terça-feira, 29 de setembro de 2015

A falsa democracia da elite oligárquica

Michel Lowy, brasileiro e professor universitário em França, escreveu no portal galego do Diário da Liberdade, com absoluta clareza: "Os governos da Europa estão indiferentes aos protestos públicos, greves e manifestações maciças. Não se importam com a opinião ou os sentimentos da população; estão apenas atentos — extremamente atentos — à opinião e sentimentos dos mercados financeiros e seus funcionários, as agências de avaliação de risco.


Na pseudodemocracia europeia, consultar o povo em um referendo é uma heresia perigosa, ou pior, um crime contra o Deus Mercado. O governo grego, liderado pelo Syriza, a Coalizão da Esquerda Radical, foi o único que teve coragem para organizar tal consulta popular.

O referendo grego não tinha apenas a ver com questões fundamentais econômicas e sociais, foi também e acima de tudo sobre democracia. Os 61,3% de gregos que disseram não são uma tentativa de desafiar o veto real das finanças. Esse poderia ter sido o primeiro passo em direção à transformação da Europa, de monarquia capitalista a república democrática. Mas as atuais instituições da oligarquia europeia têm pouca tolerância à democracia. Imediatamente puniram o povo grego por sua tentativa insolente de recusar a austeridade. A “catastroika” está de volta à Grécia com uma vingança, impondo um programa brutal de medidas economicamente recessivas, socialmente injustas e humanamente insustentáveis. A direita alemã fabricou este monstro, e forçou ao povo grego com a cumplicidade de falsos “amigos” da Grécia (entre outros, o presidente francês, François Hollande, e o primeiro-ministro da Itália Matteo Renzi)."

Hoje podemos acrescentar a vitória da participação popular nas eleições para o parlamento Catalão, unidos no protesto contra a política "catastroika" da Espanha e com a ameaça de prosseguir no processo de independência nacional. Os eleitores europeus, de modo geral estavam à negar o seu voto nas eleições dominadas por um modelo anti-democrático que satisfaz a chamada União Europeia gerida por lobbies de experts do Deus mercado e entorpece as iniciativas populares. Para que votar se os governantes são escolhidos no Clube Bildenberg! Em uma alternância em que cada um é pior que o outro? Mas ao surgir uma proposta de mudança, como na Grécia e agora na Catalunha, o povo se pronuncia.

Lowy ainda explica no seu artigo citado : "De acordo com Giandomenico Majone, professor do Instituto Europeu de Florença, e um dos teóricos semioficiais da UE, a Europa precisa de “instituições não-majoritárias”. Ou seja, “instituições públicas que, propositalmente, não sejam responsáveis nem diante dos eleitores, nem de seus representantes eleitos”: essa é a única maneira de nos proteger contra “a tirania da maioria”. Em tais instituições, “qualidades tais quais expertise, discrição profissional e coerência […] são muito mais importantes que a responsabilidade democrática e direta”.

A crise do capitalismo revela-se a vários níveis: financeiro, de incompatibilidade com a democracia, de abandono dos princípios éticos e humanistas, de medo dos movimentos populares. Na progressista América Latina - que foi capaz de definir a União das várias nações com respeito e apoio à independência de cada uma e ao desenvolvimento social e económico dos respectivos povos, - o imperialismo agora tenta fechar as finanças nas mãos da elite e destruir a força dos movimentos sociais e políticos de esquerda que sairam da fome e entraram na sociedade civil no amplo momento histórico iniciado por Cuba, por Chaves na Venezuela, por Lula no Brasil, pelo casal Kirtchner na Argentina e tantos outros presidentes eleitos democraticamente nas Américas do Sul e Central.

A crise do sistema é global, e com os estertores da morte o monstro torna-se mais perigoso. Desencadeia a guerra disfarçada por um exército mercenário a que foi dado o nome de Estado Islãmico para justificar os bombardeios que já destruíram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, o Egito, e agora a Síria. Mente para parecer democrata com medo da população maioritária que exige os seus direitos conquistados através da história. A recente revelação da grande mentira dos responsáveis pela produção dos carros da Wolkswagen com um kit que encobre a emissão de gases poluentes (que há dois anos foi comunicado à União Europeia), hoje é um símbolo da elite poderosa que governa o sistema capitalista. Mentem para poderem permanecer nos altos cargos, para amealharem riquezas milionárias, mesmo que com isso adoeçam as pessoas, matem os mais débeis. Não há escrúpulos, não há moral, desconhecem a ética que garante o respeito humano.

Enquanto as instituições formais de poder - a União Europeia, os governos nacionais, a ONU, o presidente dos Estados Unidos, os reis e rainhas - vestem-se de democratas e solidários para assistir ao fluxo de fugitivos das guerras movidas pela NATO e seus aliados, que são conduzidos por máfias conhecidas que enriquecem com o tráfico de famílias atiradas em barcos à deriva no Mediterrâneo, e discutem horrorizados a forma de se livrarem da presença dos sobreviventes nas praias turísticas da Europa, a França bombardeia a cidade Síria de Homs deixando mais mortos e maior número de novos foragidos que acreditam que a Europa os acolherá. Parece absurdo este cenário onde se destaca a irresponsabilidade de altos dirigentes mundiais e o descaramento com que cometem crimes hediondos. Mas se verificarmos que essa elite do sistema habituou-se à mentira para enganar o povo ainda ingênuo e ao medo de que as populações despertem para os direitos de cidadania e se unam em torno de idéias próprias, só poderiam trair os princípios humanistas neste fim de linha a que o sistema os levou como oligarquia poderosa.

Assistimos à ignomínia de uma massa humana foragida e sobrevivente aos afogamentos, com velhos e crianças sendo empurrados de uma fronteira a outra cercadas por arame farpado que improvisa um muro terrorista. Caminhando em busca de socorro que recebem de voluntários que sofrem por eles enquanto os governantes negam em nome da proteção aos seus habitantes; recebendo documentos improvisados que os classifica como "refugiados", isto é, indesejáveis ao convívio com os famosos "civilizados"; sendo escolhidos de acordo com a necessidade de mão de obra dócil e barata do país de acolhimento; com o risco de serem acolhidos em velhos campos de concentração, como o de Dachau na Alemanha de Merkel ou serem devolvidos às ruínas do seu país de origem que continua a ser bombardeado.

