terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Os donos do poder constroem a depressão



Os laboratórios farmacêuticos transnacionais empurram a medicina moderna para desenvolver conceitos que classificam as doenças mais frequentes na sociedade moderna desviando a atenção da construção política de um imenso vírus, pelos donos do poder mundial, para liquidar a humanidade e a natureza no planeta. O problema não está apenas no âmbito da medicina, a qual é usada como um dos meios de comunicação social, está em todos os que detêm alguma forma de poder e se tornam coniventes com a missão destruidora negando-se a fazer a denúncia das origens dos males e a buscar o antídoto. Trata-se de uma questão de consciência da realidade e do compromisso ético de combater a catástrofe.

Os casos mais graves de terrorismo político, hoje ocupando a chefia dos Estados Unidos, através de Trump (que, diante das trajédias escolares que aumentam, recomenda que os professores saibam usar armas e ensinar aos alunos) e de Israel, por Netanyahu (que persegue os palestinianos e ameaça outros povos árabes, impedidos de viver em paz), não recebem o tratamento psiquiátrico necessário e dirigem poderosas máquinas militares e financeiras em nome dos seus povos a caminho do desastre planetário com as ameaças de guerra atômica. Os seus respectivos povos tornam-se coniventes com os crimes na medida em que não os substituem no governo nacional. Também a ONU, ao se manter calada a espera de "apoios legais" diante do risco imposto à humanidade, vê-se impotente e conivente com a ameaça de terrorismo planetário que paira sobre todos.

Com a imagem das invasões externas trazidas pela mídia internacional, do terrorismo mercenário, da mortandade de civis, de crianças órfãs sujeitas ao tráfico de escravos, de jovens estupradas, de legiões de famélicos expulsos de suas terras, da rejeição dos países ricos aos imigrantes de diferentes etnias, das prisões superlotadas por quem roubou para alimentar a família, das mães com bebês ao colo ou grávidas atiradas em cárceres imundos, das crianças que crescem nas ruas tendo por heróis os bandidos espertos e cruéis, e os abusos de poder contra os mais fracos, ou a despudorada corrupção que compra políticos venais e os elege forjando uma aparente democracia, qualquer pessoa que tenha um dia conhecido a esperança de viver em paz está sujeito a entrar em depressão. Mas há níveis de depressão a combater antes de se tornar uma doença: a decepção, a tristeza, a frustração, a raiva, a impotência, o desânimo, a alienação. Alguns recorrem às utopias, aguardam "milagres", outros confiam nas reformulações das leis deixando a responsabilidade dos sofrimentos alheios a prováveis erros processuais cometidos por outros. Sendo verdadeiramente honesto consigo mesmo e com a humanidade, ainda estará em tempo de redefinir a sua capacidade de sentir e fazer e encontrar o caminho do trabalho e da luta.

O jornal espanhol, "El país", divulgou as palavras do secretário-geral da ONU, António Guterres, recolhidas na cerimônia em que a Universidade de Lisboa fez a entrega do título de "doutor honoris causa" ao ex-Primeiro Ministro de Portugal que hoje ocupa o cargo de Secretário Geral da ONU.

António Guterrez "defendeu a criação de regras globais para minimizar o impacto da ciberguerra sobre os civis."

“Já existem episódios de guerra cibernética entre Estados. E o pior é que não há um esquema de regulamentação para esse tipo de guerra, não está claro se aí se aplica a Convenção de Genebra ou se o Direito Internacional pode ser aplicado nesses casos”, reconheceu o principal dirigente da ONU mostrando-se preocupado com os novos desafios do mundo, como a mudança climática e a revolução tecnológica. E também com os novos sistemas de fazer guerras no mundo.

“Ao contrário das grandes batalhas do passado, que se iniciaram com um bombardeio de artilharia ou aéreo, a próxima guerra começará com um ciberataque maciço para destruir a capacidade militar, sobretudo do comando, do controle e da comunicação, com a finalidade de paralisar as tropas e a infraestrutura básica, como as redes elétricas”, disse,  “para evitar riscos reais”. “Estamos totalmente desprotegidos de mecanismos regulatórios que garantam que esse novo tipo de guerra obedeça àquele progressivo desdobramento de leis de guerra, que garanta um caráter mais humano naquilo que é sempre uma tragédia de proporções extraordinariamente dramáticas”, afirmou.

