos jurídicos da Metrópole, era traduzida pelas "exceções" que manchavam os princípios jurídicos retirando-lhes o valor aplicado aos "nativos" das nações colonizadas considerados como cidadãos "de segunda classe".

Os limites políticos à sua liberdade obrigaram-na a deixar o país aos 25 anos. Em Angola foi professora de Liceu até poder abrir um escritório de advocacia (o primeiro a ser aberto por uma mulher em Angola), onde passou a representar, junto às autoridades administrativas, funcionários angolanos relegados às mais baixas categorias de trabalho, a defender o direito de propriedade das famílias esbulhadas pelo poder colonial e, a partir de 1959, a defender os presos políticos e os que voltavam dos campos de concentração.

Em estreita relação com o MPLA, colaborou no projeto da Lei Fundamental e na Lei da Nacionalidade. No Estado de Angola independente, Maria do Carmo desempenha inúmeras funções - Secretária para Assuntos Jurídicos da Presidência da República, Juíza do Tribunal Cível, Juíza Desembargadora do Tribunal de Relação, até ser jubilada como Juíza do Tribunal Supremo em 1997.

Além dos altos cargos que ocupou desde 1976 junto ao Governo da República de Angola, Maria do Carmo Medina colaborou com o Ministério da Justiça na elaboração de leis e regulamentos relativos ao Direito Cível, Direito de Família, Registo Civil, Direito Administrativo, Direito Penal, Organização Judiciária, matérias que vai lecionar no Curso de Advogados Populares, em Seminários de Formação de Magistrados, na Universidade Agostinho Neto até 2011.

Os inúmeros trabalhos que elaborou, editados ou apresentados em palestras em Angola e vários países da Europa, África e América Latina, consubstanciam os profundos estudos relativos à "Mulher", à "Família", aos "Menores", na abordagem dos seus direitos específicos, a violência que sofrem, as condições jurídicas e sociais que enfrentam na sociedade, os efeitos da guerra. Da realidade extrai os temas essenciais para a defesa dos mais oprimidos dando-lhes destaque no pensamento jurídico da nova Nação.

Agora é reeditada a versão ampliada do importante livro "Angola - processos Políticos da Luta pela Independência", pela Editora Almedina, com detida análise da questão referida como "separatismo", considerada pela Ditadura de Salazar como "comunismo", por abrir o caminho à independência das colónias e ao direito de autonomia nacional.

A releitura daqueles processos que contribuíram para que os demais países e a ONU tomassem conhecimento dos horrores praticados na Guerra Colonial contra os povos de África, e também contra os soldados portugueses obrigados pelo governo de Salazar a darem a vida pela ambição colonialista, soma o valor jurídico ao valor histórico, que é imorredouro, de uma luta tenaz pela democracia que enriquece os conceitos universais de Justiça.

Maria do Carmo participou na construção do sistema jurídico que estabelece num Estado de Direito as condições democráticas que são exigidas pela realidade angolana. Este é um modelo incentivador para muitos povos que ainda lutam pela independência das suas nações que, em pleno século 21, estão sob o controle de um poder externo imperial, e carregam os vícios de um passado oligárquico eivado de preconceitos e fórmulas de autoritarismo que impedem o desenvolvimento cultural e social do seu próprio Estado.

* Zillah Branco é socióloga, militante comunista e colaboradora do Vermelho

sexta-feira, 12 de outubro de 2012


Contradições geridas pelo Governo e pelas organizações de massa


Vivemos um momento de aproximação política em torno de um conceito de democracia que tem sido salutar no combate aos preconceitos, sobretudo raciais, contra as mulheres, os idosos, as crianças, os homossexuais e os portadores de necessidades físicas. Somam-se as vozes de professores de economia e política, que sempre defenderam o sistema capitalista, afirmando ser a democracia, a única saída para a crise. Agora citam Marx como autor de um método de análise insuperável apesar de continuarem anti-comunistas como sempre foram. Substituem a referência ao proletariado, para considerarem o cidadão e não o trabalhador. É uma formula social-democrata que abre caminho para alianças sem  supor a luta de classes.

