quarta-feira, 24 de junho de 2015

A importância do conhecimento da estrutura capitalista e seus mecanismos de dominação




O estudo sobre a evolução do sistema capitalista no Brasil, que aperfeiçoa  a estrutura de poder econômico e financeiro ainda dominante, deixa à margem a dinâmica dos movimentos de esquerda assim como todos os fatos históricos relacionados com a população que se situa marginalmente à sociedade civil. Estes são objetos da análise socialista - os pobres, os grupos segregados, os movimentos de defesa e a luta pela inserção social plena, os partidos políticos de oposição ao sistema dominante, a não aplicação de leis sociais, os privilégios de classe sobre a justiça, e as formas de corrupção inerentes ao capitalismo.

Nas condições de um país subdesenvolvido, que carregou durante séculos o peso da colonização representada pela oligarquia rural ligada sempre à estrutura de poder nacional, que se adaptou ao neo-colonialismo e à sua expressão moderna de neo-liberalismo dependente das nações ricas e do mecanismo financeiro imperialista, o Brasil ultrapassou as economias vizinhas e recebeu ajuda externa para ser promovido como parceiro graduado no cenário internacional capitalista. Não só o extenso território tropical e as suas riquezas naturais atraíram a simpatia externa, mas também as suas características culturais e a sua expressão intelectual enriquecida pela miscigenação e abertura às influências das escolas estrangeiras. Apareceu como um enclave na América Latina susceptível de representar o sistema capitalista dos países mais ricos, ou ao contrário, liderar os povos vizinhos com um projeto de união dos Estados de Direito contra as pressões capitalistas para uma subordinação ao imperialismo com a perda da dignidade nacional de cada país.

A implantação do pensamento socialista revolucionário é lenta e difícil, sobretudo pelo êxito do capitalismo e a massiva publicidade enganosa facilmente divulgada pelo monopólio dos meios de comunicação e pelo uso indevido dos conceitos de democracia e desenvolvimento que visam exclusivamente as classes consideradas na escala civil do poder. As instituições de ensino de nível acadêmico que recorrem ao estudo de Marx e Engels sobre o capitalismo, e aos autores que contribuíram para o enriquecimento da sua obra, fazem-no de forma a não valorizarem a sua vertente militante, o que sacrifica a compreensão do antagonismo político entre as metas do capitalismo e a do socialismo.

Mais que os estudos teóricos, a militância capitalista se realiza como fonte do conhecimento histórico e das ciências sociais que condiciona a cultura dos povos através do monopólio dos meios de divulgação. Assim é formado um pensamento capitalista como se fosse o único válido sob o domínio do sistema imposto. É comum confundir-se a história nacional com a do sistema que domina aquele território há centenas de anos.

As Guerras Mundiais, iniciadas em 1918, alteraram o caminho da formação de um poder imperialista que pretendia impedir o surgimento de um sistema socialista como o que foi implantado na Rússia. O ímpeto com que se desenvolveu o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler em busca do domínio de toda a Europa, levou os centros de desenvolvimento capitalista industrial a dependerem do apoio Soviético para vencerem o inimigo comum naquela guerra.

Apesar da permanente pressão que mantiveram contra o socialismo, inclusive levantando uma "cortina de ferro" para impedir a expansão do sistema soviético, antagónico nos seus ideais ao capitalismo, o êxito alcançado pela nova potência mundial, que além de manter fortalecidas as Forças Armadas e desenvolver pesquisas científicas ao nível dos antigos aliados capitalistas, deu apoio a todos os povos em luta pela independência nacional e contra as várias formas de exploração colonialista e feudal. A independência de várias nações colonizadas e a formação de uma consciência progressista e democrática nos países subdesenvolvidos foram fruto do apoio de um sistema socialista através de ampla formação universitária e debates internacionais sobre todos os temas referentes à emancipação do ser humano e de suas sociedades.

Os mentores do imperialismo criaram centros de estudo das idéias socialistas que conquistam os povos de todo o mundo, independente das origens culturais, para criarem antídotos que favorecessem o capitalismo. Somente com a divulgação alarmista do falso "perigo comunista" conseguiam que populações incultas e dominadas por medos religiosos recusassem o sistema socialista. Para incutirem a idéia de que o capitalismo pode ser humanizado e atender às necessidades socio-economicas das populações mais carenciadas, adotam medidas de "caridade" e palavras populistas que iludem os menos avisados das suas intenções de manipulação.

Tornando a comunicação social um monopólio do poder capitalista, passaram a controlar o cinema, as rádios e depois a televisão, para inocular uma cultura através da qual pudessem impor a sua lógica de pensamento na formação da opinião pública mundial. A queda do nível mental dos programas foi logo percebida por quem conhecera um cinema livre mesmo produzido nos Estados Unidos antes da repressão do "mackartismo", e em diferentes países surgiu um novo cinema que rompia o estreito controle ideológico com os filmes realistas do pós-guerra. O mesmo ocorreu nas rádios e na televisão, apoiados nas edições de livros e revistas que escapavam ao controle. Dialeticamente o controle policialesco e medíocre espicaçou os autores que, para defender a liberdade de expressão, tornaram-se militantes de uma cultura aberta.

Os centros de estudo criados com vista à criação de uma elite intelectual que serve de estrutura para a constituição de um governo mundial sob o controle imperial, aprofundaram os estudos sobre a essência do pensamento socialista e deram início a uma aparente adesão teórica aos textos de autores comunistas para produzirem idéias que tergiversam os fundamentos ideológicos sem os confrontar. Sobretudo através da publicidade enganosa escoa uma terminologia elaborada sobre falsos conceitos que confunde o entendimento do público desavisado. O termo "dialética" foi banido nos textos sobre desenvolvimento social e econômico. Quando não pode deixar de ser utilizado, referem o conceito de Hegel anterior à Marx. Recentemente foi banalizada a expressão "mais valia" equiparada à "lucro" ou até mesmo a "vantagem", omitindo o conceito que Marx definiu para "o valor não remunerado do trabalho". Este caminho de absorção dos conceitos socialistas para que sejam revestidos de um sentido capitalista hoje está de tal forma banalizado que líderes do sistema capitalista se apresentam despudoradamente como se fossem o seu contrário para conquistar votos. É a velha história do lobo vestido de cordeiro.

Na Europa, o Clube Bildenberg, que desenhou a estrutura e ambição da União Europeia (em  busca da união do capital e não dos Estados independentes), formou uma geração de burocratas para atuarem como altos mandatários em todos os Governos e no sistema financeiro das diferentes nações. Hoje aparece claramente a origem da crise que determina a perda da independência nacional dos países que aceitaram (preconizado pelo neo-liberalismo) créditos desnecessários para o desenvolvimento das respectivas forças produtivas e que escoaram por meios ilícitos de corrupção para uma elite bilionária enquanto a população suporta o desemprego, a perda salarial, a fome e a dependência (como se fosse uma colônia dos mais ricos), imposta pelo regime de austeridade para pagar uma dívida que não é sua.

