sábado, 13 de agosto de 2016

Portugal vive dias de horror sob o fogo que invade casas, cultivos, oficinas artesanais, empresas industriais. Todos os concelhos, mas principalmente as regiões de centro e norte e a capital da Ilha da Madeira, a cidade do Funchal, estão com focos de fogo ativo. Os bombeiros já somam quatro mil e são poucos diante da magnitude da tragédia que aumenta e abre novos caminhos conduzida pelos fortes ventos e intenso calor do verão.

A polícia tem descoberto alguns responsáveis por "fogo posto". São pirômanos, alguns reincidentes, que revelam problemas psicológicos, comuns na nossa época de promoção de terrorismos, em que os grandes responsáveis pela administração pública escondem a sua responsabilidade social atrás de carências pessoais que não receberam o apoio médico ou educacional devidos. É fácil provocar o ódio entre os desesperados, apontando um que será o alvo da condenação. O ladrão esperto é o primeiro a gritar para pessoas distraidas: "pega o ladrão!" apontando um rumo imaginário por onde a multidão corre como gado, animada por suas tendências psicológicas de vingança.

Comparo este incêndio devastador em Portugal, pressionado permanentemente pela União Europeia para cortar as verbas orçamentárias e enriquecer os bancos onde o capital é acumulado nas mão de uma elite financeira, com a situação sofrida no Brasil, com o detonar do golpe por grandes corruptos "contra a corrupção sistêmica" atribuida políticamente à Presidente Dilma que tentava equilibrar um governo formado por forças antagônicas, algumas democráticas e outras oportunistas e corruptas.

Quem sofre e morre é o povo - os mais pobres, os que labutaram toda a vida e sobrevivem mal, os que conseguiram com muito trabalho e poupança construir uma casa e uma mini-empresa, os que são solidários e lutam contra a opressão, os bombeiros e militantes de esquerda que dão a vida por uma sociedade melhor e mais humanizada. Os grandes (ir)responsáveis pela organização das condições sociais e econômicas - os que acumulam o capital em benefício do seu próprio poder; as grandes empresas multinacionais que inventam mecanismos para que a poluição gerada por seus produtos não seja descoberta pelos fiscais do Estado; a mídia que divulga falsidades em defesa das elites e oculta a realidade que o povo enfrenta; os que gerem o mercado mundial controlando a riqueza de uns e a miséria da maioria; o poder imperial que invade países fragilizados para dominar as suas riquezas naturais; os políticos oportunistas e covardes que se oferecem para executar golpes ou "matar terroristas" em defesa dos interesses dos imperiais; enfim, os que têm o poder para organizar as sociedades mais humanizadas mas, ao contrário, destroem a capacidade popular de produzir para todos e acumulam o ouro como grandes ladrões assassinos.

Com a austeridade exigida pelos banqueiros da UE e FMI o povo português - que fez uma Revolução dos Cravos livrando-se de uma ditadura que esmagava países colonizados  e  a sua própria  população empobrecida, elevou a produção, criou empregos, atraiu os que haviam emigrado para sobreviverem, desenvolveu a saúde e o ensino públicos - foi traído por políticos que se diziam democratas (o filme "Fora Temer"?) mas na verdade eram submissos aos gananciosos do ouro, contrários à humanização da sociedade. O país viu-se diante do desemprego, os jovens emigraram deixando suas casas e seus idosos tomando conta de animais e cultivos; viu a produção nacional passar para mãos estrangeiras; os eucaliptos substituiram os carvalhos tradicionais e os pastos de grandes rebanhos de antes, por ser mais fácil vender para as grandes indústrias de papel de paises mais ricos; as aldeias históricas foram transformadas em atração para turistas e, assim, a vida rural portuguesa passou a ser cenário da indústria multinacional do turismo que é predadora e incapaz de manter a limpeza dos campos que no verão secam. 

O fogo queima o restolho, as ervas, as árvores, a produção agrícola, os animais doméstico e o gado, mata os idosos sem forças para manter a pequena produção, e anima os doentes mentais que anseiam por atividades que reunam o povo como em festas. 

Os bombeiros dão a vida, acompanhados pelos administradores dos serviços locais que não receberam o apoio financeiro para prevenir os incêndios, e os populares que tentam salvar pessoas e propriedades ou cultivos. Mas o vento empurra o fogo para todos os lados, como os donos do império capitalista fazem com os equipamentos militares que despejam bombas sobre populações indefesas.

Ao mesmo tempo milhares de fugitivos das guerras no Oriente Médio e Norte da África morrem afogados no mar Mediterrâneo ou no percurso a pé pelas fronteiras europeias em busca de ajuda pelos governos que mandaram a OTAN destruir os seus países.

O mundo hoje enfrenta um terrivel impasse: 

Acumulação do ouro ou uma sociedade humanizada. 
Q

Os povos sabem que para terem casas precisam construí-las e para comerem precisam cultivar e criar. Organizam-se com os vizinhos, ensinam as crianças a manterem o arranjo doméstico e a limpeza. Os que administram os serviços públicos zelam pelo abastecimento, pela segurança, pelo transporte, pelos cuidados de saúde e educação. O dinheiro penas serve para facilitar os cálculos do valor das coisas - produtos e trabalhos. É secundário diante da vontade e da inteligência humana.

O que será preciso acumular é a vontade de ajudar, a solidariedade, as boas idéias para resolver problemas e encaminhar soluções melhores. Só um povo autonomo e patriota, de um país independente e soberano, poderá vencer e criar a Justiça para assegurar um futuro humanizado.

Zillah Branco

Ódio e moralismo desviam o conhecimento dos erros

Portugal vive dias de horror sob o fogo que invade casas, cultivos, oficinas artesanais, empresas industriais. Todos os concelhos, mas principalmente as regiões de centro e norte e a capital da Ilha da Madeira, a cidade do Funchal, estão com focos de fogo ativo. Os bombeiros já somam quatro mil e são poucos diante da magnitude da tragédia que aumenta e abre novos caminhos conduzida pelos fortes ventos e intenso calor do verão.

A polícia tem descoberto alguns responsáveis por "fogo posto". São pirômanos, alguns reincidentes, que revelam problemas psicológicos, comuns na nossa época de promoção de terrorismos, em que os grandes responsáveis pela administração pública escondem a sua responsabilidade social atrás de carências pessoais que não receberam o apoio médico ou educacional devidos. É fácil provocar o ódio entre os desesperados, apontando um que será o alvo da condenação. O ladrão esperto é o primeiro a gritar para pessoas distraidas: "pega o ladrão!" apontando um rumo imaginário por onde a multidão corre como gado, animada por suas tendências psicológicas de vingança.

