terça-feira, 19 de agosto de 2014

Costumes e hábitos modelam a cultura

Historicamente os costumes tradicionais no comportamento social são marcados pelo autoritarismo dos "senhores", feudais ou modernos, que determinam a submissão dos mais fracos. Numa escala determinada pelo poder do chefe da família, os dependentes, e especialmente as mulheres, nada decidiam em relação à própria vida. Sobre os que trabalhavam na produção do feudo o domínio era exercido por qualquer membro da família senhorial, inclusive pelas mulheres "donas".

Em cada família de trabalhadores reproduzia-se o mesmo escalonamento a partir do homem "chefe", relativo à propriedade de bens e direitos individuais.

O Estado também obedecia aos poderosos que nomeavam os responsáveis administrativos para que, por sua vez, impusessem com autoridade os seus próprios interesses e o da elite poderosa. O cidadão era o último a ter, ou não, os seus direitos atendidos.

Tal situação permaneceu como modelo cultural até os tempos modernos, traduzindo a submissão como modelo de "educação social", ou seja, comportamento "civilizado". É com orgulho que os mais frágeis mostram a sua "boa educação" de "respeito pelos seus superiores". Este modelo facilita em muito a imposição de uma disciplina ditada pelo poder, tanto a nível pessoal como de classe. Ditatorial.

Não é por acaso que hoje o sistema capitalista estabelece padrão de roupas, modos de comportamento social, linguagem, músicas, hábitos de vida, medicamentos, profissões, através da publicidade, para todos os cantos do planeta. O canal de escoamento dos produtos, o mercado, e o financeiro para a recolha do dinheiro, os bancos, têm mão única. As novas gerações vão sendo aperfeiçoadas como carneiros dóceis. As drogas corrigem os que parecem desobedientes. Os medicamentos produzem epidemias para reduzir o excesso de populações marginais. As guerras e invasões abrem caminho para que as riquezas nacionais entrem para o tesouro imperial. É uma ditadura mundial, mas tem os seus pés de barro que animam os que conservam a esperança e lutam pela mudança de sistema.

Estratos sociais dependentes

Nas sociedades sempre germinou a defesa da liberdade como reação à violência e a opressão exercidas contra o indivíduo, e, em segundo lugar,
contra o grupo social até chegar, no século 19, ao conhecimento da "classe explorada". As lutas pontuais se sucederam através dos séculos e as vitórias obtidas estimularam novas lutas em diferentes pontos do mundo. 

As formas de rebeldia foram sendo aplicadas para substituirem os chefes das sociedades, mas não a condição de dominação sobre os membros mais frágeis que sempre desconheciam a liberdade dentro das comunidades. A defesa individual impedia a compreensão de que só uma mudança na estrutura de poder poderia propiciar a liberdade coletiva. 

Os graves crimes cometidos pela elite contra pessoas, individualmente, despertaram o pensamento para filosofias humanitárias que estabeleciam normas de convívio social. As filosofias humanistas dão maior peso aos sacrifícios pessoais, alimentando a visão do sofrimento dos indivíduos e à sua defesa pessoal ou familiar, e não à necessária estratégia política de direitos das camadas sociais trabalhadoras que são sempre as mais pobres. 

O sistema capitalista prefere destacar as questões individuais - que não afetam o coletivo social - e adapta soluções precárias de previdência social ou sopa dos pobres que, em fase de crise social, mascaram as enormes diferenças de rendimento entre as classes fundamentais, permitindo que os desprotegidos sobrevivam e possam ainda dinamizar o mercado de consumo de onde são extraídos os lucros, sem deixar a sua condição social de pobreza relativa na sociedade e de dependência das concessões financeiras do Estado. 

Esta mesma precariedade vê-se na "suspensão de conflitos por razões humanitárias", mas deixando afastada a discussão sobre a validade dos propósitos que deram início às agressões. É apenas uma busca de caminhos diplomáticos para que o mais poderoso vença.

A prática da violência

A violência contra a mulher e as crianças, assim como contra os que são mais frágeis fisicamente, tem origem na Idade da Pedra. As culturas adotaram filosofias que definiram funções sociais tornando as mulheres apenas valorizadas como objeto e mão de obra braçal, merecedoras de proteção enquanto dependentes e escravizadas na família ou na sociedade em geral.

A luta pela igualdade de direitos da mulher e do homem tem sofrido distorções alimentadas pelo sistema capitalista que "paga mais pela função do objeto-mulher" e menos como trabalhadora profissional. Quem alimenta a cultura machista não são apenas os homens. Há interesses (conscientes ou inconscientes) de mulheres em manter a dependência em relação aos homens. Os velhos hábitos nem sempre são questionados e perpetuam através da formação cultural as discriminações que se pretende combater.

Estão presentes na educação familiar e no comportamento social costumes rígidos de subordinação ao "provedor de recursos" que impõe a sua vontade como lei. Mesmo quando a mulher consegue argumentar com o chefe da família e mostrar a conveniência de alterar a gestão e o relacionamento familiar, o porta-voz da nova conduta será sempre o homem para manter a disciplina formal do sistema de poder. O mesmo ocorre entre os governantes da sociedade e os seus conselheiros. 

Os abusos e crimes praticados contra as mulheres até o nosso tempo derivam da brutalidade, que é aceita no homem - devidos aos "direitos de posse" sobre pessoas e bens materiais que detém - e da cultura de "submissão" em que são formadas as mulheres. Também o mesmo ocorre a nível social onde os crimes são perdoados quando cometidos por importantes membros da elite.

Os poderosos sempre são julgados com benevolência. Um grande banqueiro em Portugal, que desviou grossas quantias de dinheiro dos depositantes para enriquecer a sua família, o que levou o Estado capitalista a fazer empréstimos para repor o que foi "roubado", foi considerado " imprudente na gestão" e "pouco ortodoxo" nas decisões. Se aplicassem os mesmos conceitos aos ladrões menores as prisões do país esvaziavam.

Crises sistêmicas e evolução da consciência social

As crises acentuam o processo de deterioração da democracia e acentuam o desespero das pessoas que sentem a "redução dos direitos de cidadania", devido ao enfraquecimento do Estado social. Ocorre o desequilíbrio social que só pode ser superado se os princípios do sistema socialista - igualdade, solidariedade, liberdade - forem mantidos como o caminho de luta permanente na formação cultural, educação familiar, direitos trabalhistas, serviço de saúde e ensino igual para todos.

A identificação entre o sistema dominante e o Estado, leva as populações a reconhecerem-se na dependência dos serviços e benefícios públicos para sobreviverem como se não houvesse outro caminho na vida. A privação dos meios de sobrevivência conduz ao desejo de fugir ao prolongado sofrimento causado pelas carências, seja através das drogas que entorpecem a consciência ou mesmo o suicídio.

O século 20 apresentou a alternativa do sistema socialista alcançada pela via revolucionária em 1917 na Rússia. As propostas teóricas formuladas no século anterior, de liberdade dos cidadãos e de substituição da elite governativa pela classe trabalhadora no poder deram origem ao modelo soviético que foi atacado de todas as maneiras pelos defensores do capitalismo. Das falsas informações veiculadas pelos meios de informação, incluindo a produção de livros escolares e teses universitárias, à perseguição cruel dos adeptos que se multiplicavam por todos os países e às duas grandes guerras mundiais iniciadas com o propósito de varrerem do planeta a ideia de uma sociedade socialista que respeitava a igualdade, a liberdade e a fraternidade dos seres humanos, teve início uma luta permanente liderada pela potência norte-americana. 

A elite capitalista elaborou pensamentos alternativos, como o da social-democracia humanizada, e elevou o nível de vida dos cidadãos nas sociedades mais ricas mantendo o domínio ditatorial dos donos do capital, para simular o ideal socialista sem revolução e sem guerras. Para vencer a iniciativa de Hitler na conquista da Europa, os aliados capitalistas precisaram pedir o apoio da Rússia socialista que perdeu 40 milhões de vidas até obter a vitória. Criaram a "cortina de ferro" entre os dois sistemas e mantiveram a espionagem e os ataques permanentes contra a URSS e os Partidos Comunistas criados em todo o mundo, demonizando-os através de todos os meios de informação social para modelar a consciência dos submissos. 