O importante será os defensores de um sistema alternativo, de ideologia socialista, aprofundarem os estudos sobre o sistema capitalista e suas falhas de modo a desmascarar as fraudes e preparar as lutas com objetividade e conhecimento da realidade em que vivem os povos. A meta do sistema socialista é a organização da sociedade tendo em vista o bem estar da população e a sua capacidade de desenvolvimento humano a partir do melhor aproveitamento das forças produtivas. O objetivo do sistema capitalista é a acumulação do capital nas mãos de uma elite exploradora que controle o poder sobre as sociedades.

Brasil

A ditadura de 64 no Brasil, coincidente com outras no continente latino-americano durante a década de 1960, e o despertar da consciência nacionalista de setores empresariais e intelectuais conservadores, somado ao repúdio aos vícios do autoritarismo que afrontavam uma formação religiosa e humanista, gerou condições favoráveis ao pensamento socialista e revolucionário inspirados na experiência e no êxito da sociedade cubana.

Mesmo durante o período ditatorial no Brasil, foram realizadas importantes experiências democráticas a nível de administração pública em várias cidades e incentivados múltiplos movimentos de ação social e política que semearam a resistência democrática por todo o país ao autoritarismo e à exploração dos trabalhadores. À margem da sociedade civil aprofundaram-se as idéias e as formas de organização da esquerda nacional que pesaram no combate à repressão e às forças mais conservadoras subordinadas ao imperialismo.

O fantasma do "anti-comunismo", conveniente ao pensamento capitalista em geral e ao domínio imperialista, abriu o caminho para o recurso à ajuda externa que minou a consciência nacionalista e propiciou a implantação do neo-liberalismo. A promoção no Brasil, de intelectuais cepalinos estudiosos da análise marxista do capital permitiu a introdução de novos conceitos na análise clássica do sistema capitalista sem o conteúdo militante ideológico do autor do Manifesto. A vida acadêmica de Florestando Fernandes ocultou a sua formação marxista, que se manifestou plenamente em atos de solidariedade com movimentos de esquerda mas só foi assumida militantemente quando expulso da USP pela ditadura.

No Brasil, o desgaste da política submissa ao imperialismo acentuou-se com o governo neo-liberal de FHC, o que levou ao poder um líder operário, sindicalista e identificado com as regiões menos desenvolvidas do país que sempre foram marginalizadas pelo sistema capitalista que prioriza a industrialização e a concentração do capital vinculado ao sistema financeiro internacional. A vitória de Lula fortaleceu a esquerda que integra várias tendência unidas até então sob a bandeira ampla da democracia e de contraditórios conceitos de Estado Social. A imagem de Getúlio Vargas, como republicano e nacionalista foi assumida pelo Presidente Lula que defendeu com grande coragem a independência nacional econômica e política, a integração de extensas faixas da população pobre nas condições de cidadania, a união com os povos vizinhos que lutam pelos mesmos objetivos e a solidariedade internacional com os processos de libertação de povos oprimidos. Não foi possível ainda criar um Estado de Direito devido à luta interna entre as tendências representadas por políticos que se apresentaram como aliados para preservarem algumas esferas de poder que levantam dificuldades no Congresso para aprovação das mudanças necessárias sobretudo nos organismos sociais.

Dentro do Brasil teve início, entre aliados de Lula, um conflito pela partilha do poder econômico e político, nos moldes do passado, com o apoio do imperialismo e do sistema capitalista mundial. A reeleição de Dilma só foi possível com "o voto dos pobres e do Nordeste". Cabe sublinhar que este eleitorado vitorioso traduz a força de esquerda cuja estrutura abrange movimentos e tendências diversificadas que têm como meta a construção de um sistema socialista de produção, livre da elite poderosa gerada pelo capitalismo. Este eleitorado apoia o Governo definido por Lula e seguido por Dilma mas manifesta permanentemente o seu desacordo com medidas neo-liberais que contrariam os princípios de independência e desenvolvimento das forças produtivas nacionais e da construção de um Estado de Direito que atenda democraticamente a população e distribua de maneira equilibrada a renda com investimentos que fortaleçam a nação e o seu povo.

Verifica-se, por outro lado, o crescimento de uma consciência de cidadania em toda a sociedade civil e nas camadas pobres e marginalizadas do sistema capitalista vigente. Dadas as dificuldades de integração social com o apoio das instituições do Estado devido às obstruções dos conservadores (que, acossados pela crise mundial do sistema capitalista, chamam o antigo fantasma do comunismo em sua defesa) mantém-se um vazio de poder manipulado por quem sabota os serviços do Estado, com os recursos da paralisação burocrática, as determinações diretas da Presidente.

Desenvolve-se, entretanto, de maneira crescente a ideologia que tem por meta o socialismo como a única capaz de criar um Estado de Direito, e a representação da esquerda em Partidos e Movimentos Sociais toma vulto nos processos eleitorais e de protestos objetivos contra tanto as decisões governamentais que vão contra os seus interesses, como o não funcionamento das instituições. Pela primeira vez o Partido Comunista do Brasil conquistou o cargo de Governador no Maranhão destronando a velha oligarquia da família Sarney com o apoio da maioria dos partidos locais. Cidades desenvolvidas, como Jundiaí por exemplo, no Estado de São Paulo e a Prefeitura de São Paulo têm uma orientação de esquerda, comunista ou petista.

A nível do Governo Federal assiste-se a um braço de ferro suportado pela presidente Dilma contra os conservadores que se apresentaram nas eleições como aliados, de onde saem resoluções defendidas nas ruas pelas forças sociais, como o aumento dos salários, o esclarecimento sobre os crimes cometidos durante a ditadura, o relacionamento com a China contrário aos mecanismos de crédito criadores de dependência nacional oferecido pelo imperialismo. Ao contrário do que a estabilidade capitalista necessita, a Presidência da República recebe diretamente o apoio popular para realizar importantes medidas de transformação na sociedade, inclusive através de investimentos em empresas nacionais e nas infra-estruturas necessárias ao desenvolvimentismo.

A evolução do sistema capitalista está interligada dialéticamente com a do sistema socialista que, tendo como objetivo o desenvolvimento das nações a partir da criação das melhores condições de vida e de formação pessoal dos cidadãos e não a acumulação do capital para o enriquecimento da elite no poder, envolve ações de oposição e aprofundamento da luta social. O conhecimento das características de aperfeiçoamento das formas de organização como base do desenvolvimento da sociedade nos dois sistemas tem beneficiado a humanidade nas suas experiências históricas apesar dos conflitos naturais entre metas antagônicas no plano político.