Comparo este incêndio devastador em Portugal, pressionado permanentemente pela União Europeia para cortar as verbas orçamentárias e enriquecer os bancos onde o capital é acumulado nas mão de uma elite financeira, com a situação sofrida no Brasil, com o detonar do golpe por grandes corruptos "contra a corrupção sistêmica" atribuida políticamente à Presidente Dilma que tentava equilibrar um governo formado por forças antagônicas, algumas democráticas e outras oportunistas e corruptas.

Quem sofre e morre é o povo - os mais pobres, os que labutaram toda a vida e sobrevivem mal, os que conseguiram com muito trabalho e poupança construir uma casa e uma mini-empresa, os que são solidários e lutam contra a opressão, os bombeiros e militantes de esquerda que dão a vida por uma sociedade melhor e mais humanizada. Os grandes (ir)responsáveis pela organização das condições sociais e econômicas - os que acumulam o capital em benefício do seu próprio poder; as grandes empresas multinacionais que inventam mecanismos para que a poluição gerada por seus produtos não seja descoberta pelos fiscais do Estado; a mídia que divulga falsidades em defesa das elites e oculta a realidade que o povo enfrenta; os que gerem o mercado mundial controlando a riqueza de uns e a miséria da maioria; o poder imperial que invade países fragilizados para dominar as suas riquezas naturais; os políticos oportunistas e covardes que se oferecem para executar golpes ou "matar terroristas" em defesa dos interesses dos imperiais; enfim, os que têm o poder para organizar as sociedades mais humanizadas mas, ao contrário, destroem a capacidade popular de produzir para todos e acumulam o ouro como grandes ladrões assassinos.

Com a austeridade exigida pelos banqueiros da UE e FMI o povo português - que fez uma Revolução dos Cravos livrando-se de uma ditadura que esmagava países colonizados  e  a sua própria  população empobrecida, elevou a produção, criou empregos, atraiu os que haviam emigrado para sobreviverem, desenvolveu a saúde e o ensino públicos - foi traído por políticos que se diziam democratas (o filme "Fora Temer"?) mas na verdade eram submissos aos gananciosos do ouro, contrários à humanização da sociedade. O país viu-se diante do desemprego, os jovens emigraram deixando suas casas e seus idosos tomando conta de animais e cultivos; viu a produção nacional passar para mãos estrangeiras; os eucaliptos substituiram os carvalhos tradicionais e os pastos de grandes rebanhos de antes, por ser mais fácil vender para as grandes indústrias de papel de paises mais ricos; as aldeias históricas foram transformadas em atração para turistas e, assim, a vida rural portuguesa passou a ser cenário da indústria multinacional do turismo que é predadora e incapaz de manter a limpeza dos campos que no verão secam.

O fogo queima o restolho, as ervas, as árvores, a produção agrícola, os animais doméstico e o gado, mata os idosos sem forças para manter a pequena produção, e anima os doentes mentais que anseiam por atividades que reunam o povo como em festas.

Os bombeiros dão a vida, acompanhados pelos administradores dos serviços locais que não receberam o apoio financeiro para prevenir os incêndios, e os populares que tentam salvar pessoas e propriedades ou cultivos. Mas o vento empurra o fogo para todos os lados, como os donos do império capitalista fazem com os equipamentos militares que despejam bombas sobre populações indefesas.

Ao mesmo tempo milhares de fugitivos das guerras no Oriente Médio e Norte da África morrem afogados no mar Mediterrâneo ou no percurso a pé pelas fronteiras europeias em busca de ajuda pelos governos que mandaram a OTAN destruir os seus países.

O mundo hoje enfrenta um terrivel impasse: UAcumulação do ouro ou uma sociedade humanizada.

Os povos sabem que para terem casas precisam construí-las e para comerem precisam cultivar e criar. Organizam-se com os vizinhos, ensinam as crianças a manterem o arranjo doméstico e a limpeza. Os que administram os serviços públicos zelam pelo abastecimento, pela segurança, pelo transporte, pelos cuidados de saúde e educação. O dinheiro penas serve para facilitar os cálculos do valor das coisas - produtos e trabalhos. É secundário diante da vontade e da inteligência humana.

O que será preciso acumular é a vontade de ajudar, a solidariedade, as boas idéias para resolver problemas e encaminhar soluções melhores. Só um povo autonomo e patriota, de um país independente e soberano, poderá vencer e criar a Justiça para assegurar um futuro humanizado.

Zillah Branco

terça-feira, 9 de agosto de 2016

FORA TEMER ! Apesar de você, o Brasil de amanhã será outra vez dos brasileiros

Apesar da história do subdesenvolvimento e da dependência econômica impostos pelo sistema de dominação política, dos vícios da elite permissiva e inconsequente que domina o Estado, da falta de ética ou de inteligência de uns quantos que, com seus diplomas comprados, chegaram ao poder, Lula abriu um caminho para que o povo pensante e trabalhador chegasse ao comando da nação através da razão e da cultura "pé-na-terra" que une a gente boa brasileira.


Não ha "pokemons" que imbecilizem quem nasceu livre, com idéias claras, com valor para trabalhar e sorrir, com força e entusiasmo para participar da luta pela democracia, ao lado de irmãos que, pelas suas diferenças, representam todo o planeta unificados pela integridade e a honra de patriotas verdadeiros. A judoca Rafaela Silva conquistou o ouro nas Olimpíadas tornando-se um simbolo dos brasileiros que carregam os problemas da pobreza, da vida em favelas, da cor dos escravos, do gênero das mães humilhadas, e vencem!

Os comunistas lutam em duas frentes simultaneamente: o combate ao golpe que representa a falta de patriotismo, de honra, de decência, de dignidade, de honestidade, de ética e a construção de uma semente para gerar as cidades humanas onde o DNA golpista não terá espaço porque o poder será dos que cultivam os princípios democráticos e o respeito pelos direitos humanos. O que se deseja é que os recursos do país sejam aplicados a favor do desenvolvimento da produção social e das melhores condições de vida dos brasileiros honrados e patriotas - com transporte, cuidados de saúde, ensino com educação e solidariedade, segurança pública e social, emprego e lazer livres da exploração de classe e da alienação mental que condena à subordinação dos cidadãos a um poder desumano e golpista.