O governo Inglês lava as mãos como Pilatos. Abre a carteira e dá uns trocos ao Libano, à Turquia e a outros países bem longe para que recebam os fugitivos dos bombardeios das terras vizinhas. Foi a idéia salvadora para os ricos da União Europeia. Com dinheiro resolvem tudo e não precisam sujar os seus territórios com miseráveis famintos e doentes e as redes de arame farpado que lembra terrorismo e cueldade fascista. Na reunião em que esta decisão salvadora imperou os altos dirigentes e lobbistas anexos riram como hienas, felizes e com caras de santos. Mais uma mentira com aparência democrática e fraterna.

Há boas pessoas no mundo, veem-se nos trabalhos voluntários e na organização de associações de socorro que superam a incompetência dos governantes e criam recursos para realmente acolherem essa massa humana tratada como gado pestilento. Em Portugal mais de uma centena de organizações aderiram ao plano de acolhimento nacional. Estão otimistas pela experiência que têm de apoiar o povo português miserabilizado pela famosa "austeridade" imposta pela "catastróika" e os refugiados de outras guerras mais antigas como a da Bósnia e da antiga Jugoslávia. Sabem que vão receber pessoas com culturas e religiões diferentes, vítimas de preconceitos além dos efeitos da guerra. Sabem que terão de tratar pessoas e muitas crianças com traumas difíceis de sanar.

Mas fica a dúvida angustiante: "não temos tido apoio institucional para tratar as crianças portuguesas mais carentes, seremos capazes de ajudar os que agora chegam?" E a resposta cheia de esperança de quem é porta-voz da Plataforma de Solidariedade: "Portugal tem mais democracia que os países ricos, com o aumento das necessidade sociais temos a oportunidade de levar o Estado a criar soluções que aperfeiçoarão o pouco que temos!"

É verdade, os portugueses são solidários com os refugiados talvez pela presença da cultura camponesa dominante, e têm uma Constituição democrática, a mais progressista da Europa, herdada da Revolução dos Cravos cujas sementes permanecem nos movimentos sociais e políticos de esquerda que seguem em luta incansável.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A bandeira da esperança

O povo português, esmagado pela miséria gerida pela Troika (trazida pelos governos sociais-democratas do PS e do PSD na escalada contra as conquistas de Abril), faz um enorme esforço para reerguer a bandeira da esperança nestas eleições.


Enquanto os candidatos dos partidos responsáveis pela crise de um país atiram as culpas de um para o outro - quando o país havia caminhado para a independência económica em 1974 com a nacionalização da banca, a reforma agrária e o apoio a todos os setores da produção, à educação e a saúde públicas - os trabalhadores e os que perderam as suas economias engolidas pelo sistema bancário, acompanhados pelos estudantes e os idosos, sem empregos e sem recursos, protestam contra as injustiças e os erros administrativos que lhes rouba a esperança.

A esquerda luta por uma alternativa ao sistema de opressão, que a austeridade recaia sobre os milionários e essa elite de subservientes que obedecem as ordens estrangeiras para enriquecer os bancos privados; que seja cumprida a Constituição de Abril na defesa da produção nacional e a criação de empregos para todos os que realmente trabalham; que sejam respeitados os direitos dos reformados e pensionista à uma velhice digna acompanhada da solidariedade social; que Portugal assuma a sua dignidade nacional com a coragem de ser independente; que as nações europeias se apoiem e não percam o rumo da cultura íntegra de uma história de luta pelo desenvolvimento.

O quadro dantesco dos foragidos de uma guerra conduzida pelos Estados Unidos e a NATO no Oriente Médio e norte da África, atirados do mar para terra e de uma fronteira para outra, vendo serem levantadas barreiras de arame farpado e exércitos armados para os expulsarem com jatos d'agua e de gás de pimenta, comove e provoca a indignação de quem ainda conserva princípios humanos de respeito e solidariedade. Os mesmos líderes da União Europeia que estudam (muito tarde!) soluções para distribuírem os fugitivos da guerra que ajudaram a promover, despejam lágrimas de crocodilo e escolhem com lupa as famílias que poderão entrar nos seus ricos territórios: os Estados Unidos procuram famílias jovens que possam ser formadas no seu modelo para prestarem serviço sem questionar a política interna; a Alemanha prefere os mais pobres para irem para os seus campos de modelo caritativo; a Hungria recusa todos e ameaça defender à bala a sua fronteira; a Inglaterra prefere mandar esmolas para os campos no Líbano e outras paragens bem longe do seu reino. Enquanto isso os tentáculos britânicos da Austrália bombardeiam a Síria deixando mais mortos e foragidos desesperados. O famoso sistema capitalista em crise usa as armas do fascismo e aperfeiçoa a criação de grupos terroristas como ponta de lança para destruir a estabilidade dos povos.

Difícil é falar em esperança neste momento crucial da história da humanidade, mas os que sempre lutaram do lado dos que mais sofrem, na esquerda que transforma e revoluciona sempre em defesa dos seres humanos, continuam a levantar a bandeira da esperança feita com as cores da natureza e da liberdade. Somos muitos e defendemos o direito à vida digna para a maioria! 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Crise de solidariedade e de responsabilidade

O Secretário Geral da ONU descobriu agora que a crise principal que assola o planeta é de solidariedade. Esqueceu-se de referir que para haver solidariedade é imprescindível existir a consciência de responsabilidade social.


O drama dos fugitivos das guerras não é de hoje. Há mais de um ano são reveladas estatísticas dos que pagam um elevado preço às máfias que fazem o tráfico clandestino de seres humanos em busca de paz para sobreviverem. Se há estatísticas, inclusive dos que foram metidos em barcos e abandonados no Mediterrâneo, é sinal de que o crime de tráfico humano é bem mais antigo. Mas, durante este tempo uma letargia imperdoável dominou os mais altos mandatários de organismos internacionais e nacionais que só começam a despertar com o ruído das próximas eleições ou o protesto das populações que se tornaram miseráveis sob o peso da austeridade programados e impostos pela ditadura da União Europeia e FMI.