Neste processo sem tréguas minaram o poder soviético que ruiu, depois de ter apoiado a humanidade nas iniciativas de conquistar a autonomia de suas nações e a consciência de cidadania livre de todos os povos durante oito décadas. A sobrevivência das nações socialistas - China, Cuba, Vietnã, Coreia Popular e Laos - e dos Partidos Comunistas, guardou a semente de um sistema que obriga a elite capitalista poderosa no planeta a cumprir princípios humanistas estabelecidos como Direitos Humanos pela ONU para sobreviver às crises internas e manter algum equilíbrio com as populações oprimidas. A história mundial mostra que a consciência de cidadania, que deriva da compreensão dos direitos de liberdade, igualdade e fraternidade de todos os seres humanos, que cabe aos Estados assegurar, alastra-se sobretudo pelas regiões em processo de desenvolvimento ou luta pela autonomia nacional. 

Este processo é imparável e conquista povos em luta no mundo sub-desenvolvido e estudiosos honestos nos países ricos. A globalização que favorece o domínio econômico e político do sistema capitalista tem a sua face oposta, de intercâmbio de conhecimento com os que praticam os verdadeiros princípios socialistas e lutam pelo desenvolvimento contra a exploração capitalista. 

A publicidade de uma versão demoníaca de um processo revolucionário que liberta os cidadãos começa a ser ridícula para os que, defendendo o capitalismo, se preocupam em conhecer a realidade do mundo atual. Mesmo pessoas de formação conservadora capitalista não querem hoje parecer coniventes com os crimes praticados pelas elites que desviam os recursos públicos para satisfazerem as suas mesquinhas ambições e a sua incompetência na gestão financeira condenando o povo aos sofrimentos e à morte.

Os lideres nacionais escolhidos pelo poder imperialista têm sido preparados para parecerem democratas. Obama, por ser negro e falar como um democrata atraiu grande parte da população mundial que conserva a esperança de transformação social. Desmoralizou-se ao deixar cair a máscara diante do Prêmio Nobel da Paz, com a sua declaração de "guerra justa". O mesmo aconteceu com lideres trabalhistas na Inglaterra e sociais-democratas em várias nações europeias, como Mário Soares em Portugal, ao revelarem que são conduzidos pelos cordelinhos norte-americanos. Até o Vaticano teve necessidade de eleger um Papa capaz de denunciar as injustiças do sistema capitalista que os comunistas sempre denunciaram. 

A balança capitalista vai pendendo para a esquerda e obriga a direita a fazer concessões, pelo menos na linguagem, que apontam as medidas socialistas como as mais corretas. Mentem, na maioria das vezes, deixando a filosofia humanista para os discursos enquanto legislam e cortam os salários do povo como os velhos ditadores fascistas. Não se preocupam com a triste figura de indignidade humana que representam nos altos cargos nacionais e internacionais. São bem pagos para isso, e basta. Mas, devagar, a história abre caminho para os que lutam e enfrentam sacrifícios para dignificar a vida humana liderarem a revolução necessária.

O sistema capitalista impõe o modelo que convém à sua perpetuação

A implantação de um sistema socialista como foi o soviético durante oito décadas difundiu os princípios de liberdade dos seres humanos e das nações. O poder capitalista foi obrigado a adaptar-se concedendo autonomia aos povos que lutaram pela independência nacional e aos setores sociais que levantaram as bandeiras de luta por direitos trabalhistas e de cidadania. A cedência aos direitos humanos e dos trabalhadores é definida através das leis e das instituições sociais dos Estados (que podem vir a ser suspensos se o povo não exigir).

Como ocorre na suspensão de conflitos que ameaçam o poder pessoal, nacional ou do sistema mais forte, novos caminhos de afirmação foram encontrados pela elite capitalista, como o da informação global controlada e da formação cultural que molda a conduta das novas gerações. Gradualmente os meios de comunicação foram sendo transformados em agentes do sistema para fomentar novas mentalidades passivas diante das ofertas tanto de produtos como de idéias. 

Outra forma de manipulação foi a adaptação ao gosto tradicional popular - futebol ou outros jogos, músicas, literatura etc. - simplificados ou mesmo empobrecidos e repetitivos, investindo em modelos e formas de dependência que limitam a criatividade das pessoas forçadas a um nível subalterno considerado como "opinião pública". Os grandes eventos mundiais tornaram-se palcos de um sistema de mega-corrupção que corresponde aos encontros dos líderes do imperialismo exibindo uma cascata de dinheiro na apresentação visual e um mar de lama mental.

Faz parte do funcionamento do sistema capitalista a corrupção que elimina a força dos princípios éticos, que estão na base da consciência de cidadania e do sistema socialista relativos à liberdade e ao desenvolvimento da classe trabalhadora construtora da produção e do crescimento da economia nacional em beneficio de toda a sociedade e não só de uma elite governante. Promovem o enriquecimento dos que de alguma forma demonstram capacidade para inovar ou liderar na vida social e política separando-os da sua classe. Esta é a situação da nova classe média que, apesar da falta de preparo profissional, vai sendo absorvida no setor de serviços para escapar ao trabalho indiferenciado que é braçal. Logo se comportam e vestem segundo o modelo dos chefes e abandonam os hábitos dos operários.

Qualquer máscara sobreposta à realidade social impede a união dos cidadãos em defesa dos interesses coletivos e nacionais. E o resultado será sempre em benefício da perpetuação do poder de uma elite exploradora e ditatorial.Publicado nos portais: Vermelho do Brasil, e Liberdade da Galiza



Historicamente os costumes tradicionais no comportamento social são marcados pelo autoritarismo dos "senhores", feudais ou modernos, que determinam a submissão dos mais fracos. Numa escala determinada pelo poder do chefe da família, os dependentes, e especialmente as mulheres, nada decidiam em relação à própria vida. Sobre os que trabalhavam na produção do feudo o domínio era exercido por qualquer membro da família senhorial, inclusive pelas mulheres "donas".

Em cada família de trabalhadores reproduzia-se o mesmo escalonamento a partir do homem "chefe", relativo à propriedade de bens e direitos individuais.

O Estado também obedecia aos poderosos que nomeavam os responsáveis administrativos para que, por sua vez, impusessem com autoridade os seus próprios interesses e o da elite poderosa. O cidadão era o último a ter, ou não, os seus direitos atendidos.

Tal situação permaneceu como modelo cultural até os tempos modernos, traduzindo a submissão como modelo de "educação social", ou seja, comportamento "civilizado". É com orgulho que os mais frágeis mostram a sua "boa educação" de "respeito pelos seus superiores". Este modelo facilita em muito a imposição de uma disciplina ditada pelo poder, tanto a nível pessoal como de classe. Ditatorial.

Não é por acaso que hoje o sistema capitalista estabelece padrão de roupas, modos de comportamento social, linguagem, músicas, hábitos de vida, medicamentos, profissões, através da publicidade, para todos os cantos do planeta. O canal de escoamento dos produtos, o mercado, e o financeiro para a recolha do dinheiro, os bancos, têm mão única. As novas gerações vão sendo aperfeiçoadas como carneiros dóceis. As drogas corrigem os que parecem desobedientes. Os medicamentos produzem epidemias para reduzir o excesso de populações marginais. As guerras e invasões abrem caminho para que as riquezas nacionais entrem para o tesouro imperial. É uma ditadura mundial, mas tem os seus pés de barro que animam os que conservam a esperança e lutam pela mudança de sistema.

Estratos sociais dependentes

Nas sociedades sempre germinou a defesa da liberdade como reação à violência e a opressão exercidas contra o indivíduo, e, em segundo lugar,
contra o grupo social até chegar, no século 19, ao conhecimento da "classe explorada". As lutas pontuais se sucederam através dos séculos e as vitórias obtidas estimularam novas lutas em diferentes pontos do mundo. 

As formas de rebeldia foram sendo aplicadas para substituirem os chefes das sociedades, mas não a condição de dominação sobre os membros mais frágeis que sempre desconheciam a liberdade dentro das comunidades. A defesa individual impedia a compreensão de que só uma mudança na estrutura de poder poderia propiciar a liberdade coletiva. 