Zillah Branco

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A luta de massas dos trabalhadores, desempregados e emigrantes


Zillah Branco *

Os cérebros financiados pelo centro do poder mundial do sistema capitalista inventam e divulgam teorias que utilizam os conceitos desenvolvidos por Marx acerca da evolução dialética da História dos povos, mascarados com uma profusão de termos teóricos para esquecer o verdadeiro autor e a perspectiva revolucionária, e apresentam um momento da história como sendo a realidade global com a sua imagem paralisada e congelada que anula a dinâmica natural do seu desenvolvimento.


Em outras palavras, apropriam-se de uma idéia livre, transformando-a no seu contrário aprisionado como um roubo qualquer, e divulgando através dos órgãos de estudos universitários e de comunicação social, como "base do conhecimento formador da consciência e a cultura dos povos". Então consideram o sistema capitalista como o único possível e a sua crise financeira como uma fatalidade para toda a humanidade e até a natureza planetária.

Esquecem-se de que a liberdade real não está sujeita à prisão e que o empobrecimento da maioria dos cidadãos no mundo tem aumentado o número dos que são marginalizados dos benefícios sociais do sistema capitalista inclusive o da formação, o que os liberta também da influência nefasta do modelo de robotização veiculado para "congelar a dinâmica da evolução dialética da realidade" em que vive.

As massas trabalhadoras, organizadas em seus movimentos sociais - sindicatos, associações, grupos e partidos - assumem a condução de uma classe explorada, marginalizada, despojada do património da sua pátria e dos serviços do Estado nacional que tem sido vendida a retalho a empresas privadas estrangeiras, a constituírem um exército em defesa da liberdade humana, dos direitos adquiridos historicamente pelos trabalhadores e da soberania nacional do seu país, contra os desmandos de uma elite que se reune a nível internacional no clube dos ricos para forjar a imagem de uma falsa realidade que lhes permite exercer o poder.

"O chefe de Estado da Bolívia participou na inauguração da escola Aniceto Arce, na cidade de Oruro, e recordou que o neoliberalismo, instaurado no país desde 1985, só intensificou a profunda crise e deixou a maioria da população na pobreza.

"Essas políticas legaram-nos mais crise econômica, mais pobreza, mais desemprego. Custaram 20 anos para começar a recuperação do país: as empresas, os serviços básicos, as escolas, tudo estava privatizado. Em alguns países vizinhos tudo está privatizado, até o mar", recordou o Presidente Evo Morales."

A situação a que foram conduzidos os povos europeus pela crise sistémica que levou as instituições financeiras ao desequilíbrio e que a União Europeia tenta compensar com a aplicação da austeridade que retira o poder aquisitivo às camadas sociais mais pobres, levou as nações mais ricas a colonizarem as mais pobres, assim como permitiu à NATO destruir as sociedades em países ao norte da África que serviam como zona tampão para permitir o relativo isolamento das regiões árabes ricas em minérios.

Dessa situação de empobrecimento, surgiu uma grande massa de emigrantes que foge dos seus países em busca de sociedades mais livres onde possam sobreviver, uns com formação profissional que o sistema precisa e pode contratar em países ricos, e outros marginalizados e famélicos que fogem com suas famílias aos bombardeios, e caem nas

malhas de traficantes que os transportam ao oceano atlântico para que sejam "pescados caritativamente" pelos países costeiros como náufragos miseráveis ou cadáveres. Semelhante a esta situação passam do México pelo "Muro" dos Estados Unidos os emigrantes latino-americanos, também sujeitos aos crimes dos traficantes que prestam um serviço ao sistema eliminando fisicamente os indesejáveis. E em outras partes do mundo capitalista surgem esquemas semelhantes, como na Indonésia, resultantes dos conflitos tribais ou religiosos acirrados pelos agentes mercenários do sistema de poder.

Assistimos ao florescimento de povos que foram capazes de coordenar os movimentos sociais produzidos pela luta popular no seu desenvolvimento histórico. Assim como foi possível em Portugal a realização de um momento revolucionário em que criou a nacionalização dos bancos e das empresas fundamentais ao Estado, implantou a legislação do trabalho, deu início à Reforma Agrária com capacidade para gerir os serviços essenciais ao seu desenvolvimento com autonomia, lançou as bases de um sistema nacional de educação e de saúde pública (que levou o centro imperial de poder a destacar as suas figuras máximas no cenário político/ policial - o Secretário de Estado Kissinger e o diretor da CIA Carlucci) para levantar a direita portuguesa contra- revolucionária), na América Latina surgiu o caminho contra o neoliberalismo dominante no final do século passado que se difundiu pelo continente como um rastilho de consciência nacionalista e popular que tem vencido as pressões do imperialismo em crise.

"Por meio do método cubano de alfabetização para jovens e adultos intitulado “Sim, eu posso”, o MST conseguiu zerar o analfabetismo em sete assentamentos da Bahia. Uma comemoração foi realizada no último sábado (9) na Escola Popular de Agroecologia e Agrofloresta Egídio Brunetto, no Assentamento Jaci Rocha, e contou com a participação de mais de 300 famílias. "

Estes momentos revolucionário da História não podem ser congelados, apesar de poderem ser retardados pela força militar/criminosa ou pela sobreposição de falsas expectativas de enriquecimento oferecidas pelo "Clube dos Ricos" que promovem grandes eventos com a fantasia da liberdade faustosa e do êxito premiado com milhões e um caminho fácil e cor-de-rosa para os que aceitam a coleira da "dialética congelada".

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Modelo social em crise



Portugal atravessa um período negro da sua História, o que se comprova pela proliferação de crimes contra velhos, moços e crianças da mesma família ou dos vizinhos. A informação social instila, nos seus programas, o ódio desvairado que se traduz em heroísmo de quem não tem perspectiva de vida, tanto através dos filmes norte-americanos como da forma como mente sobre a responsabilidade familiar pela produção de terroristas ou do povo que tem a honra de pagar dívidas feitas em nome do país. A família é, na verdade, a grande vítima deste desespero gerado pela crise de valores que é arrastada no tsunami do sistema capitalista, assim como o povo que sofre a miséria causada pelos que fazem grandes fortunas com os créditos bancários. O "falso moralismo" transfere as responsabilidades pessoais e da elite mandante para o coletivo indefeso.

