terça-feira, 27 de agosto de 2013

A paz no mundo está por um fio


 


Os Estados Unidos afundam a sua população na crise produzida pelo sistema financeiro que controla a política nacional, desvendando uma crescente miséria da classe média, cuja cultura tem sido moldada pela mídia a serviço dos desmandos imperiais. Famílias inteiras perdem os empregos e as casas, passando a viver dentro dos seus carros. A Califórnia passa de um desastre climático para outro sem capacidade para sequer proteger a vida dos habitantes.


O democrata Obama traiu os seus eleitores que esperavam que um negro ao vencer o preconceito racial representaria o lado humanista dos norte-americanos que lutam pela paz e os direitos humanos, desde que apresentou um discurso a favor da guerra ao receber o prêmio Nobel da Paz que ficou para sempre desprestigiado.

Em busca de mercado para as indústrias de armas e de produtos químicos e farmacêuticos, repetem a mesma falsa acusação (reconhecida pelas autoridades norte- americanas) utilizada para explicar a injustificável destruição do Iraque, agora contra a Síria. Ao mesmo tempo, a Otan bombardeia o Afeganistão e a CIA provoca conflitos no Egito, na Turquia e em países africanos.

Os casos de jovens e mesmo crianças tornados assassinos pela cultura orientada no fomento da violência e da loucura social pelos canais de televisão como a FOX e outros, além dos jogos criminosos que alienam o ser humano negando a capacidade de amar e respeitar os seus semelhantes, marcam a sociedade norte-americana como uma fábrica de robôs para servirem à escalada assassina do império.

Na Europa, o FMI impõe o empobrecimento da Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e Itália para favorecer a centralização da capacidade de produção econômica nos aliados ricos, especialmente Alemanha e Inglaterra. Comete visíveis erros de análise que provoca desemprego e prejuízos sociais incontroláveis e reconhece as falhas, visíveis até para personalidades mais cultas da direita, afirmando que repetiria os mesmos erros se necessário. As informações veiculadas pela Troica (Banco Cerntral Europeu, FMI e Comissão Europeia) através de governos submissos nos países mais pobres, são de tal maneira mentirosas e indefensáveis que a mídia começa a revelar a realidade que as populações organizadas por sindicatos e associações sociais apresentam nas manifestações cada vez maiores contra a destruição da democracia, o crescente desemprego, a fome que assola famílias e prejudica o crescimento das crianças, os suicídios e casos de loucura. Com o pretexto de pagar as dívidas, enriquecem os setores financeiros e destroem o país.

Na Alemanha cresce a composição neonazista com uma mistura de discursos nacionalistas e radicais que confunde jovens de diferentes tendências diante do desespero que destrói qualquer esperança de vida equilibrada. É um rastilho que aparece um pouco por todos os demais países, como ocorreu sob a liderança de Hitler na Segunda Guerra Mundial.

Grandes manifestações em todas as nações, pela Paz Mundial, serão uma barreira ao caminho que tem sido preparado e anunciado pelo Imperialismo que não poderá ter êxito nesta marcha destruidora sem os soldados que são cidadãos normais. A humanidade é mais forte que a elite criminosa que ocupa os cargos de poder assegurados pelo sistema que está falido.

Zillah Branco é cientista social, militante comunista, colaboradora do Vermelho e integrante do Conselho do Cebrapaz




quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A gestão da pobreza


Por Zillah Branco*, para o Vermelho



Em uma voo de Lisboa ao Brasil conheci alguns jovens que comemoravam o final de um curso de Administração com uma viagem pelo interior do território brasileiro. 


Perguntaram- me sobre lugares fora dos habituais circuitos turísticos ( que já conheciam por vídeos e tv). Falei sobre as diferenças acentuadas entre as regiões devido à fixação de imigrantes de várias nações europeias que marcaram com as suas culturas o tipo de cidades e de produção que compõem uma colcha de retalhos muito interessante.

"Será que isto determina também uma variação no tipo de administração que praticam? ", perguntaram. recomende-lhes a leitura de trabalhos feitos por especialistas em Geografia Humana e o grande mestre nessa matéria que foi Milton Santos, autor de "A Natureza do Espaço" (1996).

A conversa continuou dexando-me encantada com uma juventude que fez um curso que habitualmente dá maior enfase à gestão empresarial, tendo em vista o sucesso no mercado, com o ideal do "lucro", mas que revelava interesse pela administração pública adequada à realidade social das regiões.

Sugeri que recolhessem dados para um estudo que nunca encontrei divulgado: "A gestão da pobreza". O interior do Brasil oferecia (hoje alterados pela política "Fome Zero" criada pelo governo Lula em 2003) fartos exemplos de populações que, de tão miseráveis viviam marginalizados das instituições sociais e do sistema de trabalho no país. Como conseguem sobreviver estes milhões de brasileiros, que muitos deles nem o registo de nascimento têm? Como gerem os recursos mínimos que conseguem obter? Os jovens comentaram que um projeto sobre esta realidade daria uma tese de doutoramento muito polêmica.