Os graves crimes cometidos pela elite contra pessoas, individualmente, despertaram o pensamento para filosofias humanitárias que estabeleciam normas de convívio social. As filosofias humanistas dão maior peso aos sacrifícios pessoais, alimentando a visão do sofrimento dos indivíduos e à sua defesa pessoal ou familiar, e não à necessária estratégia política de direitos das camadas sociais trabalhadoras que são sempre as mais pobres. 

O sistema capitalista prefere destacar as questões individuais - que não afetam o coletivo social - e adapta soluções precárias de previdência social ou sopa dos pobres que, em fase de crise social, mascaram as enormes diferenças de rendimento entre as classes fundamentais, permitindo que os desprotegidos sobrevivam e possam ainda dinamizar o mercado de consumo de onde são extraídos os lucros, sem deixar a sua condição social de pobreza relativa na sociedade e de dependência das concessões financeiras do Estado. 

Esta mesma precariedade vê-se na "suspensão de conflitos por razões humanitárias", mas deixando afastada a discussão sobre a validade dos propósitos que deram início às agressões. É apenas uma busca de caminhos diplomáticos para que o mais poderoso vença.

A prática da violência

A violência contra a mulher e as crianças, assim como contra os que são mais frágeis fisicamente, tem origem na Idade da Pedra. As culturas adotaram filosofias que definiram funções sociais tornando as mulheres apenas valorizadas como objeto e mão de obra braçal, merecedoras de proteção enquanto dependentes e escravizadas na família ou na sociedade em geral.

A luta pela igualdade de direitos da mulher e do homem tem sofrido distorções alimentadas pelo sistema capitalista que "paga mais pela função do objeto-mulher" e menos como trabalhadora profissional. Quem alimenta a cultura machista não são apenas os homens. Há interesses (conscientes ou inconscientes) de mulheres em manter a dependência em relação aos homens. Os velhos hábitos nem sempre são questionados e perpetuam através da formação cultural as discriminações que se pretende combater.

Estão presentes na educação familiar e no comportamento social costumes rígidos de subordinação ao "provedor de recursos" que impõe a sua vontade como lei. Mesmo quando a mulher consegue argumentar com o chefe da família e mostrar a conveniência de alterar a gestão e o relacionamento familiar, o porta-voz da nova conduta será sempre o homem para manter a disciplina formal do sistema de poder. O mesmo ocorre entre os governantes da sociedade e os seus conselheiros. 

Os abusos e crimes praticados contra as mulheres até o nosso tempo derivam da brutalidade, que é aceita no homem - devidos aos "direitos de posse" sobre pessoas e bens materiais que detém - e da cultura de "submissão" em que são formadas as mulheres. Também o mesmo ocorre a nível social onde os crimes são perdoados quando cometidos por importantes membros da elite.

Os poderosos sempre são julgados com benevolência. Um grande banqueiro em Portugal, que desviou grossas quantias de dinheiro dos depositantes para enriquecer a sua família, o que levou o Estado capitalista a fazer empréstimos para repor o que foi "roubado", foi considerado " imprudente na gestão" e "pouco ortodoxo" nas decisões. Se aplicassem os mesmos conceitos aos ladrões menores as prisões do país esvaziavam.

Crises sistêmicas e evolução da consciência social

As crises acentuam o processo de deterioração da democracia e acentuam o desespero das pessoas que sentem a "redução dos direitos de cidadania", devido ao enfraquecimento do Estado social. Ocorre o desequilíbrio social que só pode ser superado se os princípios do sistema socialista - igualdade, solidariedade, liberdade - forem mantidos como o caminho de luta permanente na formação cultural, educação familiar, direitos trabalhistas, serviço de saúde e ensino igual para todos.

A identificação entre o sistema dominante e o Estado, leva as populações a reconhecerem-se na dependência dos serviços e benefícios públicos para sobreviverem como se não houvesse outro caminho na vida. A privação dos meios de sobrevivência conduz ao desejo de fugir ao prolongado sofrimento causado pelas carências, seja através das drogas que entorpecem a consciência ou mesmo o suicídio.

O século 20 apresentou a alternativa do sistema socialista alcançada pela via revolucionária em 1917 na Rússia. As propostas teóricas formuladas no século anterior, de liberdade dos cidadãos e de substituição da elite governativa pela classe trabalhadora no poder deram origem ao modelo soviético que foi atacado de todas as maneiras pelos defensores do capitalismo. Das falsas informações veiculadas pelos meios de informação, incluindo a produção de livros escolares e teses universitárias, à perseguição cruel dos adeptos que se multiplicavam por todos os países e às duas grandes guerras mundiais iniciadas com o propósito de varrerem do planeta a ideia de uma sociedade socialista que respeitava a igualdade, a liberdade e a fraternidade dos seres humanos, teve início uma luta permanente liderada pela potência norte-americana. 

A elite capitalista elaborou pensamentos alternativos, como o da social-democracia humanizada, e elevou o nível de vida dos cidadãos nas sociedades mais ricas mantendo o domínio ditatorial dos donos do capital, para simular o ideal socialista sem revolução e sem guerras. Para vencer a iniciativa de Hitler na conquista da Europa, os aliados capitalistas precisaram pedir o apoio da Rússia socialista que perdeu 40 milhões de vidas até obter a vitória. Criaram a "cortina de ferro" entre os dois sistemas e mantiveram a espionagem e os ataques permanentes contra a URSS e os Partidos Comunistas criados em todo o mundo, demonizando-os através de todos os meios de informação social para modelar a consciência dos submissos. 

Neste processo sem tréguas minaram o poder soviético que ruiu, depois de ter apoiado a humanidade nas iniciativas de conquistar a autonomia de suas nações e a consciência de cidadania livre de todos os povos durante oito décadas. A sobrevivência das nações socialistas - China, Cuba, Vietnã, Coreia Popular e Laos - e dos Partidos Comunistas, guardou a semente de um sistema que obriga a elite capitalista poderosa no planeta a cumprir princípios humanistas estabelecidos como Direitos Humanos pela ONU para sobreviver às crises internas e manter algum equilíbrio com as populações oprimidas. A história mundial mostra que a consciência de cidadania, que deriva da compreensão dos direitos de liberdade, igualdade e fraternidade de todos os seres humanos, que cabe aos Estados assegurar, alastra-se sobretudo pelas regiões em processo de desenvolvimento ou luta pela autonomia nacional. 

Este processo é imparável e conquista povos em luta no mundo sub-desenvolvido e estudiosos honestos nos países ricos. A globalização que favorece o domínio econômico e político do sistema capitalista tem a sua face oposta, de intercâmbio de conhecimento com os que praticam os verdadeiros princípios socialistas e lutam pelo desenvolvimento contra a exploração capitalista. 

A publicidade de uma versão demoníaca de um processo revolucionário que liberta os cidadãos começa a ser ridícula para os que, defendendo o capitalismo, se preocupam em conhecer a realidade do mundo atual. Mesmo pessoas de formação conservadora capitalista não querem hoje parecer coniventes com os crimes praticados pelas elites que desviam os recursos públicos para satisfazerem as suas mesquinhas ambições e a sua incompetência na gestão financeira condenando o povo aos sofrimentos e à morte.

Os lideres nacionais escolhidos pelo poder imperialista têm sido preparados para parecerem democratas. Obama, por ser negro e falar como um democrata atraiu grande parte da população mundial que conserva a esperança de transformação social. Desmoralizou-se ao deixar cair a máscara diante do Prêmio Nobel da Paz, com a sua declaração de "guerra justa". O mesmo aconteceu com lideres trabalhistas na Inglaterra e sociais-democratas em várias nações europeias, como Mário Soares em Portugal, ao revelarem que são conduzidos pelos cordelinhos norte-americanos. Até o Vaticano teve necessidade de eleger um Papa capaz de denunciar as injustiças do sistema capitalista que os comunistas sempre denunciaram. 

