sexta-feira, 18 de março de 2016

As sementes voam e crescem, mas é preciso cuidá-las



Na Europa o processo de conscientização política se desenvolve tropeçando em contradições que uma história mal contada criou, baseada em antigos poderes e modernas exibições de riqueza. A Irlanda, amarrada ao império britânico claudica e recebe bonus para permanecer atada, a Grécia assusta-se com o peso da vontade popular e aceita novo empréstimo para manter a pobreza crescente, Portugal sai de uma eleição em que a direita teve mais votos mas foi formada no Parlamento uma maioria de esquerda que somada ao PS renovado impõe o novo governo. Foi com gentileza e sabedoria (herdada de Alvaro Cunhal), que se deu início ao pensamento político de uma união de esquerda, reconhecido com ar de espanto pela média reacionária e a velha direita atónita.

Explica-se a partir das sementes deixadas pelo processo revolucionário do 25 de Abril plantadas na Constituição, nos conceitos de democracia que circulam no interior do sistema judiciário, na memória do povo, na formação de professores e do potente movimento sindical. Estas sementes, semeadas contínuamente pelo PCP que vence as imensas dificuldades e prossegue a luta militante, a produção de uma literatura sobre a história de vida na clandestinidade e de conhecimento intelectual de nível universitário sobre as contradições do sistema dominante, a Festa do Avante que é um acontecimento nacional de cultura que atrai pessoas de todos os quadrantes políticos, e mantém viva a esquerda que atrai a atenção dos humanistas, especialmente os jovens, que querem um mundo melhor.

No interior dos partidos conservadores estas sementes valorizaram os princípios éticos de tradições religiosas ou familiares contrariando a modernidade ambiciosa e despudorada de uma direita comandada pelo imperialismo desumanizado e anti-ético. No seio do PS quando combateu as conquistas de Abril, perdendo antigos quadros que permaneceram com os princípios humanistas de origem, as contradições insuperáveis abalaram os seus jovens. A eleição de Sócrates como Primeiro Ministro pelo PS, (tendo ele sido dirigente da juventude do PSD e promovido pela média como comentador político, acentuava os compromissos dos socialistas sob o comando da direção da UE), acirrou também as contradições internas. Em um dos ùltimos Congressos, em 2013, um jovem deputado abriu os trabalhos e recomendou que "fosse feita uma auto-crítica do caminho seguido pelo PS", tendo sido muito aplaudido, enquanto que a direção da mesa tentava cortar-lhe a palavra. O site do PS, que divulgou o Congresso, omitiu o discurso inicial, deixando aos observadores a visão do problema interno de luta ideológica entre gerações.

Mesmo nas hostes da velha direita a percepção de que para superar a crise financeira os centros de poder no mundo desligaram-se dos princípios humanitários, éticos e de honra - que se constata na tortura imposta aos que fogem à destruição dos seus países e são deixados à chuva cercados por arame farpado, sejam doentes, velhos ou bebês, para que morram e não criem problemas aos mais ricos. Os abusos de poder ditatorial da Troika com intervenções direta nas decisões de governos que se mostraram subservientes ao poder externo com total desrespeito pela autonomia das nações, também chamaram a atenção de alguns políticos conservadores que preservam a dignidade nacional e a coerência humanista. A crise ética da política dominante, sempre denunciada pela esquerda, impôs-se à crise financeira contrariando a unidade da direita.

O novo Presidente de Portugal, que já vinha anteriormente como comentador político da média televisiva apontando os erros mais graves da direita, elegeu-se com a imagem de humanista em busca da coesão nacional. As suas palavras, que a média divulga até à exaustão como se fosse da sua principal estrela, parecem saídas de um conto de fadas ou da visão idílica do Paraiso. E Portugal respira ao sol da primavera que se anuncia, animando o PR a distribuir afetos de forma populista e a assumir um papel de "governante".