Dirão muitos que esta é a "cassete" dos comunistas, mas hoje também é a do Papa e dos cardeais e personalidades que o seguem, da CNBB (Conselho Nacional de Bispos do Brasil), que avisam não quererem fazer política mas sim alertar a humanidade para o perigo de implosão selvagem que a ameaça. Na verdade os princípios éticos são tratados como "cassete" pela media de acordo com a sua técnica publicitária para denegrir os próprios valores humanistas, tornando as gerações mais dóceis à formação subliminar de escravos (onde se incluem os funcionários que debitam em público o que receberam como informação dos seus superiores hierárquicos). Cassete é a que atribui culpas às famílias sem apoio do Estado e ao povo que não pode fiscalizar os abusos do poder capitalista que nada tem de democrático, como aos trabalhadores da TAP que fazem uma greve justa para evitar que Portugal perca a sua empresa lucrativa quando bem gerida na grande liquidação feita pelo actual Governo.

O modelo para manter o poder do capital e da elite que o adora como um deus, é tão minucioso e mecanicamente bem montado que parece a tradução estrutural da verdade absoluta. A pirâmide organizada desde a base onde se situam os miseráveis (que apenas podem sobreviver com o que, sobrando, lhes é oferecido como obra da caridade superior dos mandantes) vai acrescentando os que trabalham para se formar e produzir e os que têm algum conforto permitido pelos superiores (os quais se dividem em funcionários  ou agentes da burocracia do sistema, corruptos e corruptores que financiam uma elite beneficiada pela mais valia produzida lá em baixo e pela distribuição das rendas sob a forma de salários no posto político que ocupam e os prêmios deixados pela andanças do dinheiro pelos bancos nacionais e estrangeiros).

Actualmente agravou-se a figura dos comandantes nacionais que, dependendo das ordens transmitidas em inglês desde a cúpula do império mundial, são levados a mentir com cara de santo autista ou a fazerem afirmações de tão baixo nível mental que mereciam nota zero em qualquer exame escolar, profissional ou de consciência. Se receberem um atestado médico de que sofrem das faculdades mentais poderão justificar a insanidade.

O pensamento foi substituído pela norma burocrática e qualquer dúvida ou tentativa de diálogo desencadeia ameaças de destituição do cargo que ocupa, com multas e taxas de desconto financeiro até a penhora dos seus bens. Ditadura do sistema aplicada como se fosse legislação com fundamento jurídico institucionalizado.

O agravamento da situação social, económica e política de Portugal, tem despertado a consciência de personalidades humanistas de diferentes tendências ideológicas, assim como de jornalistas que (mantendo as empresas e empresários com um pé em cada lado do muro) analisam os problemas sociais com objetividade e sensibilidade humana em programas que, ao mesmo tempo, oferecem grandes somas a quem telefonar e responder ao jogo de perguntas. Estas informações sobre a realidade, de alguma forma colaboram no sentido de uma consciencialização dos riscos de desagregação social e desespero sem rumo, que poderão engrossar as manifestações apoiadas e defendidas pelos movimentos sindicais e sociais que enchem as ruas do país.

A polícia e forças para-militares, também sindicalizadas, já perceberam que a organização das massas evitam a explosão descontrolada da população levando a sociedade a um descontrole inevitável, como o que se vê ocorrer quando isoladas as famílias nas suas casas e aldeias remotas. Acompanham os perigos oferecidos pela internet, pelos que comercializam drogas, por grupos agressivos, junto a escolas, junto aos manifestantes, sem ultrapassarem os seus limites profissionais e a legislação que limita os seus direitos de criticar a média e as autoridades nacionais. Mas um grande passo foi dado quando as forças policiais deixaram de cumprir ordens contra a população e passaram a zelar por ela, da qual fazem parte. Actos extremos têm merecido a admiração popular, quando em manifestação popular simularam uma invasão da defesa do Parlamento para em seguida congraçar com os colegas que ali tinham sido colocados para proteger a Assembleia. Outro acto de coragem que desperta o respeito da sociedade, foi o da Guarda Nacional Republicana que levou o protesto contra medidas governamentais de corte salarial de mais de 800 guardas a Tribunal. As garantias que têm estão contidas na Constituição da República do 25 de Abril e defendidas por um poder judiciário democrático.

São sementes democráticas deixadas pela Revolução dos Cravos que transformou os protetores das autoridades em apoiantes do povo em busca de soluções organizadas em regime democrático. Esta realidade não entrou no discernimento das personagens que ocupam o poder executivo no Estado actual. O Governo repete que "Portugal vai bem, o povo é que vai mal", separando o valor do capital do valor das gentes. É a fórmula para produzir desespero, revoltas e terrorismo. Como se vê acontecer na ex-feliz América do Norte, onde a miséria avança e o racismo agrava as tensões que provocam mortes e distúrbios incontroláveis, instituindo na Nação que tem a Liberdade fixada em bela estátua, o terrorismo nas forças policiais e na acção de uma juventude desesperada.

Zillah Branco

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Vitórias permanentes e derrotas pontuais



Os que lutaram, através de dezenas de anos, pelo fim da ditadura fascista em Portugal, enfrentando uma dura realidade de sacrifícios e perseguições políticas que impediram a fruição da vida familiar e profissional se houvesse liberdade social no país, certamente hoje se ressentem da "derrota" sofrida pela Revolução dos Cravos que floresceu em 1974.

Em menos de um ano, sob os Governos dirigidos por Vasco Gonçalves, foram abertos os caminhos iniciais de um processo democrático e de dignificação patriótica pela esquerda organizada: fim da colonização, reforma agrária, apoio aos pequenos e médios produtores, nacionalização da banca e das empresas fundamentais ao Estado, legislação em função dos direitos dos cidadãos, organização sindical, legislação trabalhista, escola pública, saúde pública, previdência social, salário mínimo e férias, que se compunham com a defesa ampla da liberdade de expressão, da defesa dos direitos de igualdade social entre homens e mulheres, proteção aos idosos e crianças, combate aos preconceitos raciais e de classe.

Durante este tempo o Partido Socialista, que se apresentara inicialmente como parceiro do PCP, bandeou-se para o combate ao comunismo sob a influência norte-americana e alemã (representadas por Kissinger e Helmut Kohl) e dividiu os militares que haviam dado o golpe fatal à ditadura marcelista. A direita sentiu-se fortalecida para sair das cinzas do fascismo, criou grupos terroristas como o ELP e outros com vestimentas multicoloridas de esquerda radical anti-comunista que serviram de ponta de lança para criar desordens e confundir a população recém saída de um longo período de repressão. À reboque do medo instilado naquele ambiente de liberdade, exigiram uma primeira eleição que os colocou à frente do Governo onde bloquearam as decisões democráticas.