A balança capitalista vai pendendo para a esquerda e obriga a direita a fazer concessões, pelo menos na linguagem, que apontam as medidas socialistas como as mais corretas. Mentem, na maioria das vezes, deixando a filosofia humanista para os discursos enquanto legislam e cortam os salários do povo como os velhos ditadores fascistas. Não se preocupam com a triste figura de indignidade humana que representam nos altos cargos nacionais e internacionais. São bem pagos para isso, e basta. Mas, devagar, a história abre caminho para os que lutam e enfrentam sacrifícios para dignificar a vida humana liderarem a revolução necessária.

O sistema capitalista impõe o modelo que convém à sua perpetuação

A implantação de um sistema socialista como foi o soviético durante oito décadas difundiu os princípios de liberdade dos seres humanos e das nações. O poder capitalista foi obrigado a adaptar-se concedendo autonomia aos povos que lutaram pela independência nacional e aos setores sociais que levantaram as bandeiras de luta por direitos trabalhistas e de cidadania. A cedência aos direitos humanos e dos trabalhadores é definida através das leis e das instituições sociais dos Estados (que podem vir a ser suspensos se o povo não exigir).

Como ocorre na suspensão de conflitos que ameaçam o poder pessoal, nacional ou do sistema mais forte, novos caminhos de afirmação foram encontrados pela elite capitalista, como o da informação global controlada e da formação cultural que molda a conduta das novas gerações. Gradualmente os meios de comunicação foram sendo transformados em agentes do sistema para fomentar novas mentalidades passivas diante das ofertas tanto de produtos como de idéias. 

Outra forma de manipulação foi a adaptação ao gosto tradicional popular - futebol ou outros jogos, músicas, literatura etc. - simplificados ou mesmo empobrecidos e repetitivos, investindo em modelos e formas de dependência que limitam a criatividade das pessoas forçadas a um nível subalterno considerado como "opinião pública". Os grandes eventos mundiais tornaram-se palcos de um sistema de mega-corrupção que corresponde aos encontros dos líderes do imperialismo exibindo uma cascata de dinheiro na apresentação visual e um mar de lama mental.

Faz parte do funcionamento do sistema capitalista a corrupção que elimina a força dos princípios éticos, que estão na base da consciência de cidadania e do sistema socialista relativos à liberdade e ao desenvolvimento da classe trabalhadora construtora da produção e do crescimento da economia nacional em beneficio de toda a sociedade e não só de uma elite governante. Promovem o enriquecimento dos que de alguma forma demonstram capacidade para inovar ou liderar na vida social e política separando-os da sua classe. Esta é a situação da nova classe média que, apesar da falta de preparo profissional, vai sendo absorvida no setor de serviços para escapar ao trabalho indiferenciado que é braçal. Logo se comportam e vestem segundo o modelo dos chefes e abandonam os hábitos dos operários.

Qualquer máscara sobreposta à realidade social impede a união dos cidadãos em defesa dos interesses coletivos e nacionais. E o resultado será sempre em benefício da perpetuação do poder de uma elite exploradora e ditatorial.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Israel leva o holocausto à Palestina

Zillah Branco
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No caminho

Israel leva o holocausto à Palestina

Zillah Branco - Publicado em Quinta, 31 Julho 2014 10:45
Diário Liberdade da Galiza
Uma falsa tradução do que disse o ex-Presidente Ahmadinejad, do Irão, ha alguns anos, de que "o holocausto não existiu no território árabe, mas sim na Europa", (como se tivesse dito que não houve o holocausto fascista), foi utilizada por Israel e os imperialistas em geral, para comover a opinião pública mundial, através da media submissa, e refazer a imagem da vitimização semita omitindo os milhões de russos e comunistas de várias nações que foram mortos nos campos de concentração nazistas.


Com esta habilidade cínica dos dirigentes de Israel, que ocupam territórios do Estado Palestino tratando-os como terroristas, e não com a dignidade de um povo, conduzem-no à miséria que aumenta com o enriquecimento de uma elite no poder centralizado pela globalização a comando do sistema imperialista. Afirmam-se na condição racista de povo eleito e eliminam do mapa, nos livros escolares, os limites dos territórios reconhecidos pela ONU de povos não judeus.
Netaniahu, que dirige o Governo de Israel hoje, refere o bombardeio ao Hamas e não ao Estado Palestino, dizendo que os "terroristas" usam a população civil como "escudo". Passivamente os dirigentes dos Estados Unidos e da ONU aceitam esta linguagem que deturpa a história e a geografia política e aceitam o falso pretexto da auto-defesa do imperdoável agressor, ele sim um terrorista que desonra a humanidade com a sua perfídia.
Israel, encarregou-se de trazer o holocausto para o Oriente Médio, com os ataque contínuos aos palestinos que vivem cercados de muros como um vasto Campo de Concentração. Desrespeitam a memória dos 20 milhões de prisioneiros, dos quais 6 milhões eram judeus, foram imolados por Hitler e seus colaboradores nazistas. Aplicam os ensinamentos nazistas que pareciam banidos do concerto de nações representadas na ONU.
E os líderes Sociais-democratas e liberais, das grandes Nações que se reúnem na ONU assistem tranquilos, isto é, coniventes. As populações de todo o planeta rejeitam os crimes e as falsidades políticas dos que se consideram donos do Poder.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

"Do nosso Mundo sabemos menos do que urge saber",

“Do nosso Mundo sabemos menos do que urge saber”,
parodiando o herói cubano José Martí



Esta frase permanece de grande atualidade e o seu sentido profundo aplica-se a todos os países onde os povos vivem dentro das condições impostas pelo imperialismo e são levados a pensar informados pelos meios de comunicação que selecionam os temas manipulados pela estratégia do centro de poder do sistema dominante.

O noticiário divulgado pela mídia internacional alterna agressões à populações civis de nações fragilizadas políticamente pela ação divisionista provocada por forças externas de quem cobiça as riquezas naturais daqueles territórios ou a sua situação geo-estratégica, com a exibição de competições desportivas e a ostentação de riquezas ao alcance apenas de uma elite ao serviço do poder imperial. Alimenta o individualismo, a desagregação das comunidades, a ação egoísta sem vínculo ao interesse coletivo nacional, a ambição pela riqueza material e o desprezo pelos valores éticos da humanidade.

Com o uso desta técnica de controle cultural, que desde a Grande Guerra foi elaborada minuciosamente com os condimentos herdados dos regimes fascistas e das tradicionais monarquias combinados com uma cobertura republicana de feição democrática, criaram um pensamento único de modernidade capitalista na Europa, para servir de obstáculo à liberdade revolucionária construída com o socialismo na União Soviética que inspirou movimentos de independência nos países colonizados.

A velha "manipulação"

Nos países considerados desenvolvidos - que desempenharam papéis históricos de navegadores intrépidos ao abrirem rotas para os colonizadores e as nascentes empresas de comercialização mundial que espoliaram as riquezas dos povos do Novo Mundo e escravizaram os nativos considerados sub-humanos - teve início uma estratégia financeira de uma burguesia que sustentava as monarquias e a usava como ponta de lança nas guerras internas e de conquista de espaços mundiais que deu origem à delimitação dos atuais territórios nacionais.

A iniciativa de expansão fascista de Hitler contou com o apoio de ditadores como Mussoline, Salazar e Franco - que consolidaram os seus poderes com base na estrutura criada por movimentos republicanos expulsando da participação política os pensadores socialistas inspirados no ideário da Revolução Francesa de criação de um Estado democrático que atendesse às necessidades do povo considerado "cidadão".

Constituiu-se o grupo de "aliados" com o objetivo de impedir a anexação das repúblicas existentes em regime democrático, o qual recorreu aos monarcas destronados pelos ditadores como forças mediadoras nos seus países com a face democrática necessária para atenuar o autoritarismo anti-popular dos povos que serviam como soldados na luta "anti-fascista" continental.

O poderio de Hitler era militarmente superior e os "aliados", assessorados pelos Estados Unidos, viram-se forçados a recorrer ao decisivo apoio da União Soviética, apesar de considerá-la inimiga, para vencer a ameaça no interior do continente europeu.

