quinta-feira, 31 de julho de 2014

Israel leva o holocausto à Palestina

Zillah Branco
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No caminho

Israel leva o holocausto à Palestina

Zillah Branco - Publicado em Quinta, 31 Julho 2014 10:45
Diário Liberdade da Galiza
Uma falsa tradução do que disse o ex-Presidente Ahmadinejad, do Irão, ha alguns anos, de que "o holocausto não existiu no território árabe, mas sim na Europa", (como se tivesse dito que não houve o holocausto fascista), foi utilizada por Israel e os imperialistas em geral, para comover a opinião pública mundial, através da media submissa, e refazer a imagem da vitimização semita omitindo os milhões de russos e comunistas de várias nações que foram mortos nos campos de concentração nazistas.


Com esta habilidade cínica dos dirigentes de Israel, que ocupam territórios do Estado Palestino tratando-os como terroristas, e não com a dignidade de um povo, conduzem-no à miséria que aumenta com o enriquecimento de uma elite no poder centralizado pela globalização a comando do sistema imperialista. Afirmam-se na condição racista de povo eleito e eliminam do mapa, nos livros escolares, os limites dos territórios reconhecidos pela ONU de povos não judeus.
Netaniahu, que dirige o Governo de Israel hoje, refere o bombardeio ao Hamas e não ao Estado Palestino, dizendo que os "terroristas" usam a população civil como "escudo". Passivamente os dirigentes dos Estados Unidos e da ONU aceitam esta linguagem que deturpa a história e a geografia política e aceitam o falso pretexto da auto-defesa do imperdoável agressor, ele sim um terrorista que desonra a humanidade com a sua perfídia.
Israel, encarregou-se de trazer o holocausto para o Oriente Médio, com os ataque contínuos aos palestinos que vivem cercados de muros como um vasto Campo de Concentração. Desrespeitam a memória dos 20 milhões de prisioneiros, dos quais 6 milhões eram judeus, foram imolados por Hitler e seus colaboradores nazistas. Aplicam os ensinamentos nazistas que pareciam banidos do concerto de nações representadas na ONU.
E os líderes Sociais-democratas e liberais, das grandes Nações que se reúnem na ONU assistem tranquilos, isto é, coniventes. As populações de todo o planeta rejeitam os crimes e as falsidades políticas dos que se consideram donos do Poder.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

"Do nosso Mundo sabemos menos do que urge saber",

“Do nosso Mundo sabemos menos do que urge saber”,
parodiando o herói cubano José Martí



Esta frase permanece de grande atualidade e o seu sentido profundo aplica-se a todos os países onde os povos vivem dentro das condições impostas pelo imperialismo e são levados a pensar informados pelos meios de comunicação que selecionam os temas manipulados pela estratégia do centro de poder do sistema dominante.

O noticiário divulgado pela mídia internacional alterna agressões à populações civis de nações fragilizadas políticamente pela ação divisionista provocada por forças externas de quem cobiça as riquezas naturais daqueles territórios ou a sua situação geo-estratégica, com a exibição de competições desportivas e a ostentação de riquezas ao alcance apenas de uma elite ao serviço do poder imperial. Alimenta o individualismo, a desagregação das comunidades, a ação egoísta sem vínculo ao interesse coletivo nacional, a ambição pela riqueza material e o desprezo pelos valores éticos da humanidade.

Com o uso desta técnica de controle cultural, que desde a Grande Guerra foi elaborada minuciosamente com os condimentos herdados dos regimes fascistas e das tradicionais monarquias combinados com uma cobertura republicana de feição democrática, criaram um pensamento único de modernidade capitalista na Europa, para servir de obstáculo à liberdade revolucionária construída com o socialismo na União Soviética que inspirou movimentos de independência nos países colonizados.

A velha "manipulação"

Nos países considerados desenvolvidos - que desempenharam papéis históricos de navegadores intrépidos ao abrirem rotas para os colonizadores e as nascentes empresas de comercialização mundial que espoliaram as riquezas dos povos do Novo Mundo e escravizaram os nativos considerados sub-humanos - teve início uma estratégia financeira de uma burguesia que sustentava as monarquias e a usava como ponta de lança nas guerras internas e de conquista de espaços mundiais que deu origem à delimitação dos atuais territórios nacionais.

A iniciativa de expansão fascista de Hitler contou com o apoio de ditadores como Mussoline, Salazar e Franco - que consolidaram os seus poderes com base na estrutura criada por movimentos republicanos expulsando da participação política os pensadores socialistas inspirados no ideário da Revolução Francesa de criação de um Estado democrático que atendesse às necessidades do povo considerado "cidadão".

Constituiu-se o grupo de "aliados" com o objetivo de impedir a anexação das repúblicas existentes em regime democrático, o qual recorreu aos monarcas destronados pelos ditadores como forças mediadoras nos seus países com a face democrática necessária para atenuar o autoritarismo anti-popular dos povos que serviam como soldados na luta "anti-fascista" continental.

O poderio de Hitler era militarmente superior e os "aliados", assessorados pelos Estados Unidos, viram-se forçados a recorrer ao decisivo apoio da União Soviética, apesar de considerá-la inimiga, para vencer a ameaça no interior do continente europeu.

A programação de uma cultura "útil"

Com a subtil "guerra fria", em que os meios de comunicação e as reformas sociais democráticas mascararam o caminho imperialista dominante nos países mais ricos, os "modelos de pensamento" foram inoculados na cultura mundial com apoio do sistema de ensino e investigação em institutos superiores. Surgiu uma geração "GPS" selecionada para cargos públicos ou políticos como se tivesse origem em "chocadeiras apátridas". A cúpula do poder imperial, que antes da queda da URSS aparentemente se situava nos Estados Unidos, tornou-se também sediada no Clube Bilderberg, com moeda própria e aparente autonomia da União Europeia. As casas reais continuam a aperfeiçoar a sua condição de mediadora com a nova geração de príncipes agora formada em academias militares e de formação empresarial superior norte-americanas, que substitui a desgastada que permaneceu dependente do modelo já superado historicamente.

A programação dos "GPS" delimita a informação social que anuncia guerras "necessárias" como diz Obama ao receber o Prêmio Nobel da Paz, assim como anima as populações com movimentos conflituosos com títulos florais como "Primavera Árabe" para se contrapor à Revolução dos Cravos, intercalados por mega-promoções desportivas ou turísticas que dinamizam a circulação financeira e absorvem a atenção popular nos momentos de insucesso bélico.

Existe uma alternativa

Impõe-se um pensamento objetivo sobre as realidades concretas que em cada nação aponta para a construção (e não a destruição) da humanidade e os seus valores éticos.

José Reinaldo Carvalho, dirigente comunista brasileiro escreveu (Portal Vermelho 20/06/14) : "Conta-nos a prestigiosa agência noticiosa cubana Prensa Latina, (...) que intelectuais de todo o continente americano participam desde a última terça-feira (17) no colóquio internacional “O Anti-imperialismo Latino-americano, Discursos e Práticas”, na capital da Nicarágua. O objetivo é discutir sobre as novas iniciativas de autonomia latino-americana que mostram a atualidade da ideia do anti-imperialismo na região. O evento tem a chancela da Universidade Católica Redemptoris Máter, de Manágua, e do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso), além de outras instituições.

A atual conjuntura internacional, carregada de ameaças à paz e à autodeterminação dos povos, é propícia para novas reflexões, o intercâmbio de ideias e análises em torno da questão do imperialismo e do anti-imperialismo, como categorias e práticas sociais e políticas sempre presentes nos debates e na luta de ideias, o que, nas condições em que se desenvolvem as lutas dos povos latino-americanos, assume proeminência na região.(...)