Sejam benvindas as expressões de fraternidade e o reconhecimento de que a esquerda existe e tem força no Portugal democrático. Já tinha quando se organizou na clandestinidade sob a ditadura de Salazar e o Marcelo daquela època, tanto foi assim que construiu a Revolução dos Cravos detonada no 25 de Abril para derrubar a ditadura. Não nos esqueçamos dos sacrifícios imensos sofridos pelos combatentes da clandestinidade enquanto os conservadores gozavam a sua liberdade alheios à história de Portugal e do seu povo. A primavera é atraente deixando atrás o inverno que cruelmente mata os bebês das famîlias que fugiram às guerras na Síria, no Afganistão, no Iraque, na Líbia, e caem no mar gelado ou ficam nas praias gregas rechassados pela Europa rica. Mas a causa de tantos sofrimentos não é o frio, mas as guerras promovidas por ambição de poder.

Os problemas deixados em Portugal pelo anterior governo submisso à Troika existem e são graves: desemprego, baixos salários, corte de pensões, serviços públicos sem recursos para atender na saúde, na educação, nos transportes, no desenvolvimento da produção. Portugal de Abril precisa ser reconstruido. Não há tempo para ficar ao sol primaveril como lagarto ouvindo os cantos de sereia do populismo. É preciso continuar a apontar as necessidades dos trabalhadores e a manifestar a exigência de um melhor governo à altura do povo que Portugal tem.

Zillah Branco

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O conceito de austeridade e a responsabilidade pela vida



Agarrada à austeridade como palavra mágica para jogar a crise do poder financeiro sobre os trabalhadores e suas famílias, a direita sob o comando externo da Comissão Europeia, agora empenha-se em defender os privilégios dos ricos como se fossem os criadores do desenvolvimento da produção, dos empregos e da independência nacional. Não entendeu que a austeridade nacional com adequada distribuição dos meios de sobrevivência terá de acabar com os privilégios de uma elite apátrida. Qualquer pessoa que faça poupança, qualquer gestor(a) da economia familiar, entende o que é austeridade e a diferença em relação à exploração.

Surpreende a cegueira mental de Passos Coelho que diz ter o atual governo "dado com uma mão o que tirou com a outra, para manter a austeridade". Deixa de ver que a população tem dois lados: ricos e pobres, que a política tem dois lados: esquerda e direita, e que a opção de favorecer a maioria dos portugueses e não uma elite privilegiada, ou seja a nação como um todo e não o poder financeiro gerido por uma elite sob o comando de Bruxelas, é uma mudança fundamental no Governo de Portugal. A esquerda no Parlamento abriu o único caminho para que Portugal possa reconstruir as forças produtivas nacionais e superar a via do atolamento em créditos e corrupções adotada como mão única pela direita submissa à União Europeia.

Mas há muitas outras questões que a direita representada pelo PSD de Passos Coelho reduziu à expressão mais mediocre da submissão às ordens da Troika. A formação da União Europeia tem também duas faces: a da solidariedade entre nações e a unificação do poder financeiro nas mãos das elites dos países mais ricos. Com o aprofundamento da crise sistémica a união começou a desvendar as suas contradições que foram cobertas pelo asfalto das grandes estradas, o uso da lingua inglesa como idioma predominante, os mega-shows de uma suposta arte global, a transformação do futebol em primeira notícia, a exportação de bens e de mão de obra qualificada em troca do turismo como fonte de renda, tudo com moderna tecnologia em substituição à produção das riquezas e ao desenvolvimento nacionais. Enfim, veio à tona com as consequências das guerras promovidas pela NATO, as verdadeiras intenções da elite mundial que se reuniu em Bildemberg para traçar o caminho da subordinação das nações europeias a um poder financeiro imperial que deu à luz o Euro como simbolo de uma falsa união dos povos, que funciona como algema.

À face rica da UE, que apresenta planos aos governos para aperfeiçoar a gestão económica e financeira e condicionar a administração pública das nações dependentes, que autoriza financiamentos e créditos aos bons alunos, que paga régios salários aos assessores, opõe-se a dramática realidade da escolha oportunista, dentre os que fogem à guerra em busca de socorro, dos que convém serem reconhecidos como sobreviventes nas sociedades europeias. O volume descomunal da emigração desesperada dos refugiados, criada pelas guerras apoiadas pela UE, deixou visível a incapacidade de organizar recursos para salvar pessoas e o desinteresse pelos seres humanos que não se oferecem apenas como mão de obra qualificada e barata aos paises de acolhimento, ou seja, a face criminosa e pobre de humanismo que arrasta as nações para um abismo.