A programação de uma cultura "útil"

Com a subtil "guerra fria", em que os meios de comunicação e as reformas sociais democráticas mascararam o caminho imperialista dominante nos países mais ricos, os "modelos de pensamento" foram inoculados na cultura mundial com apoio do sistema de ensino e investigação em institutos superiores. Surgiu uma geração "GPS" selecionada para cargos públicos ou políticos como se tivesse origem em "chocadeiras apátridas". A cúpula do poder imperial, que antes da queda da URSS aparentemente se situava nos Estados Unidos, tornou-se também sediada no Clube Bilderberg, com moeda própria e aparente autonomia da União Europeia. As casas reais continuam a aperfeiçoar a sua condição de mediadora com a nova geração de príncipes agora formada em academias militares e de formação empresarial superior norte-americanas, que substitui a desgastada que permaneceu dependente do modelo já superado historicamente.

A programação dos "GPS" delimita a informação social que anuncia guerras "necessárias" como diz Obama ao receber o Prêmio Nobel da Paz, assim como anima as populações com movimentos conflituosos com títulos florais como "Primavera Árabe" para se contrapor à Revolução dos Cravos, intercalados por mega-promoções desportivas ou turísticas que dinamizam a circulação financeira e absorvem a atenção popular nos momentos de insucesso bélico.

Existe uma alternativa

Impõe-se um pensamento objetivo sobre as realidades concretas que em cada nação aponta para a construção (e não a destruição) da humanidade e os seus valores éticos.

José Reinaldo Carvalho, dirigente comunista brasileiro escreveu (Portal Vermelho 20/06/14) : "Conta-nos a prestigiosa agência noticiosa cubana Prensa Latina, (...) que intelectuais de todo o continente americano participam desde a última terça-feira (17) no colóquio internacional “O Anti-imperialismo Latino-americano, Discursos e Práticas”, na capital da Nicarágua. O objetivo é discutir sobre as novas iniciativas de autonomia latino-americana que mostram a atualidade da ideia do anti-imperialismo na região. O evento tem a chancela da Universidade Católica Redemptoris Máter, de Manágua, e do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso), além de outras instituições.

A atual conjuntura internacional, carregada de ameaças à paz e à autodeterminação dos povos, é propícia para novas reflexões, o intercâmbio de ideias e análises em torno da questão do imperialismo e do anti-imperialismo, como categorias e práticas sociais e políticas sempre presentes nos debates e na luta de ideias, o que, nas condições em que se desenvolvem as lutas dos povos latino-americanos, assume proeminência na região.(...)

Temas em destaque, como o exercício da hegemonia estadunidense nas novas condições em que esta potência declina historicamente e se defronta com uma realidade em que emergem outros polos de poder geopolítico, merecem a atenção no evento nicaraguense, enriquecendo o debate sobre o anti-imperialismo na América Latina.

A tendência principal em nossa região continua sendo a do aprofundamento das conquistas democráticas e patrióticas que se sucedem às vitórias eleitorais das forças progressistas em muitos países. Igualmente, avança a integração de países e povos soberanos, com a criação da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos, a Celac, que contraria os interesses do imperialismo norte-americano na região e provoca reações de tipo intervencionista, tentativas de golpe, fomento à contrarrevolução, cerco econômico e político, como se faz atualmente contra a Venezuela bolivariana".

"Do nosso planeta sabemos menos do que urge saber"

Nos países europeus multiplicam-se as manifestações populares contra os "governos apátridas de turno" que impõem a austeridade que miserabiliza a população para pagar uma dívida criada pelo sistema financeiro multinacional e destrói as forças produtivas e o património nacionais em benefício de um "governo mundial". Crescem as adesões de personalidades democratas e patriotas de várias origens partidárias e religiosas. É visível a falência ética da União Europeia confrontada com a CELAC que, na América Latina, defende a autonomia e o desenvolvimento dos países que a compõem.

Pesem as pressões e múltiplos obstáculos, a História é realizada pelos trabalhadores e suas famílias e a liberdade de pensamento abre o caminho para a evolução dos povos.

Zillah Branco

sábado, 7 de junho de 2014

O caminho revolucionário que Abril abriu

O desmoronamento da URSS e de vários países do bloco socialista fez com que os actuais países com meta socialista – China, Laos, Vietname, Coreia do Norte e Cuba – procurassem nas suas condições históricas e filosóficas de resistência permanente às formas de domínio imperial o esteio para prosseguir a luta pela autonomia nacional dentro das condições adversas do sistema capitalista.

