terça-feira, 22 de março de 2016

O valor de Lula

É preciso alguém ser muito alienado pela mídia e não fazer uso da sensibilidade humana e social, para deixar de reconhecer o valor de Lula na história do Brasil.

Como se o facto de superar a fome de 50 milhões de pessoas fosse fácil para qualquer governante, assim como reduzir a distância social entre pobres e ricos, e transformar milhões de pessoas abandonadas em cidadãos sem discriminação, e investir na infra-estrutura de regiões marginalizadas durante séculos, e criar condições do ensino básico ao universitário para receber qualquer brasileiro a ser formado, e abrir a consciência popular para participar no desenvolvimento nacional ultrapassando todo o atraso do subdesenvolvimento imposto por colonizadores e imperialistas por mais de 500 anos, e afastar a pressão do FMI e criar 22 milhões de novos empregos, e criar o programa da Luz para Todos, e levar água canalizada para populações que morriam na seca.

Lula reúne as condições pessoais para simbolizar o Brasil pobre, consciente da necessidade de mudança para tornar efetiva a democracia no país, e tem a coragem de enfrentar a luta pelo controle dos programas governamentais. E foi eleito Presidente da República com amplo apoio de setores da produção e de intelectuais defensores da liberdade para propiciar o desenvolvimento social e econômico livre dos constrangimentos impostos pelo imperialismo. Ao terminar o segundo mandato ainda contava com um apoio de 80% dos eleitores. A sua figura de herói popular, que encarna a consciência da realidade dos oprimidos no sistema capitalista dominante, marca a história do Brasil para sempre.

Que os Tios Patinhas do sistema financeiro não queiram que os pobres tenham os mesmos direitos dos ricos, entende-se, pois os seus lucros terão de ser divididos com a sociedade brasileira e eles são o símbolo do egoísmo. Mas que os seus empregados, que têm familia para formar como gente honesta integrada na vida democrática de um país desenvolvido e com esperança de um futuro bom para todos, só sendo humilhados como subordinados ao dinheiro sujo é que poderão preferir o golpe contra a democracia. Acorda pessoal! A crise do sistema capitalista está aí para ser paga por banqueiros que nada produzem e vivem como agiotas, e não pelos trabalhadores! O único produto do setor financeiro no sistema capitalista é a corrupção !

A maioria dos brasileiros é pobre, porque até agora foi sempre afastada dos seus direitos de cidadania, e classificada como classe média porque é explorada como os "escravos de ganho" do período colonial. É com eles que o Brasil conta para desenvolver a produção e elevar o nível de vida nacional. É com eles que teremos um aprofundamento do conhecimento científico para criar soluções para os problemas de saúde e fertilização do solo para não usarmos os remédios-envenenados que os laboratórios da indústria multinacional que nos vendem caríssimo. É com eles, os pobres, que o Brasil conquistará um lugar de destaque nas organizações internacionais que lutam pela Paz mundial. É com eles que será implantada a justiça no sistema judicial para afastar os privilégios de alguns que impedem a vigência da democracia.

Lula nasceu pobre e fez um curso de "realidade social" a partir da fome que sofreu em criança e da vida de metalúrgico que lhe deu mais luzes que a muitos professores promovidos como gênios. Com esta formação tornou-se líder sindicalista e elegeu-se Presidente da República para dar o maior passo histórico no Brasil, estendendo à maioria a condição de cidadania e de vida. Nem tudo conseguiu fazer devido aos boicotes de uma camada social interessada apenas em "ter poder para enriquecer". Hoje temos de impedir que destruam o muito que já se fez e criar condições para afastar os obstáculos que ainda estão agarrados ao Estado como carrapatos.

O seu exemplo de lutador incansável inspira e recebe o apoio de outros que seguem igual caminho revolucionário nos demais países latino-americanos despertados por Fidel Castro em 1958. Mas também em outras regiões mais desenvolvidas, da Europa por exemplo, também deram o seu apoio a Lula que rompeu o domínio estrito da política financeira imposta em todo o mundo e afirmou a noção de dignidade nacional.