Não recordam a criação do programa belicista de Bush em 2001, "Liberdade Duradoura" para se vingar de um terrorismo, atribuído ao seu ex-amigo Bin Laden, que teria originado o "eixo do Mal" e os "Estados Bandidos". Em 2003 estabelece-se a "nova ordem" que se inicia com a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e Inglaterra com o falso pretexto de buscarem armas químicas.

Agora querem demonstrar que os povos têm de ser solidários e que os governantes devem oferecer recursos para manter os campos de refugiados. E a responsabilidade de quem tem usado e abusado do poder político (bem remunerado) durante este sono profundo que não os deixou perceber que a Terceira Grande Guerra estava em curso no Médio Oriente e Norte da África desde que os Estados Unidos decidiram que o "eixo do mal" estava naquela região?

Mesmo durante o sono os governos Europeus, norte-americano e de Israel enviaram armas e soldados para darem apoio aos bombardeios executados pela NATO e ajudaram a promover e divulgar os distúrbios internos chamados de Primavera Árabe ou com nome de flores nas antigas repúblicas socialistas. Será que por mera incompetência administrativa não pensaram que os habitantes que não morreram nos ataques militares procurariam fugir para o apregoado paraíso enfeitado para os turistas? E a ONU, que acompanhou tudo expondo à morte os seus soldados e funcionários, também sofre dessa ignorância crassa?

E as polícias secretas, que brilham nos filmes e livros de detetives, a famosa CIA e o FBI que há tantos anos descobrem agulha em palheiro e conseguem matar terroristas em casa com uma perícia admirável para parecer morte natural, e que se especializaram em promover distúrbios entre seitas religiosas ou grupos políticos para criarem revoltas civis que justificam bombardeios, não conhecem as máfias que fazem o tráfico humano? Pensam que os povos são parvos ou distraídos para não perceberem que estão todos igualmente comprometidos na Terceira Guerra e nos crimes secretos que a humanidade suporta apavorada e impotente? O imperialismo existe e massacra globalmente o planeta. Ainda há quem duvide de tal evidência?

O assunto mais divulgado é o dinheiro nos bancos e no mercado. Nas ruas o povo reclama contra o desemprego e os cortes nos salários, o aumento de impostos e o calote de bancos que usaram indevidamente os créditos que eram para o Estado Social. Nas campanhas eleitorais os que "responsáveis" pelas crises, ou seja os que não sabiam que estavam desencadeando uma Terceira Guerra, aparecem com falas mansas de caridosos que recomendam à população que seja solidária com os foragidos.

Além das cenas de terror que a TV mostra todos os dias, de afogados no Mediterrâneo ou mortos por asfixia em camiões de congelados quando tentavam chegar aos campos de refugiados, a indignação causada pelo cinismo dos governantes mundiais e nacionais destrói a resistência mental dos humanos que prezam a dignidade e a responsabilidade. Caem em depressão, sofrem de angústia e desespero, acabam medicados com os medicamentos que enriquecem a indústria farmacêutica, ou cometem atos de loucura inspirados nos mercenários e terroristas criados pelo imperialismo no Médio Oriente.

Até onde vai continuar esta fraude globalizada que chacina milhões de pessoas, como se nada fosse, e desespera os povos que ainda querem conservar a esperança de construir a paz?

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

A escolha certa contra as chantagens



A Grécia, esmagada pela "austeridade" imposta pela União Europeia através de seus emissários financeiros colocados nos altos postos governamentais daquele país (e de outros, igualmente subalternos à política social-democrata da UE), elegeu no início de 2015 um Partido de esquerda, Siriza, para abrir caminho a uma alternativa que devolvesse a dignidade nacional e a sua riqueza construída pelo povo para desenvolver a nação democraticamente.

O Primeiro-ministro Alexis Tsipras recorreu a uma aliança com um partido de direita -ANEL- por não ter podido contar com uma maioria de deputados de esquerda, e entrou em contato com o Eurogrupo para debater a questão da dívida face à situação de miséria decorrente da chamada "austeridade". Foi tratado com sobranceria pelos representantes do capital europeu e norte-americano que lidam com a palavra "democracia" com a mesma leviandade com que aplicam  "austeridade" às camadas mais pobres da população.

O mundo acompanhou com surpresa e indignação a falta de respeito do grupo de técnicos financeiros, pelo jovem estadista eleito pelo povo grego para representar os seus interesses. Admirou a paciência e serenidade com que Tsipras tentou traduzir em inglês o significado da palavra de origem grega "democracia" e o mandato que o seu povo lhe dera para discutir as origens da pobreza que se abatera sobre o povo trabalhador desde que os governos neo-capitalistas se prestaram a aplicar as receitas da UE. Chegaram a um impasse e Tsipras foi levado pelos deputados que o apoiaram, sociais-democratas e de direita, a aceitar um diálogo longo com os petulantes burocratas do capital.

Pediu que o povo manifestasse pela segunda vez a sua vontade de "afirmar o ideal democrático e obter a concordância da Zona Euro". Obteve este apoio de mais de 60% dos eleitores e partiu para uma nova "batalha de Pirro". Encontrou o mesmo muro de antes onde o humanismo, que é a base dos temas sociais, foi substituído pelas pedras do Euro para serem acumuladas nos bancos privados. E o tema ficou subordinado aos donos do dinheiro que são técnicos em chantagem política.

Por um lado a Comissão de Auditoria e Verdade sobre a Dívida Grega, criada no Parlamento grego demonstrou com dados desde a década de 1980 que o país havia sido delapidado pelos juros exorbitantes pagos por empréstimos do Banco Europeu numa manobra que beneficiava os bancos privados com o que recebia do Estado. Simplificando: os mais pobres (cidadãos e micro empresas) perdem empregos, têm redução nos salários e aumento nos impostos, criando um capital que o Estado entrega aos bancos e seus comparsas que desfrutam de crescentes fortunas milionárias. Por outro lado, esta realidade (que existe igualzinha em Portugal e demais sociedades empobrecidas), não comoveu os burocratas do Eurogrupo nem os novos apoiantes sociais-democratas do Parlamento Grego, empurrando Tsipras para ceder em ideais para receber em empréstimos.

Sem apoio, Tsipras assinou o texto contrário aos mandatos populares e à sua consciência e pediu demissão para concorrer em novas eleições.