"Amanhã será outro dia", apesar do golpe que uniu oportunistas que pegaram carona no processo democrático e falhados vendidos aos ambiciosos que espalham as guerras e o terrorismo pelo mundo, o Brasil demonstrará que a sua cultura é mais forte porque visa a humanização da sociedade com igualdade para os trabalhadores e suas famílias e não a acumulação do capital para satisfazer uma elite ambiciosa.

O amanhã está ligado ao combate ao golpismo de hoje. São passos de um mesmo processo que a história do Brasil registra através dos séculos. Antes surgiram heróis que deram a vida ao seu povo como exemplos a serem seguidos em defesa da liberdade, a igualdade e a fraternidade. Apesar do domínio capitalista que retira o poder aos povos para centralizar nas instituições financeiras dirigidas por uma elite corrupta e egoísta, o povo brasileiro absorveu das conquistas mundiais e do exemplo dos seus heróis a formação social humanista que se desenvolveu como filosofia, ciência e arte que hoje se manifesta nas Frentes de Luta que dominam as ruas das grandes cidades em todo o país.

Referimos como exemplo a judoca Rafaela Silva que ao viver tantos sacrifícios pessoais - vitima de privações de recursos, de preconceitos elitistas, de egoísmos de quem se julga superior, da ausência de justiça democrática na sociedade - descobriu a sua força indomável na luta bem conduzida. Assim faz o povo brasileiro que não permite a uma quadrilha de invasores a serviço de uma elite terrorista, roube a sua Pátria amada construída ha meio milênio por trabalhadores de tantas origens que não se vendem, a si e à sua cultura, à sua história, aos seus valores éticos, ao seu exemplo humano, por dinheiro nenhum. Lutam e vencem!

Não podemos continuar a perder tempo. Temos de nos preparar para a construção das cidades humanizadas com debates sérios sobre como produzir sem o esbanjamento da elite, sem a formação do mau caráter de golpistas, sem a infiltração de inimigos, sem os privilégios que impedem a justiça democrática, com o desenvolvimento da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Contaremos com o interesse e a solidariedade dos outros povos latinos-americanos e dos que, em todo o planeta, lutam pela paz e a democracia.

Fora golpistas! Viva a luta popular no Brasil! 


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Que Brasil queremos?




As teorias são ferramentas particulares de conhecimentos da realidade existente - fotografias minuciosas do passado e da transformação no presente. Devem ser despidas do "eu acho que..." traduzidas em "verdades absolutas" pela elite "dona da verdade". Uma ganga elitista anula a possível transmissão de uma imagem da realidade. A pergunta sobre "o que queremos" não pode ser respondida apenas pelos intelectuais que debitam as suas formulas, muitas vezes fora de época e sobretudo longe do contexto geopolítico, humano, social e econômico existente. É preciso aprender a perguntar ao povo sem pretender ensinar-lhe a pensar. Pois ele pensa e sabe mais do que diz nas respostas às fórmulas habituais que circulam em uma sociedade criada para a elite.

Guardo lições ditadas por analfabetos com quem convivi na infância: "O Brasil não tem um povo, tem um montão de gente" (Cassiano, pedreiro, filho de escravos); "A vida não é uma escada, é um caminho" (Dona Justina, caiçara); "Quem despreza a gente é porque tem medo" (Brazília, cozinheira doméstica, filha de escravos). A leitura dos livros do Sítio do Picapau Amarelo ensina o que era o Brasil no século vinte, visto de baixo para cima e sem esconder a cultura importada da Europa que dominava socialmente. Monteiro Lobato desnudava o pensamento brasileiro e apontava a crítica necessária para a superação dos preconceitos que eram instrumentos do poder elitista, a começar do racismo, o machismo, a presunção classista, os "donos da verdade" que desconheciam os obstáculos reais. Precisou inventar uma boneca de pano e um de sabugo de milho para sugerir o futuro brasileiro que promoveria mudanças aliado às crianças educadas com liberdade. Misturou mitos europeus com os dos indigenas daqui e mais os que os africanos trouxeram, para abrir as portas a uma cosmogonia onde as diferenças se casam. Apontou um futuro em que, por respeito aos diversos pensamentos, a harmonia seria natural e criativa.

Autores comunistas descreviam os quadros da vida miserável em que viviam os trabalhadores e exibiam a inteligência que a pobreza não destruia, a alegria e  o respeito humano criativo, que eram divulgados por artistas geniais em sons e cores. E denunciavam os exploradores que acumulavam riquezas roubadas à natureza e às gentes brasileiras que não se amesquinhavam por "propriedade privada" e "ganância". Gente forte, gente sábia, gente que sobreviveu ao colonialismo e ao liberalismo e agora recusa o neo-colonialismo imperial. Gente que vai construir um Brasil independente.

Os colonizadores europeus trouxeram a cultura e as conquistas sociais alcançadas pelos Estados organizados através dos séculos, mas com a ambição de usar o novo território a favor das suas novas guerras intestinas, do fascínio pelo ouro e joias, com o sonho do poder total. Trouxeram também as contradições que minavam as suas nações, os que lutam pela liberdade, a fraternidade e a igualdade em vários idiomas. As elites tentaram implantar um pensamento congelado, que impedia o raciocínio e ameaçavam com os medos físicos e mentais dos opressores prometendo vinganças terríveis a quem levantasse dúvidas.

A dialética rompeu os grilhões. Era como o saci da mitologia afro-brasileira. Ninguem engole o saber do outro ou repete como papagaio os sons aprendidos. O Deus barbudo e severo e seus emissários santificados assumiram as feições que a cultura de quem convive com a natureza conhece, com sentimentos suaves e considerações éticas que abrem espaço para a harmonia e a alegria, bases para a justiça.

Os abusos nas guerras e no relacionamento doméstico, praticados pela elite, levaram o povo pacífico a criar defesas: surgiram os heróis do povo que lideraram ações libertárias de um Estado embrionário. Os modelos administrativos vindos da Europa desafinavam das necessidades sentidas pelas populações. Eram instituições próprias para a elite e os seus seguidores obedientes.

O modelo de revolução socialista penetrou como o antídoto à cultura da exploração europeia. O Cavaleiro da Esperança criou a guerrilha popular e atravessou o país, do sul ao nordeste, conhecendo a crueza da vida imposta aos povoadores do Brasil e traçando o caminho da luta. Chamou a atenção de pensadores de outros países latino-americanos e dos revolucionários da Rússia Soviética. Foi empossado como dirigente no nascente Partido Comunista. Tinha todas as qualidades de um herói nacional das gentes brasileiras, da maioria analfabeta à burguesia nacionalista. A ideologia aplicada por Lenin, que conheceu na Rússia revolucionária em plena criação de um sistema socialista, casou com os seus sentimentos puritanos cristãos. Pacientemente lutou pela constituição de um proletariado industrial e de um Estado social enquanto os abutres imperiais consumiam as riquezas minerais como lastro dos seus navios carregados com a produção agrícola barata exportada para a Europa.