A destruição das potencialidades de desenvolvimento económico autónomo dos países subdesenvolvidos pelo domínio colonialista e imperialista despertou as nações latino-americanas para a necessidade de construir a independência política. O conhecimento de cada realidade nacional aponta o caminho de libertação inspirado naqueles que sobreviveram às pressões externas dos predadores.
Perdeu-se o apoio de uma potência socialista – a URSS – que enfrentava frontalmente a sua opositora capitalista – os EUA – que representava a ponta de lança do imperialismo, e continuaram a suportar a pressão que vinha de séculos de atraso e miséria herdados do colonialismo. Aquelas nações foram mantidas em situação de pobreza extrema como as demais dos continentes da América Latina, Ásia e África, infiltradas por espiões e provocadores de distúrbios internos, recebendo a título de informação e cultura um lixo selecionado pela grandes empresas de comunicação social, espoliados nos valores de seus produtos e mão de obra exportados.
Tanto a cultura milenar do Oriente como o sofrimento secular dos países subdesenvolvidos ensinaram aos povos a arte da guerrilha e a conscientização das massas para criar um substrato resistente capaz de suportar as dificuldades de vida, impostas pelas elites dominantes, sem
abandonar a formação do ser humano e o preparo revolucionário para emergir diante do inimigo quando em crise sistémica. As oito décadas de existência de uma potência socialista serviu de suporte ao acesso a uma cultura moderna sem a censura da elite capitalista para que o mundo
subdesenvolvido desenvolvesse as bases do seu conhecimento da realidade e a consciência de um caminho revolucionário.
A colonização europeia iniciada no século XVI foi seguida pelo neocolonialismo quando surgiram movimentos de independência nas nações dominadas, e modernizada pelo neocapitalismo de versão democrática dentro do espartilho do imperialismo tendo como instrumentos o Banco Mundial e o FMI. Estes processos mantiveram os países subdesenvolvidos da América Latina, África e Ásia afogados na pobreza e na dependência política e económica de um sistema hostil à humanidade, que era considerado «civilizado e cristão» por ter institucionalizado as fontes do saber científico e religioso nas suas nações ricas do Ocidente que sugava as riquezas das colónias.
Os «impérios colonizadores» fizeram tábua rasa das nações dominadas, sem reconhecer as culturas milenares do Oriente e de povos nativos na África e no continente americano para dizimá-los e escravizá-los como se fossem animais. Obtiveram grandes lucros com o comércio de seres humanos
espalhados por todo o mundo, espoliaram os seus patrimónios, apropriaram-se dos seus conhecimentos, esmagaram as suas culturas e crenças impondo o modelo institucionalizado nas universidades e igrejas, a ferro e fogo.
Aos povos que resistiram com a força das suas comunidades introduziram, sob a via das acções caritativas, as doenças contagiosas e as drogas como vírus sociais – varíola na América e ópio no Oriente. Bem conhecida ficou a Guerra do Ópio entre a China e o Império Britânico no século XIX. Durante o século XX as experiências com produtos abortivos misturados ao leite em pó doado a populações famintas no Brasil, ou que provocavam várias doenças neurológicas através do abastecimento de água, foi denunciado por Fred Kennedy pouco antes de ser assassinado nos EU. As redes internacionais de droga assim como as formas mais variadas de corrupção de membros de
estados para manter o poder imperial dominante são uma constante na vigência do sistema capitalista. 
Sementes 
Hoje ficamos surpreendidos com o crescimento da violência na sociedade, da destruição dos valores humanistas, da unidade das famílias, dos processos não concluídos contra altas personalidades que roubam milhões ao Estado, com o apagamento da responsabilidade de mortes ocorridas nas praxes académicas, com a utilização de cobaias humanas por famosos laboratórios farmacêuticos, e tantas torturas mentais e físicas praticadas impunemente. Mas isto sempre ocorreu durante a história do sistema capitalista desde a sua origem colonialista.
A experiência socialista europeia sucumbiu ao poder capitalista, mas deixou sementes nos países que souberam resistir adaptados à sua história de pobreza gerida com integridade e convicção nos próprios valores éticos e de independência. Os BRIC convivem com o sistema adverso por caminhos diferentes que a história legou a cada um. A participação popular é fortalecida na consciência da sua responsabilidade para enfrentar a luta ou aceitar a escravidão. Os caminhos contornam os obstáculos desgastando as pressões que se multiplicam sem perder de vista o rumo da liberdade.
Em Portugal, a Revolução de Abril teve as suas raízes na luta clandestina popular durante o período da ditadura fascista. Ao contrário de outras nações empobrecidas da Europa que também exerceram o poder colonial como pontas de lança sob controle do domínio imperialista britânico, desenvolveu-se uma consciência cidadã entre os trabalhadores, a intelectualidade e as forças militares, que teve por meta a independência, o fortalecimento autónomo das forças produtivas e a defesa intransigente dos valores e do património nacional. A ambição de uma elite capitalista que participou daquele processo revolucionário através do golpe militar e de uma rápida adesão política às estruturas de poder recém formadas para conduzir o País, serviu de fio condutor para que o imperialismo lançasse os seus «vírus» para transformar o processo revolucionário numa modernização subordinada ao
centro económico e militar da Europa.
O governo de Vasco Gonçalves, no qual participou o PCP com apoio do movimento sindical e das forças democráticas de ampla abrangência ideológica e religiosa, tomou as medidas basilares para uma transformação revolucionária nacional: fim do domínio colonial, nacionalização da banca e das empresas públicas a favor do património nacional, combate ao monopólio privado dos factores de produção, sobretudo latifúndios e riquezas naturais, que deveriam ser organizados tendo em vista a ocupação da mão-de-obra existente, a investigação científica e tecnológica, a produção dos alimentos e bens indispensáveis à toda a população e à exportação.
Estavam lançadas as bases para que fosse criada uma economia e organizada uma sociedade com autonomia e liberdade de consciência de cidadania, bases para um país afirmar a sua independência perante as outras nações e aperfeiçoar as condições de vida do seu povo. Os insidiosos preconceitos anticomunistas e contra-revolucionários promovidos por elites externas e internas, que perderiam a soberania sobre um povo que ainda não conhecera a liberdade, despertaram antagonismos e competições políticas prometendo lucros individuais na partilha dos produtos nacionais e privilégios de classe para os seus apoiantes. Introduziram a cultura capitalista como meta de crescimento económico e uma falsa linguagem caridosa contrapondo-se à luta necessária para o desenvolvimento das forças produtivas com solidariedade e respeito humanista da coesão popular. 
Da ficção à realidade 
A linha do golpe prevaleceu sobre a da consciência nacional adequada à realidade de Portugal. Foi adoptado o modelo do que viria a ser a União Europeia, uma ficção que cobriu o território de centros comerciais, estádios de futebol e indústrias estrangeiras que vieram explorar a mão-de-obra barata, de estradas por onde escoam os produtos importados e saem os emigrantes em busca de empregos, de uma cultura moderna pré-fabricada para alienar as populações sem acesso à verdadeira informação negada pelos meios de comunicação submissos às elites mundiais. E, depois veio a crise do sistema com as dívidas contraídas pela gestão perdulária de governantes irresponsáveis que traíram a Revolução de Abril, venderam o património nacional ao desbarato, destruíram a capacidade produtiva e enriqueceram os seus comparsas poderosos, apagando o caminho para a independência de Portugal.
Com o velho discurso fariseu da humildade necessária ao povo «devedor», da caridade com os que tudo perderam, confessam que a «austeridade imposta em Portugal é demasiada porque os que a definiram não tinham experiência» (declaração do Conselho Europeu divulgada pela RTP a 28/04/14). E nada dizem da esperteza que tiveram de aplicar a austeridade aos trabalhadores,
idosos e crianças, enquanto os altos cargos recebem salários milionários apesar da «falta de experiência». Assim agiu a troika e o FMI na sua fatídica missão de destruir os povos.
Interessantes as palavras de Vasco Graça Moura: «A Europa Comunitária deixou de ser, para terceiros, o Eldorado mítico que foi durante muito tempo para terceiros. E alguns convencimentos mais ingénuos dos autóctones quanto às excelências da fórmula encontrada começam também a esboroar-se».(...) «a experiência tem mostrado que, na prática, as coisas não são bem como se esperava e que esse ideal de uma Europa harmoniosamente construída e convergente, quer no desenvolvimento económico sustentado, quer na qualidade de vida dos seus cidadãos, está a sair tão caro quanto frustrado». (...) O sistema não é de freios e contrapesos institucionais ao nível da Europa. É antes uma teia obscura de interacções e condicionamentos políticos por via de uma intergovernamentalização do todo ditada pelos mais fortes e acolitada pela coreografia impune dos euroburocratas» (in «A identidade cultural europeia», FFMS, Novembro/2013, pp.15-18).
O País perdeu uma oportunidade de se tornar independente, mas o caminho da liberdade não foi fechado. Hoje compreende-se melhor a realidade de uma História de heróis, conquistadores, colonizadores e de grandes personalidades que se destacaram como ideólogos, filósofos, músicos,
literatos, cientistas, intelectuais e trabalhadores a nível internacional. Os «donos do poder em Portugal» é que estão a mais, como esteve Salazar (e Caetano), ditador aliado de Hitler por meio século.
Portugal, com as suas riquezas naturais, aí está com o seu povo, capaz de retomar o caminho revolucionário sem se deixar enganar por traidores ou inexperientes ambiciosos.

domingo, 25 de maio de 2014

Europa rica coloniza os parceiros pobres na crise do sistema imperial

Assusta a imagem que hoje o mundo dá, de uma nova forma de colonização, agora introduzida na Europa pela União Europeia e o imperialismo liderado pelos Estados Unidos, de autofagia dos mais pobres da Europa que antes foram impérios, mas dependentes dos vizinhos França, Inglaterra, e depois Alemanha e Holanda, que investiram nas suas próprias forças produtivas e nas instituições de Estados modernos servindo-se dos "descobrimentos" dos grandes navegadores de Portugal e Espanha. 


Assiste-se à venda das pátrias pelos governantes de turno com a destruição dos empregos e fontes de produção nacional, empobrecimento generalizado da população e emigração forçada da mão de obra já formada, deixando a perspectiva salazarista do "jardim à beira-mar plantado" e a oferta de ambiente histórico e bucólico com excelente culinária para atrair o turismo rico nas férias e os especuladores ligados ao setor financeiro globalizado.

A cobiça faz com que os governantes de direita aceitem o dinheiro vindo da China dirigida por um Partido Comunista, e cessem as constantes denúncias contra uma ideologia com meta socialista que procuram destruir, como o fizeram com a URSS. Para mercenários, dinheiro não tem ideologia e, apesar da grave crise sistêmica, acreditam que os chineses vão ajudá-los a salvar o capitalismo. Não só a China, mas os Brics, que antes eram escravizados e pagavam o dízimo pela espoliação considerada "civilizadora".

A China e a transição para o socialismo


Em Portugal e em vários países da África assiste-se à penetração econômica da China, como ocorre um pouco por todo o mundo em desenvolvimento. Primeiro foi o comércio de utilidades domésticas, roupas e calçados, em pequenas lojas. Agora são grandes espaços comerciais que já se tornaram indispensáveis à população que não tem meios para frequentar o comércio de produtos de famosas marcas de empresas multinacionais, que liquidaram a produção e o comércio tradicional português dentro do programa de modernização imposto pela União Europeia.

Mais recentemente tiveram início os investimentos chineses nas empresas nacionais privatizadas, como é o caso da EDP (eletricidade), assim como na aquisição imobiliária de grandes áreas urbanas em fase de recuperação do patrimônio histórico. Tal como tem feito na África, a China investe na criação de infraestrutura e impulsiona as fontes de produção tradicionais.