As lutas políticas não se definem exclusivamente pela existência da miséria crescente em contraposição ao poder de uma elite milionária. São múltiplas as questões derivadas de tal condição sistêmica, tanto políticas, econômicas como sociais, e afetam o comportamento das instituições governamentais, sobretudo no que se refere às leis que são aplicadas por setores com alguma autonomia dentro do Estado de Direito, e à dinâmica das ações financeiras que são conduzidas pelo poder das instituições financeiras subordinados a um comando supra-nacional definido pela moeda norte-americana, o dollar.

Este super poder estabeleceu constrangimentos ao desenvolvimento dos programas democráticos no Brasil, assim como na maioria dos países, cerceando a autonomia necessária para que o governo, sucessor ao de Lula, pudesse estabelecer a prioridade na efetiva instauração da democracia. Uma das armas desse poder estrangeiro é a corrupção de altos funcionários que hoje é endêmica no mundo. Outra arma é a comunicação social que divulga informações falsas em mistura com fatos reais de modo a quebrar a confiança nos que lutam em defesa dos pobres e da democracia.

A Frente Brasil pela Democracia, que congrega sindicatos e associações de massa, ou de estudantes e intelectuais, tem mantido uma crescente adesão ao apoio vindo das ruas, com uma variedade de tendências que têm em comum o patriotismo e a solidariedade com os que ainda são privados dos benefícios sociais devidos a todo o povo. É um exemplo de consciência de luta para todo o mundo que se reflete em toda a Amèrica Latina ameaçada pelo imperialismo e atrai a atenção de todos os povos que têm problemas semelhantes nos seus países.

domingo, 20 de março de 2016

A classe média se divide

Diante da ameaça de golpe, imperialista e universal, representado por esbirros que galgaram posições políticas criadas por alianças governamentais para atender os interesses da classe média no Brasil, Lula assumiu heroicamente o seu papel de defensor do Brasil no governo de Dilma.

Como disse, "estava tranquilo no canto" tentando gozar o merecido repouso do guerreiro com a sua família e tratando da saúde, quando foi atacado traiçoeiramente pelo ódio de quem não suporta que "pobre seja gente, com igualdade de direitos de cidadania".

A classe média é hoje, em todo o mundo, a grande massa que engole desde os trabalhadores sem profissão definida até novos ricaços que passeiam nos seus jatinhos.

O sistema capitalista teve necessidade de combater a classe operária definida no século XIX, que se organizou em fortes sindicatos para conquistarem uma legislação de trabalho pondo fim às várias formas de escravidão. Este movimento deu origem à formação de partidos comunistas e outros também de esquerda que passaram a exigir dos governos a democracia dando início ao aparecimento dos sistemas de saúde e de educação gratuitos dos Estados capitalistas.

A classe média pobre luta, contando os tostões e poupando para poder formar os filhos um degrau acima dos pais. Muitos conseguem manter os princípios éticos com que foram criados e seguem com dificuldades financeiras mas a cabeça levantada pela honestidade pessoal e a solidariedade com a luta social por melhores condições de vida; outros, formados pela mídia imperial e outras instituições universais que manipulam a consciência popular, abandonam os princípios éticos e são corrompidos pelo sistema do capital e do consumismo - estes sobem de elevador a escala social prestando vênias ao patronato explorador e ocupando cargos para os quais não tem formação, ou elevam-se em helicópteros falando inglês para servir a patrões estrangeiros.

Lula ao ser eleito afirmou que lutaria para que todos os pobres no Brasil tivessem três refeições por dia e que a classe média pudesse comprar eletrodomésticos e viajar de avião pelo Brasil. Generoso como é não pensou que há pessoas mal formadas que aceitariam os benefícios distribuídos pelo Estado Social e exigiriam os privilégios dos ricos que o sistema capitalista mantem.

O resultado foi que desde 2002, as ações a favor dos mais pobres e contra as formas de discriminação social (Bolsa Família, quotas para frequentarem universidades, baixo custo de transportes urbanos, merenda escolar, refeições populares, casa própria, etc) começaram a ser boicotadas pelos desonestos infiltrados nas estruturas de poder e combatidas pelos que se colocaram ao lado da oposição política. Hoje, com os elevadores e os helicópteros parados com a crise financeira do capitalismo, vêm-se nas manifestações contra Dilma e Lula, os patrões batendo em novíssimas panelas de aço inox, patroas saídas dos tratamentos de beleza carregando bandeiras e suas empregadas e empregados domésticos transportando faixas reacionárias, além dos protegidos devidamente corrompidos para lutarem contra a democracia. É o lado podre da classe média, que sempre se omite na hora da luta por melhores condições de vida para todos e só aparece para defender os seus interesses pessoais.