Poucos intelectuais pensavam a realidade vivida pela maioria brasileira. Sequer observavam e faziam perguntas aos iletrados ou às mulheres que suportam a luta diária pela sobrevivência familiar. Alguns consideravam-se os seus interpretes, referindo teorias de origens diversas, de outras épocas e outras culturas. Interpretavam com os parâmetros da elite. Nos países subdesenvolvidos, colonizados ou dependentes do mercado e da cultura dos mais desenvolvidos, não havia diálogo entre a elite e a população. Os eleitos eram os cidadãos prestigiados "que pensam", apoiados pelos coroneis, por seus obedientes e alienados familiares, e mais o "voto de cabresto" do povo trabalhador. O resto era paisagem.

No Brasil a legislação era liberal, cópia do sistema europeu. Os preconceitos de classe, racista e machista, como pano de fundo na sociedade, pré-estabeleciam os pensamentos dos subordinados ao modelo dos cidadãos socialmente respeitados. As mulheres e os analfabetos eram os complementos naturais. As conquistas em nome da democracia só começam a ter vigência efetiva depois da Segunda Grande Guerra em que o fascismo foi vencido pelos aliados com o exército revolucionário soviético na vanguarda. O socialismo expandiu-se por todo o mundo como a ideologia alternativa ao capitalismo dominante.

A presença de Partidos Socialistas e Comunistas na vida política nacional abriu caminho para os projetos de uma democracia real. A militância progressista misturava diferenças ideológicas - anarquistas, cristãos, trotskistas, estalinistas e mais os que simplesmente defendiam os oprimidos e se rebelavam contra a presunção da elite.

A direita aperfeiçoou os métodos de dominação através da difusão literária, primeiro, e dos recursos da rádio, televisão e cinema, depois. Este tornou-se o instrumento fundamental nas campanhas eleitorais, na propaganda midiática e nos financiamentos privados de shows e mega-festas barulhentas e mediocrizantes. Ao impor um comportamento mecanizado e dominador, sem espaço para contestação, mantêm os que assistem subordinados à onda sonora e psicótica, obedientes à mesma elite que gere o poder financeiro. Uma versão moderna do antigo "cabresto dos coronéis" comanda, agora revestido de subtilezas dos que "fazem as idéias" através da cultura imposta como "moderna tecnologia".

No Brasil, com a Constituição de 1988 (onde no plano jurídico as mais visíveis restrições deixadas pela ditadura foram atenuadas), surge o anúncio da possibilidade de um regime político democrático. As forças de esquerda alcançam vitórias eleitorais, sobretudo a nível da representação municipal onde permaneceram sementes democráticas durante a repressão ditatorial, mas também nas câmaras estaduais e federais, com líderes que sempre lutaram árduamente em defesa das reivindicações populares mesmo fora dos períodos eleitorais. São os verdadeiros representantes da vontade dos oprimidos e da luta por uma transformação do Estado para que deixe de ser manobrado pela elite e realize uma administração democrática dos serviços sociais e econômicos para a independência e desenvolvimento da Nação.

Esta mudança afeta também a produção intelectual ao abrir as universidades a uma camada popular com representantes das vítimas dos mais variados preconceitos. Os temas sobre as diferenças impõem-se ao conhecimento científico, e até à mídia, ganhando as ruas. O direito a pensar com a própria cabeça estilhaçou as coleiras e grilhões. Desapareceu a névoa mental que subordinava a sociedade como um teto baixo de deveres e condições de cidadania.

Só assim pode haver uma produção intelectual integrada efetivamente na história brasileira, alimentada por um conhecimento dos que vivem a realidade suportada pela maioria da população, e as características de todas as regiõs do território brasileiro, sem a visão particular e supostamente superior de quem se beneficia dos recursos criados para a elite. As divergências que normalmente surgem nas análises teóricas serão explicitadas diante de fatos reais, com métodos científicos comprovados, e não apenas de interpretações da realidade enredados em conceitos abstratos e intraduziveis para a linguagem normal da população. O debate será sempre enriquecedor mas não mais como um campeonato de títulos universitários onde vence o que gritar mais alto.

Lula abriu o caminho para uma democracia quando venceu as eleições presidenciais em 2002. Foi um passo histórico que promoveu a participação de 61% de novos eleitores da esquerda e centro, desejosos de um caminho realmente alternativo . No entanto, para isto contou com forças políticas representantes de uma facção nativa da elite, discriminada pelos seus parceiros que assumiam o poder com a ajuda externa do sistema capitalista internacional.

No decorrer dos anos cresceu uma oposição interna às medidas governamentais favoráveis à integração de todos os cidadãos sem distinção de classe ou de etnia, de formação filosófica ou religiosa, de opção de vida. O processo de integração leva tempo para adaptar tanto os agentes sociais como o povo a um convívio igualitário. É uma mudança profunda nas convicções arraigadas pela cultura de uns e de outros, que exige um aprendizado social. Nem todos aguentam manter o entusiásmo na luta coletiva sem compensações individuais. A atração do conforto que cerca o poder é forte e "a carne é fraca" para muitos. Houve traições, insensibilidades e incompetências, que permitiram a sobrevivência de preconceitos contra a ascensão dos mais pobres.

O sistema capitalista aproveitou com a sua vanguarda financeira e uma política terrorista de expansão que enfraqueceu e quebrou a União Soviética provocando um abalo mundial nas organizações revolucionárias. No Brasil o pensamento democrático não foi assimilado pelos governantes da mesma maneira. Uns consideraram a participação popular fundamental para as decisões do Estado servirem os interesses da maioria, enquanto que outros procuraram dar aos mais pobres as condições de consumidores que o sistema estimula com a desigualdade e a corrupção. Os elitistas defenderam os seus privilégios de concentração do capital e das melhores condições de vida. Formou-se a mentalidade golpista para interromper o processo democratizante que ganhara o continente latino-americano e a admiração mundial. Mas, neste clima controverso, Dilma foi eleita por 54 milhões de eleitores. Os que defendem uma melhor distribuição de benefícios do patrimônio nacional e a participação nas decisões do Estado, exigem que os pobres sejam democraticamente integrados como cidadãos com os mesmos direitos sociais.