“Não atingimos o que prometemos ao povo grego mas salvamos o país"..."demos uma mensagem à Europa"..."temos de minimizar as consequências negativas", disse o ex-Primeiro-ministro grego ao demitir-se do cargo e candidatar-se às novas eleições. Pode-se pensar que é uma atitude ingénua, moralizante, idealista, considerando-se como realidade o ambiente de chantagem e prepotência da política dominante na Europa e no Mundo.

Mas os povos começam a defender o direito a conservarem a boa fé, portanto a ingenuidade, a moral que traduz a ética, os ideais por mais utópicos que pareçam dentro do sistema capitalista que domina a humanidade, mais coerentes com a sensibilidade do ser humano. Tsipras confia no surgimento de uma consciência mobilizadora dos gregos, mas também dos demais povos europeus, para elegerem governos capazes de defender os direitos humanos e rejeitarem o poder dos que acumularam riquezas para chantagearem os pobres.

A expectativa é grande em todos os momentos eleitorais que virão. Os movimentos e partidos de esquerda precisam, tal como os cidadãos eleitores, defenderem os direitos de independência e dignidade das nações e programas de desenvolvimento das suas forças produtivas sem os limites criados pelo sistema capitalista e os programas de enriquecimento ilícito apregoados pela Troika. Deixemos de viver como atores de um teatro feito por e para ricos. Pensemos com a cabeça de trabalhadores e cidadãos que somos, livres dos condicionamentos impostos por governantes e estruturas de poder que nos roubaram e abandonaram para usufruir de maneira egoísta e criminosa da riqueza social. Só a força popular poderá salvar a Grécia, assim como Portugal e outros países.

Zillah Branco

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Os estertores do velho sistema



A morte de um monstro impressiona pela soma desesperada das forças em declínio para a última tentativa de resistência à morte. Impressiona, assusta, amedronta, os que o conheceram vivo sempre a ameaçar de formas diferentes, parecendo muitas vezes inofensivo e até amigo para os que vivem o seu dia a dia de trabalho na luta pela sobrevivência e um pouco de alegria. Não se pode calcular o tempo que o estertor poderá durar, nem as agressões que ainda serão causados por aquela poderosa força que viveu da absorção de milhões de vidas sacrificadas em seu benefício.

Povos antigos criaram histórias que registam na figura de animais com o corpo misturado com características humanas, constituindo símbolos das forças do mal que permanentemente destruíram a paz entre os homens trabalhadores e entristeceram a vida das famílias e seus filhos que cresceram no medo. Alimentaram a idéia de que um dia surge um herói capaz de matar o monstro e salvar a humanidade. A forma mitológica não prepara os povos para uma compreensão de que o "mal" está presente nas ambições de uns sobre os outros, no oportunismo dos que enganam os mais ingénuos, no abuso das capacidades de quem é mais forte explorando e até escravizando os que dele dependem. Nem sempre o "mal" tem a cara de "mau", mesmo porque as suas capacidades empreendedoras lembram os heróis.

Com tais crenças tradicionais, o monstro maligno foi apoiado através dos tempos pelos povos que consideraram normal e cômodo submeterem-se ao comando de uma elite capaz de organizar a vida em sociedade distribuindo as migalhas da sua crescente riqueza produzida pelo trabalho de todos, como salários mínimos e algum apoio social para que o povo continue a viver e possa comprar produtos para que o dinheiro circule.  

Mas as sociedades começaram a despertar e a pensar sem medo sobre as injustiças criadas por uma elite nem sempre respeitável nem admirável pelas suas qualidades pessoais - revelam pouca inteligência, desonestidade, luxúria, esbanjamento, oportunismo, mentiras, incompetência, mesmo na sua função de administrador e gestor das questões públicas - na defesa do sistema monstruoso que os mantém no poder.

Elite capitalista privilegiada

A descoberta de que a elite (que representava os heróis pelas suas qualidades pessoais e capacidades de proteger os que a ela se subordinavam) tem defeitos e ambições que a levam a explorar e trair os interesses dos povos, corresponde ao desenvolvimento de uma consciência democrática que desencadeia a participação popular na condução política da sociedade. Os trabalhadores e toda a população dependente, portanto a classe mais pobre, dá início á sua formação, ao seu desenvolvimento de cidadão, à luta contra os erros (para os que são escravizados) de administração e gestão impostos pela elite que acumulou as riquezas para seu uso pessoal. Inicia-se um período revolucionário de distribuição igualitária dos benefícios através dos serviços públicos de um Estado Social.

Na medida em que a elite luta pelo seu poder haverá confrontos com os que lutam pela democracia no estabelecimento dos princípios de igualdade e de liberdade social. A fraternidade será fruto da justiça com o fim da exploração dos mais carentes e dos preconceitos - de origem étnica, de opções ideológicas e religiosas, de gênero, de capacidade física, etc.

As mudanças não ocorrem de um dia para outro. A consciência de cidadania depende da formação mental, dos movimentos sociais, do esclarecimento sobre a informação que é deturpada pela mídia, por vencer os medos que os mais pobres têm de perder a capacidade de sobreviver. Há milênios que as elites controlam os povos com ameaças de fome e morte e distribuição de parcos recursos para que trabalhem sem contestar as condições. Criaram mitos que justificam tal situação como uma realidade insuperável. Controlam as mentes selecionando as informações divulgadas, limitam o ensino de acordo com a riqueza de cada um, também o atendimento à saúde é feito de acordo com os privilégios de classe. Vendem as casas, a água, a energia, o transporte, a segurança civil, a previdência social para os incapacitados, e cobram impostos sobre todos os produtos que circulam na sociedade.

A história das lutas, reveladas pelos livros e pelos militantes revolucionários, é permanentemente combatida pelas forças armadas da elite. Matam, prendem e destroem os registos, para que os povos não os sigam. As grandes descobertas científicas, feitas em benefício da humanidade, foram usadas para destruir inocentes, como: a bomba atômica, os aparelhos óticos de longa distância, os aviões, submarinos, os raios-X, a internet, os medicamentos e produtos químicos aplicados à natureza, a seleção dos vírus e bactérias. As diferentes idéias são utilizadas para promover conflitos sociais, e destes chegam às guerras que enfraquecem nações para que os mais fortes ocupem or ricos territórios com o pretexto de pacificação e roubem as riquezas lá existentes.