Temas em destaque, como o exercício da hegemonia estadunidense nas novas condições em que esta potência declina historicamente e se defronta com uma realidade em que emergem outros polos de poder geopolítico, merecem a atenção no evento nicaraguense, enriquecendo o debate sobre o anti-imperialismo na América Latina.

A tendência principal em nossa região continua sendo a do aprofundamento das conquistas democráticas e patrióticas que se sucedem às vitórias eleitorais das forças progressistas em muitos países. Igualmente, avança a integração de países e povos soberanos, com a criação da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos, a Celac, que contraria os interesses do imperialismo norte-americano na região e provoca reações de tipo intervencionista, tentativas de golpe, fomento à contrarrevolução, cerco econômico e político, como se faz atualmente contra a Venezuela bolivariana".

"Do nosso planeta sabemos menos do que urge saber"

Nos países europeus multiplicam-se as manifestações populares contra os "governos apátridas de turno" que impõem a austeridade que miserabiliza a população para pagar uma dívida criada pelo sistema financeiro multinacional e destrói as forças produtivas e o património nacionais em benefício de um "governo mundial". Crescem as adesões de personalidades democratas e patriotas de várias origens partidárias e religiosas. É visível a falência ética da União Europeia confrontada com a CELAC que, na América Latina, defende a autonomia e o desenvolvimento dos países que a compõem.

Pesem as pressões e múltiplos obstáculos, a História é realizada pelos trabalhadores e suas famílias e a liberdade de pensamento abre o caminho para a evolução dos povos.

Zillah Branco

sábado, 7 de junho de 2014

O caminho revolucionário que Abril abriu

O desmoronamento da URSS e de vários países do bloco socialista fez com que os actuais países com meta socialista – China, Laos, Vietname, Coreia do Norte e Cuba – procurassem nas suas condições históricas e filosóficas de resistência permanente às formas de domínio imperial o esteio para prosseguir a luta pela autonomia nacional dentro das condições adversas do sistema capitalista.

A destruição das potencialidades de desenvolvimento económico autónomo dos países subdesenvolvidos pelo domínio colonialista e imperialista despertou as nações latino-americanas para a necessidade de construir a independência política. O conhecimento de cada realidade nacional aponta o caminho de libertação inspirado naqueles que sobreviveram às pressões externas dos predadores.
Perdeu-se o apoio de uma potência socialista – a URSS – que enfrentava frontalmente a sua opositora capitalista – os EUA – que representava a ponta de lança do imperialismo, e continuaram a suportar a pressão que vinha de séculos de atraso e miséria herdados do colonialismo. Aquelas nações foram mantidas em situação de pobreza extrema como as demais dos continentes da América Latina, Ásia e África, infiltradas por espiões e provocadores de distúrbios internos, recebendo a título de informação e cultura um lixo selecionado pela grandes empresas de comunicação social, espoliados nos valores de seus produtos e mão de obra exportados.
Tanto a cultura milenar do Oriente como o sofrimento secular dos países subdesenvolvidos ensinaram aos povos a arte da guerrilha e a conscientização das massas para criar um substrato resistente capaz de suportar as dificuldades de vida, impostas pelas elites dominantes, sem
abandonar a formação do ser humano e o preparo revolucionário para emergir diante do inimigo quando em crise sistémica. As oito décadas de existência de uma potência socialista serviu de suporte ao acesso a uma cultura moderna sem a censura da elite capitalista para que o mundo
subdesenvolvido desenvolvesse as bases do seu conhecimento da realidade e a consciência de um caminho revolucionário.
A colonização europeia iniciada no século XVI foi seguida pelo neocolonialismo quando surgiram movimentos de independência nas nações dominadas, e modernizada pelo neocapitalismo de versão democrática dentro do espartilho do imperialismo tendo como instrumentos o Banco Mundial e o FMI. Estes processos mantiveram os países subdesenvolvidos da América Latina, África e Ásia afogados na pobreza e na dependência política e económica de um sistema hostil à humanidade, que era considerado «civilizado e cristão» por ter institucionalizado as fontes do saber científico e religioso nas suas nações ricas do Ocidente que sugava as riquezas das colónias.
Os «impérios colonizadores» fizeram tábua rasa das nações dominadas, sem reconhecer as culturas milenares do Oriente e de povos nativos na África e no continente americano para dizimá-los e escravizá-los como se fossem animais. Obtiveram grandes lucros com o comércio de seres humanos
espalhados por todo o mundo, espoliaram os seus patrimónios, apropriaram-se dos seus conhecimentos, esmagaram as suas culturas e crenças impondo o modelo institucionalizado nas universidades e igrejas, a ferro e fogo.
Aos povos que resistiram com a força das suas comunidades introduziram, sob a via das acções caritativas, as doenças contagiosas e as drogas como vírus sociais – varíola na América e ópio no Oriente. Bem conhecida ficou a Guerra do Ópio entre a China e o Império Britânico no século XIX. Durante o século XX as experiências com produtos abortivos misturados ao leite em pó doado a populações famintas no Brasil, ou que provocavam várias doenças neurológicas através do abastecimento de água, foi denunciado por Fred Kennedy pouco antes de ser assassinado nos EU. As redes internacionais de droga assim como as formas mais variadas de corrupção de membros de
estados para manter o poder imperial dominante são uma constante na vigência do sistema capitalista. 
Sementes 
Hoje ficamos surpreendidos com o crescimento da violência na sociedade, da destruição dos valores humanistas, da unidade das famílias, dos processos não concluídos contra altas personalidades que roubam milhões ao Estado, com o apagamento da responsabilidade de mortes ocorridas nas praxes académicas, com a utilização de cobaias humanas por famosos laboratórios farmacêuticos, e tantas torturas mentais e físicas praticadas impunemente. Mas isto sempre ocorreu durante a história do sistema capitalista desde a sua origem colonialista.
A experiência socialista europeia sucumbiu ao poder capitalista, mas deixou sementes nos países que souberam resistir adaptados à sua história de pobreza gerida com integridade e convicção nos próprios valores éticos e de independência. Os BRIC convivem com o sistema adverso por caminhos diferentes que a história legou a cada um. A participação popular é fortalecida na consciência da sua responsabilidade para enfrentar a luta ou aceitar a escravidão. Os caminhos contornam os obstáculos desgastando as pressões que se multiplicam sem perder de vista o rumo da liberdade.
Em Portugal, a Revolução de Abril teve as suas raízes na luta clandestina popular durante o período da ditadura fascista. Ao contrário de outras nações empobrecidas da Europa que também exerceram o poder colonial como pontas de lança sob controle do domínio imperialista britânico, desenvolveu-se uma consciência cidadã entre os trabalhadores, a intelectualidade e as forças militares, que teve por meta a independência, o fortalecimento autónomo das forças produtivas e a defesa intransigente dos valores e do património nacional. A ambição de uma elite capitalista que participou daquele processo revolucionário através do golpe militar e de uma rápida adesão política às estruturas de poder recém formadas para conduzir o País, serviu de fio condutor para que o imperialismo lançasse os seus «vírus» para transformar o processo revolucionário numa modernização subordinada ao
centro económico e militar da Europa.
O governo de Vasco Gonçalves, no qual participou o PCP com apoio do movimento sindical e das forças democráticas de ampla abrangência ideológica e religiosa, tomou as medidas basilares para uma transformação revolucionária nacional: fim do domínio colonial, nacionalização da banca e das empresas públicas a favor do património nacional, combate ao monopólio privado dos factores de produção, sobretudo latifúndios e riquezas naturais, que deveriam ser organizados tendo em vista a ocupação da mão-de-obra existente, a investigação científica e tecnológica, a produção dos alimentos e bens indispensáveis à toda a população e à exportação.
Estavam lançadas as bases para que fosse criada uma economia e organizada uma sociedade com autonomia e liberdade de consciência de cidadania, bases para um país afirmar a sua independência perante as outras nações e aperfeiçoar as condições de vida do seu povo. Os insidiosos preconceitos anticomunistas e contra-revolucionários promovidos por elites externas e internas, que perderiam a soberania sobre um povo que ainda não conhecera a liberdade, despertaram antagonismos e competições políticas prometendo lucros individuais na partilha dos produtos nacionais e privilégios de classe para os seus apoiantes. Introduziram a cultura capitalista como meta de crescimento económico e uma falsa linguagem caridosa contrapondo-se à luta necessária para o desenvolvimento das forças produtivas com solidariedade e respeito humanista da coesão popular. 
Da ficção à realidade 
A linha do golpe prevaleceu sobre a da consciência nacional adequada à realidade de Portugal. Foi adoptado o modelo do que viria a ser a União Europeia, uma ficção que cobriu o território de centros comerciais, estádios de futebol e indústrias estrangeiras que vieram explorar a mão-de-obra barata, de estradas por onde escoam os produtos importados e saem os emigrantes em busca de empregos, de uma cultura moderna pré-fabricada para alienar as populações sem acesso à verdadeira informação negada pelos meios de comunicação submissos às elites mundiais. E, depois veio a crise do sistema com as dívidas contraídas pela gestão perdulária de governantes irresponsáveis que traíram a Revolução de Abril, venderam o património nacional ao desbarato, destruíram a capacidade produtiva e enriqueceram os seus comparsas poderosos, apagando o caminho para a independência de Portugal.
Com o velho discurso fariseu da humildade necessária ao povo «devedor», da caridade com os que tudo perderam, confessam que a «austeridade imposta em Portugal é demasiada porque os que a definiram não tinham experiência» (declaração do Conselho Europeu divulgada pela RTP a 28/04/14). E nada dizem da esperteza que tiveram de aplicar a austeridade aos trabalhadores,
idosos e crianças, enquanto os altos cargos recebem salários milionários apesar da «falta de experiência». Assim agiu a troika e o FMI na sua fatídica missão de destruir os povos.
Interessantes as palavras de Vasco Graça Moura: «A Europa Comunitária deixou de ser, para terceiros, o Eldorado mítico que foi durante muito tempo para terceiros. E alguns convencimentos mais ingénuos dos autóctones quanto às excelências da fórmula encontrada começam também a esboroar-se».(...) «a experiência tem mostrado que, na prática, as coisas não são bem como se esperava e que esse ideal de uma Europa harmoniosamente construída e convergente, quer no desenvolvimento económico sustentado, quer na qualidade de vida dos seus cidadãos, está a sair tão caro quanto frustrado». (...) O sistema não é de freios e contrapesos institucionais ao nível da Europa. É antes uma teia obscura de interacções e condicionamentos políticos por via de uma intergovernamentalização do todo ditada pelos mais fortes e acolitada pela coreografia impune dos euroburocratas» (in «A identidade cultural europeia», FFMS, Novembro/2013, pp.15-18).
O País perdeu uma oportunidade de se tornar independente, mas o caminho da liberdade não foi fechado. Hoje compreende-se melhor a realidade de uma História de heróis, conquistadores, colonizadores e de grandes personalidades que se destacaram como ideólogos, filósofos, músicos,
literatos, cientistas, intelectuais e trabalhadores a nível internacional. Os «donos do poder em Portugal» é que estão a mais, como esteve Salazar (e Caetano), ditador aliado de Hitler por meio século.
Portugal, com as suas riquezas naturais, aí está com o seu povo, capaz de retomar o caminho revolucionário sem se deixar enganar por traidores ou inexperientes ambiciosos.