Os dois lado da realidade, a direita e a esquerda na ação política, as duas faces de quem exerce o poder, existem sempre para que os seres humanos escolham o seu caminho na vida. Os disfarces para iludir os mais distraidos acabam por cair quando a crise atropela os que se agarram ao poder. Não é novidade para ninguém, a não ser para os distraidos como Passos Coelho e seus seguidores, ou os que julgam que os povos são cegos.

Em Portugal hoje está claro que os créditos recebidos foram aplicados principalmente em bancos que, mal geridos e protegidos pelo Banco de Portugal (que assina em cruz o que Bruxelas manda), pagaram grandes salários aos seus executivos, congelaram os depósitos de clientes populares e foram à falência. A austeridade deveria ter sido aplicada no setor financeiro e nos rendimentos dos mais ricos. Austero quer dizer responsável, controlado, capaz de bem gerir os recursos existentes. E a favor de Portugal independente, não de uma Troika que anda experimentando planos de desenvolvimento financeiro sem conhecer os efeitos econômicos e sociais sobre a população portuguesa, como hoje fazem os laboratórios da indústria química internacional inventando medicamentos que matam e fertilizantes que destroem o solo produtivo.

Zillah Branco

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Como entender a abstenção de metade do eleitorado



Para quem participou da campanha eleitoral e disputou a escolha democrática a ser feita pelo povo, a decepção leva a pensar que "a metade do número de eleitores não assumiu a sua responsabilidade de cidadão para escolher quem o irá representar" ao nível da política nacional.

Para quem tenta compreender porque esta maioria recusa dar o seu voto, fica a dúvida sobre a confiança que têm no processo eleitoral como uma realização democrática.

Cabe a dúvida quando vemos o pêso determinante da comunicação social na preparação dos "seus" candidatos, na promoção meticulosa com filmagem que destaca a qualidade de uns e os defeitos de outros. Cabe ainda a descrença em todos os partidos que aceitam as regras pré-estabelecidas para participarem deste jogo, que se diz democrático, espelhando apenas as posições aceitáveis no equilíbrio entre os partidos que se confrontam. Não são tocadas as divergências de fundo que os separam.

Havendo um acordo que estabelece os limites temáticos a serem abordados e um controle na manutenção do respeito formal pelos opositores, alem dos pressupostos iniciais sobre os que dirigem o jogo, grande parte dos eleitores sentem-se postos para fora do combate, ou seja, foi destruida a democracia real. E mais, os que se confrontam não são reconhecidos como lideranças dos setores que se abstêm.

Outra razão para negarem o seu voto é a experiência de eleições anteriores que não corresponderam ao que os seus eleitores esperavam: seja por não conseguirem eleger os seus escolhidos, seja por terem sido iludidos por falsas promessas, ou ainda por alegarem outros poderes mais altos que impediram a realização do prometido.

A realidade vivida é nua e crúa, para qualquer pessoa entender, mas as explicações sobre as crises mundiais, os ciclos económicos, as exigências de um poder externo, o mercado internacional e suas oscilações, assim com as falências bancárias e os processos que se arrastam contra os respondáveis pelas fraudes milionárias que não cumprem penas, estas variáveis que são explicadas quase como fatalidades, poucos entendem e aceitam.

Uma parcela cada vez maior do eleitorado não acredita nas explicações políticas porque não vê, ao longo de décadas, qualquer caminho para resolver os seus problemas que são cada vez mais graves. Deixou de acreditar até mesmo nos argumentos contrários que os partidos usam nos seus debates. Passou a olhar a todos como pertencentes a outra sociedade diferente da sua, a uma elite média.

Para agravar esta descrença, que muitas vezes projetam para a humanidade, o mundo moderno vive uma contradição inaceitável de evolução no conhecimento e retrocesso no comportamento dos poderosos: guerras injustas, invasões, massacres, tráfico de mão de obra barata, de crianças para prostituição ou venda de órgãos, emigração forçada, venda de drogas, produção de adubos tóxicos, sementes e virus que destroem a natureza para que comprem produtos substitutivos às empresas exploradoras, uso de pessoas como cobaias pela indústria farmaceutica, filmes e lívros didáticos para ensinar técnicas de violência aos jovens, organização de grupos terroristas, enfim o caos que liquida a paz e a estabilidade no planeta.