No entanto, dentro da classe média formada eticamente, grandes personalidades trouxeram o seu apoio à luta contra o golpe e em defesa de Lula. Ofereceram ajuda profissional para o governo resolver as questões econômicas e financeiras que derivam da crise sistêmica e condenaram os abusos que têm ocorrido na área judicial. Esta é uma ajuda inestimável não apenas no plano profissional, mas sobretudo no exemplo de integridade humana e responsabilidade patriótica. É a demonstração de que a democracia precisa ser mantida a todo custo.

sexta-feira, 18 de março de 2016

As sementes voam e crescem, mas é preciso cuidá-las



Na Europa o processo de conscientização política se desenvolve tropeçando em contradições que uma história mal contada criou, baseada em antigos poderes e modernas exibições de riqueza. A Irlanda, amarrada ao império britânico claudica e recebe bonus para permanecer atada, a Grécia assusta-se com o peso da vontade popular e aceita novo empréstimo para manter a pobreza crescente, Portugal sai de uma eleição em que a direita teve mais votos mas foi formada no Parlamento uma maioria de esquerda que somada ao PS renovado impõe o novo governo. Foi com gentileza e sabedoria (herdada de Alvaro Cunhal), que se deu início ao pensamento político de uma união de esquerda, reconhecido com ar de espanto pela média reacionária e a velha direita atónita.

Explica-se a partir das sementes deixadas pelo processo revolucionário do 25 de Abril plantadas na Constituição, nos conceitos de democracia que circulam no interior do sistema judiciário, na memória do povo, na formação de professores e do potente movimento sindical. Estas sementes, semeadas contínuamente pelo PCP que vence as imensas dificuldades e prossegue a luta militante, a produção de uma literatura sobre a história de vida na clandestinidade e de conhecimento intelectual de nível universitário sobre as contradições do sistema dominante, a Festa do Avante que é um acontecimento nacional de cultura que atrai pessoas de todos os quadrantes políticos, e mantém viva a esquerda que atrai a atenção dos humanistas, especialmente os jovens, que querem um mundo melhor.

No interior dos partidos conservadores estas sementes valorizaram os princípios éticos de tradições religiosas ou familiares contrariando a modernidade ambiciosa e despudorada de uma direita comandada pelo imperialismo desumanizado e anti-ético. No seio do PS quando combateu as conquistas de Abril, perdendo antigos quadros que permaneceram com os princípios humanistas de origem, as contradições insuperáveis abalaram os seus jovens. A eleição de Sócrates como Primeiro Ministro pelo PS, (tendo ele sido dirigente da juventude do PSD e promovido pela média como comentador político, acentuava os compromissos dos socialistas sob o comando da direção da UE), acirrou também as contradições internas. Em um dos ùltimos Congressos, em 2013, um jovem deputado abriu os trabalhos e recomendou que "fosse feita uma auto-crítica do caminho seguido pelo PS", tendo sido muito aplaudido, enquanto que a direção da mesa tentava cortar-lhe a palavra. O site do PS, que divulgou o Congresso, omitiu o discurso inicial, deixando aos observadores a visão do problema interno de luta ideológica entre gerações.

Mesmo nas hostes da velha direita a percepção de que para superar a crise financeira os centros de poder no mundo desligaram-se dos princípios humanitários, éticos e de honra - que se constata na tortura imposta aos que fogem à destruição dos seus países e são deixados à chuva cercados por arame farpado, sejam doentes, velhos ou bebês, para que morram e não criem problemas aos mais ricos. Os abusos de poder ditatorial da Troika com intervenções direta nas decisões de governos que se mostraram subservientes ao poder externo com total desrespeito pela autonomia das nações, também chamaram a atenção de alguns políticos conservadores que preservam a dignidade nacional e a coerência humanista. A crise ética da política dominante, sempre denunciada pela esquerda, impôs-se à crise financeira contrariando a unidade da direita.