As reformas começaram com a devolução das nacionalizações ao capital privado e estrangeiro, com o fim da reforma agrária e compensações aos proprietários do latifúndio absentista, com a redução do apoio aos serviços sociais. O Governo ficou entregue ao PS que passou a alternar os seus programas com o PSD que o sucedia, dando início na década de 80 à submissão ao projeto da União Europeia de centralizar o governo continental por meio da criação de um Banco Europeu e da moeda única, o Euro. Aos poucos a UE estendeu os seus tentáculos sobre as nações europeias substituindo os seus governos nacionais por verdadeiros "interventores" eleitos pelos povos agora conduzidos por uma imprensa anti-revolucionária, que despejou a cultura norte-americana disfarçada em europeia, para alimentar a fome de conhecimento de uma população que preparada para ser consumista podia comprar televisões e outros apetrechos da modernidade.

No início do século XXI desaparecera o ambiente de luta popular pelas conquistas de Abril, por um desenvolvimento nacional em que o povo era o principal sujeito, motor da produção nacional e da defesa da dignidade patriótica. Reduziu-se o espaço da liberdade com a imposição do modelo europeu de grandes superfícies de mercado e extensas estradas absolutamente inadequadas à vida nacional mas que favoreciam a entrada dos produtos e turistas vindos dos países ricos. O povo, este ficou à espera de algum emprego para os mais velhos, mandando os jovens para a emigração, vivendo nas velhas casas onde cuidam dos netos sem amparo social. Floresceram os agentes da prostituição internacional, do tráfico de drogas e da corrupção dos políticos com poder público. Sentiu-se o peso da derrota.

Os sociais-democratas de turno no governo, sendo eleitos com o apoio dos grupos económicos europeus e os órgãos de informação social orientados para selecionar temas de debate ou entrevistas com base no anti-comunismo ditado pelo Clube de Bildenberg onde são escolhidos os candidatos interventores na política nacional, passaram a esbanjar riquezas em obras faraónicas e a tolher o desenvolvimento de Portugal. O povo, levado pelo cabresto mediático e pelo medo de perder o emprego e a liberdade anunciada  em tempos de revolução, votou nos que vestiam a capa do socialismo.

O Estado foi subordinado aos apadrinhados dos interventores que, abdicando de pensar em português foram contratar assessores estrangeiros para ditar modelos de conhecimento da realidade e de condução ao enriquecimento de uma elite superior que bebe o saber junto ao Conselho da Europa e FMI. Começaram a venda ao desbarato do património nacional, inclusive as velhas construções de Lisboa e os recantos aprazíveis do Alentejo e Algarve, e a privatização dos serviços sociais. A soberania nacional foi oferecida como brinde aos assessores que, para serem contratados, o país pediu créditos que o conduziram à banca-rota. A história do BES, com todo o malabarismo para roubar os contribuintes, estendeu-se à outras instituições. Temos um ex-primeiro ministro preso por crimes de peculato e improbidade administrativa, mas os outros vestiram-se de defensores de Abril em ano de eleições.

A vitória da Revolução dos Cravos, no entanto, prossegue o seu curso histórico no mundo. Como todas as revoluções, desde a revolta de Espártaco, antes da Era Cristã, e depois a Revolução Francesa que se manteve por 15 anos, a Comuna de Paris que durou semanas, a Revolução Soviética que aguentou quase 80 anos, a da China, a do Vietnam, a de Cuba, todas semearam conquistas que alteraram a história mundial fazendo avançar a humanidade contra o poder de uma elite que tem o poder do capital. As revoluções não morrem, deixam as brasas sob as cinzas da destruição causada pela ambição capitalista. Uma lufada de ar livre reacende o movimento histórico com a sua força imbatível.

A Revolução de Abril deixou em Portugal o sentido da justiça social gravado na Constituição e nas leis sociais do trabalho e da segurança social que os interventores da União Europeia fazem tudo para enterrar. Poucos são os países que têm sindicatos da polícia e que o movimento sindical reune operários, professores, artistas, médicos, funcionários públicos, juízes, pescadores, trabalhadores rurais, enfermeiros e todas as categorias de trabalhadores unidos nas reivindicações. A força revolucionária de Abril está viva e recebe a solidariedade de outros povos que cultivaram as sementes de 1974. A dignificação do trabalho, a defesa patriótica, formou a mentalidade popular com os valores políticos de esquerda que sempre está ao lado dos que sofrem e lutam pela sobrevivência de uma sociedade justa.

O importante é perceber quem vestiu a pele do revolucionário como o lobo a do cordeiro. Tornou-se hábito falar em democracia como um modelo a ser aplicado sobre a sociedade capitalista que mantém a estrutura de exploração de uma elite privilegiada sobre os que trabalham. Os Estados Unidos, que lidera o poder imperialista, escolheu um negro para Presidente demonstrando a ausência de preconceitos para ganhar os votos da população mestiça que predomina no seu território e elevou. Nada mudou na sua política de invasões e destruição para espoliar os povos indefesos, a miséria invadiu as casa da classe média norte-americana e a revolta dos jovens foi liderada pelo terrorismo que a CIA espalhou como modelo nas sociedades árabes para quebrar a sua estabilidade mantida pelos princípios tradicionais.

Na comemoração do 25 de Abril no Parlamento Português, os partidos de direita louvaram a Revolução dos Cravos substituindo o sentimento impregnado pela participação do povo pela "inteligência e eficiência" que julgam ser os únicos que as têm. Típico complexo de superioridade de uma elite que está longe de conhecer a realidade do seu povo expressa pelos políticos de esquerda. Vestirão a pele revolucionária para quem não conhece a falta de ética e de patriotismo que procuram ocultar. "Cuidado com as imitações!"

Zillah Branco

quinta-feira, 23 de abril de 2015

A crise do sistema capitalista é financeira e ética



O sistema capitalista foi gerado a partir das sementes plantadas nos primórdios da história, quando as moedas usadas na comercialização dos produtos começaram a ser acumuladas e emprestadas com o valor aumentado pela taxa de lucro. Eram os embriões dos Bancos que minaram o poder das aristocracias reinantes, financiando guerras de cá para lá e de lá para cá, e a compra e venda de escravos das regiões colonizadas. Especializaram-se na venda da força de trabalho dos povos vencidos.

Como antídoto a este caminho destruidor da construção humana das sociedades e da formação mental das populações que criavam aperfeiçoamentos tecnicos para os seus trabalhos, conhecimentos científicos, idéias filosóficas, manifestações artisticas, com o fim de melhorar as condições de vida dos povos, surgiu o conceito de um sistema socialista que condena a exploração de homem pelo homem

Naturalmente esta forma de agir contrariava as ambições de quem acumulava moedas para comprar o poder dos reis e subornar os pensadores. Foram criadas forças capazes de impedir o desenvolvimento de sociedades socialistas por meio de guerras, invasões, bloqueios, controle das informações e deturpação do conhecimento, proibição de divulgação de idéias contrárias aos interesses dos ricos que acumularam capital.