As instituições políticas não tratam tais assuntos, apenas fazem alguns pronunciamentos como protestos e pedem aos povos que manifestem a sua solidariedade. E ano a ano crescem os crimes formando as novas gerações no desespero, na oposição aos princípios éticos, na descrença. O esvaziamento por abstenção não é só na corrida às urnas, è na possível ação política de todos os quadrantes. Democracia é utopia?

Para arejar este ambiente bafiento e depressivo distribui-se alegria empacotada, em pilulas ou doces, mas principalmente em grandes eventos cheios de brilho e ruido ensurdecedor para que não haja espaço e tranquilidade para as pessoas pensarem e sentirem com os seus recursos humanos mais elementares. Tudo bem planeado para dar lucros aos investidores e distrair a opinião pública dos problemas mais graves, com aparente espírito democrático.

Zillah Branco

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Cidadania e Estado



Durante o governo de direita em Portugal, de 2011 a 2014, assistiu-se a um esforço da Troika (FMI e UE) para transformar o Estado, que se queria social e apoio à população, em fiscal e perseguidor dos cidadãos. Era o contrário da democracia instaurada pelo 25 de Abril há quarenta anos, que começou a ser minada por Mário Soares em 1976 quando eleito, ao trazer o programa da social-democracia subordinado ao imperialismo para dirigir a vida polítca nacional. Durante estas 4 décadas, o PS aproximou-se dos partidos de direita com quem alternou a condução do governo até eleger Sócrates (formado na juventude do PSD e preparado pela TV) para desempenhar como socialista as orientações do Clube de Bildemberg, basilar na União Europeia. Com uma gestão financeira desastrosa que aprofundou a dívida nacional (misturada com dívidas privadas), abriu caminho para os partidos de direita, PSD/CDS, assumirem o Governo como emissários das orientações diretas das Comissões Européias que consideram o país a serviço da gestão financeira e não da democracia. Ou seja, abandonou-se a preocupação com o desenvolvimento social e económico que eleva as condições de vida e trabalho dos cidadãos a favor das regras do mercado internacional e da acumulação de capital nas empresas financeiras privadas.

Tal percurso fortaleceu a direita em Portugal, que se ofereceu como agente do imperialismo adotado pela UE para subordinar a nação a um projeto externo, mas despertou a esquerda para a busca de apoio organizado em pequenos partidos e de uma tendência dentro do PS, que acompanharam o fortalecimento do movimento sindical na defesa dos direitos democráticos levantados no 25 de Abril. A estabilidade ideológica do PCP permitiu que liderasse uma unidade de esquerda que apoiou a eleição de um governo PS à esquerda, destronando a direita. Foi clara a introdução do conceito de esquerda, de cidadania e de Estado social (para atender a população e as forças produtivas contra a ganância financeira do setor financeiro que delapidara a independência nacional), nos debates políticos inclusive promovidos pela média. Isto coincidiu com mudanças simultâneas em toda a Europa, detonadas com o flagelo dos milhões de fugitivos das nações bombardeadas (tanto pelas forças da NATO e do imperialismo norte-americano como do grupo auto denominado Estado Islâmico).

Vemos a oscilação das condições de cidadania, quando o Estado é um instrumento para o desenvolvimento social e económico - com o 25 de Abril em 1974 - e com as forças de esquerda no Parlamento em fins de 2015 - ou quando o Estado é controlado por um poder externo e exerce o seu poder fiscal e de causador da austeridade que leva o povo à perda dos seus direitos sociais: pensões, emprego, habitação, saúde, escola, alimentação, transporte, segurança civil. Corresponde à tendência individualista do sistema capitalista que deixa as pessoas sem os recursos institucionais da cidadania. Mesmo os governantes submissos pensam poder redimir-se das falhas de administração atribuindo os erros às "ordens recebidas da UE", o que não justifica perante o povo e o país, a nação que o elegeu para defender a soberania do país.