O Brasil tem investido exemplarmente na formação de uma nova consciência de cidadania comprometida com a defesa intransigente de direitos iguais na inclusão social. Tanto os programas de ação política emanados do Governo, como as ações concretas organizadas pela participação popular e militante que se multiplicam na base formando cursos para jovens nas favelas, cooperativas de artesãos rurais, micro-empresas nas periferias das grandes cidades, grupos de músicos ou esporte para atraírem meninos de rua para uma função social, e tantas outras formas de organização que levam os brasileiros antes marginalizados a fazerem parte do povo com consciência dos seus direitos de cidadão, convergem no sentido da inserção nacional e do desenvolvimento.

Governo e movimentos de base, no Brasil, são dois pólos com o mesmo objetivo, ambos sabendo que a distribuição de renda ainda favorece uma elite que acumula riquezas, defende a propriedade privada e os seus negócios voltados para o lucro, a competição com os seus pares nacionais ou estrangeiros e controlam o sistema financeiro aliados aos seus parceiros multinacionais. Ambos sabem que o sistema é capitalista, subordinado ao grande capital, e que há um grande caminho a ser feito com alianças para superar a miséria e o atraso que em cinco séculos negou a cidadania à maioria dos brasileiros.

A partir de um movimento militante, de várias tendências políticas, essas ideias humanistas, de levar a democracia à prática em todos os momentos da vida social, foram  produzindo os melhores agentes formadores que encontraram nas organizações de comunidades e municípios, onde existiram condições democráticas mesmo durante a ditadura e sob governos que ignoraram as necessidades populares de desenvolvimento, condições para semearem o caminho que foi adotado pelo Governo brasileiro desde 2002. Hoje, através dos programas televisivos NBR, Escola e Saúde, Senado, Câmara e Justiça, qualquer pessoa pode reconhecer que o atendimento social no Brasil está sendo trabalhado a partir de princípios democráticos que humanizam a prestação dos serviços públicos em todo o território brasileiro, enfrentando a enorme diversidade geográfica e cultural que caracteriza as populações locais.

A implantação desta nova tendência histórica, democrática, depende do compromisso de todas as forças sociais que, naturalmente, apresentam pontos de vista diferentes devido aos seus interesses sociais e políticos específicos. Coincide com o despertar de vários  grandes empresários para os riscos de destruição da natureza e das populações que fornecem ou consomem os seus produtos, anulando o mítico poder do "mercado livre". A crise do sistema clarificou para muito empresários que as multinacionais devoram os parceiros mais fracos e que a sua produção depende dos trabalhadores preparados e alimentados e de populações com poder aquisitivo para dinamizarem o consumo. Um Estado com instituições organizadas, que vence a miséria do seu povo e defende a independência e autonomia da Nação, é um esteio para a sua consolidação e a única defesa contra os abusos imperialistas. Descobrem que a cidadania cerra fileiras e que o nacionalismo fortalece os laços patrióticos em todo o território brasileiro. A conjunção dos valores humanistas, cidadãos, ecológicos, uniu os brasileiros ricos e pobres que têm em mira a produção e o trabalho para garantir a independência.

Orgulhosos do seu espírito realista e prático, os empresários de sucesso, sem aceitar a ideologia que considera em primeiro plano a sobrevivência e o desenvolvimento do ser humano, recomendam ao Governo (como fez Jorge Gerdau, grande proprietário de empresas siderúrgicas) aperfeiçoar a gestão dos serviços públicos e a educação da população tendo em vista o aumento da produtividade que concorre com os demais países. O seu apoio e as recomendações que faz para que o Brasil tenha uma governança competente, são de grande valia apesar de circunscrever o seu ponto de vista aos objetivos empresariais da produção econômica. O seu êxito empresarial ensina métodos úteis "para fazer mais com menos" , como disse.