O novo Presidente de Portugal, que já vinha anteriormente como comentador político da média televisiva apontando os erros mais graves da direita, elegeu-se com a imagem de humanista em busca da coesão nacional. As suas palavras, que a média divulga até à exaustão como se fosse da sua principal estrela, parecem saídas de um conto de fadas ou da visão idílica do Paraiso. E Portugal respira ao sol da primavera que se anuncia, animando o PR a distribuir afetos de forma populista e a assumir um papel de "governante".

Sejam benvindas as expressões de fraternidade e o reconhecimento de que a esquerda existe e tem força no Portugal democrático. Já tinha quando se organizou na clandestinidade sob a ditadura de Salazar e o Marcelo daquela època, tanto foi assim que construiu a Revolução dos Cravos detonada no 25 de Abril para derrubar a ditadura. Não nos esqueçamos dos sacrifícios imensos sofridos pelos combatentes da clandestinidade enquanto os conservadores gozavam a sua liberdade alheios à história de Portugal e do seu povo. A primavera é atraente deixando atrás o inverno que cruelmente mata os bebês das famîlias que fugiram às guerras na Síria, no Afganistão, no Iraque, na Líbia, e caem no mar gelado ou ficam nas praias gregas rechassados pela Europa rica. Mas a causa de tantos sofrimentos não é o frio, mas as guerras promovidas por ambição de poder.

Os problemas deixados em Portugal pelo anterior governo submisso à Troika existem e são graves: desemprego, baixos salários, corte de pensões, serviços públicos sem recursos para atender na saúde, na educação, nos transportes, no desenvolvimento da produção. Portugal de Abril precisa ser reconstruido. Não há tempo para ficar ao sol primaveril como lagarto ouvindo os cantos de sereia do populismo. É preciso continuar a apontar as necessidades dos trabalhadores e a manifestar a exigência de um melhor governo à altura do povo que Portugal tem.

Zillah Branco

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O conceito de austeridade e a responsabilidade pela vida



Agarrada à austeridade como palavra mágica para jogar a crise do poder financeiro sobre os trabalhadores e suas famílias, a direita sob o comando externo da Comissão Europeia, agora empenha-se em defender os privilégios dos ricos como se fossem os criadores do desenvolvimento da produção, dos empregos e da independência nacional. Não entendeu que a austeridade nacional com adequada distribuição dos meios de sobrevivência terá de acabar com os privilégios de uma elite apátrida. Qualquer pessoa que faça poupança, qualquer gestor(a) da economia familiar, entende o que é austeridade e a diferença em relação à exploração.

Surpreende a cegueira mental de Passos Coelho que diz ter o atual governo "dado com uma mão o que tirou com a outra, para manter a austeridade". Deixa de ver que a população tem dois lados: ricos e pobres, que a política tem dois lados: esquerda e direita, e que a opção de favorecer a maioria dos portugueses e não uma elite privilegiada, ou seja a nação como um todo e não o poder financeiro gerido por uma elite sob o comando de Bruxelas, é uma mudança fundamental no Governo de Portugal. A esquerda no Parlamento abriu o único caminho para que Portugal possa reconstruir as forças produtivas nacionais e superar a via do atolamento em créditos e corrupções adotada como mão única pela direita submissa à União Europeia.

Mas há muitas outras questões que a direita representada pelo PSD de Passos Coelho reduziu à expressão mais mediocre da submissão às ordens da Troika. A formação da União Europeia tem também duas faces: a da solidariedade entre nações e a unificação do poder financeiro nas mãos das elites dos países mais ricos. Com o aprofundamento da crise sistémica a união começou a desvendar as suas contradições que foram cobertas pelo asfalto das grandes estradas, o uso da lingua inglesa como idioma predominante, os mega-shows de uma suposta arte global, a transformação do futebol em primeira notícia, a exportação de bens e de mão de obra qualificada em troca do turismo como fonte de renda, tudo com moderna tecnologia em substituição à produção das riquezas e ao desenvolvimento nacionais. Enfim, veio à tona com as consequências das guerras promovidas pela NATO, as verdadeiras intenções da elite mundial que se reuniu em Bildemberg para traçar o caminho da subordinação das nações europeias a um poder financeiro imperial que deu à luz o Euro como simbolo de uma falsa união dos povos, que funciona como algema.