Mas o facto é que o governo da direita, PSD/CDS, transformou o Estado no fiscal prepotente, capaz de levar a habitação do cidadão a leilão para pagar uma dívida pequena. Face a esta situação, o governo PS de hoje, que atende o programa da esquerda, trouxe um alívio que é a confiança no Estado e não o medo ou a revolta. Sente-se o benefício dessa confiança que aproxima o cidadão às instituições que respeitam os direitos democráticos.

A Europa está em crise diante dos erros e crimes cometidos contra a soberania das nações - levando a guerra para dentro das que estão no Oriente Médio e Norte da África ou que deixaram o socialismo soviético - e das que compōem a União Europeia, através da imposição de decisões financeiras e de política social anti-democráticas. Nada fez pela paz, que seria o único objetivo para evitar o fluxo de populações desesperadas em busca de refúgio e condições de vida equilibrada, nem mesmo impediu que bandos de traficantes organizassem a saída pelo Mediterrâneo iludindo os viajantes com inadequados barcos insufláveis para enfrentar tempestades marítimas. Também não foi capaz de organizar missões de salvamento deixando que centenas de milhares de adultos e crianças andassem a pé, no frio e na chuva, em busca de socorro entre os países europeus ou morressem afogados. Uma falência vergonhosa que se somou à crise de gestão política no continente.

A consequência nos países mais ricos é o ressurgimento do nacionalismo de direita com os grupo e partidos neo-nazistas e as ações terroristas por grupos que foram armados para as primeiras invasões imperialistas das chamada "primaveras" com o objetivo de anarquisarem as sociedades mais frágeis. Diante deste caos civilizacional, só referem a crise financeira que atinge uma elite apátrida, egoista e criminosa em relação aos cidadãos que pagam, com a austeridade imposta, os seus roubos e incompetências na gestão do dinheiro público.

Os Estados Unidos, arrotam grandeza ameaçando os terroristas - que criaram como mercenários para gerar conflitos sociais que "justificaram" as suas invasões - e os países ricos da Europa seguem o modelo valendo-se das mortes que se multiplicam como revanche do Estado Islâmico nos seus centros urbanos. O mesmo ocorre com Israel que aterroriza permanentemente o Estado Palestino. Correm atrás do estopim que eles próprios acenderam para se fazerem de defensores dos seus povos. Mas fogem da paz "como o diabo da cruz".

Os povos que despertaram para a defesa da cidadania com um Estado democrático à esquerda, criam a única defesa possível para deixar uma sociedade respondável e saudável para as novas gerações.

Zillah Branco

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Presidente de todos os portugueses



A promoção de futuros candidatos aos cargos governamentais pelos órgãos de comunicação social em Portugal corresponde a um recurso próprio de uma ditadura. Se não de nível nacional, então internacional. É o que se tem assistido há vários anos em que, por indicação do Clube de Bildemberg e depois dos organismos não eleitos da União Europeia, foram promovidos a comentadores de TV vários candidatos a Primeiro Ministro e agora a Presidente da República, políticos do PSD e do PS. Criaram um perfil calcado em Salazar ao qual os candidatos adaptam-se com maior ou menor simpatia pessoal. Nessa função, vêm a público com a cartilha do modelo mediático debater com um experimentado jornalista as notícias políticas e futebolísticas de maior projeção para " formarem à opinião pública". Adquirem técnicas de debate, adotam posturas de especialistas nas matérias, exibem sorrisos simpáticos de compreensão e expressōes de força na defesa de princípios morais, conquistam o público que não tem outro modelo para comparar, habituam os eleitores a desejarem nos cargos públicos aqueles "bons alunos" que fizeram o exaustivo e bem remunerado curso.

Entre muitos, aí estão pelo menos dois que transitam no momento dando opiniões indiretamente para indicar o candidato mediático: Sócrates e Guterres criam o ambiente para o candidato Marcelo Rebelo de Souza. O primeiro está amarrado a um processo judicial ligado às confusões do sistema financeiro, o segundo passeia o seu ar de figura beata internacional, revelando que a Europa está "em cima de um precipício" e ele quer descansar. O candidato à Presidência da República que expande simpatia a torto e a direito, abraçando populares e piscando à esquerda como se fossem os velhos amigos de direita.