Mas o ser humano pensa e a sua realização na vida depende da coerência entre o que faz e o que deseja no interior do seu pensamento. Se ele deseja ser poderoso é fácil encontrar um comprador capitalista que pague bom preço. Se ele deseja melhorar as condições de vida da população que trabalha, das crianças que precisam de proteção, dos que sofrem por não terem plena autonomia na sua vida, dos idosos que já estão cansados de tanto trabalhar, então ele pensa nas questões gerais do atendimento social que todos precisam receber e contraria o uso do dinheiro em benefício particular dos que compram o poder.

Isto posto de maneira simples envolve uma história muito complicada que se desenvolveu do século XIII até ao XXI. De onde vem o dinheiro? Começou com a venda da mão de obra escrava. Mas hoje a estrutura do poder criada pelo sistema capitalista é extremamente complexa e muitos dos seus defensores começam a perceber que confiaram nas publicidades falsas que disfarçaram com uma pintura social os objetivos individualistas. A revelação das características essenciais do sistema veio com a crise que é financeira e ética. Desencadearam uma guerra contra a humanidade pacífica retirando a esperança de uma vida tranquila e produtiva, impondo uma cultura da alienação e do desespero que conduz a juventude ao uso de drogas e prática de actos de vandalismo, entregam armas e formam terroristas para abrirem caminho para invasões "pacificadoras".

Um grande exemplo deste despertar para a realidade anti-social do sistema capitalista está nas palavras e actos do Papa Francisco que, para salvar a Igreja Católica, não tem medo de que o considerem "comunista" e "marxista", quando defende os mais pobres, os mais fracos, os mais ameaçados, sem discriminar pessoas acusadas por terem cometido erros ou crimes. Mas não precisamos sair de Portugal para ver que pessoas que prezam a sua dignidade e o seu compromisso com a pátria sentem a necessidade de se afastar dos partidos ou grupos que estão agarrados ao poder capitalista. Ocorre em todo o planeta este despertar da consciência humanista. Há muitos exemplos de conhecidas personalidades de formação conservadora que se afastam dos novos líderes da direita para não serem confundidos com esta casta desprovida de princípios que não respeita a soberania do país a que pertencem.

O PCP, desde que foi desenhada a proposta de uma União Europeia, levantou argumentos apontando o risco de serem as nações mais pobres dominadas pelas mais ricas. Há farta bibliografia sobre este tema. Uma das objeções apontava a criação de uma moeda única - o euro - como o veículo da dominação das economias mais fracas diante das mais fortes. A sua posição foi vencida pelo deslumbramento dos partidos políticos, tendo à cabeça o PS que estava no Governo de Portugal onde alternava com o PSD, pela imagem de desenvolvimento e riqueza criada pela falsa publicidade das grandes estradas (por onde a Europa rica escoaria os seus produtos em troca de matéria prima e alimentos ou em busca de bela natureza para turismo), das empresas multinacionais de grande aparência (beneficiadas pelo salário baixo do país, descontos nas taxas de instalação e preços de terreno), pela modernização comercial (que liquidou o pequeno e valioso comércio português tradicional), pela moda na vestimenta e no comportamento social que revelava uma actualização a nível internacional dos costumes sociais (quebrando laços familiares entre pais e filhos sem tempo para entenderem as diferenças impostas), enfim, por terem coberto o histórico país com todos os seus valores com uma capa plástica cintilante de lantejoulas apregoada como riqueza e progresso. Típica propanda enganosa engolida sob o rufar dos tambores dos partidos da direita e afins. O povo, recem saído de uma ditadura fascista e condenado pela participação na Revolução dos Cravos, acreditou.

A adesão de Portugal à União Europeia, com a aceitação da moeda única e dos condicionamentos jurídicos coincidiu com a queda da União Soviética que, depois de uma brilhante experiência de realização socialista em quase 80 anos, ruiu corroida pelas pressões do capitalismo alimentadas desde a Grande Guerra. Mas a defesa do ideal comunista não sucumbiu no mundo. Analisam-se os erros, investigam-se as novas realidades, esclarecem-se os povos, sem desistir da luta para realizar com coerência as convicções de quem pensa no desenvolvimento social. Os comunistas são internacionalistas, lutam pela união dos trabalhadores em todo o mundo, mas os defensores do capitalismo construiram uma união do capital que deturpa a necessária unidade europeia mantendo a exploração dos mais ricos que colonializam as nações mais pobres.

Hoje, falidos os Bancos que mergulharam na especulação financeira e no desvio do dinheiro, depositado em confiança pelo povo, para contas pessoais, e os governantes subordinados às decisões do Banco Europeu e do FMI fizeram dívidas em nome do país e obrigam os contribuintes a pagarem como se a honra da pátria estivesse em causa. Apelam a um falso moralismo para acobertarem a responsabilidade de uma elite corrupta de maus gestores do bem público. Sacrificam o bem estar social, que é a base para o desenvolvimento nacional, para repor o capital que as instituições financeiras deixaram escoar para manter o poder capitalista.

A Inglaterra, a Suiça e os países nórdicos sobrevivem porque não sacrificaram a sua moeda para adotar o euro. Mas a UE ameaça a Grécia, que pretende renegociar a dívida para salvar o seu povo da miséria, com a expulsão da zona euro e consequente bloqueio económico que impediria o seu desenvolvimento.

A América Latina com a sua união de solidariedade entre nações soberanas - UNASUR - defendeu a Argentina que se negou a pagar uma dívida ao FMI imposta por razões imperialistas. As condições na Europa são diferentes, sobretudo porque a união europeia não é de solidariedade entre os povos, mas de capital financeiro controlado por um poder imperial. Esta falsa união, que só favorece o poder do capital sacrifificando os povos, tem sido denunciada pelas inúmeras manifestaços de massa dos trabalhadores dos vários sectores, assim como dos idosos reformados e pensionistas, os estudantes e desempregados, em todos os paises da Europa.

O PCP nas suas sessões de debate público sobre a questão da dívida expõe os caminhos alternativos para serem discutidos por todos, independentemente das ideologias: renegociação da dívida externa em função da dívida pública (que tem miserabilizado os povos e atrasado o desenvolvimento das nações), ou a criação da moeda nacional fora do euro e das contingências impostas pela UE, para garantir a defesa da soberania de Portugal e a sua independência para crescer sem tutelas.