O mesmo fenômeno - de utilizar um conceito importante para a evolução social como uma forma de degrau para aperfeiçoar o sistema capitalista, ou como máscara populista quando há ambição eleitoral - ocorre com a apregoada defesa da natureza que hoje se expande mundialmente. Há empresários que honestamente percebem a importância da economia sustentada cujos interesses estão ligados indissoluvelmente com a sobrevivência do planeta, enquanto que outros não se inibem de usar a propaganda enganosa de produtos que recebem um atestado falso de "ecológico".

Nos Estados Unidos surgiu uma séria denúncia contra o "green washing", divulgada por Bret Malley que integra um conjunto de profissionais ligados ao setor da comunicação, que tem feito um trabalho de denúncia dos crimes políticos cometidos dentro do sistema no seu pais. A TV globonews, com a vela que acende a Deus, acaba de divulgar ("Cidades e Soluções" 03/09/12) a denúncia feita por Malley e as analises que já são feitas no Brasil apontando as empresas que se dizem falsamente "verdes" e são fiscalizadas pelo CONAR que classifica a fraude como "propaganda enganosa". Assim, separam, entre os empresários, os que realmente defendem o planeta dos que cuidam apenas dos seus bolsos.

Governança e gestão têm diferentes responsabilidades

O uso dos conceitos, tanto de valor democrático como de ecológico, merece ser aprofundado para distinguir os que têm a intenção da fraude (como mostra Malley em entrevistas com empresários que compram falsos certificados para tornar "verdes" os seus produtos nocivos), dos que acreditam honestamente nas qualidades anunciadas. No caso da democracia não é possível uma análise física comprovativa da inadequação do método proposto para a sua viabilização quando a intenção é enganar. As divergências são demonstradas com recurso a informações históricas complexas e controversas, fundamentadas ideologicamente.

Este conhecimento, da organização do trabalho e da gestão de recursos, recomendado por Gerdau, faz parte da cultura dos povos, sobretudo na vida rural e comunitária tradicional, sem o que os seres humanos não teriam sobrevivido com as tremendas carências que sempre os cercou. A vida urbana e o poder dos mercados, de trabalho e de consumo, apresentados paternalísticamente como generosidade das elites, é que diluiu esta percepção dos indivíduos que esperam que as estruturas, empresariais e do Estado, assegurem a sua formação e a organização da sua vida. Na vida doméstica e mesmo nas brincadeiras das crianças a disciplina da organização e a gestão dos recursos é essencial para a sua continuidade.

Ao nível de políticas sociais sob um regime democrático, a organização e gestão familiar ou empresarial combatem as angústias geradas pelo consumismo, ensinam o caminho da reciclagem e da poupança para a criação de novos meios de produção e da investigação que anima a criatividade. Tais ensinamentos deverão estar no conteúdo de todos os níveis da educação escolar e cidadã.

Um empresário que não reduz o seu pensamento à busca apenas do lucro, que "tem uma  utopia", como afirmou Gerdau no Forum de Políticas Públicas organizado pelo Governo Dilma, tem o ponto de vista de uma elite, necessariamente conservador do seu status, mas mantendo "uma inconformidade que promove o desenvolvimento". Será parceiro de programas democráticos eficientes que beneficiem a formação de profissionais que têm por meta a excelência na produção.

Mas, gestão empresarial, por mais democrática que seja, não é equivalente à da governação nacional. O conceito de democracia não se reduz à busca da eficiência do trabalho, há outras preocupações de um Governo que ultrapassam a meta do desenvolvimento econômico, principalmente em um país que sofreu atrasos no seu desenvolvimento por mais de quinhentos anos de exploração por forças externas, colonialistas e imperialistas. Tem objetivos militantes que apontam um ideal a ser construído.

Os empresários não incluem nas suas preocupações com a educação a solução de problemas comuns a uma família que sobrevive com salário mínimo ou pouco mais, carências alimentares, de roupas adequadas, de condições de habitação, de acesso a tratamentos médicos, à formação cultural, ao lazer, ao respeito social por uma elite egoísta e exploradora que usa os mais pobres como escravos. E todos estes problemas e muitos mais, terão de ser resolvidos ao mesmo tempo em que se organiza o Estado com capacidade de gestão e consciência de cidadania. Os que defendem um sistema democrático, tendo pontos de vista diferentes, conforme as condições em que vivem e os objetivos imediatos das suas tarefas produtivas, deixam de perceber as contradições que o enunciado vago do conceito de democracia, assim como de ecológico, encerra.