Para cumprir com eficiência a função de preparar e lançar candidatos aos altos postos governamentais, a média, sobretudo a TV, reduziram as informações diárias ás questões prioritárias para a formação de uma consciência mediocre do eleitorado: o futebol e suas poderosas esferas de poder e o turísmo como a meta nacional para agradar ricos visitantes deste pobre país. A mentalidade derivada de tal escola será inevitavelmente alheia á realidade que os portugueses vivem e sofrem, e moldada na subserviência de quem oferece aos ricos "as belezas que Deus lhes deu" como último recurso para quem nasceu condenado a ser pobre.

Assim é preparada a eleição presidencial para substituir Cavaco e Silva, com o aluno brilhante da TV dando sequência ao caminho que levou a Europa ao "precipício", segundo o emissário Guterres. Dez outros canditatos competem em campanhas junto ao povo um pouco por todo o lado do território, descobrindo uma realidade adversa que convém conhecer para não ficar nas nuvens do Palácio de São Bento.

Dentre eles destaca-se Edgar Silva que nasceu dentro da realidade em que vive o povo português. Para poder adquirir uma formação mais sólida seguiu, como tantos meninos pobres, a carreira de padre que o convidava a fazer o bem. Formou-se em teologia e em muitas matérias das ciências sociais que explicam a história da humanidade onde a luta pelo poder e a ganância do dinheiro são os grandes obstáculos ao normal desenvolvimento dos cidadãos. Na busca de um coletivo que luta por um mundo melhor descobriu que o PCP é o partido que tem por meta defender os homens e mulheres que sofrem o peso da miséria e combater a desigualdade social imposta por uma elite ainda poderosa.

Edgar Silva enquanto padre criou um projeto de escola para as crianças que sobrevivem nas ruas sem proteção familiar ou do Estado. Conquistou a solidariedade de outros padres mas não da instituição clerical. Aderiu à militância comunista para expandir os seus projetos de ação social destacando-se na Ilha da Madeira pela sua capacidade de luta em defesa de um povo que se fortaleça para desenvolver Portugal como uma nação próspera e com igualdade de recursos para todos os cidadãos.

Entre todos os canditados que, em contato com o povo nas ruas ou em entrevistas à comunicação social, esforçam-se por mostrar as qualidades que têm para bem desempenhar a função de Presidente de todos os portugueses, Edgar Silva apenas revela que estudou a fundo a história da humanidade mas também a Constituição Nacional, que estabelece o âmbito da ação presidencial em Portugal, e que lhe permitirá abordar a vasta gama das questões sociais de uma realidade que conhece desde o berço em que nasceu, pelos bairros pobres em que cresceu e investigou, com fé na humanidade e com os recursos das ciências sociais ao longo de toda a sua vida.

Pela primeira vez em Portugal surge um candidato à Presidência da República que foi formado na realidade social nacional - o primeiro curso de cidadania - adquiriu conhecimentos científicos e humanistas e alimentou a vontade de ser útil à sociedade com o enquadramento institucional que a Constituição democrática produzida pelas conquistas de Abril estabelece. É um representante do povo que cresceu na busca intransigente dos caminhos mais adequados para levar a maioria dos portugueses a alcançar melhores condições de vida, e a aplicar a inteligência e a vontade de modo a valorizar Portugal entre todas as nações.

Zillah Branco

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Os crimes do governo PSD/CDS em Portugal





Um governo incompetente sempre tem a possibilidade de corrigir os erros antes das consequências cairem sobre o país, ouvindo os assessores, os outros partidos no Parlamento ou o Conselho de Estado. Um governo que apenas ouve um poder externo e, com ele decide como exercer o seu poder sobre o país e contra os interesses do povo é uma Ditadura ao serviço de forças estrangeiras.

Assim foi em Portugal, nos últimos quatro anos, sob a direção de Passos e Portas submissos à Troika. Os erros de gestāo não são desculpáveis por terem sido propositalmente cometidos para atender ao comando externo em prejuizo do desenvolvimento nacional e da vida dos portugueses. Não foram simples erros, foram crimes de lesa pátria. Poderão alegar que governos anteriores também os cometeram, mas isto não os redime. Antes, Portugal não pudera condenar os desmandos governamentais, agora pode porque o povo adquiriu uma consciência mais clara para eleger uma força de esquerda que o represente e defende.