A crise do sistema

Falamos nos "estertores" do capitalismo ao assistir as crises que o sistema enfrenta  chegando ao fim da sua fase de produção e mergulha na de concentração financeira como fruto da mesquinha tendência da usura que dominou a elite. Parece a morte de um monstro que devorou os que o construíram. É uma etapa da evolução de um processo que teve como ideal o enriquecimento. Cabe à humanidade, que foi explorada e se tornou a vítima da ambição usurária da elite, impor um novo processo construtivo com o ideal social, do bem comum para salvar os povos e o planeta.

A elite, para sobreviver como parte do coletivo social, deverá desenvolver a consciência de cidadania e as suas capacidades construtivas como todos, sem controlar o poder que será gerido democraticamente.

A América Latina tem caminhado neste sentido e várias nações despertaram para a necessidade de iniciar programas de democracia cidadã. Sem confrontos bélicos os partidos de esquerda conquistaram os Governos aliados aos setores produtivos da elite nacional. Deram maior importância ao desenvolvimento de áreas antes abandonadas e a populações até então marginalizadas e vivendo na miséria.

A semente deste comportamento político deve-se a Cuba, que suportou mais de meio século de bloqueio económico imposto pelo imperialismo que pretendia assim destruir o sistema socialista implantado. Além de sobreviver como nação independente Cuba desenvolveu a educação e a saúde a nível dos países mais ricos do mundo e manteve a sua produtividade de modo precário por falta de investimentos mas equilibrado para atender de forma igualitária as necessidades básicas de toda a população. Destacou-se no mundo como nação solidária com os povos em luta pela sua independência na África com as suas forças armadas que sempre garantiram a integridade nacional quando agredidas pelos Estados Unidos. Diante do caos que domina os países mais ricos e mais anti-democráticos do planeta, Cuba emerge com uma riqueza insubstituível de características éticas e humanista.

O surgimento de Hugo Chaves como um grande líder na Venezuela que abriu caminho para o que chamou "Revolução Bolivariana", reforçou o exemplo de Cuba que também foi buscar inspiração em heróis latino-americano, como José Marti, para congregar os seus apoiantes nas fileiras populares com tradição de luta histórica contra o colonialismo. Todas as nações da América do Sul e Central desenvolveram movimentos libertadores de ditaduras impostas pelo imperialismo e foram, uma a uma, elegendo para os Governos lideres de esquerda coligados com forças políticas defensoras de um capitalismo nacional que se via oprimido pela matriz mundial aliada ao imperialismo.

No Brasil a eleição do Presidente Lula foi de extrema importância por se tratar do maior país do continente que retomou a linha do nacionalismo aberta por Getúlio Vargas que criou as grandes empresas estatais e a legislação do trabalho. Em 12 anos, um presidente que tem apenas o diploma primário colocou mais estudantes na universidades e três vezes e meia mais estudantes em escolas técnicas do que antes foi feito em 100 anos. Este Presidente operário levou energia elétrica gratuita para 15 milhões de pessoas, não deixou que fosse privatizado o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e os bancos do Espírito Santo, de Santa Catarina e do Piauí. Nos últimos 12 anos 70 milhões de pessoas puderam ter conta bancária, gente que entrou numa agência bancária pela primeira vez sem ser para pagar conta (discurso no sindicato dos bancários do ABC no dia 24 de julho de 2015: Jornal do Brasil online de 25/07/2015). Some-se a isto a distribuição de Bolsa Família a 11 milhões de famílias que viviam na miséria e sem documentos de cidadão - certidão de nascimento, registo em qualquer instituição de Estado para ter acesso ao serviço de saúde, escolas e segurança social. O reconhecimento de que o Brasil deveria apoiar a independência das demais nações latino-americanas levou Lula a retirar a Petrobrás do território boliviano onde explorava as jazidas de gás e a pagar o justo valor pelo uso da energia elétrica fornecida pelo Paraguai. Lula deu voz aos pobres e aos habitantes da periferia de uma sociedade capitalista dependente. E isto assustou o grande império e seus vassalos nacionais.

A criação do Mercosul permitiu um intercâmbio fraterno entre as nações latino-americanas tanto ao nível das trocas comerciais como no apoio ás lutas de cada um contra o poder imperialista, as questões internas derivadas de guerrilhas contra governantes comandados pelos Estados Unidos (como a Colombia) ou as dívidas impagáveis contraídas com o FMI (como ocorreu com a Argentina). A criação da ALBA e da CELAC completaram as organizações de unificação das nações latino-americanas para a sua defesa perante o mercado internacional que é comandado pelo imperialismo e não para centralizar o poder nos países mais ricos que exploram os mais pobres (como faz a União Europeia).

A crise do sistema capitalista libertou da pressão imediata do imperialismo o continente latino-americano que cultivava e disseminava a luta vitoriosa de Cuba Socialista. A Nação  líder, norte-americana, do imperialismo procurou fortalecer-se na Europa unida por organismos militares (NATO) e financeiro (Banco Central Europeu e FMI) e sugar as economias do Oriente Médio e da África já que não conseguia manter as garras na América do Sul como antes.



As nações mais pobres são as vítimas

De facto a UE com os Estados Unidos, reforçaram o sistema na sua função de domínio de tipo colonial sobre as nações europeias mais pobres, substituindo as guerras e invasões ( do Afeganistão, Iraque e Paquistão) por um trabalho secreto de provocação de conflitos internos contra os respectivos governos nacionais no Oriente Médio e Norte da África. Primeiro surgiram no leste os movimentos floridos, que destroçaram a antiga Iugoslávia e enfraqueceram as antigas repúblicas socialistas e a Ucrânia. Depois foi a Primavera Árabe que trucidou o Egito, a Líbia, a Eritreia, a Somália), e pela mão de Israel a guerra permanente contra o Estado Palestino. Com a formação do grupo terrorista "Estado Islâmico" (com militares remanescentes dos mercenários utilizados nas guerras) o imperialismo o usa como ponta de lança para atacar sobretudo a Síria. Mas a produção e organização de jovens terroristas foi um tiro no pé das sociedades mais ricas onde a juventude é mantida alienada para dar menos trabalho, mas que querem ser "heróis" como mostram os filmes da Fox e milhares de revistas de entretenimento perverso.