Lembrei-me do aprendizado que fiz, tanto no Brasil, como no Chile, em Portugal e em Cabo Verde, observando a capacidade de pessoas com diferentes graus de pobreza garantirem um alimento essencial à sobrevivência. A capacidade de organização e gestão de recursos escassos exige inteligência e firmeza especiais. Em Cabo Verde conheci uma família que à entrada de uma casa paupérrima, mantinha um verdadeiro jardim em vasos de lata que impressionava pela beleza verde onda a falta de água impede a existência de canalização. Demonstrei a minha surpreza perguntando como faziam aquele "milagre"em um país sem rios. Explicaram que toda a família quando lavava as mãos ou os pratos e panelas iam distribuindo a água pelos vasos de modo a manter o verde.

Os exemplos são muitos nas zonas rurais de Portugal, contados como situações do passado que os programas de austeridade (trazidos pela Troika e seu comparsa FMI) trouxeram para hoje. No Alentejo, antes da Revolução dos Cravos, era comum haver para a sopa, servida à família de trabalhadores agrícolas, apenas uma sardinha ou um chouriço que a mãe partia para que todos tivessem um naco coroando o prato de pão que recebia o caldo do cozimento daquele petisco com alho ou ervas. Outra demonstração de planeamento vitorioso é na Ilha da Madeira e regiões do centro e norte de Portugal, a formação de terrenos de cultivo, em solo empedrado, com a cobertura de terra transportada em sacos às costas por antigos agricultores. 

No sul do Chile aprendi com os trabalhadores rurais mapuches a enganar a fome tomando chicha de maçã com um pouco de farinha de trigo torrada misturada. Fez-me recordar um hábito de índios guarani do litoral de São Paulo, no Brasil, que quando criança visitávamos com meus pais, que nos ofereciam café com farinha de mandioca granulada ( manema) misturada, para alimentar como o pão que não tinham.

Há uma infinidade de soluções para amenizar a fome que, certamente, os pobres de todo o mundo poderiam ensinar como sobreviver sem os recursos que os mais ricos desperdiçam sem qualquer sensibilidade humana. O desprezo soberano que leva muita gente a repudiar as soluções inteligentes de populações pobres para poderem sobreviver é o resultado da discriminação social que está na base da cultura das elites. Não lhes basta a possibilidade de comer e viver melhor, precisam demonstrar que podem destruir ou deitar no lixo o que poderia servir a outros. A ideia de solidariedade é, neste caso, o contrário da sua formação de administradores porque reduz o lucro e, portanto o seu poder.

Os programas da Troika/FMI aplicados na Grécia e Portugal não deram certo (como foi publicamente reconhecido pelos seus autores quando crescem as manifestações populares) e os Ministros das Finanças que executarm os erros pedem demissão e são promovidos a conselheiros em altos cargos. Em boa verdade os mandantes da Troika/FMI mentem ao referirem o próprio erro, pois voltam a fazer um percurso alternativo para destruir a capacidade produtiva dos países mais pobres com a esperança que a população desista de lutar contra esta forma de colonização e esbulho dos recursos financeiros dos contribuintes. Seguem o modelo incompetente dos administradores e gestores que desprezam a inteligência, a criatividade e a dignidade dos que consideram a vida humana como um valor muito maior do que a riqueza e o poder dos tecnocratas da política que vendem a Pátria.

*Zillah Branco é cientista social, militante comunista e colaboradora do Vermelho

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A decomposição do poder governamental das nações


 


Destacados economistas, incluindo alguns com Prêmio Nobel, tanto com formação marxista como também conservadora ou social-democrata, têm divulgado as suas análises sobre as crises do sistema capitalista que atingiram de forma dramática os EUA, provocando a recessão de 1929 e se repetiram ao longo do século 20 sacrificando vários países até expandir os seus efeitos devastadores, em função da globalização, ao iniciar o século 21 por todos os continentes.

Por Zillah Branco*, especial para o Vermelho


As causas apontadas têm em comum a classificação de uma crise sistêmica decorrente da financeirização da economia que criou um superpoder do sistema bancário sombra (shadow banking system) que abrange várias empresas financeiras que ficam fora de qualquer regulamentação controlada pelos Bancos Centrais dos respectivos países. 

Grandes bancos, como o Lehman Brothers nos Estados Unidos em 2007, Barclays na Inglaterra, entre 2005 e 2009, com envolvimento de operadores de bancos franceses Société Génerale e Credit Agricole, do alemão Deutsche Bank e do britânico HSBC (segundo reportagem da Financial Times de 18/07/2012) enfrentaram falências, casos de corrupção escandalosa, demissões de executivos de grandes corporações, roubalheiras explícitas e desmoralizadas publicamente, punidos pela justiça ou não. 

Trata-se, como explica Sérgio Barroso, numa série de artigos divulgados pelo Portal Vermelho, "de um processo que alia formas de ganância capitalistas nunca vistas, de braços dados à ideologia do darwinismo social; somados à gestão do Estado e da grande finança inteiramente a serviço do capital sem quaisquer veleidades". Ou seja, a implantação da lei da selva onde vence o mais forte, com a anulação de todas as conquistas da humanidade que a diferenciam do reino animal.