Guterres ofereceu a ONU como mediadora de Governos e empresas, cientistas e universidades para estabelecer protocolos de modo que o uso da web seja feito com benefícios para a humanidade. “Nós todos temos de nos unir, não só os Estados, para garantir que a Internet seja um bem para a humanidade. As normas tradicionais, por intermédio de Estados ou convenções internacionais, não estão hoje adaptadas à nova realidade porque são lentas.”

Tais pronunciamentos, feitos por uma personalidade que está na cúpula visível do poder político mundial, define um quadro depressivo grave que não se resolve com medicamentos tranquilizadores. Tem o mérito de associar Guterres ao comum dos mortais que, por consciência política já há anos vem denunciando, na luta  pelos direitos humanos e sociais sustentada pela esquerda internacional militante, a ação destruidora erguida meticulosamente pelo domínio imperialista contra os povos e a humanidade em geral.

Mas, é preciso aguardar que a lucidez do alto dignitário da ONU seja somada à coragem de reconhecer que os que lutam por uma sociedade realmente justa o antecederam na descoberta do lado certo do combate, à esquerda. E foram duramente perseguidos e desprezados por defenderem a classe trabalhadora e condenarem a elite exploradora que ocupa o poder onde ele se situa. Esta é a função dos que ocupam um poder nacional ou internacional.

Esta mudança na percepção da raiz dos crimes na organização do poder em cada Estado e no Mundo, que o sistema capitalista define pelo controle das finanças e propriedades econômicas, decorre da crise sistêmica que se tornou avassaladora nos últimos anos, com a sucessão de invasões militares com o falso pretexto da "defesa dos princípios democráticos" ou de "pacificação de grupos religiosos ou etnias" que se confrontam em um território em que convivem forçados historicamente por pressões colonialistas seculares.

A mídia só recentemente passou a dar alguma divulgação às comprovadas formas de apoio, por Governos de nações ricas, aos grupos terroristas que agem na promoção de conflitos internos nos países cobiçados, destacando-se a criação, treinamento e armamento do grupo criminoso intitulado Estado Islâmico (nome visivelmente criado com a intenção de condenar os adeptos do islamismo). Durante anos a mídia ocultou a raiz da propaganda imperialista contra nações do Oriente Médio e norte da África que foram invadidas por forças da NATO, que era a existência de riquezas minerais como o petróleo e outras, ou no caso de antigas repúblicas soviéticas onde o interesse maior é o domínio de áreas geopolíticas. Curiosamente foram divulgadas informações políticas e militares a partir de jovens agentes da CIA que, tal como Guterres, despertaram para a compreensão do perigo planetário que representa o poder imperial, mas que agiram corajosamente e com perda da liberdade pessoal, utilizando a internet para se sobreporem ao bloqueio midiático e informarem a humanidade sobre a perversidade da polícia do Mundo.

São mudanças pontuais, de profundo valor ético e político, que comprovam a existência das leis dialéticas e, exigem cada vez maior esclarecimento científico para a formação de uma consciência da realidade social que condiciona a vida no planeta. Este caminho encontrou um grande impulso nas transformações processadas no Vaticano que hoje encontrou no Papa Francisco um elemento capaz de corroborar com o valor da Teologia da Libertação que germinara anteriormente na Igreja Católica mas encontrava fortes obstáculos internos à sua difusão.

Que cada um, ao assumir uma consciência da realidade em que vivemos (e em que muitos milhões de inocentes estão morrendo), desenvolva com coragem e objetividade as suas capacidades de defesa da sociedade humana, seja animado por crenças religiosas, solidariedade fraterna ou convicções científicas.

A maioria das formas de depressão (sentidas como frustração) não precisam ser dopadas como processo de cura alienante, não são uma doença para quem pode agir e ainda tem força para pensar com respeito no ser humano e no benefício da fraternidade em sua defesa. Muitas formas de aparente "depressão" podem ser superadas com a participação em movimentos sociais que agem contra as raízes dos problemas políticos e sociais que hoje vivemos, deixando de lado as "leis engessadas" e os "medos" que, pela sua imobilidade, impedem acções dinâmicas que correspondem ao momento histórico do processo de vida.