A presença forte e pacifista da China e a formação de uniões como BRICS e as que unem China, Vietnam, Rússia e outras nações da Ásia, é um forte anteparo ao avanço imperialista à oriente. Começam a ressurgir organismos de unificação dos países africanos que já têm presença na defesa internacional dos Direitos Humanos. E a América Latina é um exemplo que assusta a elite mundial.

Escravidão e genocídio

Desta guerra não declarada morrem milhares de civis e outros tantos, de uma classe média com alguma posse e formação escolar, fogem desesperados para a Europa através de um sistema criminoso de agentes que os metem em barcos para serem abandonados pela tripulação e ficam à deriva no Mediterrâneo. Como não surgem os que promovem a guerra, os países capitalistas assumem posições de falso humanismo para receberem os foragidos que, no melhor dos casos são alimentados e mantidos em campos provisórios com apoio voluntários das organizações de caridade. São os modernos "campos de concentração". As condições em que são conduzidos para os países ricos em busca de uma vida equilibrada, com risco de morte por afogamento e insolação/ desidratação, evidentemente é acompanhada (senão organizadas) pelas polícias secretas do imperialismo que criam um cenário confuso como filme de detetive. Salvos no Mediterrâneo são despejados na Itália e Grécia enquanto a União Europeia discute as "quotas" de "solidariedade" que cada país terá de suportar. Morrem milhares por afogamento e cansaço, então põem um super-barco e comboios nos caminhos de ferro para transportá-los para o interior da Europa mais à leste para proteger a Austria e a Alemanha. A face "humanista" aparece, mas não se sabe por quanto tempo, pois as guerras e o terrorismo criados para salvar o sistema prosseguem sem controle.

O panorama financeiro do sistema é contraditório porque serve para alimentar grandes fortunas pessoais e bancos privados por onde circula o "dinheiro podre" da especulação imobiliária que estoura periodicamente como "bolhas" e o resultado da "lavagem do dinheiro" obtido de maneira fraudulenta. Os poderes judiciários em algumas nações (Portugal, por exemplo) têm denunciado e levado à prisão renomados banqueiros e políticos corruptos, mas o dinheiro não retorna aos contribuintes lesados nem ao Estado que assume as dívidas e privatiza as empresas nacionais.

Visivelmente o sistema está falido, o que começa a ser reconhecido por altas personalidades conservadoras. Mas ainda não há força de esquerda capaz para criar uma alternativa socialista porque o sistema financeiro é mundial e amarra todas as medidas de produção e comercialização nas moedas padrão, dollar e euro. Os conservadores que defendem a dignidade do cidadão, afastam-se de uma camada de oportunistas que se apresentam como gestores políticos e prestam serviços ao imperialismo que os promove. É hora de aprofundar as discussões sobre as metas do capitalismo e as do socialismo e estabelecer um plano de trabalho para salvar a humanidade com dignidade.

Ignorância e ódio anti-revolucionários

A evolução da humanidade carrega conquistas positivas no pensamento científico e na produção económica e, ao mesmo tempo, fortalece uma elite privilegiada exploradora e autoritária que combate os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade que são a base da democracia. Tal contradição corresponde às formulações políticas de direita, para a elite e seus subordinados, e de esquerda para os trabalhadores e militantes revolucionários. O antagonismo dessas duas forças sociais é insuperável.

A social-democracia demagogicamente se apresenta como "capitalista à esquerda" como se fosse possível defender ao mesmo tempo o explorador e o explorado, os ricos e os pobres, os que mandam e os que obedecem. Dependendo das condições históricas dominantes, podem ser feitas alianças nacionalistas, pelos social-democratas, com a esquerda (nas guerras contra o fascismo, no desenvolvimento nacional contra as oligarquias ou o poder externo colonizador, por exemplo) que serão transitórias. Mas, mesmo durante este período de alianças, o caminho da esquerda é pela defesa dos setores mais pobres da sociedade e o desenvolvimento de uma consciência de classe e de cidadania e o dos capitalistas é pela concentração do capital que sempre depende do poder financeiro mundial. A esquerda permanecerá na defesa das empresas nacionais e a direita favorecerá a privatização para obter capital em prejuízo do poder nacional  que garante a independência.

Dinheiro não falta! Vergonha, sim!
Em Portugal as grandes empresas públicas privadas têm lucros milionários; os clubes de futebol pagam grossos salários e distribuem prêmios bilionários; o jogador de futebol Cristiano Ronaldo oferece uma ilha grega privada como presente de casamento ao amigo e compra um apartamento de mais de 16 milhões de dólares nos Estados Unidos; a medicina privada dá lucros; também o ensino privado é uma mina; a indústria do turismo faz hotéis de alto luxo em terras da Reforma Agrária; o povo miúdo e médio emigra em busca de emprego e amarga na austeridade, pois alguém tem de enfrentar o dever de pagar uma velha dívida feita em nome de Portugal. Um ex-Primeiro Ministro e um dos grandes gestores do centenário Banco Espírito Santo estão presos. Faltam outros que andam por aí inventando maneiras de ficarem com as poupanças de quem confiou no sistema capitalista para poder ter uma velhice tranquila depois de uma vida de trabalho pesado.

A União Europeia faz chantagem para dar à Grécia o dinheiro de sobrevivência e, aliada ao FMI desempenha as funções complementares para que o imperialismo provoque distúrbios internos em países do Oriente Médio, na África, na Ásia, na América Latina, com o Estado Islâmico como ponta de lança para justificar invasões, uso de drones mortíferos, ameaças militares em bases de países democráticos e festas para promover o turísmo em substituição à agricultura, a pesca, o pequeno artesanato, o comércio que foi espoliado pelos impostos.

O crime organizado espalha os seus produtos: drogas, prostitutas, medicamentos para desvarios sexuais, e agora, barcos para levarem os fugitivos, como escravos, do horror das guerras para o alto mar. E ninguém reclama dos organizadores desta chacina monstruosa!