À face rica da UE, que apresenta planos aos governos para aperfeiçoar a gestão económica e financeira e condicionar a administração pública das nações dependentes, que autoriza financiamentos e créditos aos bons alunos, que paga régios salários aos assessores, opõe-se a dramática realidade da escolha oportunista, dentre os que fogem à guerra em busca de socorro, dos que convém serem reconhecidos como sobreviventes nas sociedades europeias. O volume descomunal da emigração desesperada dos refugiados, criada pelas guerras apoiadas pela UE, deixou visível a incapacidade de organizar recursos para salvar pessoas e o desinteresse pelos seres humanos que não se oferecem apenas como mão de obra qualificada e barata aos paises de acolhimento, ou seja, a face criminosa e pobre de humanismo que arrasta as nações para um abismo.

Os dois lado da realidade, a direita e a esquerda na ação política, as duas faces de quem exerce o poder, existem sempre para que os seres humanos escolham o seu caminho na vida. Os disfarces para iludir os mais distraidos acabam por cair quando a crise atropela os que se agarram ao poder. Não é novidade para ninguém, a não ser para os distraidos como Passos Coelho e seus seguidores, ou os que julgam que os povos são cegos.

Em Portugal hoje está claro que os créditos recebidos foram aplicados principalmente em bancos que, mal geridos e protegidos pelo Banco de Portugal (que assina em cruz o que Bruxelas manda), pagaram grandes salários aos seus executivos, congelaram os depósitos de clientes populares e foram à falência. A austeridade deveria ter sido aplicada no setor financeiro e nos rendimentos dos mais ricos. Austero quer dizer responsável, controlado, capaz de bem gerir os recursos existentes. E a favor de Portugal independente, não de uma Troika que anda experimentando planos de desenvolvimento financeiro sem conhecer os efeitos econômicos e sociais sobre a população portuguesa, como hoje fazem os laboratórios da indústria química internacional inventando medicamentos que matam e fertilizantes que destroem o solo produtivo.

Zillah Branco

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Como entender a abstenção de metade do eleitorado



Para quem participou da campanha eleitoral e disputou a escolha democrática a ser feita pelo povo, a decepção leva a pensar que "a metade do número de eleitores não assumiu a sua responsabilidade de cidadão para escolher quem o irá representar" ao nível da política nacional.

Para quem tenta compreender porque esta maioria recusa dar o seu voto, fica a dúvida sobre a confiança que têm no processo eleitoral como uma realização democrática.

Cabe a dúvida quando vemos o pêso determinante da comunicação social na preparação dos "seus" candidatos, na promoção meticulosa com filmagem que destaca a qualidade de uns e os defeitos de outros. Cabe ainda a descrença em todos os partidos que aceitam as regras pré-estabelecidas para participarem deste jogo, que se diz democrático, espelhando apenas as posições aceitáveis no equilíbrio entre os partidos que se confrontam. Não são tocadas as divergências de fundo que os separam.

Havendo um acordo que estabelece os limites temáticos a serem abordados e um controle na manutenção do respeito formal pelos opositores, alem dos pressupostos iniciais sobre os que dirigem o jogo, grande parte dos eleitores sentem-se postos para fora do combate, ou seja, foi destruida a democracia real. E mais, os que se confrontam não são reconhecidos como lideranças dos setores que se abstêm.

Outra razão para negarem o seu voto é a experiência de eleições anteriores que não corresponderam ao que os seus eleitores esperavam: seja por não conseguirem eleger os seus escolhidos, seja por terem sido iludidos por falsas promessas, ou ainda por alegarem outros poderes mais altos que impediram a realização do prometido.

A realidade vivida é nua e crúa, para qualquer pessoa entender, mas as explicações sobre as crises mundiais, os ciclos económicos, as exigências de um poder externo, o mercado internacional e suas oscilações, assim com as falências bancárias e os processos que se arrastam contra os respondáveis pelas fraudes milionárias que não cumprem penas, estas variáveis que são explicadas quase como fatalidades, poucos entendem e aceitam.