Zillah Branco


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Utopias tecnológicas do capitalismo

A situação mundial parece ter chegado a um nível caótico de organização das Nações, do poder financeiro e militar, de destruição da natureza, de controle do crime organizado, de conflitos étnicos ou religiosos, de sobrevivência para os que foram sendo empurrados para as margens das sociedades onde nunca existiu um Estado Social. 


Vemos na mídia surgirem matérias sobre o futuro da humanidade na dependência das tecnologias, espacial, cibernética, etc. Sempre na dependência de uma elite poderosa que manipula a história dos povos.

Regendo a ciência e a técnica, as elites financeiras transnacionais almejam um Novo Mundo a partir dos robôs que substituirão a "classe trabalhadora" no futuro (sem sindicatos, sem reivindicações, sem famílias, sem doenças, sem habitações, sem escolas, sem salários). A quem interessa este panorama? Aos grandes empresários e à elite financeira investidora.

E o que fazer dos atuais humanos que oscilam entre a classe média baixa, o operariado e o lumpem desempregado e esfomeado? Juntá-los aos milhões que emigraram dos seus países e hoje enfrentam o repúdio de chefes de Estado (também eles descendentes dos antigos emigrantes da Europa ou do Oriente Médio em séculos passados) para povoarem outras paragens. Multiplicam-se as utopias de cientistas "salvadores da humanidade" ou, talvez, da elite que restar com espaço para as suas farras, sem pobres à vista, com lindos robôzinhos trabalhando calados e sem descanso. Talvez assim consigam evitar a crise final do sistema capitalista (pensam os mandantes).

Tais ideias estimulam a mídia na sua função seguidista de informação e formação social ao serviço dos defensores do sistema capitalista "sem povo" que tentam arrumar as sociedades com prédios modernos, equipamentos eletrônicos e chefes de equipe treinados na submissão calada. Não será necessário fazer eleições nem gastar o bestunto inventando aparências democráticas. Mas, um detalhe: Quem serão os consumidores de tal sociedade terráquea?

Somos sete biliões de indesejados pela elite soberana do mundo capitalista. A realidade que nos cerca é outra e outro é o ponto de vista dessa maioria de humanos. Mais fácil seria exportar a minoria elitista com as suas companhias robotizadas e seus hábitos defensivos de classe mandante e darmos início a uma boa faxina social com a justa distribuição da renda.

É ilusória a ideia de criar-se um Estado Social para os desempregados substituídos por robôs e desrespeitoso para qualquer ser humano querer extinguir a possibilidade de trabalhar que significa a única forma positiva de inserção na dinâmica produtiva da vida social. Marx já havia sublinhado que "o trabalho é uma necessidade de vida e de formação social do ser humano". Que a alienação fique para os robôs e seus donos, e que emigrem para Marte ou outro planeta mais distante.


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Leis Engessadas



Samuel Johson em 1801, antes da "Lei da União" entrar em vigor para permitir que a Irlanda fosse admitida no Império Britânico, aconselhou cavalheirescamente a um irlandês: "Não se una a nós...( )... Só nos uniremos a vós para vos roubar".

Esta foi uma medida habitual, tomada pelas nações colonizadoras para impor a sua cultura ao povo dominado, tornando os seus elementos de identidade - a língua e as leis - obrigatórias e prioritárias. Gandhi, na luta pacífica pela independência da India, propôs a desobediência civil à Lei que proibia a produção nacional do sal indiano para que fosse importado o do Império Britânico.