Os programas de educação de base desvendam contradições ainda existentes nas políticas públicas do Governo que precisam ser discutidas na sociedade democrática. Assim é o estímulo ao consumismo popular, com a oferta de créditos facilitados e redução de impostos para escoar os produtos comercializados (por exemplo a venda de carros e da linha branca de eletrodomésticos em 2012), que o próprio Ministério da Fazenda lançou. Os pedagogos e psicólogos vêm o consumismo como uma forma de vício derivado de ansiedade patológica que merece tratamento médico-social para que o indivíduo não perca o seu auto-controle pondo em risco a gestão dos seus recursos e o sacrifício de escolhas mais importantes para a sua vida. Este é apenas um dos muitos exemplos de contradição.

As contradições em todos os serviços públicos institucionalizados estão sendo apontadas pelos movimentos sociais e os estudiosos das matérias específicas, para que sejam encontradas soluções que não recaiam sobre as camadas mais pobres da população. No âmbito judicial são reconhecidas as contradições entre leis (cuja vigência é as torna negativas hoje) que nasceram em outros contextos históricos, quando não existia a exigência da democracia apresentada pela sociedade. Em todos os níveis do sistema judicial assistimos ao permanente debate fundamentado no texto da Constituição de 1988 considerado o mais avançado em defesa da cidadania e da democracia.

No setor da Saúde são debatidas as recomendações médicas que confrontam bloqueios sociais presos aos preconceitos culturais ou às pressões internacionais da indústria de medicamentos. A Previdência Nacional carrega ainda leis absolutamente injustas (como a do "fator previdenciário") que penaliza na aposentadoria os trabalhadores que trabalharam algum tempo em outros países) determinadas por Governos anteriores que retiraram abusivamente aos idosos os recursos que destinavam a outros fins.

O papel dos movimentos sociais

As editoras e todo o sistema midiático procuram mostrar que nesta fase em que todos precisam de um sistema democrático, por um passe de mágica tornamo-nos irmãos, não há luta de classes, a classe média absorveu a antiga pobreza. As poderosas contradições desaparecem sob o título da cidadania brasileira que canta as mesmas músicas e luta pelo desenvolvimento nacional. Mas a realidade no dia a dia divide os interesses mais profundos, a distribuição de renda é absurdamente injusta, a propriedade privada determina a importância social de cada cidadão e a capacidade de acumular riquezas, e os cidadãos "de sorte" defendem com unhas e dentes o seu poder na sociedade (tal como antes, quando era a burguesia e o proletariado). Mudam-se os nomes, mas a realidade nua e crua quem conhece é o povo e as suas organizações de luta: os sindicatos, as associações de mulheres, de etnias, de deficientes físicos, de trabalhadores sem terra, de moradores sem teto, de estudantes, de profissionais, de desempregados, de pequenos camponeses, de artesãos, de todos os setores que são prejudicados pela ganância dos ricos organizados como elite.

Com as repetidas crises mundiais do sistema capitalista e a queda da União Soviética -  que chegou a constituir uma potência socialista e serviu de suporte a um formidável movimento internacional pela democracia -, hoje predominam as teorias econômicas que procuram equilibrar a eficiência empresarial do capitalismo com as conquistas sociais do socialismo adotadas pela ideologia social democrata. No interessante livro "O Universo Neoliberal em Desencanto", de J.Carlos de Assis e Francisco A. Dória, é referida a importância do método de Marx - a dialética - seu método, explica que a marcha da história é uma sucessão progressiva de conflitos e sínteses no mundo real, refletida no mundo das ideias, algo tão certo quanto o mundo que se desenrola diante de nós". O autor não adota a ideologia de Marx e diz: "mesmo depois de anos e décadas em que gastei quilos de papel e de saliva criticando o imperialismo norte-americano" hoje recomendo aos formuladores de políticas: "alinhem-se, pelo menos quanto ao aspecto fiscal, à política norte-americana comandada pela ala progressista do Partido Democrata contra a Europa".