Os crimes cometidos começam a ser denunciados. São gravíssimos, como a ocultação de prejuizos milionários de bancos falidos cobertos com dinheiro púbico, a venda apressada de empresas do Estado por valores baixos, negócios realizados quando já não detinham o poder governamental, que vieram a público denunciados pelo novo governo PS que agora age de maneira transparente perante o Parlamento.

Abre-se a "caixa de Pandora" com a morte de vários doentes que não puderam ser atendidos em tempo pelo sistema de saúde pública devido aos cortes impostos pelo anterior governo. São crimes sem perdão que abalam os médicos e responsáveis de serviços que ficaram impossibilitados de exercerem os seus deveres por desorganização estrutural imposta pelo anterior governo. Há crimes em relação a alunos e professores que não puderam estudar ou ensinar devido à desordem criada nas escolas de todo o país. Há prejuizos causados à produção que levaram milhares de empresários a perderem os seus investimentos e a mandarem os seus funcionários para o desemprego, devido ao favorecimento às importações de bens e serviços em prejuizo da sobrevivência de iniciativas criadas pelos portugueses, e muitos outros crimes que devem ser registados para julgamento pelo sistema judiciário nacional.

Acrescente-se a todos os crimes de burla e de omissão praticados, a falta de responsabilidade patriótica de pretensos representantes eleitos que traíram a confiança democrática do povo, roubaram a confiança que tinham no ser humano, retiraram a sua esperança de vida digna, destruiram o seu projeto de vida familiar.

Cabe analisar as vantagens auferidas com os crimes, desde o enfraquecimento político e económico de Portugal que beneficiou naçōes e grupos de poder estrangeiros, e compensações financeiras e de postos políticos e profissionais alcançados com a subserviência de políticos do governo eleito a uma elite transnacional. O pagamento das devidas indemnizações aos lesados pelo governo PSD/CDS deve recorrer primeiro às propriedades dos responsáveis diretos dos crimes. Este seria um exemplo da Justiça em qualquer sistema político que se preze.

Mas, para lhes oferecer uma oportunidade de apagar o remorso que deverão sentir, os réus poderão prestar serviços sociais visitando pessoalmente as casas onde vivem os idosos, os doentes, as crianças órfãs e os carenciados de modo geral, para levar esperança de vida e alimentos ou roupas às vítimas de um sistema sócio-político que enriquece os ricos e torna miseráveis os pobres. Que prestem este serviço acompanhando assistentes sociais que executam a tarefa rotineiramente, não como turistas que exibem a sua soberana riqueza deixando esmolas e roupas que lhes sobram. Não façam como as redes de supermercados que oferecem os alimentos no último dia da validade. Não pensem, talvez pela primeira vez na vida, que transformarão o sacrifício, de sentir de perto o que é a pobreza, em negócio. Não pretendam obter votos nas próximas eleições, mesmo porque a Justiça deverá deixá-los em quarentena por vários anos antes de voltarem a ocupar uma função pública de chefia.

Que os portugueses de bem tenham um Feliz 2016 e os que traíram o seu povo aprendam a ser patriotas, responsáveis socialmente, e a respeitarem a humanidade.

Zillah Branco

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A lógica da esquerda é muito melhor do que a do sistema




Depois da surpresa com a eleição de uma maioria de esquerda em Portugal e do início das conversações do novo governo PS com os partidos PCP, Bloco de Esquerda, e Verdes, para atender às reivindicações recolhidas junto à população de todo o território, e os contínuos debates com sindicatos e associações empresariais para encontrar a viabilidade dos necessários aumentos salariais e de pensões, e reduções em impostos e taxas, e ainda observando os novos critérios com que os ministros da educação, da saúde e do mar olham para os problemas da população a serem resolvidos sem a imposição de modelos importados, sente-se uma descompressão social no relacionamento nas ruas.