O Governo a ser eleito pelo povo,  para corrigir os erros cometidos pelo actual com o seu programa anti-patriótico, terá de enfrentar estas alternativas com a responsabilidade de salvar a sociedade da desagregação que já se assiste sem condições de atendimento: à saúde, à educação, à segurança social, às crianças em situação de risco de vida, aos idosos abandonados à miséria, aos jovens desorientados que se lançam em aventuras terroristas e semeiam a violência, aos pequenos empresários que perdem os seus negócios e as suas poupanças desviadas pelo sistema bancário, aos militares e forças policiais que sofrem cortes orçamentais e têm de enfrentar uma ameaça de caos social, às empresas de serviços públicos que são oferecidas como galinhas dos ovos de ouro à estrangeiros e apátridas que apenas visam o lucro.

Se pensarmos na situação do país com o mesmo sentido de responsabilidade que temos em relaçào à nossa casa e à nossa família, chegaremos a uma conclusão de que o preço a ser pago pela nossa soberania e dignidade será sempre melhor do que reduzir os juros de uma dívida eterna com o agravamento da austeridade.

Pela visível queda de qualidade humanista e ética dos actuais líderes da União Europeia e dos governos submissos, anuncia-se uma provável implosão da estrutura criada para controlar as políticas do continente. A incapacidade de gerir os problemas financeiros deriva da falta de objectivos sociais e patrióticos. Se analisarmos a história da humanidade sempre os poderosos com ambição de acumulação de riquezas para assegurar o poder de uma elite destruiram civilizações brilhantes que desenvolviam o conhecimento para fortalecer os povos e produzir o melhor. É a repetição da barbárie, agravada com um armamento capaz de destruir o planeta.

Zillah Branco



sábado, 11 de abril de 2015



Formatação do pensamento humano e silêncio cúmplice

Zillah Branco *

As circunstâncias que envolveram a queda de um avião Germanwings, que, com tarifas mais baixas, transportava 148 pessoas de nível socioeconômico médio, inclusive estudantes em missão escolar, de Barcelona em direção à Alemanha com escala em Marselha, merecem um estudo filosófico, além de técnico, econômico e político. Merece um julgamento humanitário no nível da ONU.


O sistema capitalista vive a sua crise desde 2008. Nestes seis últimos anos promoveu uma mudança terrível no mundo, com origens anteriores, com o despoletar de um circuito de horrores que vão desde os grandes roubos ou desvios de bilhões de dólares dos bancos para outras instituições privadas e vice-versa, com a proliferação de construção e venda imobiliária especulativa, abertura de estradas desnecessárias para a população mas para servir ao escoamento das mega-indústrias multinacionais, criação de enormes centros comerciais que liquidam as pequenas empresas e os artesãos a elas ligados, tudo megalômano e promovido por uma publicidade enganosa cheia de promessas de felicidade, com um modelo estandardizado que despreza as tradições. Enfim, o fortalecimento do domínio econômico de uma elite que usa o dinheiro público a favor dos seus próprios negócios e burlas, sem qualquer respeito pela situação de vida de todo o povo e o desenvolvimento de nações soberanas.

Este ritmo enlouquecedor e desnecessário é acompanhado pelo incentivo ao consumo de produtos inventados para fazer circular o dinheiro de pessoas iludidas pelo mecanismo neurotizante que torna desejável qualquer inutilidade apresentada como símbolo de moderno. os meios de comunicação social, principalmente os canais televisivos servem de veículo para apresentar, com técnicas especializadas de publicidade que alimentam o medo ou a repulsa, de informações selecionadas com base em censuras e mentiras que vão formar a opinião pública. dessa forma a população vai sendo formatada para pensar como a elite que comanda o sistema deseja.

A humanidade foi conduzida a um estado de alienação e de semi-loucura que a afasta da realidade concreta em que vive, permanecendo desarmada perante um comando invisível e avassalador. Passou-se a viver em um mundo de ilusões que dominou a ação e o pensamento das populações, destroçando os seus hábitos de convívio familiar e social e a confiança nos princípios éticos e de justiça que serviram de base para a construção das sociedades.

Com programas maquiavélicos, o precário equilíbrio em que viviam as sociedades no século 20 desapareceu, deixando dúvidas sobre a ética dos governantes e a sua preocupação com a justiça. e, em conseqüência conduzindo ao abandono dos valores que dignificam a pessoa humana. As instituições dos Estados, assim como os seus dirigentes, foram equiparados às grandes empresas e seus donos que inventam projetos que visam apenas lucro de uns mesmo que cause o infortúnio da maioria.

Foi a perda de credibilidade total, com a conseqüente perda de confiança no futuro e de esperança na construção da vida. Tudo se tornou passível de substituição por novos produtos e mais espertos dirigentes, lançados ambos pelo Mercado Livre: de objetos a programas de estudo científico, de projetos de vida a formas de organização social, imposição de um idioma que deturpa o uso dos idiomas nacionais, os objetivos éticos e humanistas utilizados pela comunicação social dão lugar à promoção de vícios , escândalos, crimes, o desaparecimento total do respeito humano.

No caso do avião da Germanwinds alemã que foi despenhado no alto dos Pirineus por um co- piloto suicida, há a comentar a realidade vivida pelas grandes empresas de aviação e a ausência de responsabilidade dos Estados na Europa com a imposição de uma redução dos seus funcionários e da capacidade de manutenção técnica e mecânica, por razões de mesquinha
poupança financeira. Desemprego e utilização do material para além da sua validade tornam a empresa mais lucrativa e apetecível para os compradores privados. Exemplo: existiam obrigatoriamente 2 pilotos e 2 co-pilotos na cabine de vôo, mas foram reduzidos à metade. Por falta de salários compatíveis com as funções e carreiras (porque a legislação do trabalho deixou de ser cumprida) os profissionais de vôo e os de oficinas de manutenção foram em busca de melhores condições de vida e remuneração em outros países. Um caso, o mais absurdo, que agora é de conhecimento público, é que no exame médico obrigatório das condições de saúde dos pilotos foram suspensas as análises de foro psiquiátrico, o que dispensou médicos especialistas! Por tal decisão 148 pessoas foram assassinadas por um ato de loucura de um co- piloto transtornado. Mas, quem foi o responsável por este acidente? Não é imputável a uma pessoa com características de insanidade qualquer responsabilidade jurídica por falha profissional. Uma crueldade foi lançada sobre os familiares de um homem doente que carregou com a culpa de todo um sistema irresponsável porque só tem por objetivo o lucro empresarial.

O sistema capitalista, para sair da crise e manter a elite poderosa que governa o planeta, aliena as pessoas com drogas farmacêuticas ou produzidas por associações criminosas que circulam pelos países misturados aos que fazem o branqueamento do capital. O sistema não tem rosto nem nome, mas os seus agentes, sobretudo os altos dirigentes internacionais e nacionais, os seus defensores, estes têm cara, nome e endereço. São os responsáveis não só por este crime monstruoso, como pela desordem social que implantaram nos países em busca de lucro.