Esta situação de ganância absoluta e desprezo pelo seres humanos, que hoje faz uso das invasões militares e de espionagem para promover conflitos que desestabilizam as sociedades destruindo as estruturas produtivas e as populações civis, como bárbaros modernos ou bandidos vulgares, provocou o surgimento do seu oposto : um caminho de entendimento entre políticos de diferentes tendências ideológicas que ainda exigem os antigos princípios humanos de dignidade, respeito, solidariedade para a sobrevivência das nações. Pelo despertar da consciência do valor da pátria e da cidadania enojaram-se com a podridão em que se afunda o capitalismo responsável hoje pela miséria que se expande e as chacinas de populações pela fome. 

O comportamento submisso de governos manipulados pela "Troika" na Europa e pelo poder militar imperial nas áreas mais pobres do planeta, envergonha os que, independentemente da ideologia que professam, assistem à degradação da história nacional e dos valores patrióticos.

As divergências teóricas (que ainda existem) entre os defensores do sistema capitalista que no entanto condenam a financeirização conduzida pelas empresas que detêm o poder globalizado acima de qualquer regulamentação institucional, nacional e internacional, revelam-se na meta estabelecida para a organização do Estado e de programas de desenvolvimento e distribuição de renda, ou no crescimento econômico centralizado e sob um poder de elite para definir com critérios de rentabilidade os investimentos sociais. Aumento de lucros e esmolas sociais para manter o consumo.

Discutem orçamentos, impostos, salários mínimos e pensões de sobrevivência e a estrutura de um "Estado social", numa vã tentativa de salvar a nação à beira do colapso. Mas, concordam em recorrer ao crédito que os donos do poder financeiro oferecem com juros altíssimos e renunciam a exercerem o dever constitucional de regulamentar as empresas que sobreacumularam, por processos nem sempre lícitos, o dinheiro dos contribuintes. 

Para demonstrarem a sua noção de dignidade e patriotismo, explicam a necessidade moral de aplicar as condições de austeridade (que atinge apenas os que sobrevivem do seu trabalho) traduzida em desemprego, cortes salariais, eliminação das leis laborais, redução das aposentadorias e pensões de sobrevivência, privatização da saúde, da educação e de bancos nacionais, com o sacrifício exclusivo das camadas mais pobres da população e a destruição das empresas familiares de produção. Fora dessas preocupações de "honrar os compromissos com os agiotas" esquecem o dever ético de distribuir a renda nacional de forma equilibrada para assegurar a vida do seu povo e a dignidade de uma nação independente. 

Em Portugal, diante da farsa política a que o presidente deu o título de "salvação nacional" não pode haver acordo entre o governo subserviente à Troika e os partidos de oposição, nem mesmo entre militantes da direita que conservam a noção de respeito pelos seres humanos e de que a riqueza nacional deve ser investida na produção e nas condições de vida do povo para garantir a integridade patriótica e a independência nacional.

O atual dirigente do Partido Socialista (PS), gastou uma semana (que agravou o prejuízo financeiro do país e a credibilidade dos organismos responsáveis pela sua condução política) no falso cenário da "salvação nacional", com os lideres birrentos dos partidos de direita que competem entre si pelo beneplácito da Troika. Velhos socialistas ameaçaram sair do PS acompanhados por uma juventude que entende o socialismo para o crescimento econômico em benefício da população, não da subordinação vergonhosa à "financeirização" dos agiotas. 

Adriano Moreira, antigo líder de direita, denominou o termo "salvação nacional" de "esdrúxulo" nesta situação em que não há acordo possível no entendimento do caminho para evitar a derrocada do país e o fim da democracia. O bom senso começa a criar uma aproximação de antigos adversários.

Traduzindo os textos especializados e acadêmicos da maioria dos analistas políticos a favor ou contra o sistema, qualquer pessoa é capaz de compreender que os governantes devem ser escolhidos pela maioria da população se estiverem decididos e capacitados para organizar o trabalho produtivo que garante emprego para a população ativa, assegurar o funcionamento das escolas, dos serviços de saúde, as pensões para quem já não está em condições de trabalhar. 

E mais, defender a independência das Nações que não serão colônias de nenhum poder externo. Esta é a alternativa patriótica capaz de unir os povos que conservam o bom senso e a responsabilidade pela preservação das condições de vida com qualidade para as gerações futuras.

*Zillah Branco é cientista social, militante comunista e colaboradora do Vermelho

domingo, 21 de julho de 2013

A luta permanente pela democracia



A "crença" no enriquecimento facilitado pelas ofertas de crédito fácil espalhou-se pelo mundo para dividir o histórico proletariado que constitui a força de trabalho necessária para manter a produção das nações independentes. Pescados com a isca dos princípios individualistas lançados pela estratégia da elite exploradora, muitos aceitaram as ofertas de empregos precários, com mais status social e menor esforço físico, seguindo os modelos visuais e mentais de um estrato social que esbanja recursos em inutilidades festivas e drogas destruidoras das condições de ser humano.

Os créditos facilitados para criar uma imagem de ascensão à invejada classe média criaram uma distância social em relação aos antigos colegas de trabalho, e, aos poucos levou-os insensivelmente a copiarem o comportamento e os vícios da velha classe média, que nascera de uma nobreza empobrecida e se fixara junto ao poder do Estado graças à formação intelectual e profissional proporcionada pelas conquistas democráticas mundiais da humanidade.