domingo, 25 de maio de 2014

Europa rica coloniza os parceiros pobres na crise do sistema imperial

Assusta a imagem que hoje o mundo dá, de uma nova forma de colonização, agora introduzida na Europa pela União Europeia e o imperialismo liderado pelos Estados Unidos, de autofagia dos mais pobres da Europa que antes foram impérios, mas dependentes dos vizinhos França, Inglaterra, e depois Alemanha e Holanda, que investiram nas suas próprias forças produtivas e nas instituições de Estados modernos servindo-se dos "descobrimentos" dos grandes navegadores de Portugal e Espanha. 


Assiste-se à venda das pátrias pelos governantes de turno com a destruição dos empregos e fontes de produção nacional, empobrecimento generalizado da população e emigração forçada da mão de obra já formada, deixando a perspectiva salazarista do "jardim à beira-mar plantado" e a oferta de ambiente histórico e bucólico com excelente culinária para atrair o turismo rico nas férias e os especuladores ligados ao setor financeiro globalizado.

A cobiça faz com que os governantes de direita aceitem o dinheiro vindo da China dirigida por um Partido Comunista, e cessem as constantes denúncias contra uma ideologia com meta socialista que procuram destruir, como o fizeram com a URSS. Para mercenários, dinheiro não tem ideologia e, apesar da grave crise sistêmica, acreditam que os chineses vão ajudá-los a salvar o capitalismo. Não só a China, mas os Brics, que antes eram escravizados e pagavam o dízimo pela espoliação considerada "civilizadora".

A China e a transição para o socialismo


Em Portugal e em vários países da África assiste-se à penetração econômica da China, como ocorre um pouco por todo o mundo em desenvolvimento. Primeiro foi o comércio de utilidades domésticas, roupas e calçados, em pequenas lojas. Agora são grandes espaços comerciais que já se tornaram indispensáveis à população que não tem meios para frequentar o comércio de produtos de famosas marcas de empresas multinacionais, que liquidaram a produção e o comércio tradicional português dentro do programa de modernização imposto pela União Europeia.

Mais recentemente tiveram início os investimentos chineses nas empresas nacionais privatizadas, como é o caso da EDP (eletricidade), assim como na aquisição imobiliária de grandes áreas urbanas em fase de recuperação do patrimônio histórico. Tal como tem feito na África, a China investe na criação de infraestrutura e impulsiona as fontes de produção tradicionais.

Marx escreveu em 1850, sob o título Deslocamento do Centro Gravitacional Mundial, onde aponta a corrida ao ouro californiano como uma transformação importantíssima que leva os países mais fortes a reorganizarem os objetivos comerciais:

Vamos agora ocupar-nos da América, onde sucedeu algo mais importante do que a revolução de Fevereiro [1848]: a descoberta das minas de ouro californianas. Dezoito meses após o acontecimento já é possível prever que terá efeitos mais consideráveis do que a própria descoberta da América. Ao longo de três séculos todo o comércio da Europa em direção ao Pacífico contornou, com paciência admirável, o cabo da Boa Esperança ou o cabo Horn. Todos os projetos de praticar uma abertura no istmo do Panamá falharam devido às rivalidades e invejas mesquinhas dos povos comerciantes.