Marx escreveu em 1850, sob o título Deslocamento do Centro Gravitacional Mundial, onde aponta a corrida ao ouro californiano como uma transformação importantíssima que leva os países mais fortes a reorganizarem os objetivos comerciais:

Vamos agora ocupar-nos da América, onde sucedeu algo mais importante do que a revolução de Fevereiro [1848]: a descoberta das minas de ouro californianas. Dezoito meses após o acontecimento já é possível prever que terá efeitos mais consideráveis do que a própria descoberta da América. Ao longo de três séculos todo o comércio da Europa em direção ao Pacífico contornou, com paciência admirável, o cabo da Boa Esperança ou o cabo Horn. Todos os projetos de praticar uma abertura no istmo do Panamá falharam devido às rivalidades e invejas mesquinhas dos povos comerciantes.

Dezoito meses após a descoberta das minas de ouro californianas, os ianques começaram já a construir uma estrada de ferro, uma grande estrada e um canal no Golfo do México. E já existe uma linha regular de barcos a vapor de Nova York a Chagres, do Panamá a São Francisco, concentrando-se no Panamá o comércio com o Pacífico e deixando de se utilizar a rota do cabo Horn. O vasto litoral da Califórnia, com 30 graus de latitude, um dos mais belos e mais férteis do mundo, por assim dizer desabitado, vai se transformando rapidamente num rico país civilizado, densamente povoado por homens de todas as raças, do ianque ao chinês, ao negro, ao índio e ao mulato, do crioulo e mestiço ao europeu. O ouro californiano corre abundante em direção à América e à costa asiática do Pacífico, e os povos bárbaros mais passivos são arrastados para o comércio mundial e para a civilização.

Uma segunda vez o comércio mundial muda de direção. O que eram, na Antiguidade, Tir, Cartago e Alexandria, na Idade Média, Gênova e Veneza, e, até agora, Londres e Liverpool, a saber, os empórios do comércio mundial, serão no futuro Nova York e São Francisco, São João de Nicarágua e Leão, Chagres e Panamá. O centro de gravidade do mercado mundial era a Itália, na Idade Média, a Inglaterra na era moderna, e é hoje a parte meridional da península norte-americana.

Graças ao ouro californiano e à energia inesgotável dos ianques, os dois lados do Pacífico serão em breve tão povoados e tão ativos no comércio e na indústria como o é atualmente a costa de Boston a Nova Orleans. O oceano Pacífico desempenhará no futuro o mesmo papel que foi do Atlântico na nossa era e do Mediterrâneo na Antiguidade: o de grande via marítima do comércio mundial, e o oceano Atlântico descerá ao nível de um mar interior, como é hoje o caso do Mediterrâneo.

E termina prevendo: "É muito provável que o socialismo chinês se assemelhe ao europeu como a filosofia chinesa ao hegelianismo. Qualquer que seja a forma, podemos alegrar-nos com o fato de que o Império mais antigo e sólido do mundo tenha sido arrastado em oito anos, pelos fardos de algodão dos burgueses da Inglaterra, até a iminência de uma convulsão social que, qualquer que seja o caso, deve ter consequências importantíssimas para a civilização. E, quando os reacionários europeus, na sua já próxima fuga, chegarem enfim junto à Muralha da China, às portas que supõem abrir-se como fortaleza da reação e do conservadorismo, quem sabe se não lerão ali: República Chinesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade".

Assim escreveu Marx em 1850 a partir do seu método de observação e análise histórica do sistema político, econômico e social dominante. Nada mais atual neste confuso século 21 apesar da distância de 180 anos.

A China cria nova realidade mundial - o pensamento oriental


Ao contrário da cultura ocidental capitalista, a perspectiva oriental é totalizante ou holística, sem definir os limites da abrangência. Contraria os modelos e métodos que a cultura ocidental cultiva da sua herança medieval conservada ao longo dos séculos, apesar de terem sido abertos difíceis e sinuosos caminhos em várias áreas do pensamento (na arte, na ciência, na filosofia), que contrariavam o conservadorismo dominante.

Sempre os inovadores foram considerados rebeldes, revolucionários e perigosos, mas demonstraram a necessidade de liberdade de pensamento que permitia a abertura de portas flexíveis ao desconhecido sobretudo no século 19. Isto propiciou a abertura, com diferentes níveis de integração, a elementos trazidos pela cultura oriental.

Além dos produtos importados durante a época dos descobrimentos – porcelanas, seda, especiarias – o estudo da arte na Europa no fim do século 19 recebeu significativa influência dos orientais, alterando profundamente os conceitos teóricos presos aos estritos princípios da cultura ocidental e abrindo como caminho a Arte Nova. Em outras áreas, científicas e técnicas, a presença de traços vindos do Oriente é mais sutil por se tratarem de alterações no pensamento filosófico, com a consequente abertura à liberdade e criatividade no sentido de uma visão holística e integradora.

Modernamente as artes marciais, a educação física, a psicologia e a medicina orientais, começam a ser absorvidas nas escolas e universidades do mundo ocidental depois de terem sido amplamente praticados junto às populações que não aceitaram os preconceitos de uma elite social que classificava tais usos como sendo acientíficos e de charlatanismo. O reconhecimento da influência do pensamento oriental na medicina ocidental é ainda um tabu por razões de competição intelectual e de mercado da sua indústria de base. Mesmo assim, as técnicas de acupuntura já são matéria de cursos universitários, tal como a busca do equilíbrio físico/mental, tomado o organismo como um todo integrado, foi adotada pela medicina ocidental e está na base do grande desenvolvimento do conhecimento neurológico.

A ideologia intrínseca ao caminho chinês

A China que hoje caminha a passos de gigante no sentido de se tornar uma potência reconhecida como tal pelo mundo ocidental, segue a nível político e econômico o mesmo caminho que a sua filosofia, artes e ciências seguiram desde o fim do século 19 na aproximação com o ocidente, servindo-se dessas primeiras conquistas sem necessidade de definir politicamente a sua função no caminho ideológico. Tanto a sua capacidade de criar riqueza suficiente para absorver os títulos do Estado norte-americano e comercializar com qualquer país rico, como para investir nos países em desenvolvimento criando bases para a produção nacional e proporcionar no seu próprio território a modernização da infraestrutura e de toda a estrutura de produção para competir no mercado capitalista, tem permitido retirar a população (de dois bilhões de pessoas) do nível de miséria que suportava, e estender os benefícios de um verdadeiro Estado Social (que só existe em alguns países nórdicos pequenos). Evidentemente a adoção de modelos ocidentais modernos gera contradições internas difíceis de superar, sobretudo pela imposição de um ritmo de ação inadequado aos seus padrões culturais.

O tempo necessário para sair do feudalismo e poder competir com os países desenvolvidos do sistema capitalista foi, e continua a ser, muito menor do que aqueles levaram para desenvolver a sua economia e urbanizar as suas cidades criando um sistema social de profundas diferenças no atendimento das classes e na distribuição da riqueza. O controle exercido pelo Partido Comunista da China sobre o governo e todos os programas de desenvolvimento tem permitido uma estratégia segura comprometida exclusivamente com o equilíbrio da política externa e a melhoria das condições internas de desenvolvimento e de qualidade de vida.

Na China as contradições com um projeto que tem por meta o sistema socialista vão sendo reduzidas paulatinamente, como a aplicação de uma legislação do trabalho e a substituição das fontes de energia para eliminar a poluição, conquistados pelos trabalhadores nos países capitalistas, assim como a construção de infraestruturas para levar o benefício da modernização nacional a todo o extenso território com as suas diferenças climáticas e culturais.

A pressão do imperialismo mantém-se, mas caem os preconceitos com a expansão democrática

Tal como sofreram os países socialistas liderados pela URSS, a China é obrigada a investir grande parte do seu orçamento nas Forças Armadas, nas investigações científicas espaciais e no sistema de informações para todo o planeta, para garantir a segurança nacional e do seu projeto de desenvolvimento com meta socialista.

A solidariedade dos povos com a China depende do entendimento que se alcance das diferenças culturais e filosóficas que existem mas não separam, os que lutam pela meta socialista para todas as nações. O que até hoje foi considerado como o pensamento "ocidental", preso ao sistema capitalista e à cultura de origem judaica e cristã, alimentou preconceitos de valor estratégico contra culturas orientais e árabes.