Uma parcela cada vez maior do eleitorado não acredita nas explicações políticas porque não vê, ao longo de décadas, qualquer caminho para resolver os seus problemas que são cada vez mais graves. Deixou de acreditar até mesmo nos argumentos contrários que os partidos usam nos seus debates. Passou a olhar a todos como pertencentes a outra sociedade diferente da sua, a uma elite média.

Para agravar esta descrença, que muitas vezes projetam para a humanidade, o mundo moderno vive uma contradição inaceitável de evolução no conhecimento e retrocesso no comportamento dos poderosos: guerras injustas, invasões, massacres, tráfico de mão de obra barata, de crianças para prostituição ou venda de órgãos, emigração forçada, venda de drogas, produção de adubos tóxicos, sementes e virus que destroem a natureza para que comprem produtos substitutivos às empresas exploradoras, uso de pessoas como cobaias pela indústria farmaceutica, filmes e lívros didáticos para ensinar técnicas de violência aos jovens, organização de grupos terroristas, enfim o caos que liquida a paz e a estabilidade no planeta.

As instituições políticas não tratam tais assuntos, apenas fazem alguns pronunciamentos como protestos e pedem aos povos que manifestem a sua solidariedade. E ano a ano crescem os crimes formando as novas gerações no desespero, na oposição aos princípios éticos, na descrença. O esvaziamento por abstenção não é só na corrida às urnas, è na possível ação política de todos os quadrantes. Democracia é utopia?

Para arejar este ambiente bafiento e depressivo distribui-se alegria empacotada, em pilulas ou doces, mas principalmente em grandes eventos cheios de brilho e ruido ensurdecedor para que não haja espaço e tranquilidade para as pessoas pensarem e sentirem com os seus recursos humanos mais elementares. Tudo bem planeado para dar lucros aos investidores e distrair a opinião pública dos problemas mais graves, com aparente espírito democrático.

Zillah Branco

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Cidadania e Estado



Durante o governo de direita em Portugal, de 2011 a 2014, assistiu-se a um esforço da Troika (FMI e UE) para transformar o Estado, que se queria social e apoio à população, em fiscal e perseguidor dos cidadãos. Era o contrário da democracia instaurada pelo 25 de Abril há quarenta anos, que começou a ser minada por Mário Soares em 1976 quando eleito, ao trazer o programa da social-democracia subordinado ao imperialismo para dirigir a vida polítca nacional. Durante estas 4 décadas, o PS aproximou-se dos partidos de direita com quem alternou a condução do governo até eleger Sócrates (formado na juventude do PSD e preparado pela TV) para desempenhar como socialista as orientações do Clube de Bildemberg, basilar na União Europeia. Com uma gestão financeira desastrosa que aprofundou a dívida nacional (misturada com dívidas privadas), abriu caminho para os partidos de direita, PSD/CDS, assumirem o Governo como emissários das orientações diretas das Comissões Européias que consideram o país a serviço da gestão financeira e não da democracia. Ou seja, abandonou-se a preocupação com o desenvolvimento social e económico que eleva as condições de vida e trabalho dos cidadãos a favor das regras do mercado internacional e da acumulação de capital nas empresas financeiras privadas.

Tal percurso fortaleceu a direita em Portugal, que se ofereceu como agente do imperialismo adotado pela UE para subordinar a nação a um projeto externo, mas despertou a esquerda para a busca de apoio organizado em pequenos partidos e de uma tendência dentro do PS, que acompanharam o fortalecimento do movimento sindical na defesa dos direitos democráticos levantados no 25 de Abril. A estabilidade ideológica do PCP permitiu que liderasse uma unidade de esquerda que apoiou a eleição de um governo PS à esquerda, destronando a direita. Foi clara a introdução do conceito de esquerda, de cidadania e de Estado social (para atender a população e as forças produtivas contra a ganância financeira do setor financeiro que delapidara a independência nacional), nos debates políticos inclusive promovidos pela média. Isto coincidiu com mudanças simultâneas em toda a Europa, detonadas com o flagelo dos milhões de fugitivos das nações bombardeadas (tanto pelas forças da NATO e do imperialismo norte-americano como do grupo auto denominado Estado Islâmico).