A história dos Supremos Tribunais é muito esclarecedora do poder das leis usado como armas de dominação. Assim foi a do Tribunal da Inquisição, no final da Idade Média, que condenou à fogueira, entre tantos outros que contestaram os dogmas (leis engessadas) da Igreja, a Giordano Bruno, em 1600, quem dava um grande impulso à ciência universal minando o poder retrógrado da religião. Esta eliminação produziu um atraso, em anos e séculos, ao desenvolvimento da ciência retomada por Galileu, Kepler, Espinoza, Bacon, Descartes, Newton, Kant e uma plêiade de filósofos, físicos e matemáticos que desvendaram o conhecimento propiciando a evolução da humanidade. Giordano Bruno terá dito ao juiz que o condenou à morte: "Certamente você tem agora mais medo que eu!" E a história provou que sim (se é que o juiz tinha consciência da traição à Justiça que estava a ser cometida).

A Justiça hoje paira como uma exigência suprema, mas os elementos de que se compõe são as leis, cujas interpretações, feitas no interessa da elite, abrem caminhos diversificados e dependentes de condições alheias ao princípio inicial. Vemos hoje, em muitos paises, que as discussões jurídicas se eternizam anos a fio, são esquecidas pelo povo e os processos empoeiram-se nas gavetas sob o acúmulo de milhões de novos casos, até prescreverem. Ao contrário, um furto de alimento por alguém desempregado e pobre enfrenta uma lei férrea que não admite interpretações porque contraria princípios éticos ou leis morais eternas.

O sistema capitalista, à medida em que se torna dominante e imperial, defende os seus interesses com a mentira repetida várias vezes até parecer verdade. A mídia multiplica a sua difusão acrescentando dados ilusórios que criam um contexto aparentemente verídico. Isto permite que um juiz de primeira instância faça a condenação sem provas concludentes de um personagem "a ser abatido politicamente". O processo segue o seu curso - que se supõe imparcial, de investigação dos fatos para comprovar a condenação com Justiça - até chegar ao Supremo Tribunal que enfrenta o dilema de desacreditar o sistema judicial vigente e liberar o personagem a ser abatido por contrariar os interesses da elite dominante. Nessa altura a Justiça fecha os olhos e a boca.

Um antigo filme italiano de Pepino de Felipe apresentava com grande realismo "Um dia na vida de um juiz". Ele passara o dia tendo de condenar: uma velha prostituta por atentado à moral, um idoso famélico que matara o gato do vizinho para comer, e outros casos derivados da miséria e da incapacidade de arranjar emprego ou socorro social. No fim do dia o juiz volta ao seu gabinete onde havia um busto de Cícero e uma frase lapidar sobre a Justiça gravada a ouro no mármore. O juiz, transtornado pelas condenações historicamente "injustas" que pronunciou, brada a Cícero: "Você andava de biga, tinha escravos, nada entende da Justiça em um mundo que se pretende democrático!

Zillah Branco

domingo, 28 de janeiro de 2018

Lula é o expoente da eleição presidencial

Zillah Branco *

Esta é a conclusão do "julgamento" do, ex e sempre, Presidente dos brasileiros quando houver liberdade de escolha popular no Brasil. Lamento pelos dignos juristas que, no mundo inteiro no dia 23/01/18, assistiram à tragédia que enterrou o sistema judicial brasileiro vitimado por um golpe meticuloso que minou o esqueleto do Estado além de colocar farsantes nas funções políticas dominantes no governo.


"Lula voltará!", é o brado mundial das pessoas que lutam continuamente pela democracia e o respeito pelos direitos e a dignidade humanas. É um grito que vem da alma, acompanhado de lágrimas pelo sofrimento de um símbolo da soberania nacional que deu e seguirá dando a sua vida pela libertação do Brasil, que continuará estimulando a luta em defesa dos oprimidos em todo o mundo. É o eco que a história repete através dos 500 anos de colonização e escravidão que forja consciências na população lutadora produzindo novos heróis para a defesa da unidade do povo, da nação, da América Latina. Assisti ao mesmo fenomeno no Chile, de Allende, e no Portugal de Abril, de Vasco Gonçalves. Tal como no Brasil surgiram os arautos da "ameaça de guerra civil", a direita contratou terroristas vestidos de povo e promoveu desordens, o medo da burguesia à verdadeira democracia alastrou-se com as exibições da falsa origem dos conflitos.