Vivemos um momento decisivo na história brasileira com repercussão na de toda a humanidade. Até hoje a evolução polítca só ocorreu com confrontos guerreiros. Ainda temos capacidade para defender as conquistas democráticas com os recursos jurídicos existentes na ONU a partir da definição mundial dos Direitos Humanos e da Paz para o Desenvolvimento Democrático. Haja coragem e brio!


Zillah Branco



terça-feira, 12 de julho de 2016

A grande mudança no Brasil



Os anos nefastos da ditadura militar, de autoritarismo e perseguição aos que defendiam a liberdade, dividiu a população brasileira que exercia a participação política em duas posições: a conservadora, apoiante da opressão -  no partido ARENA - e, em oposição, a democrática, no MDB que era um movimento social e político.

As discordâncias envolviam princípios políticos de liberdade - para que o país se desenvolvesse com independência, livre das pressões externas do imperialismo, e para que todo o povo conquistasse os seus direitos de cidadania - e a luta pelo poder autoritário, ou seja, apenas a substituição de uma elite (militar) por outra (civil) concorrente.

A esquerda clandestina, dos comunistas e militantes de movimentos sociais, trabalhou duramente junto ao povo dando apoio aos mais perseguidos, sem poder concorrer aos cargos políticos. Eventualmente foram acolhidos pelos democratas sob a legenda do MDB para serem eleitos e participarem do poder local. Muitos passaram pelas prisões, sofreram torturas e atè a morte. Tiveram os seus direitos de cidadania cortados, foram banidos da sua pátria. Grande número deles foi obrigado a exilar-se em outros países para poderem trabalhar e criar os seus filhos.

A luta armada e a pacífica foi mantida durante todos os longos 21 anos, conservando a chama da resistência e iluminando a esperança em todos os brasileiros que conservaram a consciência de que a liberdade é essencial ao desenvolvimento humano e da sociedade com a sua estrutura econômica e social.

O poder imperialista percebeu que as formas de opressão geravam a resistência de um número cada vez maior de pessoas que se afastavam dos políticos conservadores e descobriam o valor da democracia. Os próprios militares no Brasil se convenceram de que a ditadura esgotara a sua força. Foi aberto um caminho de transição para formar governos civis, e ser retomado o caminho democrático das eleições com a participação popular. Vestidos de democratas misturaram-se vários políticos cuja ambição individualista era apenas a de participar da nova estrutura de poder que se pretendia popular e voltada para a criação de melhores condições de desenvolvimento nacional e de vida para todo o povo. Com esta mistura o processo de transição seguiu, cheio de contradições.

Em 1988 foi produzida uma Constituição Federal pelos parlamentares que representavam os partidos que surgiram das duas forças políticas legais sobreviventes - ARENA e PMDB - e de outras que emergiram da clandestinidade com um passado histórico de esquerda, direita ou centro. Foi a Constituição possível, democrática (sem explicitar a ambiguidade do conceito), que admitia o voto dos analfabetos sem estabelecer os limites ao exercício do poder dos oligopólios nascidos das velhas oligarquias e da ação imperialista, que modernizava o sistema com aperfeiçoamentos tecnológicos, de gestão financeira da economia e de controle da mídia para a formação da opinião pública.

O PT nascia como uma esquerda moderna, livre do peso histórico que os partidos comunistas e socialistas carregavam suportando os preconceitos dos partidos de direita e até de centro esquerda recem-nascidos. A liderança de Lula, com o carísma pessoal de quem viveu a miséria como a maioria dos cidadãos brasileiros, e do trabalho sindical que liderava, ultrapassou as divergências intelectuais e ideológicas dos quadros do PT, conquistou o apoio massivo popular e atraiu franjas da burguesia que estava decepcionada com os problemas gerados pelo neo-liberalismo adotado nos dois mandatos de FHC a favor do enriquecimento da elite, e venceu a eleição presidencial em 2002.

Abria-se um novo caminho para o Brasil, tentando ser livre dos comandos externos com a matriz do neo-liberalismo, voltado para o desenvolvimento nacional com a integração dos milhões de trabalhadores pobres que passavam fome com as suas famílias e nem sabiam que tinham direitos de cidadania. O país reconhecia como parceiros os vizinhos de continente que, a exemplo de Cuba, recusavam a permanente sangria imposta pelo vampiro imperialista em que se transformaram os Estados Unidos aliado às nações mais ricas.

Muito foi feito desbravando o território brasileiro, criando infra-estruturas básicas para as populações dispersas, desenvolvendo o sistema de saúde e o ensino público, criando condições para integrar todo o povo nas instituições nacionais e acabando com o trabalho infantil, favorecendo os mais pobres com uma bolsa-família e promovendo pequenas cooperativas que organizaram o trabalho artesanal e de coletores rurais de produtos para entrarem no mercado sem a exploração dos intermediários. Nas cidades foi impulsionado o ensino superior e técnico de formação profissional, promovida a produção científica e de  varios ramos da cultura e da arte, criados incentivos financeiros para estudantes sem recursos, construção de casas populares, criação de restaurantes para atender os mais pobres, introdução da merenda escolar, e várias iniciativas para que o Brasil superasse as condições de subdesenvolvimento herdada do passado colonial e do poder de elites.

Mas as pressões contra este progresso - que dá prioridade aos mais pobres e ao desenvolvimento dos recursos nacionais incluindo a mão de obra que se foi formando,  e levava a uma melhor distribuição da renda nacional com a recolha de impostos junto às camadas sociais mais ricas - foram crescendo insidiosamente apoiadas pela mídia ao serviço dos oligopólios. Era a instauração de um regime democrático, e de um Estado social, que o sistema capitalista repudia para manter a concentração do capital nas mão da elite poderosa.

A culminação desta luta foi a execução do golpe que colocou Temer, o interino, no lugar da Presidenta legítima, Dilma Roussef, eleita por 54 milhões de brasileiros, com o falso pretexto de um impeachment sem base jurídica e com falsas alegações de crimes. Estranhamente o sistema judicial tem prolongado a contestação desse governo ilegal que trouxe para a administração da vida nacional a direita que tem sido sistemáticamente rejeitada pelo voto democrático.