Dezoito meses após a descoberta das minas de ouro californianas, os ianques começaram já a construir uma estrada de ferro, uma grande estrada e um canal no Golfo do México. E já existe uma linha regular de barcos a vapor de Nova York a Chagres, do Panamá a São Francisco, concentrando-se no Panamá o comércio com o Pacífico e deixando de se utilizar a rota do cabo Horn. O vasto litoral da Califórnia, com 30 graus de latitude, um dos mais belos e mais férteis do mundo, por assim dizer desabitado, vai se transformando rapidamente num rico país civilizado, densamente povoado por homens de todas as raças, do ianque ao chinês, ao negro, ao índio e ao mulato, do crioulo e mestiço ao europeu. O ouro californiano corre abundante em direção à América e à costa asiática do Pacífico, e os povos bárbaros mais passivos são arrastados para o comércio mundial e para a civilização.

Uma segunda vez o comércio mundial muda de direção. O que eram, na Antiguidade, Tir, Cartago e Alexandria, na Idade Média, Gênova e Veneza, e, até agora, Londres e Liverpool, a saber, os empórios do comércio mundial, serão no futuro Nova York e São Francisco, São João de Nicarágua e Leão, Chagres e Panamá. O centro de gravidade do mercado mundial era a Itália, na Idade Média, a Inglaterra na era moderna, e é hoje a parte meridional da península norte-americana.

Graças ao ouro californiano e à energia inesgotável dos ianques, os dois lados do Pacífico serão em breve tão povoados e tão ativos no comércio e na indústria como o é atualmente a costa de Boston a Nova Orleans. O oceano Pacífico desempenhará no futuro o mesmo papel que foi do Atlântico na nossa era e do Mediterrâneo na Antiguidade: o de grande via marítima do comércio mundial, e o oceano Atlântico descerá ao nível de um mar interior, como é hoje o caso do Mediterrâneo.

E termina prevendo: "É muito provável que o socialismo chinês se assemelhe ao europeu como a filosofia chinesa ao hegelianismo. Qualquer que seja a forma, podemos alegrar-nos com o fato de que o Império mais antigo e sólido do mundo tenha sido arrastado em oito anos, pelos fardos de algodão dos burgueses da Inglaterra, até a iminência de uma convulsão social que, qualquer que seja o caso, deve ter consequências importantíssimas para a civilização. E, quando os reacionários europeus, na sua já próxima fuga, chegarem enfim junto à Muralha da China, às portas que supõem abrir-se como fortaleza da reação e do conservadorismo, quem sabe se não lerão ali: República Chinesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade".

Assim escreveu Marx em 1850 a partir do seu método de observação e análise histórica do sistema político, econômico e social dominante. Nada mais atual neste confuso século 21 apesar da distância de 180 anos.

A China cria nova realidade mundial - o pensamento oriental


Ao contrário da cultura ocidental capitalista, a perspectiva oriental é totalizante ou holística, sem definir os limites da abrangência. Contraria os modelos e métodos que a cultura ocidental cultiva da sua herança medieval conservada ao longo dos séculos, apesar de terem sido abertos difíceis e sinuosos caminhos em várias áreas do pensamento (na arte, na ciência, na filosofia), que contrariavam o conservadorismo dominante.

Sempre os inovadores foram considerados rebeldes, revolucionários e perigosos, mas demonstraram a necessidade de liberdade de pensamento que permitia a abertura de portas flexíveis ao desconhecido sobretudo no século 19. Isto propiciou a abertura, com diferentes níveis de integração, a elementos trazidos pela cultura oriental.

Além dos produtos importados durante a época dos descobrimentos – porcelanas, seda, especiarias – o estudo da arte na Europa no fim do século 19 recebeu significativa influência dos orientais, alterando profundamente os conceitos teóricos presos aos estritos princípios da cultura ocidental e abrindo como caminho a Arte Nova. Em outras áreas, científicas e técnicas, a presença de traços vindos do Oriente é mais sutil por se tratarem de alterações no pensamento filosófico, com a consequente abertura à liberdade e criatividade no sentido de uma visão holística e integradora.

Modernamente as artes marciais, a educação física, a psicologia e a medicina orientais, começam a ser absorvidas nas escolas e universidades do mundo ocidental depois de terem sido amplamente praticados junto às populações que não aceitaram os preconceitos de uma elite social que classificava tais usos como sendo acientíficos e de charlatanismo. O reconhecimento da influência do pensamento oriental na medicina ocidental é ainda um tabu por razões de competição intelectual e de mercado da sua indústria de base. Mesmo assim, as técnicas de acupuntura já são matéria de cursos universitários, tal como a busca do equilíbrio físico/mental, tomado o organismo como um todo integrado, foi adotada pela medicina ocidental e está na base do grande desenvolvimento do conhecimento neurológico.

A ideologia intrínseca ao caminho chinês

A China que hoje caminha a passos de gigante no sentido de se tornar uma potência reconhecida como tal pelo mundo ocidental, segue a nível político e econômico o mesmo caminho que a sua filosofia, artes e ciências seguiram desde o fim do século 19 na aproximação com o ocidente, servindo-se dessas primeiras conquistas sem necessidade de definir politicamente a sua função no caminho ideológico. Tanto a sua capacidade de criar riqueza suficiente para absorver os títulos do Estado norte-americano e comercializar com qualquer país rico, como para investir nos países em desenvolvimento criando bases para a produção nacional e proporcionar no seu próprio território a modernização da infraestrutura e de toda a estrutura de produção para competir no mercado capitalista, tem permitido retirar a população (de dois bilhões de pessoas) do nível de miséria que suportava, e estender os benefícios de um verdadeiro Estado Social (que só existe em alguns países nórdicos pequenos). Evidentemente a adoção de modelos ocidentais modernos gera contradições internas difíceis de superar, sobretudo pela imposição de um ritmo de ação inadequado aos seus padrões culturais.

O tempo necessário para sair do feudalismo e poder competir com os países desenvolvidos do sistema capitalista foi, e continua a ser, muito menor do que aqueles levaram para desenvolver a sua economia e urbanizar as suas cidades criando um sistema social de profundas diferenças no atendimento das classes e na distribuição da riqueza. O controle exercido pelo Partido Comunista da China sobre o governo e todos os programas de desenvolvimento tem permitido uma estratégia segura comprometida exclusivamente com o equilíbrio da política externa e a melhoria das condições internas de desenvolvimento e de qualidade de vida.

Na China as contradições com um projeto que tem por meta o sistema socialista vão sendo reduzidas paulatinamente, como a aplicação de uma legislação do trabalho e a substituição das fontes de energia para eliminar a poluição, conquistados pelos trabalhadores nos países capitalistas, assim como a construção de infraestruturas para levar o benefício da modernização nacional a todo o extenso território com as suas diferenças climáticas e culturais.

A pressão do imperialismo mantém-se, mas caem os preconceitos com a expansão democrática

Tal como sofreram os países socialistas liderados pela URSS, a China é obrigada a investir grande parte do seu orçamento nas Forças Armadas, nas investigações científicas espaciais e no sistema de informações para todo o planeta, para garantir a segurança nacional e do seu projeto de desenvolvimento com meta socialista.

A solidariedade dos povos com a China depende do entendimento que se alcance das diferenças culturais e filosóficas que existem mas não separam, os que lutam pela meta socialista para todas as nações. O que até hoje foi considerado como o pensamento "ocidental", preso ao sistema capitalista e à cultura de origem judaica e cristã, alimentou preconceitos de valor estratégico contra culturas orientais e árabes.