Diverge da meta comunista apontada por Marx, e implantada por Lenin no sistema de produção socialista que sobreviveu por 80 anos tornando-se uma potência mundial que fez face ao poder imperialista mundial enquanto deu apoio a todos os movimentos democráticos (contra preconceitos e no respeito pela igualdade racial, de mulheres, de classe social, e as lutas pela independência nos países dominados pelo colonialismo). O autor defende uma forma de capitalismo (ainda utópica) "uma política econômica sob o comando da cidadania ampliada, é fundamental para o progresso econômico justo e a paz social".

Diante do caos planetário anunciado pelos defensores da natureza e da falência visível do sistema financeiro nos países mais ricos (cujos Governos oscilam entre as tendências social democrata e a de direita), e ao som dos bombardeios sobre uma série de nações árabes apoiados pelos responsáveis mundiais pelo sistema capitalista, cabe aos povos refletir sobre as metas mais seguras para toda a população, a iluminarem as decisões concretas a serem tomadas, eliminando necessariamente as contradições objetivas que constituem obstáculos ao processo de desenvolvimento democrático das sociedades. Defender o êxito da produção, dentro do princípio democrático universal, implica em criar simultaneamente condições sociais igualitárias para os trabalhadores e suas famílias sobreviverem formando-se profissionalmente e exercendo a sua cidadania.

O olhar da elite, à qual Gerdau reconhece pertencer, idealiza a condição de vida do trabalhador ou é míope devido à distância em que se situa em relação à realidade nacional. Investir na formação dos trabalhadores brasileiros obriga a criar condições de vida para ser efetivamente um gesto de solidariedade, base da democracia, e não apenas uma operação empresarial de modernização dos meios de produção.

As organizações de massa não podem ficar à espera dos projetos nacionais elaborados ou financiados pela elite financeira. Devem apresentar os seus, fundamentados pelo conhecimento da realidade concreta e com a responsabilidade que exigem ao Governo para alcançar as condições de viabilidade e de equilíbrio face as necessidades nacionais de produção, trabalho, formação, desenvolvimento. Como diz Manuel Carvalho da Silva ex-dirigente da CGTP-Intersindical em Portugal e hoje professor universitário e investigador na área de Sociologia e Ciências da Educação, " os sindicatos têm novos desafios, sobretudo ligados ao tempo de trabalho, aos salários, à segurança e estabilidade, e à contratação coletiva"... que "foi o instrumento de trabalho mais útil e eficaz na distribuição da riqueza na segunda metade do século XX e hoje está a ser posta em causa". Podemos pensar que, em um área específica do trabalho rural, a reforme agrária, também impõem-se desafios como aos sindicatos, relativos ao trabalho, e mais: à organização da produção tendo em vista o mercado nacional e internacional, como base do seu projeto que reivindica terras disponíveis que o Estado pode destinar à produção necessária ao país.
                       
Zillah Branco


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Desserviço ao Judiciário revela o poder midiático




                                                                                                           Portal Vermelho, 07/10/12

Não sobram dúvidas de que o "mensalão", apregoado como "o julgamento do século"
pela midia, foi um golpe político com objetivos eleitorais imediatos. O mais triste resultado
do evento que substituiu programas televisivos durante mais de um mês, foi a quebra da
confiança cidadã na Justiça e na estrutura superior do sistema judiciário no Brasil.



Recolhendo opiniões populares percebe-se a surpresa com a visível intenção política de
juízes que, antes de desvendarem (como em uma novela cansativa) as suas fragilidades
humanas e o aparato antiquado e de formalismo que soa como falsidade, eram
considerados como verdadeiros sábios capazes da necessária imparcialidade para não se
deixarem contaminar (corromper) pelas mazelas dos simples viventes. A decepção foi
agravada pela indignação com os altos salários e privilégios, financeiros e sócio-políticos,
extraídos de uma Nação que ainda usufrui da miséria da maioria dos cidadãos.