Vemos a oscilação das condições de cidadania, quando o Estado é um instrumento para o desenvolvimento social e económico - com o 25 de Abril em 1974 - e com as forças de esquerda no Parlamento em fins de 2015 - ou quando o Estado é controlado por um poder externo e exerce o seu poder fiscal e de causador da austeridade que leva o povo à perda dos seus direitos sociais: pensões, emprego, habitação, saúde, escola, alimentação, transporte, segurança civil. Corresponde à tendência individualista do sistema capitalista que deixa as pessoas sem os recursos institucionais da cidadania. Mesmo os governantes submissos pensam poder redimir-se das falhas de administração atribuindo os erros às "ordens recebidas da UE", o que não justifica perante o povo e o país, a nação que o elegeu para defender a soberania do país.

Mas o facto é que o governo da direita, PSD/CDS, transformou o Estado no fiscal prepotente, capaz de levar a habitação do cidadão a leilão para pagar uma dívida pequena. Face a esta situação, o governo PS de hoje, que atende o programa da esquerda, trouxe um alívio que é a confiança no Estado e não o medo ou a revolta. Sente-se o benefício dessa confiança que aproxima o cidadão às instituições que respeitam os direitos democráticos.

A Europa está em crise diante dos erros e crimes cometidos contra a soberania das nações - levando a guerra para dentro das que estão no Oriente Médio e Norte da África ou que deixaram o socialismo soviético - e das que compōem a União Europeia, através da imposição de decisões financeiras e de política social anti-democráticas. Nada fez pela paz, que seria o único objetivo para evitar o fluxo de populações desesperadas em busca de refúgio e condições de vida equilibrada, nem mesmo impediu que bandos de traficantes organizassem a saída pelo Mediterrâneo iludindo os viajantes com inadequados barcos insufláveis para enfrentar tempestades marítimas. Também não foi capaz de organizar missões de salvamento deixando que centenas de milhares de adultos e crianças andassem a pé, no frio e na chuva, em busca de socorro entre os países europeus ou morressem afogados. Uma falência vergonhosa que se somou à crise de gestão política no continente.

A consequência nos países mais ricos é o ressurgimento do nacionalismo de direita com os grupo e partidos neo-nazistas e as ações terroristas por grupos que foram armados para as primeiras invasões imperialistas das chamada "primaveras" com o objetivo de anarquisarem as sociedades mais frágeis. Diante deste caos civilizacional, só referem a crise financeira que atinge uma elite apátrida, egoista e criminosa em relação aos cidadãos que pagam, com a austeridade imposta, os seus roubos e incompetências na gestão do dinheiro público.

Os Estados Unidos, arrotam grandeza ameaçando os terroristas - que criaram como mercenários para gerar conflitos sociais que "justificaram" as suas invasões - e os países ricos da Europa seguem o modelo valendo-se das mortes que se multiplicam como revanche do Estado Islâmico nos seus centros urbanos. O mesmo ocorre com Israel que aterroriza permanentemente o Estado Palestino. Correm atrás do estopim que eles próprios acenderam para se fazerem de defensores dos seus povos. Mas fogem da paz "como o diabo da cruz".

Os povos que despertaram para a defesa da cidadania com um Estado democrático à esquerda, criam a única defesa possível para deixar uma sociedade respondável e saudável para as novas gerações.

Zillah Branco

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Presidente de todos os portugueses



A promoção de futuros candidatos aos cargos governamentais pelos órgãos de comunicação social em Portugal corresponde a um recurso próprio de uma ditadura. Se não de nível nacional, então internacional. É o que se tem assistido há vários anos em que, por indicação do Clube de Bildemberg e depois dos organismos não eleitos da União Europeia, foram promovidos a comentadores de TV vários candidatos a Primeiro Ministro e agora a Presidente da República, políticos do PSD e do PS. Criaram um perfil calcado em Salazar ao qual os candidatos adaptam-se com maior ou menor simpatia pessoal. Nessa função, vêm a público com a cartilha do modelo mediático debater com um experimentado jornalista as notícias políticas e futebolísticas de maior projeção para " formarem à opinião pública". Adquirem técnicas de debate, adotam posturas de especialistas nas matérias, exibem sorrisos simpáticos de compreensão e expressōes de força na defesa de princípios morais, conquistam o público que não tem outro modelo para comparar, habituam os eleitores a desejarem nos cargos públicos aqueles "bons alunos" que fizeram o exaustivo e bem remunerado curso.