Impõe-se uma solução urgente para impedir o desmonte das conquistas históricas que desde 2003 têm assegurado um caminho que garante a independência nacional, o desenvolvimento de um valioso patrimônio econômico e a criação de soluções para acabar com os sofrimentos da miséria que a maioria dos brasileiros suporta. Os movimentos sociais se estruturam e procuram a unidade com as forças de esquerda para registrarem em plebiscito a vontade popular. Não se pode admitir que persistam razões teóricas ou de interesses particulares que impeçam uma medida pacífica de expressão da vontade dos brasileiros. A luta é coletiva, urgente, patriótica, contra um ato ilegal programado por forças externas e realizado por traidores.

Zillah Branco

sábado, 2 de julho de 2016

Virus imperialista ameaça a humanidade

Está à vista uma ação combinada para pressionar mais fortemente os vários países que foram contaminados pela "doença política" do neo-liberalismo. Esta doença minou os Estados que defendem os interesses exclusivos do mercado capitalista, mais preocupados em aumentar os depósitos financeiros nos bancos de que investir na produção nacional e nos serviços sociais para atender as populações com bons serviços de saúde, ensino, previdência, transportes, habitação e emprego.


Na América Latina, onde floresceu a democracia desde o início do milênio, inspirada nas conquistas da Cuba revolucionária, os governos eleitos pelo povo tentaram promover uma melhor distribuição dos recursos cobrando impostos aos ricos e investindo no desenvolvimento da produção nacional e na melhoria de condições de vida dos trabalhadores e suas famílias. Então começaram os movimentos de direita, manipulados por partidos de elite que controlam os meios de comunicação, para derrubar os bons governos democráticos fazendo campanhas com falsas denúncias contra os políticos de esquerda ou dando golpe como aconteceu contra o presidente Chaves na Venezuela e no Brasil com a proposta de impeachment contra Dilma. Chaves pode resistir com o apoio do seu povo e no Brasil crescem as manifestações sociais em defesa de Dilma com o apoio dos mais pobres que hoje têm os benefícios da cidadania.

Na Europa os países ricos ligados ao imperialismo criaram a União Europeia que controla o poder financeiro de todas as nações do continente impondo o sacrifício dos mais pobres que perdem os seus empregos e caem na miséria para que os bancos beneficiem as elites mais ricas, de acordo com os princípios do neo-liberalismo. Ao mesmo tempo os Estados Unidos exigiram - que a OTAN - formada pelas forças armadas de todos os países membros da União Europeia - desencadeassem invasões e bombardeios terroristas em vários países do Oriente Médio e do Norte da Africa que têm reservas de petróleo e minérios de grande valor. Destas destruições fugiram milhões de pessoas em busca de socorro na Europa, formando um movimento de emigração de pessoas desesperadas que enfrentam os riscos de naufrágio no mar Mediterrâneo (já morreram afogados mais de 10 mil, principalmente crianças e idosos) ou de morrerem de fome e exaustão nos percursos feitos a pé onde os países da UE levantam obstáculos para que não possam ultrapassar as suas fronteiras nacionais.

Em vários países europeus, onde os partidos de esquerda e os movimentos sindicais chegaram a desenvolver fortes organizações quando enfrentaram as grandes guerras contra o fascismo, a esquerda começa a se reestruturar unindo democratas para defender os povos agora ameaçados pelos governos neo-liberais. A moderna "guerra" realiza-se pela subordinação dos governos nacionais ao comando reacionário da União Europeia que não reconhece a soberania de cada nação e impõe um regime de austeridade e de adesão às práticas terrorista da OTAN.

Abaixo reproduzimos um comunicado produzido pelos comunistas de Portugal através do seu partido, que deixa clara a luta que vai sendo travada na Europa, tal como a que estamos enfrentando na América Latina.

PCP divulga aos órgãos de informação:


Sobre as imposições, a possibilidade de “sanções” a Portugal pela União Europeia e a proposta de realização de um referendo

O PCP repudia qualquer possibilidade de aplicação de medidas de chantagem econômica e extorsão a Portugal. Impõe-se que o Governo português defenda a soberania e os interesses nacionais e rejeite de forma firme e decidida a possibilidade de aplicação de sanções a Portugal. A questão que está colocada é a da imediata suspensão e revogação, ou desvinculação de Portugal, de todos os instrumentos de que as sanções são corolário. A proposta do Bloco de Esquerda de um referendo “para tomar posição contra as sanções” significa admitir que por essa via possam ser legitimadas as sanções ou outras imposições da União Europeia.

1 - O PCP repudia qualquer possibilidade de aplicação de medidas de chantagem econômica e extorsão a Portugal, seja sob a forma de “sanções”, ilegítimas e atentatórias do interesse e soberania nacionais, seja sob qualquer outra forma. A pressão que está a ser exercida sobre Portugal constitui um inaceitável ataque à soberania nacional, aos direitos dos portugueses e à democracia tal como consagrada na Constituição da República Portuguesa.

Mas essa pressão não se resume a uma mediatizada e manipulada ameaça de “sanções”. Ela tem sido constante e é agora renovada com a aprovação das recomendações específicas pelo Conselho Europeu que repetem as mesmas receitas e políticas que foram impostas a Portugal nos últimos anos. O que Portugal deve rejeitar é toda a teia de imposições e mecanismos de policiamento de que as “sanções” são uma expressão e corolário.

2 - O PCP recorda que a Assembleia da República já se pronunciou contra a possibilidade de aplicação de “sanções” a Portugal. Assim, o Governo português não só está mandando como tem todas as condições e obrigação de rejeitar firmemente esses ataques contra o povo e o País. Simultaneamente o PCP alerta para a possibilidade de manobras que, por via de matizações ou mesmo não aplicação das “sanções”, persigam o objectivo da “legitimação” e “naturalização” dos mecanismos a que estas estão associadas, tentando assim manter intactos os objetivos de domínio econômico e político do diretório de potências da União Europeia.

3 – Impõe-se assim que o Governo português defenda a soberania e os interesses nacionais e rejeite de forma firme e decidida a possibilidade de aplicação de sanções a Portugal, bem como de quaisquer outras imposições que procurem condicionar opções soberanas do Estado português, designadamente a coberto dos mecanismos do Pacto de Estabilidade, da Governação Econômica ou do Tratado Orçamental.

Avançar neste quadro, como fez o BE, com uma proposta de referendo “para tomar posição contra as sanções” significa admitir a possibilidade de capitulação perante a União Europeia, admitindo que por via de referendo podem ser legitimadas as sanções ou outras imposições europeias.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Pátria amada, BRASIL !