O século 21 tem coincidido com a queda de arraigados preconceitos criados para favorecer os sistemas de domínio colonial, neocolonial, racista e machista, de elites poderosas e de uma pretensa superioridade humana sobre os que apresentam diferenças físicas ou culturais. Como resultante do embate histórico que se verificou ao longo dos últimos séculos emergiu uma consciência de cidadania que permeia os trabalhadores em todo o planeta e o sistema capitalista enfrentou crises que foram superadas em prejuízo do seu próprio equilíbrio.

A filosofia milenar oriental sempre apontou como caminho o equilíbrio e a observação da realidade para que a humanidade alcance o seu desenvolvimento aplicando, passo a passo, a sua energia e criatividade na construção da vida. Será este o caminho da China? Depende não só do seu governo e Partido Comunista como dos povos e suas respectivas forças revolucionárias.

Integração cultural e consciência de autonomia dos povos
O sistema capitalista no mundo "ocidental", até hoje vigente nos países da Europa e nas Américas, Africa e Ásia, nos centros de poder financeiro e nas nações que foram colonizadas e mantêm vínculos de neocolonização, tem sido confrontado com a emergência de características do pensamento oriental e da dinâmica histórica das sociedades em evolução, que acentuam as contradições internas próprias de um modelo fechado submetido ao comportamento do mercado e ao autoritarismo de uma elite financeira.

As sucessivas crises do sistema capitalista que sempre foram buscar nos países menos desenvolvidos os recursos para fortalecer o setor financeiro dos que concentram o poder político e militar, foram estimulando, contraditoriamente, o fortalecimento da luta social pela democracia, a qual por oito décadas contou com a liderança da URSS que expandiu pelo Terceiro Mundo as sementes da independência nacional e da participação popular no desenvolvimento dos seus países.

As duas grandes guerras foram orientadas contra o surgimento do sistema socialista pelas forças da Revolução em 1917 na Rússia, mas as ambições expansionistas da liderança nazifascista levou à necessária aliança entre as forças militares da Europa e dos Estados Unidos com a Rússia Socialista para alcançar a vitória contra a Alemanha, Itália e Japão que representavam a chefia das forças agressoras. Em seguida, ao final da Segunda Guerra, começou a Guerra Fria dos países capitalistas contra a União Soviética e uma perseguição aos militantes comunistas em todo o mundo, para impedir que os movimentos sociais de emancipação social escapassem ao controle ideológico dos governantes vigiados pelo sistema capitalista.

A meta expansionista foi apropriada pelos Estados Unidos com pretextos de intervenção pacificadora com apoio da ONU moldando os princípios democráticos, de libertação nacional e direitos humanos, ao programa da Social Democracia europeia nascida na velha Alemanha com Bismark.

Durante várias décadas estas forças que se somaram em torno da primeira potência mundial (EUA) com um crescente poderio militar, econômico e tecnológico, apoiaram governos ditatoriais – como a Grécia, Espanha e Portugal que eram aliados Hitler – e nos países subdesenvolvidos, onde foram criados sistemas sindicais e legislação de trabalho e segurança social que mantinham o Estado (dito) Social sob a tutela do ditador ou de presidentes eleitos dentro dos estreitos limites impostos pelo sistema financeiro e jurídico superiormente fiscalizados. Na Europa, sob o comando dos EUA o Clube de Bildenberg manteve em fogo lento o imperialismo enfeitado pelas monarquias sobreviventes já adaptadas às repúblicas como poder moderador e de exceção se necessário, atraindo políticos e intelectuais destacados para serem treinados para posições de influência através de instituições culturais, de comunicação social e de governos.

Apesar dos múltiplos problemas, que inclusive destruíram a União Soviética e o sistema socialista implantado na Europa durante 80 anos, os povos tomaram consciência dos verdadeiros caminhos para a sua libertação e desenvolvimento nacional sem a tutela de um poder financeiro e militar externo. A essência dos princípios democráticos divulgados na Revolução Francesa e com forte repercussão na Independência dos Estados Unidos, levantados como meta revolucionária pela URSS, foram sendo posteriormente deturpados pelo poder imperial centralizado e mencionado apenas na categoria de utopia.

A violência do imperialismo desperta os humanistas

As várias tentativas para estabelecer governos democráticos e populares foram afogadas em sangue, como o de Allende no Chile, Lumumba na África, e de tantos líderes africanos e asiáticos que não se submeteram às ordens externas. A função de "polícia" planetária, exercida pelos serviços de inteligência dos países mais ricos, utilizou recursos criminosos para eliminar fisicamente os líderes que surgiam em todas as regiões, como recentemente se provou ter sido assassinado Arafat, herói palestino, por determinação do Governo de Israel, assim como o foi o primeiro Presidente de Moçambique Samora Machel por forças anti-revolucionárias na África.

A guerra dos Estados Unidos contra o Vietnã fracassou devido à capacidade de resistência daquele povo e inteligência de líderes como Ho Chi Min e Giap, e a consciência democrática despertada em todo o mundo, inclusive na sociedade norte-americana, que repudiou e denunciou a barbárie imperialista enfraquecendo politicamente o exército invasor.

Com a formação da União Europeia pelo Clube de Bilderberg (logo após o final da guerra mundial) e apoiada pelos Estados Unidos, a derrubada de governos e assassinato de líderes e civis na Europa (Iugoslávia), na Ásia Central (Afeganistão, Paquistão), no Oriente Médio (Iraque) e norte da África (Líbia, Egito) passou a ser feito abertamente pelas forças militares da Otan e dos países associados com o falso pretexto da pacificação e defesa dos direitos humanos. Onde ainda não pode invadir e bombardear, os seus agentes secretos estimulam e provocam conflitos armados internos (Iugoslávia, Egito, Síria, Turquia e países de África onde o atraso causado pela colonização e neocolonização, agravado pelos projetos de desenvolvimento financiados pelo Banco Mundial que destruíram tradições locais e a terra arável, deixou a população na miséria absoluta). Diante da estratégia sucessivamente aplicada pelos sumo poderes do sistema capitalista, e em busca de formas de desenvolvimento para sobreviverem, surgem líderes capazes de atrair o apoio popular, de militantes sociais e de esquerda, de Igrejas e associações que têm capacidade para eleger representantes legítimos das populações.

Depois das independências das ex-colônias na África e em Timor onde surgiram líderes democratas, outros alcançaram o poder nos países ainda subdesenvolvidos contra os interesses imperiais: Lula no Brasil, Chaves na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correia no Equador, Kirchner na Argentina, abriram caminho para a integração de Cuba nas organizações latino-americanas, com sua poderosa experiência socialista que repercute em outras nações da América Latina e reflete em outros continentes como apoio às suas formas de luta específicas pela democracia real. A Social-Democracia na Europa intercede como agente imperialista que teve êxito em Portugal destruindo o processo revolucionário do 25 de Abril, como se representasse o "socialismo" e com ofertas de apoio financeiro.

Exemplo de superação do atraso e a fome

A China fez a sua revolução nacional e realizou a Grande Marcha liderada por Mao Tse tung, apoiada pela URSS e demais países socialistas, libertando-se do sistema feudal opressor e traçando o caminho para o socialismo. Conserva a filosofia dos seus antigos líderes históricos para entrar na Era Moderna e vencer a miséria da maior população nacional do planeta.

Cultiva a memória cultural de milênios da sua história e recebe as imagens do capitalismo e do socialismo como capítulos recentes. Herdeira de experiências históricas de invasões, guerras, domínio japonês, colonialismo britânico e tentativas de neocolonialismo por alguns países poderosos, a China aplica as tradições do pensamento oriental na forma como deverá adaptar-se ao convívio e intercâmbio técnico e material com o sistema capitalista internacional.

Mantém-se sem participar da dicotomia ideológica entre capitalismo e socialismo, conhecendo profundamente as contradições entre os dois sistemas, sempre procurando desenvolver as suas próprias forças dentro da lógica estabelecida no mercado enquanto introduz inovações a partir do seu conhecimento milenar

*Zillah Branco é cientista social, militante comunista, colaboradora do Vermelho e integrante do Conselho do Cebrapaz.

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