O sistema está em crise institucional enquanto o dinheiro voa alimentando um mercado de quinquilharias e drogas para não financiar a saúde, a educação, a previdência social, a ciência, o ambiente. Trump, Presidente dos Estados Unidos, é criticado pelos seus concidadãos por exibir a imagem da mediocridade e da desonestidade nos quatro cantos do mundo. E ele o faz acintosamente, por saber que é a imagem que corresponde ao quadro político sustentado pelo capital.

Antes usavam as armas e desgastaram os militares que se prestavam à triste figura de impor ditaduras. Agora usam as leis, eternamente interpretadas pela elite, e corromperam as instituições jurídicas cujas carreiras se perpetuam como as dos antigos monarcas. Resta a dignidade de cada um, e a coragem de contestar. Começamos do zero neste mundo político de escombros. Daí a vitória de Lula, que semeou consciências, que despertou associações de luta popular para onde convergem intelectuais honrados, gente que recusa a destruição das conquistas institucionais em séculos de luta.

A direita conservadora vai-se reduzindo e buscando vestir-se de uma democracia "menos agreste" para os seus interesses de elite, uma democracia que se case com os seus privilégios e as suas idiosincrazias culturais. Reconhece que o povo sofre e multiplica as "sopas dos pobres" e as campanhas "caridosas". Toca o sino da matriz quando os acidentes climáticos desalojam populações, queimam propriedades, provocam mortes. São os primeiros a clamarem pela salvação e os últimos a enfrentarem as responsabilidades por terem desprotegido as florestas onde cultivam eucaliptos para suas empresas de celulose ou por terem deixado a limpeza das suas terras por conta dos velhotes que são uma espécie de zeladores sem salário. São os arautos da provável "guerra civil" se houver a vitória popular.

Ilustres intelectuais chamam a atenção para o "perigo" de termos o povo revoltado. Alguns chegam a louvar o sistema judicial que "cumpriu a sua função" condenando, sem provas, o herói nacional! Preferem culpabilizar alguma "esquerda inexperiente" para fazer valer a cautela e o caldo de galinha que aquece a burguesia e alguns cérebros bem pagos que até leram os clássicos do pensamento revolucionário. E culpam o país pela violência, o racismo e o sexismo, como uma característica congênita, sem revelar que tais conflitos sempre foram criados para manter a elite no poder em todo o mundo.

O medo ao "povo que pensa e exige" tira o sono a muita gente que passa a vida jogando dados com hipóteses políticas alternativas. Não percebem que o mundo mudou, que Trump faz papel de idiota para receber financiamentos de última hora, que Rajoy assume um poder fascista para impedir que os que lutam pela independência possam tê-la na Cataluña, que a UE tenta construir sua base de apoio longe do tradicional Império, que a consciência e a ação das massas é imparável.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

O falso desenvolvimento sem Direitos Humanos



O problema principal do Brasil é ter muitas riquezas naturais que despertam a cobiça dos bandidos e dos políticos menos dotados de inteligência natural e de sensibilidade humana. Desde a colonização o "pau-brasil", madeira nobre, atraiu a atenção e a cobiça de vários países europeus que concorreram com Portugal. Os Estados Unidos, com o falso pretexto de defenderem a independência brasileira ameaçada pela neocolonização promovida pela Inglaterra na primeira metade do século 20, assumiram a dinâmica da produção de energia elétrica e gás com empresas privadas e levaram o Estado a proibir a investigação da existência de petróleo no território nacional para que não se tornasse concorrente na América.

Ha 500 anos o Brasil atrai cobiças de todos os lados do planeta que investem na extração das riquesas naturais sem que sejam criadas empresas estatais (Getúlio criou-as e matou-se para não continuar uma luta contra o império norte-americano). O produto bruto deixa a população marginalizada, sem a sua capacitação para a indústria transformadora. A elite dominante no Brasil, que serve de intermediária para a invasão estrangeira, promove alguma modernização na superfície social para o seu próprio conforto, e da sua classe, mas impede que a grande massa de trabalhadores, à quem interessa afirmar a soberania nacional, usufrua dos benefícios da modernização da pátria.