"Talvez seja o momento de se rever este terceiro poder que está totalmente do lado de fora
do sistema democrático brasileiro", diz um idoso, e "integrar o sistema judiciário no
serviço público onde faz falta para adequar as leis às realidades". Temos encontrado
promotores e mesmo juízes que constroem caminhos democráticos para combater os
crimes e apoiar os cidadãos nas dificuldades burocráticas que emperram as soluções
justas no relacionamento com as instituições. São a versão progressista do sistema
judiciário que, devagar, chega a organismos superiores como o CSJ e a Polícia Federal
que estão ao alcance, e sintonizados com as necessidades, do cidadão comum. 

A distância que a elite cria com os seus privilégios e um padrão de comportamento
rebuscado é um invencível obstáculo aos programas de democratização da sociedade. O
conceito de "justiça" é compreendido por qualquer cidadão interessado, mesmo que não
tenha tido a oportunidade de fazer cursos escolares e de conhecer o jargão jurídico. O
povo suporta as injustiças criadas históricamente pela oligarquia dominante desde que
possa acreditar que os poderes políticos trabalham para superá-las. Depois de assistir a
exibição midiática a que se prestou o STJ, em que condenou militantes do PT (vitimados
pelas condições do sistema político criado pela elite brasileira há dezenas de anos) como
se fossem corruptos, perdeu a confiança nos juízes que, afinal, fizeram o jogo da
oposição em período eleitoral. 

Que justiça é essa alheia aos verdadeiros problemas que empobrecem milhôes de
brasileiros sem moradia, sem atendimento médico suficiente, com creches e escolas
precárias para os filhos, sem as infra-estruturas necessárias para assegurar a higiene e a
segurança pública, com a ameaça permanente de agressões e acidentes nas ruas, com
salários, bolsas ou pensões insuficientes, e que mesmo assim acreditam e apoiam os
programas governamentais que abrem um caminho democrático que oferecerá um futuro
melhor para os seus filhos? 

Este povo dá lições de solidariedade e de construção de justiça social. Não exibe o seu
saber através da mídia, não exige pagamentos de cinquenta vezes o salário mínimo e
mais ajudas de custo, tem paciência e aguenta o sacrifício para superar os erros da elite
cometidos em séculos de desmandos até que seja instaurada a democracia no Brasil, não
confunde militantes que lutam sujeitando-se às condições criadas pelas oligarquias com
os banais corruptos, nem soldados com assassinos, sabe que atravessamos um
momento difícil de luta por mudanças decisivas pela independência nacional e o
desenvolvimento da população, tem consciência de cidadania, por isso constrói um futuro
melhor para os brasileiros.


* Zillah Branco é socióloga, militante comunista e colaboradora do Vermelho

domingo, 23 de setembro de 2012

Ping-pong da responsabilidade pela educação


23 DE SETEMBRO DE 2012 - 10H31 

Zilah Branco: Pingue-pongue da responsabilidade pela educação


Os atos de violência de jovens nas escolas se sucedem como uma onda nova de comportamento social descontrolado entre estudantes considerados normais. Os pais culpam as escolas e os professores "que não educam" e os responsáveis pela educação atiram as "culpas" para o Estado e o governo "que não cria condições adequadas para evitar vandalismos e proteção policial", mas também para as famílias "que não educam nem controlam os filhos". 

Por Zillah Branco*, especial para o Vermelho


Trata-se de um pingue-pongue absolutamente irresponsável enquanto a juventude é vista como uma peteca em uma sociedade caótica onde ninguém quer assumir a responsabilidade vista como "culpa".

Em primeiro lugar, será interessante discutir alguns conceitos de origem cultural-religiosa muito repetidos em uma análise "paternalista" das questões sociais. A "culpa"corresponde a um "juízo moral" dos que estão em uma situação "superior" à população em geral e aos seus filhos e "dependentes familiares".