Até que enfim, foi retirada a nuvem pesada que esmagava os portugueses que já não viam luz alguma no fundo do túnel. Ressurge a fraternidade, a confiança de que o governo tentará manter-se do lado do povo com um estreito relacionamento com as forças políticas e personalidades que sempre o defendem, não só em período eleitoral. A direita ou muda ou pode fazer as malas para emigrar, como Passos Coelho aconselhou à juventude em busca de emprego quando era governo.

Há quem continue agastado e insiste em combater "os sonhos e utopias" dos jovens que procuram formar-se em "empreendedorismo". Paulo Portas não muda, talvez emigre, seria bom. Mas que direito tem um adulto de cortar os sonhos e as utopias que alimentam as esperanças dos jovens? Bem se vê que P.P. nada sabe de futuro, nem pensa para além de si mesmo. Recomenda que estudem o "empreendedorismo" circunscrito nos conceitos autorizados pelo modelo da União Europeia.

Para alguém empreender, precisa ser capaz de sonhar, de olhar para lá dos limites de um modelo cristalizado, de abarcar com o pensamento a humanidade com a sua diversidade cultural e investigar a fundo a realidade do país onde vive e produz. Ou então ele será apenas mais uma maquina para manter em movimento o que outros empreenderam para obter o fim que buscam. E isso, pode ser uma insignificância humana que visa apenas o lucro financeiro dentro de uma situação pré-estabelecida, que não se sabe até quando vai durar. Então o que o ex-vice primeiro ministro comete é um crime por cortar as asas aos jovens que sonham para que eles fiquem iguais a tantos outros que mediocrizaram a sua existência embasbacados com a direita que está a caminho do brejo.

A Europa toda está a ser sacudida por uma nova consciência da necessidade de mudança: a Grécia levantou o povo no referendo à esquerda para combater a austeridade imposta pela UE, mas a liderança do Syrisa, que conta com a extrema direita, cedeu à Comissão Europeia e aumentou a dívida bancária. A França ainda não saiu do susto com a ameaça de vitória do fascismo, e Sarkosy recebe o apoio socialista que repudiara para não ter compromissos à esquerda. Vários países que adotaram o repúdio ao socialismo para poderem entrar na União Europeia também seguem o radicalismo da direita nacionalista que lembra a preparação da Segunda Guerra de má memória para todo o mundo. Na Espanha, depois da vitória do partido Ciudadanos no referendo popular a favor da independência da Catalunha, o bipartidarismo é vencido, dividindo o eleitorado em três partes com o crescimento do Podemos à esquerda, e vê surgir a Unidad Popular para reunir toda a esquerda. O líder do PSOE inaugura um discurso mais à esquerda do que sempre foi, para combater a direita enredada em erros de governação submissa e questões de corrupção mal contadas, e espera que a esquerda o apoie. Na Inglaterra também a esquerda aflora pondo o Partido Trabalhista em brios. O apelo popular é pela unidade das esquerdas, incluindo franjas descontentes de partidos de centro-direita.

A situação dos velhos líderes da União Europeia, que até agora se têm aguentado em cima do muro com o equilibrismo dos sociais-democratas antigos mais voltados para a direita, não está nada fácil. Ainda mais que têm de enfrentar a ameaça do fascismo que cresce diante da falência à vista e, para isso, terão de abrir espaço para as forças de esquerda, tal como ocorreu com os Aliados na Grande Guerra só vencida com o decisivo ataque do exército soviético que entrou na Alemanha de Hitler.

A grande mudança começa a ocorrer com a consciência social popular, de que a esquerda raciocina e luta a partir de uma lógica em que a população é o sujeito da governação (a sua vida e bem estar, formação e trabalho) e não, como impõe o sistema capitalista e seus defensores de direita, o lucro e a acumulação do capital que, teoricamente, garantiria o desenvolvimento nacional.

O exercício do poder pela social-democracia com os programas neo-liberais (em Portugal pelo PS ou pelo PSD desde 1976 até 2015, mas também em outros países da Europa e do continente americano) demonstrou a impossibilidade de promover benefícios sociais e desenvolvimento nacional quando a sua política acentuava a concentração do capital nas mão de uma elite e a pobreza no das classes trabalhadoras.

Zillah Branco