Bresser-Pereira, professor emérito da Fundação Getúlio Vargas e exemplo de dignidade cidadã, explica ao ser entrevistado em França (RFI 10/06/16): "de 1930 e 1980, que chamo de nação e desenvolviment, é o momento da revolução capitalista brasileira, com a figura marcante de Getúlio Vargas. Depois, de 1980 até 2014, temos o ciclo democracia e justiça social. Tivemos a transição democrática, que foi alcançada, e a justiça social, que foi modestamente melhorada.(...) A grande tentativa política dos governos Lula-Dilma tinha sido de fazer um pacto político e de classes, desenvolvimentista. Um pacto que juntasse os trabalhadores e a burocracia pública aos empresários industriais, aos empresários produtivos. Foi o que ocorreu na era de Getúlio Vargas(...)

"O capitalismo em qualquer país do mundo é : ou desenvolvimentista, ou liberal. Se for liberal, é um capitalismo dos rentistas e dos financistas, como vimos nos Estados Unidos e na França, a partir de 1980. Nós, com a chegada do Collor à presidência, teremos um ciclo que chamo de liberal-dependente. O governo Fernando Henrique foi neoliberal no plano econômico, mas não no plano social. E agora, neste novo governo que surgiu após este impeachment absolutamente inaceitável, vemos uma tentativa de desmontar o nosso Estado de bem estar social no Brasil.

O que eu vi, depois que saí do governo, é que a guinada do PSDB para a direita era muito forte. Acontecera não só na política econômica, de privatizações e liberalização, como na política externa, dependente dos Estados Unidos e de políticas ortodoxas.

As outras razões foram essencialmente que a direita, a classe capitalista rentista e financista brasileira, resolveu que não queria mais ser governada pelo PT. Eles nunca quiseram – o Brasil entrou em uma crise em 2002, por causa da eleição do Lula. Mas, depois, o Lula tentou de todas as maneiras fazer compromissos e acordos, que eram necessários, e a coisa foi indo. Mas depois a economia começou a derrapar fortemente, em 2012, e a taxa de lucro dos empresários industriais caiu de maneira dramática, para 5% e depois para 4% ao ano, muito abaixo da taxa de juros, nesse momento essa direita se uniu.

Os economistas passaram a fazer uma gritaria a respeito do “pibinho” e a respeito dos erros de política econômica que ela de fato cometeu, vários. Mas, para a surpresa dessa direita, a presidente foi reeleita, e num quadro muito curioso: nunca vi um presidente ser reeleito no Brasil sem nenhum apoio das classes dirigentes. Até no caso do Lula, havia algum apoio. Dessa vez, não havia nada, de forma que, em seguida, os derrotados imediatamente começaram a pedir o impeachment."(...)

Revendo o período em que o Brasil sofreu um golpe que durou 21 anos, as forças democráticas se aproximaram para encontrar solução. Para que o Brasil saisse da alternância de governos oligarcas e entrasse em um ciclo democrático com participação popular efetiva nas medidas governamentais, foi lançado um partido diretamente ligado aos trabalhadores sem a tutela ideológica explícita da esquerda tradicional. Não se propunha o socialismo e acreditava-se na aliança entre as classes com a superação do seu natural antagonismo.

Os programas políticos do PT, que começaram a ser debatidos em 1978, atraindo diferentes grupos que se opunham à ditadura militar, teve o mérito de criar um foco de ação parlamentar e institucional nos anos 80, para as mais diversas tendências que lutavam contra a opressão no país e pela abertura de caminhos a nível da participação política dos cidadãos em movimentos sociais, organizações sindicais e junto aos poderes locais.

Antecedentes históricos

A sociedade brasileira onde muitos exemplos de lutas populares ocorreram desde a fase colonial, era dominada pela letargia imposta por governantes vinculados às oligarquias que tinham o controle econômico, institucional e cultural, dispondo de um Estado criado segundo o modelo europeu, submisso às pressões comerciais e políticas exercidas por poderes extrangeiros.

Os exemplos heróicos de luta por uma pátria independente foram alvo de feroz repressão deixando gravadas com sangue na história do Brasil o grito de protesto contra a miséria em que viviam os trabalhadores e suas famílias, escravizados pelas famílias oligárquicas que tinham acesso aos benefícios sociais que asseguravam à elite a perpetuação no domínio da nação. As idéias libertárias eram também assumidas por elementos dessa camada privilegiada que entravam em contato com os movimentos independentistas, humanistas e das nascentes idéias democráticas que abalavam a Europa e penetravam nas novas colônias criadas na América do Norte e nas mais antigas, povoadas por ibéricos, no centro e no sul, do continente americano.

Assim, no início do século XX, chegaram os reflexos das formações partidárias e dos debates ideológicos acerca dos eventos históricos que sacudiram a Europa, como a Revolução Russa e o desenvolvimento industrial nos Estados Unidos que conferia àquela nação a liderança do sistema capitalista implantado em todo o mundo sob a ação colonizadora da Europa.

Importação de idéias e criação de movimentos nacionais

O Brasil refletia nos seus debates políticos as experiências transmitidas por outras realidades nacionais que procurava adaptar às suas condições. Surgiam movimentos comunistas e anarquistas que se confrontavam com a polícia repressora de uma sociedade predominante agrária sob o domínio da cultura religiosa implantada desde o início colonial, governos fracos que aceitavam a ação dos Estados Unidos em substituição ao poder da Inglaterra que criara as empresas básicas de energia elétrica e gás, e proibiam a localização de petróleo e outros minérios em todo o território nacional. A dependência era visível, apenas mudara o dono mais moderno que comandava fora da Europa a revolução industrial.

É o momento que Bresser-Pereira chama de "revolução capitalista" que traz um modelo moderno de organização econômica e social a abrir caminho para a integração dos trabalhadores no que se considera a "sociedade civil" com acesso às instituições do Estado. A criação de uma produção industrial, no entanto modesta, não absorvia cerca de dois terços da totalidade do povo trabalhador, que até aos anos 70, vivia como podia à margem de qualquer condição oferecida pelo Estado. Até 1958 o número de eleitores era de apenas 15 milhões, pois eram impedidos os analfabetos.

Quando nasce o PT em 1978,  apenas os antigos partidos da classe média que se identificavam com o pensamento democrático burguês atuavam institucionalmente através do MDB em oposição à ARENA onde se reuniam as forças de direita. Partidos Comunistas e demais tendências de esquerda sobreviviam na ilegalidade sob forte perseguição policial com muita tortura e assassinatos.