O século 21 tem coincidido com a queda de arraigados preconceitos criados para favorecer os sistemas de domínio colonial, neocolonial, racista e machista, de elites poderosas e de uma pretensa superioridade humana sobre os que apresentam diferenças físicas ou culturais. Como resultante do embate histórico que se verificou ao longo dos últimos séculos emergiu uma consciência de cidadania que permeia os trabalhadores em todo o planeta e o sistema capitalista enfrentou crises que foram superadas em prejuízo do seu próprio equilíbrio.

A filosofia milenar oriental sempre apontou como caminho o equilíbrio e a observação da realidade para que a humanidade alcance o seu desenvolvimento aplicando, passo a passo, a sua energia e criatividade na construção da vida. Será este o caminho da China? Depende não só do seu governo e Partido Comunista como dos povos e suas respectivas forças revolucionárias.

Integração cultural e consciência de autonomia dos povos
O sistema capitalista no mundo "ocidental", até hoje vigente nos países da Europa e nas Américas, Africa e Ásia, nos centros de poder financeiro e nas nações que foram colonizadas e mantêm vínculos de neocolonização, tem sido confrontado com a emergência de características do pensamento oriental e da dinâmica histórica das sociedades em evolução, que acentuam as contradições internas próprias de um modelo fechado submetido ao comportamento do mercado e ao autoritarismo de uma elite financeira.

As sucessivas crises do sistema capitalista que sempre foram buscar nos países menos desenvolvidos os recursos para fortalecer o setor financeiro dos que concentram o poder político e militar, foram estimulando, contraditoriamente, o fortalecimento da luta social pela democracia, a qual por oito décadas contou com a liderança da URSS que expandiu pelo Terceiro Mundo as sementes da independência nacional e da participação popular no desenvolvimento dos seus países.

As duas grandes guerras foram orientadas contra o surgimento do sistema socialista pelas forças da Revolução em 1917 na Rússia, mas as ambições expansionistas da liderança nazifascista levou à necessária aliança entre as forças militares da Europa e dos Estados Unidos com a Rússia Socialista para alcançar a vitória contra a Alemanha, Itália e Japão que representavam a chefia das forças agressoras. Em seguida, ao final da Segunda Guerra, começou a Guerra Fria dos países capitalistas contra a União Soviética e uma perseguição aos militantes comunistas em todo o mundo, para impedir que os movimentos sociais de emancipação social escapassem ao controle ideológico dos governantes vigiados pelo sistema capitalista.

A meta expansionista foi apropriada pelos Estados Unidos com pretextos de intervenção pacificadora com apoio da ONU moldando os princípios democráticos, de libertação nacional e direitos humanos, ao programa da Social Democracia europeia nascida na velha Alemanha com Bismark.

Durante várias décadas estas forças que se somaram em torno da primeira potência mundial (EUA) com um crescente poderio militar, econômico e tecnológico, apoiaram governos ditatoriais – como a Grécia, Espanha e Portugal que eram aliados Hitler – e nos países subdesenvolvidos, onde foram criados sistemas sindicais e legislação de trabalho e segurança social que mantinham o Estado (dito) Social sob a tutela do ditador ou de presidentes eleitos dentro dos estreitos limites impostos pelo sistema financeiro e jurídico superiormente fiscalizados. Na Europa, sob o comando dos EUA o Clube de Bildenberg manteve em fogo lento o imperialismo enfeitado pelas monarquias sobreviventes já adaptadas às repúblicas como poder moderador e de exceção se necessário, atraindo políticos e intelectuais destacados para serem treinados para posições de influência através de instituições culturais, de comunicação social e de governos.

Apesar dos múltiplos problemas, que inclusive destruíram a União Soviética e o sistema socialista implantado na Europa durante 80 anos, os povos tomaram consciência dos verdadeiros caminhos para a sua libertação e desenvolvimento nacional sem a tutela de um poder financeiro e militar externo. A essência dos princípios democráticos divulgados na Revolução Francesa e com forte repercussão na Independência dos Estados Unidos, levantados como meta revolucionária pela URSS, foram sendo posteriormente deturpados pelo poder imperial centralizado e mencionado apenas na categoria de utopia.

A violência do imperialismo desperta os humanistas

As várias tentativas para estabelecer governos democráticos e populares foram afogadas em sangue, como o de Allende no Chile, Lumumba na África, e de tantos líderes africanos e asiáticos que não se submeteram às ordens externas. A função de "polícia" planetária, exercida pelos serviços de inteligência dos países mais ricos, utilizou recursos criminosos para eliminar fisicamente os líderes que surgiam em todas as regiões, como recentemente se provou ter sido assassinado Arafat, herói palestino, por determinação do Governo de Israel, assim como o foi o primeiro Presidente de Moçambique Samora Machel por forças anti-revolucionárias na África.

A guerra dos Estados Unidos contra o Vietnã fracassou devido à capacidade de resistência daquele povo e inteligência de líderes como Ho Chi Min e Giap, e a consciência democrática despertada em todo o mundo, inclusive na sociedade norte-americana, que repudiou e denunciou a barbárie imperialista enfraquecendo politicamente o exército invasor.

Com a formação da União Europeia pelo Clube de Bilderberg (logo após o final da guerra mundial) e apoiada pelos Estados Unidos, a derrubada de governos e assassinato de líderes e civis na Europa (Iugoslávia), na Ásia Central (Afeganistão, Paquistão), no Oriente Médio (Iraque) e norte da África (Líbia, Egito) passou a ser feito abertamente pelas forças militares da Otan e dos países associados com o falso pretexto da pacificação e defesa dos direitos humanos. Onde ainda não pode invadir e bombardear, os seus agentes secretos estimulam e provocam conflitos armados internos (Iugoslávia, Egito, Síria, Turquia e países de África onde o atraso causado pela colonização e neocolonização, agravado pelos projetos de desenvolvimento financiados pelo Banco Mundial que destruíram tradições locais e a terra arável, deixou a população na miséria absoluta). Diante da estratégia sucessivamente aplicada pelos sumo poderes do sistema capitalista, e em busca de formas de desenvolvimento para sobreviverem, surgem líderes capazes de atrair o apoio popular, de militantes sociais e de esquerda, de Igrejas e associações que têm capacidade para eleger representantes legítimos das populações.

Depois das independências das ex-colônias na África e em Timor onde surgiram líderes democratas, outros alcançaram o poder nos países ainda subdesenvolvidos contra os interesses imperiais: Lula no Brasil, Chaves na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correia no Equador, Kirchner na Argentina, abriram caminho para a integração de Cuba nas organizações latino-americanas, com sua poderosa experiência socialista que repercute em outras nações da América Latina e reflete em outros continentes como apoio às suas formas de luta específicas pela democracia real. A Social-Democracia na Europa intercede como agente imperialista que teve êxito em Portugal destruindo o processo revolucionário do 25 de Abril, como se representasse o "socialismo" e com ofertas de apoio financeiro.

Exemplo de superação do atraso e a fome

A China fez a sua revolução nacional e realizou a Grande Marcha liderada por Mao Tse tung, apoiada pela URSS e demais países socialistas, libertando-se do sistema feudal opressor e traçando o caminho para o socialismo. Conserva a filosofia dos seus antigos líderes históricos para entrar na Era Moderna e vencer a miséria da maior população nacional do planeta.

Cultiva a memória cultural de milênios da sua história e recebe as imagens do capitalismo e do socialismo como capítulos recentes. Herdeira de experiências históricas de invasões, guerras, domínio japonês, colonialismo britânico e tentativas de neocolonialismo por alguns países poderosos, a China aplica as tradições do pensamento oriental na forma como deverá adaptar-se ao convívio e intercâmbio técnico e material com o sistema capitalista internacional.