A mentira hoje campeia no mundo globalizado, difundida pela mídia e a publicidade paga pelo setor financeiro. Os que trocaram as conquistas históricas das leis trabalhistas e dos princípios democráticos próprios dos que permanecem como a força produtiva nacional, e os valores éticos e humanistas da solidariedade que alimentam a consciência de cidadania, aderem insensivelmente ao oportunismo ganancioso e aos preconceitos de superioridade social discriminatórios. Aceitam a "crença" moderna que desorganiza famílias e associações populares onde é cultivada a filosofia humanista da igualdade e fraternidade.

Entraram de cabeça no consumismo de produtos da moda e das mensagens ideológicas que impregnam a cultura de uma classe dominante. Endividaram-se acreditando que o planejamento e a gestão apregoados pela mídia garantiriam uma existência confortável sem as privações que sofreram na infância. Não sabiam que o poder financeiro criara esta ficção como um colchão de ar para se defender das crises do sistema e que lhes lançara uma escada de cordas onde os degraus são "prémios pontuais", corrupção, serviços políticos em troca de votos, promessas e mais promessas.

De um momento para outro, diante da crise, cortam empregos e salários, sobem taxas de crédito e impostos, impõem a austeridade, atiram a classe média na miséria, com o pretexto de salvar a economia nacional como se fosse um ato heróico e patriótico imprescindível. A mentira é moeda corrente para a elite dominante. Desculpada como "segredo de Estado", dá o dito por não dito, cria novas leis, conduz o país a um "regime de exceção" onde tudo fica subordinado aos interesses financeiros dos exploradores. A nova classe média torna-se lumpen sem capacidade de sobreviver como proletários.

Enquanto assistimos a este capítulo da história do sistema capitalista na Europa dominada pela Troika – Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e governos nacionais subordinados – os empresários europeus elogiam, através da sua mídia, a "pujança" da economia brasileira que oferece um enorme mercado consumidor de produtos importados! Dizem eles que são "mais de cem milhões da classe média"! De ficção em ficção, abrem caminho para que as empresas multinacionais produzam em Portugal onde a "austeridade" reduziu os salários e acaba com os direitos trabalhistas, e que no Brasil uma classe média que aluga a sua imagem de consumidora abastada através de créditos bancários vai sustentá-las.

As consequências, regidas pelo imperialismo representado hoje pelos dois parceiros – FMI e União Europeia – apontam o precipício: Portugal, e outros países pobres da Europa, substituem a sua produção, raiz do seu desenvolvimento, pela transformação de produtos estrangeiros, e o Brasil (condicionado ainda pelos interesses do grande capital) compra o supérfluo sem investir nas suas forças produtivas, para girar o dinheiro das altas finanças, destruindo a consciência de classe e de cidadania de pobres trabalhadores vestidos de rico. A democracia no Brasil está a ser construída de baixo para cima com a grande vantagem de poder receber o apoio do Governo eleito e de setores sociais que defendem uma ideologia democrática nacionalista.

Esta realidade, da crise do sistema capitalista, é planetária. Para isto foi destruída a experiência socialista da União Soviética. No entanto, há contradições valiosíssimas para que a luta revolucionária prossiga com êxito: países que resistem mantendo os seus princípios socialistas – China, Cuba, Vietnã, Laos e Coreia do Norte – e todos os países em desenvolvimento que afirmam a sua independência negando submissão aos programas imperiais – além dos Brics, a Venezuela levantada por Hugo Chávez, que abriram caminho para oferecer uma alternativa progressista à catástrofe capitalista. No Brasil foi aberta por Lula uma fase histórica de construção da democracia com a participação popular. Temos assistido nesses 10 anos de ação governativa, segura e corajosa, a resistência férrea a todas as formas de sabotagem interna e pressão externa para impedir a consolidação da democracia por uma oposição que o povo aprendeu a repelir. Este é o caminho fora das "crenças e ilusões" criadas para o imperialismo ver e tirar proveito.

As recentes manifestações populares que denunciam o caótico sistema de transportes públicos herdado dos governos neo-capitalistas, ao perceberem que estavam a ser manipulados pelas forças de direita que contratam redes criminosas para provocar acidentes, destruição e mortes com objetivos eleitorais contra o governo Dilma, contaram com a liderança dos partidos e organizações sociais de esquerda que exigiram rigorosos inquéritos para apurar os mandantes dos atos de violência e uma revisão, pelos poderes institucionais, da criação de um sistema de transporte público gratuito para estudantes e trabalhadores. Note-se que em todo o Brasil os idosos estão isentos de pagamento de transportes municipais, o que ainda não acontece na Europa.