A falta de respeito pela legislação laboral conquistada e a instabilidade financeira das nações determinaram a quebra das forças produtivas, impuseram a austeridade que leva à miséria, o roubo milionário impune que leva os bancos à falência e faz desaparecer a poupança de pessoas honestas, o desemprego que prejudica tanto o setor da aviação, mas também o da saúde pública, da educação, da assistência social devida pela Previdência aos idosos e incapacitados de trabalhar para viver, o desespero que leva ao suicídio e à violência criando um mundo perverso para as crianças lançadas no caminho da marginalidade, da fome e da morte.

A responsabilidade pela queda do avião (e de vários aviões que têm desaparecido não se sabe como) e de todas as ações nefastas que foram desencadeadas para compensar a crise financeira, inclusive as sucessivas guerras para que os poderosos do sistema se apossem do petróleo, o incitamento aos atos terroristas até à criação de um chamado "Estado Islâmico" que serve de ponta de lança para a invasão pela Nato de países do Oriente Médio e do norte da África; a responsabilidade pela destruição da natureza e o enlouquecimento da cumanidade é dos atuais dirigentes dos organismos internacionais que comandam presidentes e Chanceleres das nações submissas.

Deveriam ser levados ao tribunal por estes crimes, enquanto há pessoas capazes de discernir as origens das calamidades sociais e baterem-se pela justiça social. Como disse o Papa Francisco com tristeza "somos cúmplices" se não denunciarmos e lutarmos para pôr fim a tal horror que ameaça a humanidade.


segunda-feira, 30 de março de 2015

A história do imperialismo na América Latina





Salvador Allende, ao ser entrevistado por Roberto Rossellini, fez um relato muito claro do seu perfil político e ideológico marcado pela ética e o humanismo que constituiram as raízes do seu comportamento como Presidente do Chile. De origem burguesa, fez parte do Partido Radical onde uma ala progressista era confrontada com a conservadora.

Jovem estudante de medicina, seguindo os passos do pai, procurou ser sempre excelente aluno tendo obtido as maiores notas em todos os concursos que abriam melhores condições no desenvolvimento da carreira profissional. No entanto, como com igual dedicação destacava-se no grupo de estudos de Marx e Engels, foi impedido de ocupar os lugares conquistados em concursos universitários.

Foi fundador do Partido Socialista distinguindo-se pela busca de aliança com o PCCh, o que lhe permitia adquirir um conhecimento mais amplo e profundo da realidade em que vivia o povo chileno. A sua história de vida é um caminho de evolução a partir dos valores humanistas de uma classe dominante para o da solidariedade e identificação com a cultura e a luta dos trabalhadores do seu país. Foi assim que, depois de ser candidato à Presidência por quatro vezes, conquistou um apoio sólido popular e de várias personalidades de diferentes tendências que admiravam a sua firmeza de princípios e tenacidade na luta. Venceu não só o pleito eleitoral mas as oposições civis e militares manipuladas pelas forças imperialistas.

Considerava como esteio econômico do Chile a produção agrícola, dando apoio à reforma agrária dirigida pelos camponeses organizados em Consejos Comunales, e a de cobre que tratou de nacionalizar dentro das condições legais existentes. Sabia que o percurso significava uma revolução à qual se opunham as empresas estrangeiras (controladas pela Inglaterra e pelos Estados Unidos) e as oligarquias nacionais proprietárias de latifúndios e do sistema financeiro que controlava as exportações de matérias primas e importações de produtos industrializados e tecnologia. Evitava adotar exemplos de luta dos países socialistas, defendendo sempre as peculiaridades e idiosincracias da história e da cultura do Chile.

Faltou-lhe o apoio unificado das nações latino-americanas que, naquele momento estavam afogadas em golpes militares desferidos com o apoio direto do imperialismo que já se instalara nos Estados Unidos em contradição com a história progressista, naquele país, de grandes figuras políticas e intelectuais que foram perseguidas e algumas até mesmo assassinadas, como os Presidentes Lincoln e Kennedy.

Allende revela o conhecimento das dificuldades nacionais e internacionais que o seu projeto de desenvolvimento para o Chile despertava nas elites que ainda dominavam o poder econômico, a comunicação social e a formação profissional e mental das populações, mantidas desde os primórdios da colonização, mas também pelo subdesenvolvimento imposto à América Latina para manter a distância cultural e financeira entre os trabalhadores explorados e a elite dominante.

Heróis da humanidade, como Allende e Che Guevara e tantos mártires das lutas revolucionárias latino-americanas, deixaram exemplos de conduta pessoal e de análises ideológicas que constituem as bases da consciência que anima os militantes dos partidos de esquerda e dos movimentos sociais que hoje contam com a unidade entre os povos do continente americano. Passo a passo, como escreveu em 2003 Alvaro Cunhal, "Outras revoluções socialistas tiveram lugar. Numerosos povos secularmente subjugados conquistaram a independência."

No século XXI são eleitos na América Latina vários governos progressistas identificados pela luta pela conquista da independência e da soberania nacionais, no caminho iniciado por Cuba, com Fidel Castro, e seguido pela Venezuela com Hugo Chavez.

"Com o seu poderio, alcançado pela construção do socialismo, a União Soviética alterou a correlação das forças mundiais" prossegue o texto de Alvaro Cunhal, que "manteve em respeito durante décadas o imperialismo, tornando a competição entre os dois sistemas um elemento dominante na situação mundial."

A História segue o seu curso, oscilando de acordo com as estratégias e as debilidades que se sucedem nos dois campos ideológicos, em função da consciência de luta dos povos face às imagens propagandeadas pelas elites dominantes de adesão à uma necessária democratização do sistema. O capitalismo, para alcançar a sua meta de sistema de pensamento único e final cria a "globalização" e afirma "o fim das ideologias". O seu poder cresce mas, como diz ainda Alvaro Cunhal, "o ser humano continua pensando. E o pensamento e a ideologia dos trabalhadores e dos povos oprimidos serão sempre inevitavelmente opostos aos das potências e classes exploradoras e opressoras".

A crise que abala hoje os países ricos alimentados pelo imperialismo, introduziu nos seus respectivos territórios nacionais a miséria e a desorganização social que antes caracterizava os países subdesenvolvidos. Sendo uma crise natural ao sistema capitalista, que destrói as forças de produção e dizima as populações para exercer o poder predador que o sustenta negando os valores éticos da humanidade, recorre às formas criminosas de terrorismo e de chacinas que provocam o desespero dos que se sentem isolados e corrompem os ambiciosos que se consideram acima dos seus povos para implantar novamente, através de golpes sobre os governos democráticos, o divisionismo nacional que é a arma fundamental dos poderosos. É um retrocesso histórico que contraria a evolução da humanidade consolidada nos últimos dois séculos de construção da democracia.

Zillah Branco