Mantém-se sem participar da dicotomia ideológica entre capitalismo e socialismo, conhecendo profundamente as contradições entre os dois sistemas, sempre procurando desenvolver as suas próprias forças dentro da lógica estabelecida no mercado enquanto introduz inovações a partir do seu conhecimento milenar

*Zillah Branco é cientista social, militante comunista, colaboradora do Vermelho e integrante do Conselho do Cebrapaz.

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  • sábado, 24 de maio de 2014

    O BRANQUEAMENTO DA REVOLUÇÃO DOS CRAVOS

    Zillah Branco
    21/04/14

    Na comemoração dos 40 anos da Revolução de Abril, num Portugal comandado pela União Europeia unida ao FMI, assiste-se ao branqueamento da realidade histórica que em 1974 derrubou a ditadura fascista criada e mantida durante meio século por Salazar.

    O comando português desta deturpação está entregue aos meios de comunicação que promovem uma fictícia democracia de modelo neo-liberal executada por um Governo de direita herdeiro da ideologia salazarista. Tal como vem sendo adotada pela social democracia imperial, a prática da adoção de uma fachada política de esquerda para eleger chefes de Governo nos Estados Unidos e na Europa, assim como de promover conflitos sociais que abrem as portas de países susceptíveis de invasões militares apoiadas pela ONU, também em Portugal a direita veste-se de esquerda democrática anti-comunista.

    O PS de Mário Soares foi o introdutor deste método tendo enfrentado a decepção de muitos dos seus quadros verdadeiramente socialistas que abandonaram as suas fileiras ao longo dos primeiros Governos após o 25 de Abril e ainda hoje há os militantes PS que repudiam a subserviência a uma ideologia com meta imperialista. Permanece a distinção no PS de filiação social-democrata entre os que defendem princípios socialistas de liberdade, igualdade social e democracia e os que lutam pela utópica humanização do sistema capitalista que combate explicitamente o caminho revolucionário.

    Esta vocação de camaleão foi assumida pelo PS - com a auto-definição de centro-esquerda - e por seu líder Mário Soares, quando confrontado com ataques dos partidos de direita, tornando-se mais visível depois da queda de Sócrates como Primeiro Ministro vencido pela coligação do PSD/CDS-PP.

    Em véspera de eleições, e comprovada por pesquisas das tendências eleitorais praticamente iguais (em torno de 35%) tanto para o PS como para a  coligação PSD/CDS, é a vez da extrema direita vestir a camiseta democrática para atrair as franjas eleitorais que habitualmente negam a sua participação cidadã sob a forma de voto em branco, nulo ou abstenção (à volta de 40%), ou somar-se ao próprio PS para evitar qua a esquerda real se apresente unida e capaz de atrair os democratas que se sentem enganados por seus partidos ditos de centro, e mais os que se abstiveram de votar sem confiança no actual sistema que destrói as conquistas populares alcançadas com Abril.

    O agravamento da irresponsabilidade cívica dos políticos à direita de uma esquerda humanista que respeita a ética nacional  e os valores patrióticos, divide as forças políticas do centro e da direita que não se identificam com os ambiciosos de lucros fáceis, corrupção despudorada, abuso de confiança, falta de integridade pessoal e de compromisso com a independência nacional. Não querem estar misturados com oportunistas que se curvam a um poder imperial. Reconhecem, como declarou um antigo ministro de Salazar, que "a realidade é que o 25 de Abril introduziu o regime democrático e cabe-nos organizar a sociedade para atender às necessidades de desenvolvimento nacional e de vida digna da população."

    A História, algumas vezes, aproxima os adversários políticos para a defesa da honra nacional e de sua gente - "quando um valor mais alto se alevanta", registou Camões.

    Não é com esperteza barata e ignorância política que se analisa um facto histórico que revolucionou uma sociedade e substituiu um regime, reduzindo-o a um componente que foi o golpe militar apoiado por uns que foram vencidos na guerra colonial contra a Guiné Bissau, como o General Spínola, e outros (a maioria dos capitães e oficiais do MFA )que se apercebiam da injustiça da guerra que sacrificava os dois povos em conflito para satisfazer apenas as ambições de poder de um governo ditatorial que arruinava Portugal e agia impunha um regime fascista.

    Uma tese acadêmica, de autoria de Raquel Varela (que se identifica com a esquerda mais radical), aponta divergências teóricas, expostas com a honestidade da crítica histórica, e fundamenta com documentação imparcial a descrição dos fatos relatados. Não se coíbe de apontar o valor político da ação dos comunistas em Portugal, ao manterem por quarenta anos de dura clandestinidade a única fonte de resistência política à ditadura de Salazar.

    Tal resistência foi possível com a estruturação de um partido – PCP – cuja ação reivindicativa se expandiu por todo o país junto às camadas mais pobres dos trabalhadores urbanos e rurais, alimentando uma consciência política e social que não se deixou intimidar perante a feroz perseguição policial e social exercida pelo Governo ditatorial. Com esta compreensão honesta, a autora enfrenta a difícil tarefa de estabelecer um diálogo entre os grupos da extrema-esquerda e com os militantes do PCP. A intenção merece respeito, assim como a reunião de uma documentação histórica de um período que recolheu como investigadora. A perspectiva científica da historiadora é naturalmente diferente da de um militante que viveu o processo e revela a interpretação particular de uma militante da extrema-esquerda: por um lado ganha objetividade pelo distanciamento e a comparação entre várias fontes de informação, e perde, por outro, a observação do ambiente social com as suas emoções espontâneas e o conhecimento da orientação estratégica que é clandestina e não aparece nos registros dos observadores, além da subjetividade da anti-comunista.

    Em Portugal durante a Revolução dos Cravos, foram vários os agrupamentos da extrema-esquerda – MRPP, MES, PRP, LCI, LUAR, FSP – cada qual com uma origem social e ideológica particular que se consideravam “puros e radicais” contrariando o processo conduzido pelo PCP (único partido de esquerda no país, conforme refere Raquel Varela) e, consequentemente facilitando a ação contra-revolucionária encabeçada pelo PS contra o PCP.

    No contexto do livro, Raquel Varela vai repetir várias críticas feitas pelos porta-vozes da esquerda radical que acusam o PCP de “ter realizado uma política de contenção das reivindicações dos trabalhadores”. Apesar dessas acusações que negam o valor revolucionário do PCP, reconhece que “quando se dá o 25 de Abril de 1974 o PCP é o partido político mais bem organizado e aquele que tinha sobrevivido nas duras condições da clandestinidade durante a ditadura” (...) “uma organização de vanguarda com alguma influência de massas, contando entre militantes e simpatizantes, uns nove mil membros” (...) “chegando a 25 de Novembro de 1975, inquestionavelmente como um partido de massas, com cerca de cem mil militantes, influência nos principais setores operários, nos sindicatos, com participação nos Governos Provisórios e com homens da sua confiança na hierarquia militar. É o maior partido político de Portugal e uma organização imprescindível, política e militarmente, para estabilização do Estado e o início da consolidação democrática do País.”