Não há "culpas", mas sim responsabilidade humana e social. Não se pode falar na responsabilidade familiar sem referir as instituições disponíveis no Estado e coordenadas pelos poderes políticos - Executivo, Legislativo e Judiciário -, que organizam a sociedade e apoiam os cidadãos e suas famílias.

E os poderes - Executivo e Legislativo - são formados pela via das eleições democráticas que depende do voto do cidadão adulto.

A democracia deveria abranger também o terceiro poder, Judiciário, e garantir aos cidadãos a capacidade de escolha dos seus candidatos sem fazer uso de recursos promocionais (de altíssimo custo financeiro que onera os recursos públicos) e não informam com isenção sobre os reais compromissos do candidato. Mas isto ainda não acontece, o que limita a educação social dos cidadãos e reforça o poder da elite que é mais organizada e dispõe de propriedades, recursos financeiros e acesso às técnicas e instrumentos de informação.

Diante deste quadro, as reações individuais aos problemas sociais dividem-se em dois campos: o dos conservadores que são beneficiados e dos submissos que desanimam diante da necessidade de mudar a situação social, por um lado; e dos que trabalham por mudanças onde a democracia é a referência fundamental, buscando informação e formação para participar com determinação. A formação cívica será decorrente dos passos deste segundo lado. Entre os descontentes, principalmente os mais jovens, muitos resolvem agir pessoalmente e com as suas forças para impor as mudanças.

Frequentemente é detonada a violência entre os dois lados. A responsabilidade por tais ações voluntaristas é da situação social onde a democracia não foi implantada devidamente.

Começar por onde? Não há uma ponta inicial, o processo de mudança depende de todos os participantes. O lado conservador sofreu dois abalos no seu antigo poder: os atuais poderes governamentais receberam elementos não conservadores e apresentaram programas de mudança democrática para as instituições do Estado e, a nível internacional, o sistema capitalista sofre uma profunda crise que só será superada se aceitar a democracia como base de atuação.

Objetivamente estamos perante o caos que abre a possibilidade de mudança. Deixemos de lado a ideia de "punir os culpados" e vamos promover a participação dos cidadãos e a colaboração entre todos os que desejam realmente a democracia.

Os que agem ao nível das famílias vão perceber que a criança ao nascer encontra uma mãe em luta pela sua emancipação para não ser dominada pela velha cultura machista. Mas não há estrutura de apoio para esta mãe tornar-se uma educadora. Ela não tem tempo para se dedicar maternalmente ao filho e recorre às fórmulas de "compra" do sorriso da criança (que se tornará manhosa e exigente, em consequência, e angustiada como se fosse órfã). O pai, privado das condições do machismo que liberavam o homem das tarefas domésticas e de criação dos filhos, perde também a sua autoconfiança baseada no poder.

A família hoje está desestruturada pela mudança cultural da sociedade e não pode solucionar os problemas que enfrenta, sem o apoio institucional e coletivo que a sociedade cria. A disciplina, como instrumento de equilíbrio, deixou de ser considerada com a quebra dos valores conservadores, tanto nas famílias como na sociedade em geral. 

Os poderes políticos que coordenam o Estado têm a função de legitimar a disciplina para garantir a segurança pública e a liberdade de crescimento saudável das crianças e jovens. Impedir os abusos e imposições dos que se consideram "superiores" não se confunde com autoritarismo nem com o paternalismo dos conservadores que protegem os "inferiores", pois é a defesa da democracia que assegura a liberdade de todos e não de uma elite.

É na educação coletiva da creche que a criança começa a ser educada. Ali existe uma disciplina que é comum para todos e aparece como um recurso para gerir o tempo e os recursos e não como um privilégio de alguns ou uma limitação ao que cada criança deseja. Mas há poucas creches no país, faltam estruturas e a formação profissional é deficiente em todo o país.