A esperança ainda é a "Revolução dos Cravos"

Em 1979, Vasco Gonçalves divulgou um opúsculo sobre "uma nova doutrina da defesa nacional ajustada ao novo Estado democrático-constitucional". Refere  as grandes transformações operadas nas estruturas sócio-económicas com a queda do fascismo e o fim do império colonial, as modificações das relações de força entre as classes sociais e a Constituição da República que recolhe e consagra essas transformações como conquistas irreversíveis do povo português, institucionalizando as bases de uma nova organização política e económica e as novas missões constitucionais, interna e externa, impostas às Forças Armadas.

"Com as grandes transformações (...) foram criadas condições para a superação das contradições antagónicas(...)" antes existentes sob o domínio de camadas sociais ligadas aos monopolistas e os latifundiários ligados ao grande capital internacional e o imperialismo que "são inimigos externos do novo regime democrático-constitucional".

Para recuperar a dignidade nacional daquele momento histórico é preciso assumir o dever ético de lutar pela integridade dos povos que hoje estão sendo engolidos pelo monstro. Que se abra uma nova fase de solidariedade real, histórica, de emancipação da humanidade com todas as suas diferenças postergadas pela urgência da libertação do caos a que as ambições mesquinhas criaram.

Zillah Branco

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Democracia é palavra grega e mundial




A palavra e o seu conceito nasceram na Grécia antiga, depois passou a ser repetida em todo o planeta graças às lutas dos povos contra o domínio e a exploração impostos por elites que passaram a controlar o poder financeiro e militar.

Para não reconhecer as graduais derrotas, a elite (que controla os meios de comunicação e forma a opinião pública fazendo esquecer a cultura e a formação ideológica dos povos), adota palavras como democracia e liberdade deturpando o seu conteúdo histórico. Assim surgiu o conceito de capitalismo democrático, e os seus líderes imperialistas apresentam-se como democratas mesmo quando invadem os países independentes e chacinam as populações civis; quando dão armas a grupos terroristas e exércitos mercenários que desestabilizam o Oriente Médio e o norte da África; quando apoiam grupos de direita que preparam golpes na progressista América Latina. E, com a falsa democracia foi criada a União Europeia que desuniu os povos e uniu os capitais sob o controle do Banco Europeu que criou a moeda Euro.

A Grécia, que sofreu a ocupação alemã na última guerra (tendo um milhão de mortos e a produção nacional destruída) e recusa pagar esta imensa dívida, suportou décadas de pressões imperialistas que impuseram ditaduras que impediram o desenvolvimento nacional até ser admitida democráticamente como parceira da União Europeia.

O povo grego, cansado de ser traído por governantes que aceitaram os programas da UE e FMI que resultaram na austeridade para a população e o enriquecimento dos banqueiros e afins, elegeu um governo de esquerda chefiado por Alexis Tsipras. Os debates de surdos foram feitos durante cinco meses com os mandatários e especialistas da UE/FMI que insistem em comandar o novo governo sem mudar as suas táticas destrutivas até que Tsipras resolveu consultar o povo se devia ou não aceitar o comando externo. A resposta dada foi um rotundo NÃO (OXI em grego) que o mundo inteiro entendeu (com os parabéns escritos em todos os idiomas), menos os dirigentes do Conselho Europeu.

Com as suas gravatas e roupas finas, concederam uma nova reunião com o Primeiro Ministro da Grécia, Tsipras que lá foi com o renovado apoio popular (que os demais não têm, por isso compram roupas caras e gravatas para manter a falsa firmeza de governantes democraticamente eleitos). Explicou o que é democracia, desenvolvimento, produção, independência e soberania. Mas não deu a lista de despesas que fará com os 7 mil milhões de Euros necessários para sair do buraco em que a UE/FMI meteu o povo grego. Não cumpriu a exigência dos que se assenhorearam do capital europeu para colonizar os povos. E fez muito bem! Aplaude a humanidade que defende a dignidade dos povos e o Direito dos Homens.

Os dirigentes da UE sairam descontentes dizendo à mídia submissa que a Grécia não fez a lição e poderá ser expulsa da Zona Euro! Mas o mundo viu que a UE e o FMI não entenderam a resposta de Tsipras que qualquer cidadão do mundo entende, porque a questão é DEMOCRACIA!

Zillah Branco  

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Do medo à conivência

Medo, auto-defesa, conivência


A sociedade moderna, onde a pressa impõe decisões ultra-rápidas, retira ao ser humano a sua capacidade de pensar e refletir utilizando princípios éticos que vieram de tempos melhores. Eram tempos em que o convívio pausado permitia aprender com a experiência do outro, ouvir o que ensinavam os mais velhos, ponderar considerando a sua realidade e a de outros a quem teria o prazer de ajudar. Não se vivia sob a pressão de um mercado bem publicitado para convencer o cidadão a consumir produtos cuja utilidade pode ser desnecessária.

Se observarmos uma criança de 3 anos vemos que ela quer aprender, quer participar, quer colaborar. Tendo essas oportunidades, passará a ter idéias próprias e a criar soluções. Se for atropelada por uma "educação" autoritária, apenas vai repetir o que viu, como um robô. Terá sido amedrontada, alienada e transformada em um instrumento repetidor do comando que recebeu.

As conquistas da humanidade ao longo da sua experiência desde a Idade da Pedra, transformou aquele ser, que disputava o território com outros animais, em um pensador capaz de escolher as melhores condições de sobrevivência inserido na coletividade. Selecionou os princípios que propiciam um bom relacionamento social, solidário com os que têm alguma dificuldade, exemplar para formar bons parceiros de vida, firme para evitar eventuais erros de quem revela egoísmo, criativo para introduzir ou receber novas idéias, defensor da comunidade quando agredida.

Com a má divisão das riquezas, formou-se uma elite poderosa que passou a escravizar os que trabalhavam pela subsistência. Surgiram as classes sociais, uma explorando a outra, dando apenas os recursos para sobreviverem sem tempo para cultivarem o seu próprio desenvolvimento intelectual e tomarem conhecimento das idéias novas que promoviam o avanço das artes e ciências. Houve confrontos entre os que trabalhavam e os que mandavam, pois nem todos desistiram de pensar e de lutar pela liberdade. Ocorreram momentos revolucionários que impuseram as idéias de liberdade, igualdade, fraternidade, contidos na definição de democracia e direitos humanos nos regimes políticos de organização das sociedades.