    A REALIDADE E A HISTÓRIA NEGAM O PRECONCEITO

    Para ultrapassar as confusões que misturam os velhos preconceitos anti-comunistas com o que a história do 25 de Abril registrou como ação política e social do PCP, convém rever os documentos de Álvaro Cunhal (Obras Escolhidas, II volume, Edições Avante!) sobre a história daquele partido entre os anos 1947 e 1964 quando foi traçada a estratégia da ação comunista em Portugal para enfrentar e levar o povo a vencer o Governo fascista de Salazar. Impressiona hoje ver que a orientação ideológica que criou a organização do PCP e o traçado da estratégia de luta através de quatro décadas sob a liderança de Álvaro Cunhal, desde a sua juventude e quando ascendeu a Secretário-geral daquele partido, foi minuciosa no desenvolvimento de uma consciência popular para levar a população portuguesa a compreender a necessidade de unir esforços no sentido de derrubar a ditadura e o colonialismo, combater o fascismo e o imperialismo, fortalecer a produção e a independência nacional. O golpe só poderia ser militar para, segundo Álvaro Cunhal, vencer a força do Governo, mas deveria contar com o apoio das massas trabalhadoras organizadas em sindicatos e comissões e dos democratas de todos os matizes ideológicos que se uniam em campanhas eleitorais e em manifestações anti-fascistas. Só nessas condições o povo português poderia contar com o apoio internacional da ONU e do proletariado democrata e comunista de todo o mundo. Assim ocorreu o processo revolucionário revelado no dia 25 de Abril de 1974 e implantado no país nos primeiros cinco Governos em que o PCP participou.

    Em traços largos, em 1947 o PCP decidira superar os problemas internos que impediam uma ação integrada com a vida das massas trabalhadoras e que abrisse a possibilidade de caminhar na defesa da democracia contando com a participação de setores não comunistas mas que lutam pela independência nacional, pela melhoria das condições de vida no país para toda a população, e contra o fascismo. Neste sentido os militantes deveriam permanecer clandestinamente junto aos trabalhadores para conhecer melhor a realidade em  que viviam e difundir as formas de solidariedade do PCP apoiando as suas reivindicações fundamentais – o que foi feito com um meticuloso plano de organização regional para todo o país – e seriam estimuladas as iniciativas democráticas com reivindicações específicas dos setores militares, estudantis, das mulheres e dos sindicalistas contrários ao controle fascista imposto pelo Governo.

    Para promover a aliança organizada entre comunistas e democratas, foram formadas organizações democráticas como o MUD (Movimento unitário democrático), o MUD Juvenil e o MUNAF (Movimento de unidade nacional anti-fascista). Tiveram início várias greves de trabalhadores tanto nas cidades como nos campos, manifestações estudantis nas Universidades, lutas camponesas no Alentejo, com um número crescente de participantes inclusive monárquicos, católicos, democratas que se libertavam do cerco da ditadura. Segundo Álvaro Cunhal, não havia naquele momento uma força capaz de derrubar a ditadura e a palavra de ordem era “a unidade do povo forja-se na luta”.

    Ao mesmo tempo em que o PCP mergulhava em todos os problemas sociais de Portugal, dedicava-se ainda ao apoio à formação de quadros revolucionários, vindos das colónias, para a luta de independência dos seus respectivos países em África. A produção e divulgação de imprensa clandestina estabelecia um forte elo de ligação com a população, e a manutenção de contactos partidários internacionais com o apoio dos partidos irmãos e dos países socialistas permitia angariar formas de apoio e transmitir informações sobre a luta interna dos portugueses contra o fascismo durante a guerra e, depois, o imperialismo que o substituiu no relacionamento comercial e financeiro com Salazar.

    COERÊNCIA DO PCP COM O CAMINHO REVOLUCIONÁRIO

    Este caminho foi a origem do grande partido comunista que se revela logo nas primeiras horas do 25 de Abril de 1974 liderando o movimento sindical, que dará origem à Intersindical Nacional, os agrupamentos juvenis e movimentos democráticos unitários, tendo força para se impor ao novo governo constituído pelo Movimento das Forças Armadas levando adiante os planos de nacionalização da banca e de empresas fundamentais na economia portuguesa, da reforma agrária na zona do latifúndio e da defesa dos pequenos agricultores na zona do minifúndio e múltiplos aspectos de modernização cultural que alteraram de forma positiva o comportamento social liberto dos estreitos limites ditatoriais e puderam incentivar a adoção de critérios sociais mais comuns nos grandes países democráticos da Europa. Foram abertos novos caminhos que fundamentaram a reestruturação da educação e dos demais setores sociais do Estado com reflexos na comunicação social que passou a promover debates públicos sobre as questões nacionais. Nascia uma sociedade livre capaz de conduzir os novos destinos de Portugal sob a égide da democracia que sobrevive ainda hoje à destruição de conquistas revolucionárias alcançadas pelo 25 de Abril.

    A história clandestina que atravessou mais de quarenta anos sob terrível repressão assassina, criou o maior movimento político de Portugal com sólidas características revolucionárias e capacidade de participar (e liderar) as tendências democráticas das mais variadas origens ideológicas, que, unidas, enfraqueceram o poder fascista.

    Importante ainda é analisar os princípios básicos de organização revolucionária defendidos pelo PCP para corrigir os erros do passado. Álvaro Cunhal expõe com clareza os problemas de organização partidária derivados de comportamentos classificados como: oportunismo político - dos que confundem uma aliança política com a adesão a fórmulas que o inimigo aceita para dividir o partido - e o voluntarísmo - que envaidece o quadro político levando-o a decidir sozinho as ações do partido e impondo ao coletivo as suas idéias pessoais não discutidas.

    A ditadura de Salazar que durante a segunda grande guerra esteve ao lado de Hitler apoiando as forças fascistas de Franco, na Guerra Civil Espanhola, e fornecendo volfrâmio à Alemanha nazista produzido em Portugal, diplomaticamente aparentou neutralidade quando percebeu que a vitória seria dos aliados e dos exércitos comunistas do leste europeu. Nesse esforço camaleónico, aceite pelas forças imperialistas sobretudo inglesas e norte-americanas, mudou o seu discurso em sentido democratizado para confundir a população, sobretudo as camadas da burguesia que desejavam mudanças para poderem realizar os seus negócios sem os entraves da ditadura.

    No PCP surgiram vozes dissonantes que conduziram alguns quadros ao caminho da dissidência e outros que traíram infiltradas pelo inimigo no seio do partido. Também em outros agrupamentos, como o dos socialistas surgiu uma formação partidária em Portugal que caminhou no sentido da aliança com a ditadura para eleger os seus representantes no Parlamento, o que colidiu com os socialistas que se viram obrigados a emigrar para poderem formar um partido fora do país. Diante disto, os problemas de oportunismo e de voluntarísmo entre militantes era gravíssimo e minava dentro dos partidos a estratégia de luta unitária contra a ditadura.

    Durante o processo revolucionário de 1974, as divergências da extrema-esquerda com o PCP, habitualmente vinham destes dois desvios de conduta militante. Grupos novos liderados por intelectuais de esquerda sem a vivência popular de luta clandestina que o PCP detinha, facilmente propunham ações radicais que punham em causa as difíceis alianças com os setores sociais que apoiaram a derrubada da ditadura. Ao contrariá-los, o PCP era acusado de monolítico, burocrata e oportunista porque participava dos primeiros Governos e encaminhava gradualmente as reivindicações do povo mais desfavorecido.

    A pressa em realizar todas as conquistas no primeiro momento sempre aparece como uma característica “mais revolucionária” do grupo que a propõe do que o lento e seguro caminho que os comunistas aprenderam a seguir, tendo ao lado as demais forças democráticas actuantes. É uma crítica oportunista que Lenin já no seu tempo denominou “doença infantil do comunismo”.