Em todos os países da Europa, com a imposição da austeridade que deflagrou a miséria e ameaça liquidar as conquistas dos direitos no trabalho e da democracia nas instituições dos Estados, crescem as manifestações populares. Os sindicatos viram-se fortalecidos como organização não só da massa trabalhadora, mas também dos desempregados e dos aposentados e pensionistas que formam as suas respectivas associações. Em uma sequência de marchas de protesto contra as medidas ditatoriais da Troika, greves contra o desemprego e a cedência de recursos empresariais a multinacionais, manifestações para reunir toda a população oprimida, surgem novos aderentes vindos de setores antes acomodados na sua condição de classe média estável e até mesmo de igrejas e partidos à direita. Jornalistas da grande mídia filmam e recolhem depoimentos para os seus arquivos que nem sempre são vetados por seus patrões. Os sindicatos da Polícia e as associações de militares, que também fazem manifestações próprias, avisam os governantes que não terão condições de garantir a segurança se as razões de conflito forem insuportáveis.

Por motivos opostos ao dos empresários "exportadores de ilusões", os trabalhadores da Europa acompanham o desenvolvimento das forças democráticas no Brasil e em toda a América Latina. Não cobiçam a situação da nova classe média, consumista e imitadora dos potentados, que hoje aparece como "cem milhões de consumidores" (citado pela TV SIC) mas sim a liberdade democrática que estabeleceu uma relação direta entre todo cidadão que lute por um país melhor e o governo eleito pelo povo.

Reconhecem que esta condição é a única que oferece garantia de que as históricas conquistas dos trabalhadores, como os direitos humanos e a democracia, sejam defendidas incansavelmente. Veem na união entre as nações latino-americanas – Celac, Unasul e Alba – que o objetivo é a solidariedade para que cada uma seja independente e desenvolva com autonomia as suas forças produtivas, não para criar um governo único que comande o poder financeiro, - como a União Europeia casada com o Fundo Monetário Internacional dirigido pelos Estados Unidos da América -  contra os interesses normais dos povos.

A crise capitalista é planetária, mas a unidade entre os povos trabalhadores também o é, além de ser mais antiga e perene como a humanidade.


Zillah Branco (23/06/13)



quinta-feira, 20 de junho de 2013

Alternativa para desenvolver a Nação



Publicado no  "Avante!"
20/06/2013

Com a queda do Muro de Berlim e a implosão da URSS, comemoradas pelos donos do poder capitalista no mundo como «o fim da História», as informações mediáticas formadoras de opinião pública foram direcionadas no sentido de esquecer o passado e dar início ao novo milénioapenas com a história do sistema capitalista. Até mesmo a figura e alguns trechos da análise que Marx e Engels fizeram, foram preservados para servirem de sugestão aos atuais pensadores políticos para «corrigirem» aspetos do sistema capitalista que despertam os protestos populares mais profundos. Nessa adaptação, adotaram como seus os princípios democráticos e uma liberdade «controlada» para que a humanidade possa respirar e sobreviver para produzir e consumir.
Mesmo com o poder de impor o esquecimento da história da humanidade, da ideologia formadora de um caminho revolucionário (que é a essência da obra de Marx e Engels), de transformarem os conceitos de democracia e liberdade em instrumentos de publicidade do sistema capitalista e de aperfeiçoarem os programas de gestão da política económica mundial centralizando-a, a elite dominante entrou numa espiral de ganâncias pessoais de lucro e poder social que mergulhou na crise que hoje o planeta mal suporta. Por ambição e individualismo, os comandantes desse processo abriram a fissura da contradição que sempre existiu entre a meta capitalista e as ambições dos seus defensores. Uma perna foi enrolada na outra.
Com o esquecimento das velhas e centenárias lutas dos trabalhadores, cujas origens registadas datam de dois milénios quando Spartacus liderou os escravos em batalhas contra o império romano, as populações modernas passaram a uma condição de vítimas órfãs dos desmandos criminosos que hoje assistimos. Sob o domínio da União Europeia, todo um continente em que as conquistas sociais já estavam consolidadas em instituições sociais e jurídicas está a ser destroçado pelo desemprego, pelo corte de salários e reformas, pelo aumento de impostos, pela destruição do Estado Social existente.
Esta destruição da humanidade na Europa, soma-se a outras formas mais sangrentas impostas pelos donos do dinheiro que se situam em pontos estratégicos mundiais – Estados Unidos da América, Israel no Oriente Médio e governos subalternos espalhados pelo planeta e ajudam a promover discórdias civis que atraem as guerras «pacificadoras» e a fome nas regiões mais pobres (que mata maior número de pessoas sem o uso de armas). 
A alternativa existe 
Diante da crise que auto-destrói o sistema capitalista, impõe-se à humanidade restaurar a memória das suas lutas que sempre tiveram por meta a liberdade, a fraternidade, a igualdade – da Revolução Francesa –, o respeito humano e a proteção da natureza que assegura a vida planetária, a autonomia política de cada nação, a legislação do trabalho contra a exploração e a escravização, melhor aplicação das riquezas nacionais na criação de serviços públicos (de saúde, ensino, previdência, acesso à cultura, infraestruturas e informação), para evitar as formas de discriminação dos mais pobres – da Revolução Socialista – a defesa dos Direitos Humanos, da Organização Mundial da Saúde, da Organização Internacional do Trabalho, para a Educação Ciência e Cultura, para o Alimento e a Agricultura, – organismos da ONU para implantar mundialmente os recursos necessários ao desenvolvimento das Nações e manter a Paz.
Cabe aos cidadãos de cada país restaurar a sua autonomia patriótica e a estabilidade antes assegurada por um Estado de Direito que hoje se encontra desgovernado e aviltado.
A quebra da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi a derrota de uma grande potência que, adotando o sistema socialista, competia com os Estados Unidos da América apoiado pelos países mais desenvolvidos no mundo capitalista. A experiência na implantação de um sistema alternativo, o socialista, no entanto, sobrevive com êxitos na China, Laos, Coreia do Norte, Vietname e Cuba que contam com o apoio de povos (que continuam a lutar pela sua independência dentro do capitalismo) e de organizações de esquerda existentes em todas as nações do planeta, inclusive nos Estados Unidos da América e seus aliados em todo o mundo. A defesa dos princípios socialistas prossegue no plano político da luta de massas e no trabalho intelectual com a elaboração das ideias orientadas pelo método de análise científica criado por Marx e Engels, enriquecendo-o permanentemente com a evolução do conhecimento da realidade social no mundo.
Nesses dois séculos houve derrotas políticas impostas pelo poder capitalista aos povos em luta, mas as vitórias alcançadas obrigaram o sistema a aceitar e instituir conquistas que traduzem os direitos de cidadania legislados mundialmente. São contra estas conquistas, que definem um sistema socialista de vida, que hoje a troika e o FMI querem destruir na Europa.
As manifestações populares se sucedem em defesa do bem estar dos seus povos e congregam trabalhadores de diferentes organizações sindicais, partidos políticos de diferentes tendências ideológicas, igrejas de diferentes religiões, gerações de diferentes formas de comportamento social, o que enriquece o caminhar dos povos libertos de preconceitos e das trelas impostas por uma elite que controla o poder financeiro mas sucumbe diante da sua própria incompetência alimentada pelo seu egoísmo absoluto.