Tudo isto leva tempo para ser concretizado em cada país, dependendo da história de cada povo e do poder militar da elite que o governa. O sistema denominado capitalista condiciona o poder do capital como o que forma a elite governante. Os poderosos eram as famílias que controlavam as riquezas produzidas pelo povo ou conquistadas a outros povos vencidos em batalhas. Durante muitos séculos os países mais ricos colonizaram os mais pobres, e as monarquias europeias enriqueceram com os produtos extraídos de outros continentes vencidos e escravizados. Ao serem organizadas as instituições financeiras - bancos, moedas, papéis de crédito - as monarquias passaram a ser dependentes desta nova elite que organizava o capital. Permaneceram aliadas as duas elites, uma burguesa e outra "nobre" para manter a imagem de "poder familiar tradicional" que fazia parte da cultura transmitida aos povos.

Surgiu a definição de um sistema de organização das sociedades em que a elite seria subordinada, como todo o povo, a um Estado Socialista que aplicaria os recursos em benefício da coletividade. Todos teriam direitos de cidadania - saúde, ensino, moradia, transporte, alimentação e vestimenta - e trabalhariam de acordo com as suas aptidões, para o desenvolvimento nacional. A primeira revolução socialista, definida por Marx e Engels no "Manifesto Comunista" em 1848 foi liderada por Wladimir I. lenine e seus camaradas, na Rússia em 1917. Foi criado o poder Soviético (do russo soviets=popular) que passou a ser combatido por todos os países capitalistas mesmo depois de vencer o exército de Hitler ao lado dos aliados europeus e norte-americanos. Uma guerra surda, sob o título de cortina de ferro, desenvolveu-se contra os 14 países socialistas que se uniram à Rússia Soviética para manter o regime socialista e apoiar todos os movimentos de libertação nacional e os partidos comunistas que surgiram em todos os continentes. A China, Vietnam, Laos, Coreia do Norte e Cuba realizaram as suas revoluções e instituíram o regime socialista nos seus territórios.

Grandes conquistas foram alcançadas em benefício de toda a humanidade que teve acesso ao conhecimento, que era propriedade apenas das elites, e que impôs os princípios democráticos e dos direitos humanos através da ONU, os direitos trabalhistas através da OIT, a defesa da saúde através da OMS, os direitos das crianças através da UNICEF, a orientação na produção de alimentos através da FAO e outros serviços internacionais de apoio às conquistas como a da igualdade de direitos das Mulheres, das diferentes etnias, etc. Não se pode esquecer que todas estas conquistas foram reconhecidas no plano jurídico e que só são impostas pela força política dos movimentos populares, pois mundialmente segue o poder capitalista que minou por dentro até mesmo o poder soviético que ruiu na década de 1990, depois de uma experiência de quase 80 anos que transformou a Rússia na segunda potência mundial.  Mas, a luta continua, entre os que pensam e lutam e os que cumprem as ordens do modelo capitalista.

As crises periódicas do sistema capitalista mostram a sua fragilidade e desvendam as formas de comando exercidas para transformar os humanos em robôs. O título deste artigo refere a situação dramática em que os povos se vêm atualmente, ano 2015, submetidos ao poder imperial (que reune as elites capitalistas sob o comando dos EU) que promove invasões dos países árabes em busca de petróleo, assassinatos de governantes depois de promoverem conflitos sociais internos em cada país, formação de grupos terroristas (como o chamado Estado Islâmico) que são armados para destruir o equilíbrio social tanto no Oriente Médio como na Europa, controle da comunicação social e das técnicas de publicidade para formar opinião pública favorável aos interesses capitalistas (transformando o ser pensante em robôs para elegerem governantes da elite, mas também para sucumbirem ao medo dos perigos anunciados, à auto-defesa para  preservarem os seus interesses pessoais, e tornarem-se coniventes com as orientações imperiais).

Esta despersonalização de cidadãos capazes de defender a humanidade é que cria uma inércia e um insensibilidade dominantes em populações que assistem sem aparente emoção que governantes incompetentes destruam as instituições do Estado instaurando o caos na Justiça, nas Finanças, na Previdência, na Economia, nas Escolas, nos Transportes, nas Forças Armadas e na Polícia e vendam o patrimônio nacional ao desbarato para fazer dinheiro, como fazem os ladrões comuns; que os que confiaram as suas poupanças a um banco nacional vejam que os donos usaram para si os seus depósitos e nada pagam; que as crianças cheias de fome queiram frequentar as escolas mesmo durante as férias onde comem alguma refeição; que os idosos só recebam o suficiente para comer ou comprar medicamentos; que todos os dias vejam as notícias de grandes barcos, carregados de refugiados dos países destroçados pelo imperialismo, flutuem sem tripulação pelo mar Mediterrâneo em busca de um porto europeu que os aceite; que os credores da Troika/FMI imponham aos países o programa de miséria que favorece os donos do capital; que desesperem uma geração de jovens que não podem pagar as propinas das escolas, ou não têm emprego com os diplomas nas mão, que não acreditam nos governantes nem nos adultos cheios de medo de perderem o pouco que têm, nem nos deuses tradicionais, nem nas drogas oferecidas em cada esquina, e que são capazes de se deixarem levar pelos terroristas para saciarem o ódio que lhes sobra de uma rebeldia amordaçada na alma de robôs.

Os fabricantes de terroristas, (que hoje são apresentados pelas revelações que a mídia recebe de redes de ex-funcionário da CIA e de hackers, como Assange, que usaram as suas capacidades para trazerem a público as decisões criminosas dos imperialistas) são os grandes culpados pelo sofrimento da humanidade e pela anulação da capacidade de pensar e de lutar que o ser humano tem. Mas cada um tem de lutar intimamente para compreender que não pode aceitar tornar-se um robô. Os que se desviaram do caminho bem pago da CIA ou dos hackers que roubavam informações em benefício próprio, deram um exemplo do despertar da razão humana na cabeça de um robô. Com mais razão um cidadão comum, trabalhador honesto, descobre em si o dever de lutar e a satisfação em participar numa luta coletiva para reabilitar a humanidade extirpando o caos agora instalado no planeta.

Zillah Branco