    Muitas vezes brilhantes militantes entram neste caminho, por confiarem na sua capacidade teórica e de heroísmo pessoal mas que não terá seguidores ou causará enfrentamentos desnecessários com grandes riscos de esmagamento que atrasam o processo e sacrificam o povo. A criatividade de um militante tem mérito se subordinada a uma estratégia segura de luta partidária. Creio que esta matéria é do conhecimento geral, mas através dos anos e séculos, tem surgido para separar a extrema-esquerda em relação aos comunistas, sempre com prejuízo para a luta que deveria ser unida.

    EXTREMA-ESQUERDA SOMA-SE AO PS CONTRA O PCP

    Raquel Varela mostra-se surpreendida ao perceber que a política do PCP levou-o a perder controle sobre associações de trabalhadores (de duplo poder segundo a historiadora) para o PS e para a extrema-esquerda. Isto também ocorreu com cooperativas agrícolas porque a linha comunista não era favorável à distribuição dos lucros ou da terra que fomentava o individualismo entre os trabalhadores cuja força era social e garantida pela defesa do coletivo. O processo revolucionário leva muito tempo a ser preparado e mais ainda para ser consolidado.

    A única força política que não abandonou a estratégia de luta revolucionária, que não pretendeu caminhar distanciada das condições possíveis ao povo português, foi o PCP. Os antigos aliados tomaram rumos improvisados de acordo com interesses próprios e a formação teórica adotada ou os compromissos assumidos com o imperialismo. Os vários grupos radicais diferiam entre si não só por vínculos com outras estruturas políticas como pelas conhecidas infiltrações de direita.

    A luta do PS, em Portugal, pela liderança das massas, contou com o apoio do imperialismo tendo como força política europeia a Internacional Socialista e do anti-comunismo muito presente na cultura ocidental. As forças mais reacionárias aceitaram a vitória dos socialistas, conduzidos por Mário Soares para derrubar o Governo do Brigadeiro Vasco Gonçalves em 1975, destruindo as conquistas democráticas fundamentais no processo revolucionário (nacionalização da banca, intervenção em empresa de interesse do Estado, reforma agrária) e minou outros grupos democráticos com conceitos primários sobre o “perigo comunista” que assustavam a população dominada culturalmente por 50 anos de repressão e pobreza, com as lendas que atribuem aos comunistas características de monstros criminosos enquanto os socialistas afirmavam ter capacidade de tornar o sistema capitalista humanizado e democrático.

    Uma falsa acusação ao PCP, que se transformou em uma denúncia de Mário Soares a nível internacional, foi o “caso República” no sentido de “provar” que o PCP queria “acabar com a liberdade de imprensa”. Dividiu a população portuguesa (inclusive a de esquerda) alimentando uma infame campanha internacional que convenceu muitos partidos. Raquel Varela tem uma posição positiva, diferente da assumida por outros historiadores que deixam no ar a dúvida sobre a responsabilidade do PCP de conduzir a luta dos trabalhadores naquele jornal. Este foi o pretexto usado pelo PS e pelo PSD abandonarem o Governo de Vasco Gonçalves com todas as consequências que enfraqueceram a Revolução dos Cravos. A autora, no entanto, cita uma conversa de Melo Antunes com o primeiro-ministro britânico em 27/06/75, em que afirma “os comunistas foram de fato ultrapassados pelos trabalhadores, que foram mais para a esquerda”, o que revela ser de conhecimento geral que o PCP não era responsável pelo conflito.

    Em 1979, no quinto aniversário da reforma agrária comemorado com um Seminário Internacional pela Universidade Agrícola de Wageningen da Holanda, com a participação do Ministro da Agricultura holandês e professores de vários países da Europa e Estados Unidos, como Solon Barraclough da FAO, e representantes da CGTP e das UCP sobreviventes à destruição, o ex-ministro do PS, António Barreto foi duramente criticado publicamente por David Baytelman do Institut of Social Studies de Haia que conhecia a "sua tese universitária contra o capitalismo" e pelo reitor da Universidade de Oslo, Suécia, professor Herik Jacoby, "por ter sido responsável, no Ministério da Agricultura em Portugal, pela destruição do processo de reforma agrária". Barreto explicou que o fez “para evitar uma possível guerra civil ”, ao que o Reitor acrescentou: "que não houve, mas destruiu a justiça social da Revolução dos Cravos em Portugal".

    Este falso argumento da "possível guerra civil,"  foi usado no dia 20/04/14 por um dos ". capitães de Abril", Vasco Lourenço, em entrevista ao Canal 2 da RTP, para explicar a sua oposição aos comunistas que estiveram no Governo do então brigadeiro Vasco Gonçalves. Provavelmente referia-se às pressões imperialistas sobre o Governo de Mário Soares que a media europeia difundia, inventando confrontos e mortes no Alentejo, o que era desmentido pelos estudantes europeus que participavam na defesa das UCPs em Portugal e divulgavam a realidade em vários jornais de província na Holanda, Alemanha, França, Bélgica e com filmes produzidos pela britânica Thames Television.

    Ao nível das organizações de trabalhadores nas empresas e nas UCPs a conversa do PS não era tão tosca sobre o “perigo comunista” mas baseava-se na oferta imediata de compensações financeiras e ascensão socio-económica com a divisão dos lucros ou da terra e o caminho individualista que fratura a unidade de classe, ou seja, o oportunismo político usado quando fazem demagogia.

    A documentação analisada por Raquel Varela revela as dificuldades que o PCP enfrentou para manter a estratégia fundamental de luta adaptando-se à ação das demais forças que se haviam unido contra o poder da ditadura. Justamente a defesa dos princípios de uma organização revolucionária que preparou a mudança social com a participação de todas as forças, não apenas comunistas, desde a década de 40, foi vencida pela liderança que o PS exerceu apoiado pelo imperialismo americano e europeu e pelos preconceitos da extrema-esquerda com o seu habitual voluntarísmo.

    É importante distinguir as motivações diferentes entre a direção do PS e a sua própria base, assim como em relação à extrema-esquerda, na luta política e ideológica contra o PCP. No calor do processo de desenvolvimento político da Revolução dos Cravos, as competições pessoais e de grupos pela liderança popular foi permanente e poucas vezes houve a percepção de que poderiam prejudicar a estratégia ideológica que aparentemente era a mesma para toda a esquerda. Os preconceitos partidários eram estimulados e serviam de instrumento dogmático para os militantes que não tiveram maior conhecimento teórico do processo revolucionário que se consolida com respeito pelo tempo histórico necessário para conquistar a adesão dos democratas na defesa patriótica de um Portugal independente.

    As alterações que tais processos têm produzido em vários pontos do planeta constituem fundamentais pontos de apoio para a libertação mental da humanidade e a conquista de valores que se manifestam em abertura cultural, legislação e instituições sociais democráticos, combate à discriminação preconceituosa, respeito pela dignidade do cidadão e da nação.

    Não é por acaso que hoje, diante da crise que abala todo o sistema capitalista e abala o poder monopolista dos Bancos e instituições financeiras face à intransigência dos povos que já não aceitam passivamente que lhes “apertem o cinto” para salvar a elite capitalista, começa-se a ouvir na media (antes acérrima defensora da elite) e destacadas personalidades conservadoras  mas humanistas ( inclusive o Papa Francisco), críticas abertas ao sistema capitalista e às suas características criminosas que oprimem os povos.


    Zillah Branco
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