domingo, 26 de maio de 2013

A classe média à beira do precipício


A "crença" do enriquecimento facilitado pelas ofertas de crédito fácil espalhou-se pelo mundo para dividir o histórico proletariado que constitui a força de trabalho necessária para manter a produção das nações independentes. Pescados com a isca dos princípios individualistas lançados pela estratégia da elite exploradora, aceitaram as ofertas de empregos precários, com mais status social e menor esforço físico. 


Os créditos facilitados para criar uma imagem de ascensão à invejada classe média criaram uma distância social em relação aos antigos colegas de trabalho, e, aos poucos levou-os insensivelmente a copiarem o comportamento e os vícios da velha classe média, que nascera de uma nobreza empobrecida e se fixara junto ao poder do Estado graças à formação intelectual e profissional proporcionada pelas conquistas democráticas mundiais da humanidade.

A mentira hoje campeia no mundo globalizado, difundida pela mídia e a publicidade paga pelo setor financeiro. Os que trocaram as conquistas históricas das leis trabalhistas e dos princípios democráticos próprios dos que permanecem como a força produtiva nacional, e os valores éticos e humanistas da solidariedade que alimentam a consciência de cidadania, aderem insensivelmente ao oportunismo ganancioso e aos preconceitos de superioridade social discriminatórios. Aceitam a "crença" moderna que desorganiza famílias e associações populares onde é cultivada a filosofia humanista da igualdade e fraternidade.

Entraram de cabeça no consumismo de produtos da moda e das mensagens ideológicas que impregnam a cultura de uma classe dominante. Endividaram-se seguros de que o planejamento e a gestão apregoados garantiriam uma existência confortável sem as privações que sofreram na infância. Não sabiam que o poder financeiro criara esta ficção como um colchão de ar para se defender das crises do sistema e que lhes lançara uma escada de cordas onde os degraus são "prémios pontuais", corrupção, serviços políticos em troca de votos, promessas e mais promessas. 

De um momento para outro, diante da crise, cortam empregos e salários, sobem taxas de crédito e impostos, impõem a austeridade, atiram a classe média na miséria, com o pretexto de salvar a economia nacional como se fosse um ato heroico e patriótico imprescindível. A mentira é moeda corrente para a elite dominante. Desculpada como "segredo de Estado", dá o dito por não dito, cria novas leis, conduz o país a um "regime de exceção" onde tudo fica subordinado aos interesses financeiros dos exploradores. A nova classe média torna-se lumpen sem capacidade de sobreviver como proletários.

Enquanto assistimos a este capítulo da história do sistema capitalista na Europa dominada pela Troika - Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e governos nacionais subordinados - os empresários europeus elogiam, através da sua mídia, a "pujança" da economia brasileira que oferece um enorme mercado consumidor de produtos importados! Dizem eles que são "mais de cem milhões da classe média"! De ficção em ficção, abrem caminho para que as empresas multinacionais produzam em Portugal onde a "austeridade" reduziu os salários e acaba com os direitos trabalhistas, e que no Brasil uma classe média que aluga a sua imagem de consumidora abastada através de créditos bancários vai sustentá-las. 