Entre muitos, aí estão pelo menos dois que transitam no momento dando opiniões indiretamente para indicar o candidato mediático: Sócrates e Guterres criam o ambiente para o candidato Marcelo Rebelo de Souza. O primeiro está amarrado a um processo judicial ligado às confusões do sistema financeiro, o segundo passeia o seu ar de figura beata internacional, revelando que a Europa está "em cima de um precipício" e ele quer descansar. O candidato à Presidência da República que expande simpatia a torto e a direito, abraçando populares e piscando à esquerda como se fossem os velhos amigos de direita.

Para cumprir com eficiência a função de preparar e lançar candidatos aos altos postos governamentais, a média, sobretudo a TV, reduziram as informações diárias ás questões prioritárias para a formação de uma consciência mediocre do eleitorado: o futebol e suas poderosas esferas de poder e o turísmo como a meta nacional para agradar ricos visitantes deste pobre país. A mentalidade derivada de tal escola será inevitavelmente alheia á realidade que os portugueses vivem e sofrem, e moldada na subserviência de quem oferece aos ricos "as belezas que Deus lhes deu" como último recurso para quem nasceu condenado a ser pobre.

Assim é preparada a eleição presidencial para substituir Cavaco e Silva, com o aluno brilhante da TV dando sequência ao caminho que levou a Europa ao "precipício", segundo o emissário Guterres. Dez outros canditatos competem em campanhas junto ao povo um pouco por todo o lado do território, descobrindo uma realidade adversa que convém conhecer para não ficar nas nuvens do Palácio de São Bento.

Dentre eles destaca-se Edgar Silva que nasceu dentro da realidade em que vive o povo português. Para poder adquirir uma formação mais sólida seguiu, como tantos meninos pobres, a carreira de padre que o convidava a fazer o bem. Formou-se em teologia e em muitas matérias das ciências sociais que explicam a história da humanidade onde a luta pelo poder e a ganância do dinheiro são os grandes obstáculos ao normal desenvolvimento dos cidadãos. Na busca de um coletivo que luta por um mundo melhor descobriu que o PCP é o partido que tem por meta defender os homens e mulheres que sofrem o peso da miséria e combater a desigualdade social imposta por uma elite ainda poderosa.

Edgar Silva enquanto padre criou um projeto de escola para as crianças que sobrevivem nas ruas sem proteção familiar ou do Estado. Conquistou a solidariedade de outros padres mas não da instituição clerical. Aderiu à militância comunista para expandir os seus projetos de ação social destacando-se na Ilha da Madeira pela sua capacidade de luta em defesa de um povo que se fortaleça para desenvolver Portugal como uma nação próspera e com igualdade de recursos para todos os cidadãos.

Entre todos os canditados que, em contato com o povo nas ruas ou em entrevistas à comunicação social, esforçam-se por mostrar as qualidades que têm para bem desempenhar a função de Presidente de todos os portugueses, Edgar Silva apenas revela que estudou a fundo a história da humanidade mas também a Constituição Nacional, que estabelece o âmbito da ação presidencial em Portugal, e que lhe permitirá abordar a vasta gama das questões sociais de uma realidade que conhece desde o berço em que nasceu, pelos bairros pobres em que cresceu e investigou, com fé na humanidade e com os recursos das ciências sociais ao longo de toda a sua vida.

Pela primeira vez em Portugal surge um candidato à Presidência da República que foi formado na realidade social nacional - o primeiro curso de cidadania - adquiriu conhecimentos científicos e humanistas e alimentou a vontade de ser útil à sociedade com o enquadramento institucional que a Constituição democrática produzida pelas conquistas de Abril estabelece. É um representante do povo que cresceu na busca intransigente dos caminhos mais adequados para levar a maioria dos portugueses a alcançar melhores condições de vida, e a aplicar a inteligência e a vontade de modo a valorizar Portugal entre todas as nações.

Zillah Branco