As tendências formadas em função das posições teóricas que se confrontavam na União Soviética ou em paises onde os partidos comunistas eram legalizados, reproduziam-se no Brasil dividindo a esquerda em grupos dentro ou fora dos Partidos Comunistas ilegais. Lincoln Secco na "História do PT" (Ateliê Editorial 2011) refere a dificuldade na organização do PT que atraiu militantes com as mais variadas tendências que projetavam as suas idéias relativas às experiências em outras sociedades, e punham em causa os partidos comunistas que também reproduziam orientações vindas de revoluções ou movimentos de libertação estrangeiros.

Na verdade, a chamada "revolução capitalista" que cria o sistema econômico e social ligado à indústria e os serviços burocráticos privados, assim como os do Estado, seguia modelos vindos do exterior. A dinâmica geradora de contradições internas criava um proletariado consciente que ainda era inexpressivo em relação à população trabalhadora no Brasil. A classe empresarial formava-se pelo modelo europeu ou norte-americano. Todos tinham fraco conhecimento e inserção na realidade brasileira, apesar de muito estudarem as teorias e tentarem adaptá-las. Para mais, a economia nacional era dependente do sistema capitalista estruturado nos países desenvolvidos que viveram a evolução histórica da fase colonialista, de controle do comercio internacional e do sistema financeiro, no qual o Brasil participava como cliente.

A esquerda brasileira, dos partidos comunistas ilegalizados, dos grupos dissidentes, somados aos partidos democráticos e às bases da Igreja Católica, que acolhiam os militantes envolvidos na oposição direta á ditadura, mergulharam na realidade do Brasil e entraram em contacto com aqueles dois terço do povo que vivia marginalizado. Nesta área da militância política, com as suas diferentes "tendências" é que surgiu o processo de transformação no conhecimento e na ligação com o Brasil profundo, a "Pátria amada" e a sua gente (que é povo e não podia votar por ser analfabeta), que se aproximou do PT que prometia romper com as tradições de clientelismo da política oligárquica e de submissão ao modelo socio-econômico externo.

Com o fim da ditadura em 1988 fez-se uma nova Constituição que garantiu alguns direitos aos cidadãos - como o de votar - e abriu um caminho jurídico para estabelecer melhores garantias para Governos democráticos aperfeiçoarem as instituições do Estado. Foi um começo para enfrentar os problemas que a história apresenta ao país, ao continente Latino Americano e ao mundo internacional com o qual o Brasil se relaciona. A partir de então os políticos democratas entenderam que deveriam lutar por um governo que desenvolvesse a produção nacional e assumisse a responsabilidade pela economia e a sociedade capaz de melhorar as condições do povo, principalmente dos mais abandonados.

Apesar das várias diferenças teóricas que existiam, o PT sob a liderança de Lula - operário e grande conhecedor da miséria no Brasil, - conseguiu atrair além do povo, também empresários que queriam desenvolver a produção nacional e pessoas que acreditaram que o Brasil poderia ser independente e caminhar democraticamente com o trabalho de todos os brasileiros. A vitória alcançada em 2002 pelo povo marcou uma nova fase na vida nacional. A surpresa e a admiração mundial pela formação de um Governo dirigido por um trabalhador metalúrgico com um programa democrático permitiu que muito fosse realizado com êxito no primeiro mandato.

O peso do eleitorado com a participação de maior parte do povo, assustou os antigos dirigentes que se consideravam democráticos e sempre estiveram no poder controlado pelas oligarquias. O apoio dado pelos empresarios assustou os poderes externos que sempre viram naqueles uma clientela passiva. O historiador Nelson Werneck Sodré, no livro "Quem é o povo no Brasil"(Ed.Civilização Brasileira, 1962) disse que "assim como no campo internacional o imperialismo preferiria conflagar o mundo, com a guerra atômica, a ceder as suas posições, no campo nacional aquelas forças preferem conflagar o País a ver derrotados os seus interesses".

Parecia advinhar o que se tramaria contra o Governo PT ao longo de tres mandatos, durante os quais a oposição representada pelo PSDB, conquistando antigos pretensos democratas e comprando os mais renitentes, minou os trabalhos do Governo utilizando meios inexcrupulosos, mentiras e falsas denúncias, e pressionou para que fosse entregue o controle do sistema econômico a especialistas neo-liberais subordinados ao imperialismo como preço para cederem em algumas formas de apoio para combater a fome de mais de 50 milhões de trabalhadores brasileiros, construir infra-estruturas e moradias para poderem usufruir da condição de cidadãos.

Além de controlar o sistema financeiro no Estado, a direita levou a mídia a crescer como um quarto poder nacional, sempre ao serviço do imperialismo. Aos poucos agravaram os problemas no setor da Previdência Social, da Saúde, da Educação, sob pressão de privados com empresas concorrentes. Aos poucos verificava-se que esta oposição dentro do Estado alimentava ambições pessoais contrárias á solidariedade social que constituia o fundamento da formação do PT.

Em 2014 uniram-se os direitistas e traidores para tentar vencer a candidata Dilma nas eleições e sofreram a maior surpresa de sempre ao ver que 54 milhões de brasileiros, vindos do povo que passou a poder se alimentar e ter seus filhos na escola, e dos lutadores que continuam fiéis ao Brasil que constroem, elegeram a Presidente Dilma na primeira volta. Quase 4 vezes o total de eleitores que havia em 1958! Foi a grandiosa participação da população mais pobre, a que antes ficava fora da vida política nacional liderada pelos militantes de sempre, com as suas diferentes "tendências" mas identificados por um conceito únido de democracia e de pátria.

Volto a utilizar as expressões de Bresser-Pereira na entrevista dada na França, à RFI, dia 10/06/16: "Mas, para a surpresa dessa direita, a presidente foi reeleita, e num quadro muito curioso: nunca vi um presidente ser reeleito no Brasil sem nenhum apoio das classes dirigentes. Até no caso do Lula, havia algum apoio. Dessa vez, não havia nada, de forma que, em seguida, os derrotados imediatamente começaram a pedir o impeachment."

O povo brasileiro viveu um processo revolucionário que o Governo não pode refletir plenamente, para além da implantação de um programa de atendimento democrático no Estado social, por ter sucumbido às alianças "contra natura" com forças reacionárias. A liderança desse povo participante seguirá com a força política que for capaz de gerir as multiplas tendências, teóricas e práticas que povoam a cultura nacional brasileira, mantendo acima o farol que ilumina a "pátria amada" e seu povo.


Zillah Branco