As consequências, regidas pelo imperialismo representado hoje pelos dois parceiros - FMI e União Europeia - apontam o precipício: Portugal, e outros países pobres da Europa, substituem a sua produção, raiz do seu desenvolvimento, pela transformação de produtos estrangeiros, e o Brasil compra o supérfluo (sem investir nas suas forças produtivas) para girar o dinheiro das altas finanças destruindo a consciência de classe e de cidadania de pobres trabalhadores vestidos de rico.

Esta realidade, da crise do sistema capitalista, é planetária. Para isto foi destruída a experiência socialista da União Soviética. No entanto, há contradições valiosíssimas para que a luta revolucionária prossiga com êxito: países que resistem mantendo os seus princípios socialistas - China, Cuba, Vietnã, Laos e Coreia do Norte - e todos os países em desenvolvimento que afirmam a sua independência negando submissão aos programas imperiais - além dos Brics, a Venezuela levantada por Hugo Chaves, que abriram caminho para oferecer uma alternativa progressista à catástrofe capitalista. No Brasil foi aberta por Lula uma fase histórica de construção da democracia com a participação popular. Temos assistido nesses 10 anos de ação governativa, segura e corajosa, a resistência férrea a todas as formas de sabotagem interna e pressão externa para impedir a consolidação da democracia por uma oposição que o povo aprendeu a repelir. Este é o caminho fora das "crenças e ilusões" criadas para o imperialismo ver e tirar proveito.

Em todos os países da Europa, com a imposição da austeridade que deflagrou a miséria e ameaça liquidar as conquistas dos direitos no trabalho e da democracia nas instituições dos Estados, crescem as manifestações populares. Os sindicatos viram-se fortalecidos como organização não só da massa trabalhadora, mas também dos desempregados e dos aposentados e pensionistas que formam as suas respectivas associações. Em uma sequência de marchas de protesto contra as medidas ditatoriais da Troika, greves contra o desemprego e a cedência de recursos empresariais a multinacionais, manifestações para reunir toda a população oprimida, surgem novos aderentes vindos de setores antes acomodados na sua condição de classe média estável e até mesmo de igrejas e partidos à direita. Jornalistas da grande mídia filmam e recolhem depoimentos para os seus arquivos que nem sempre são vetados por seus patrões. Os sindicatos da Polícia e as associações de militares, que também fazem manifestações próprias, avisam os governantes que não terão condições de garantir a segurança se as razões de conflito forem insuportáveis.

Por motivos opostos ao dos empresários "exportadores de ilusões", os trabalhadores da Europa acompanham o desenvolvimento das forças democráticas no Brasil e em toda a América Latina. Não cobiçam a situação da classe média, "de serviço", que hoje aparece como "cem milhões de consumidores", mas sim a liberdade democrática que estabeleceu uma relação direta entre todo cidadão que lute por um país melhor e o governo eleito pelo povo. 

Reconhecem que esta condição é a única que oferece garantia de que as históricas conquistas dos trabalhadores, como os direitos humanos e a democracia, sejam defendidas incansavelmente. Veem na união entre as nações latino-americanas - Celac, Unasul – que o objetivo é a solidariedade para que cada uma seja independente e desenvolva as suas forças produtivas, não para criar um governo único que comande o poder financeiro, como a UE, contra os interesses normais dos povos.

A crise capitalista é planetária, mas a unidade entre os povos trabalhadores também o é, além de ser mais antiga e perene como a humanidade.

(*) Cientista social, militante comunista, colaboradora do Vermelho

domingo, 12 de maio de 2013

O Estado corporativo impede a democracia



Marx e, depois, Lenin já escreviam, há um século, sobre a necessidade de destruir o Estado burguês para a plena realização do processo revolucionário. 


Álvaro Cunhal (em 1967), definindo o Estado como "uma organização especial de poder", "um poder especial de repressão", "aparentemente acima da sociedade e das classes", explicita a situação em que se encontra a máquina do Estado, formada pelas classes sociais dominantes para sobrepor-se a um Governo revolucionário, "sabotando a aplicação dos decretos e decisões do Governo, seja forçando remodelações ministeriais seja, ainda, inspirando, apoiando ou servindo golpes de palácio ou putschs".

A distância no tempo e as novas fórmulas políticas geradas pela história da democracia não invalidaram as análises científicas feitas pelos ideólogos revolucionários. Hoje, no século 21, constatamos a prepotência com que são levantados no aparelho de Estado todo o tipo de obstáculos à defesa dos direitos humanos e de cidadania que a democracia estabelece, pelo uso burocrático de normas e leis como armas de um poder repressor e violento. 

As instituições do chamado Estado Social utilizam os mesmos fundamentos jurídicos que foram criados sob a égide das conquistas democráticas, não para desempenhar o papel de organizador da sociedade voltada para o bem estar social, mas para defender o Estado contra os interesses e necessidades dos cidadãos. O poder é o do capital e os programas são elaborados com critérios meramente financeiros. Nada têm de social, de democrático, de humano.