Com os mesmos problemas educativos e sociais segue o sistema escolar, o que vai ser agravado pela educação e cultura veiculados pela mídia sem qualquer controle democrático e institucional. Existem sérias contradições entre a educação transmitida pela mídia, a publicidade, os eventos culturais, os abusos da elite poderosa, e a orientação pedagógica do sistema escolar. A criminalidade crescente nas ruas cerca a juventude nas escolas, criando a necessidade da defesa civil fora dos muros da escola e também dentro, entre os alunos.

O atual governo prossegue a criação de uma política pública de educação e a criação de uma rede escolar. Grandes passos foram dados com a implantação da alimentação e com a compreensão holística da educação ligada ao esporte e ao ambiente. Os temas das aulas conduzem à consciência de cidadania, portanto ao civismo. A distância que ainda existe entre uma riquíssima base pedagógica que no Brasil foi legada por brilhantes educadores desde o início do século 20 (Lourenço Filho, Anísio Teixeira, Paulo Freire e tantos outros) e a implantação de uma moderna política educacional em todo o território
nacional, depende da participação dos cidadãos e da interligação entre todos os níveis administrativos e dos três poderes nacionais.

O processo de democratização de um país não está isolado no mundo. A luta travada pela população brasileira passa pela defesa em relação às ameaças externas que estão presentes nos meios de informação, como no aprendizado diante da realidade de outros povos. O cidadão forma-se politicamente fortalecendo a solidariedade que faz parte do civismo.

A violência como moda internacional

A falta de estabilidade familiar e social cria o ambiente propício para a formação da criança individualista, fechada em si, egoísta por não reconhecer o outro como seu complemento na vida. Estas características coincidem com o estímulo do sistema capitalista no indivíduo, na elite, na apropriação dos recursos naturais, na escravização da população mediante a diferenciação de renda, na criação de corporações e multinacionais poderosas cujo poder é maior que o do Estado.

Solitária no seu casulo antissocial, a criança elabora uma personalidade agressiva e violenta que vai se espelhar no modelo de força mundial que predomina nos jogos, vídeos, músicas, novelas, cenários de guerra, notícias de invasões, políticas terroristas e toda uma forma publicitária de ameaças de vírus e doenças para subordinar as pessoas aos produtos defensivos oferecidos pelos donos do poder planetário.

Qualquer pessoa capaz de observar com afeto uma criança no seu desenvolvimento percebe a necessidade urgente de lutar pela sua defesa. 

Desde a primeira infância ela está exposta ao egoísmo de adultos que a tratam como objeto lúdico sem qualquer preocupação com os efeitos das suas atitudes sobre a saúde física e mental do bebê. O comportamento será o reflexo deste "uso" feito pelo adulto que, quando se desinteressa do jogo exerce autoridade para inibir respostas e lágrimas.

A sociedade, através das imagens transmitidas repete o modelo onde os heróis (que se identificam com os primeiros adultos que despertaram o seu amor e medo) comandam os mais fracos. Nas escolas os adolescentes se confrontam diretamente com a situação que define a humanidade dividida em superiores e fortes ou inferiores e fracos. As duas opções deformam psicologicamente o ser humano e deixam a violência como solução de sobrevivência.

A alteração social desse comportamento destrutivo que se consolida na cultura nacional exige a interação institucional e a participação cidadã para aplicar uma política educacional amplamente analisada à luz dos princípios éticos democráticos que a pedagogia encerra. Os meios de informação devem assumir as suas responsabilidades para corroborar como instrumento de cidadania. O entendimento da liberdade de expressão supõe bom senso e respeito pela sociedade com seus valores e políticas educacionais. Os temas impactantes, como, por exemplo, os de promoção do herói-vilão, não devem estar ao alcance das crianças como espectadoras, apesar da sua importância como reveladores de uma realidade. Assim como as críticas a posições religiosas ou características culturais de seitas e setores raciais, não devem ser divulgadas como formas de preconceitos e armas políticas de conflito social.

A elaboração de imagens e textos que respeitem os princípios estabelecidos a nível nacional enfrentará contradições com a violência dominante no palco internacional onde atua o império agressor sobre povos enfraquecidos pela miséria e infiltrações criminosas.

Socióloga, militante comunista e colaboradora do Vermelho