Ressurgem do passado funcionários aparentemente inertes, que represavam as suas mágoas e recalques pessoais, e agora são inspirados por líderes da repressão que falam na "austeridade" para impor o desemprego e os cortes nos rendimentos pagos pela Segurança Social. Atacam primeiro os mais indefesos: os incapacitados fisicamente, que recebem pensões por doença ou velhice, os que adquirem "doenças profissionais", e os que suportam encargos familiares derivados das várias formas de empobrecimento, criadas pela "austeridade", que só beneficia o sistema bancário. A recolha das taxas durante toda a vida do trabalhador para constituir a sua aposentadoria fica esquecida, e o idoso ou inválido é tratado como um parasita.

Com autoritarismo e, muitas vezes, violência psicológica, cortam pensões, suspendem baixas médicas, cobram multas, espezinham quem está fragilizado e o levam à miséria. Vingam-se da História que os manteve calados durante um período de regime democrático, e reagem com uma forma psicótica de sadismo contra a humanidade. Tornam-se, assim, cumpridores entusiastas de um poder ditatorial que usa o disfarce "democrático" das leis estabelecidas como fórmulas neutras. Estes "instrumentos da ditadura" afastam-se dos colegas de trabalho que mantêm a dignidade procurando soluções adequadas aos utentes, tratando com respeito os cidadãos prejudicados e aconselhando caminhos alternativos que poderão encontrar junto a outras instituições ou movimentos sociais que o apoiem.

Este "poder" que cria programas de "austeridade" tanto pode estar no Governo como apenas no controle financeiro de um país. Na Europa de hoje está representado pela Troika e seus acólitos nacionais; em outros continentes "em desenvolvimento" corresponde aos tentáculos do polvo imperial. Os ministérios sob controle direto deste 
"poder global" são o de Finanças e o de Solidariedade Social, por onde circula o capital social e a maioria da população. 

Os governantes que executam as políticas globais podem manter uma fachada democrática através de discursos recheados de falsas promessas e informações contraditórias. A publicidade é aplicada de maneira criteriosa para que a linguagem e o comportamento dos altos mandatários pareçam moldados pela democracia e pela cultura do seu povo. Dessa forma, não assumem o exercício da ditadura, que é real e parece ser "legal". Tal conduta mina a mentalidade popular que tende a aceitar uma "escravidão suavemente justificada" em nome do seu patriotismo.

Essas ditaduras procuram não usar as Forças Armadas e a Polícia para impor a sua vontade, o que era habitual no passado criava um clima de terror pela repressão violenta. Pretendem parecer mais humanizados, mas uma forte razão para abdicarem do uso da força física institucional contra os cidadãos deriva da própria evolução das corporações armadas, no sentido de garantirem a estabilidade social com a mesma responsabilidade que defendem o Estado e o Governo. Hoje, a consciência dos profissionais da segurança inclui a de cidadania, e os leva a criar os seus próprios sindicatos e associações representativos, para a defesa dos seus direitos de cidadania e de trabalhadores.

Os povos europeus têm uma memória histórica de opressão, mesmo quando participaram das viagens de descoberta de novas terras no século 16 e da colonização dos países do Terceiro Mundo. Sacrificaram a sua estabilidade no país de origem, separaram-se dos seus familiares, arriscaram a vida para abrir um caminho desconhecido, enfrentaram povos aguerridos, iniciaram nova vida em regiões adversas, morreram de fome ou doenças sem qualquer proteção e sem receber remuneração oficial. Os benefícios conquistados em nome da pátria foram para a coroa, para o sistema financeiro, para grandes empresários que permaneceram nas cidades, servidos por escravos. Os governos modernos que exercem a ditadura com repressão visível ou disfarçada reavivam a história passada como se fosse uma fatalidade.

Como despertar uma consciência dos direitos humanos e do valor da cidadania? 

A Revolução dos Cravos, que implantou o regime democrático em Portugal, não foi um episódio passageiro. Chegou-se ao derrube da ditadura pelo Movimento das Forças Armadas depois de um processo de resistência política, durante muitas décadas conduzido pelo Partido Comunista Português (PCP) e com o apoio dos setores democráticos e patrióticos de toda a sociedade portuguesa. Por outro lado, as guerras de libertação desencadeadas na África pelos partidos de esquerda revolucionária conquistaram o apoio de organizações internacionais em defesa dos direitos humanos, da autonomia nacional e da libertação dos povos, considerados como base da democracia e do respeito pela cidadania. A ditadura fascista e colonialista em Portugal perdeu o apoio que recebera de Hitler e que fora mantido pelos aliados ocidentais. Situação semelhante ocorreu na Espanha e em outros países europeus.

A luta a favor dos povos e dos princípios democráticos é um processo histórico em curso, com mais de 200 anos de desenvolvimento mundial, que já libertou a humanidade de vários grilhões, do atraso cultural aos preconceitos que estabeleciam obstáculos à igualdade e ao respeito humano pelas diferenças raciais, religiosas e políticas. A escravidão foi banida das sociedades e as instituições foram criadas para que existam Estados de Direito em todas as nações. 

A Ditadura do Capital é um episódio antinatural na história da humanidade, decorre da crise do sistema para manter o poder financeiro de uma elite acima do poder social, ou seja, este é o processo histórico dos exploradores. 

Cabe aos povos lutarem unidos pelos seus direitos com a consciência dos seus valores que dignificam a existência.

Zillah Branco é socióloga, militante comunista e colaboradora do Vermelho