Para rompermos este domínio de sucessivos "donos" do Brasil visto como um "depósito de riquezas naturais", urge reconhecer e defender que a maior riqueza é o povo, que não pode ser traído e que garante, com o seu trabalho e talento, o desenvolvimento econômico da nação com soberania.

Queremos um governo capaz de impor como meta do desenvolvimento nacional a elevação do nível de vida e de formação dos mais de duzentos milhões de brasileiros para usufruirem do patrimônio existente, sem cair na atração histérica do "mercado" com o seu modelo de existência dominado por futilidades e venenos.

Queremos governantes capazes de impor o respeito pela soberania da pátria brasileira, e de gerir o aproveitamento das nossas riquezas em proveito dos cidadãos que constituem a força de trabalho e o talento para transformar os produtos naturais em elementos de dinamização da ciência, da técnica e da indústria nacionais.

Quando pensarmos nos Direitos Humanos antes de almejar o mercado (chamado livre) que impõe o guilhão das elites financeiras, estaremos em condições de abrir o caminho para o real desenvolvimento das forças produtivas e o aproveitamento dos talentos brasileiros na consolidação da soberania brasileira.

O exemplo da vitória popular existe em Cuba, dentro da América Latina, que tem em comum com os demais países, como o Brasil, a herança colonial, a escravidão de africanos e indígenas, o subdesenvolvimento que mantém o povo asfixiado para favorecer elites exploradoras, a cobiça do estrangeiro invasor e as oligarquias subservientes.

A pequena ilha de Cuba, tornada importante nação, enfrentou a luta pelo desenvolvimento das suas forças produtivas e, apesar do isolamento imposto pelos Estados Unidos e paises seus subordinados durante quase 60 anos, alcançou índices de desenvolvimento socioeconômicos que faltam às nações mais ricas: menor mortalidade infantil, extinguiu o analfabetismo, criou o atendimento gratúito à saúde, a formação escolar universal, a administração a partir dos bairros com participação cidadã em todos os níveis até o Conselho de Estado. A formação de milhares de médicos permitiu diversificar  em institutos especializados uma medicina socialista que supera os limites da comercialização capitalista. Daí surgem investigações científicas que beneficiam a população corrigindo hábitos alimentares inadequados e dificuldades na formação de crianças especiais, alem de oferecer solidariedade a outros povos vitimados por catástrofes.

O investimento na formação do povo abre caminho para a superação das raizes do atraso, que condena milhões de pessoas à miséria, e para a construção do desenvolvimento econômico nacional. Da investigação científica, Cuba criou o caminho para a produção no campo da biotecnologia, fundamental para modernizar a agricultura e a extração de petróleo assim como o aproveitamento de outros minerais. E assim, a pequena ilha consolidou a semente da sua resistência aos sucessivos atos de bandidagem do império do capital.

Nenhum país no mundo pode afirmar, como Cuba, que no seu território não existe nem uma criança abandonada nas ruas, nenhuma criança esfomeada, nenhuma pessoa doente sem tratamento, nenhum idoso sem apoio social, nenhum cidadão sem emprego ou pensão de sobrevivência. Ali não ocorrem os crimes de tráfico de pessoas, ou de órgãos, nem mesmo o comércio sexual que nos demais países existe como condição de trabalho e de vida. É um exemplo da maior defesa dos Direitos Humanos que abre caminho para o desenvolvimento econômico e cultural.

O panorama que o nosso rico Brasil oferece com os altíssimos índices de assassinatos de jovens, de mulheres estrupadas, de crianças comercializadas, de crime organizado, de roubo de terras dos indígenas e dos quilombos herdeiros da escravidão, da exploração e martírio das famílias camponesas, da invasão estrangeira das terras produtivas e florestas nacionais, da promoção das drogas e perversões através dos meios de informação social, da privatização do ensino e da saúde, da transformação das cidades em campo de guerra sem segurança, de uma elite política corrompida para manter o povo na miséria, impõe a defesa dos Direitos Humanos para além da mera caridade pessoal que mal corrige os efeitos locais dos crimes. A única defesa eficaz dos Direitos Humanos é o combate às suas causas que se enraizam na miséria em que os ricos mantêm a maioria do povo para garantirem os seus privilégios de classe.


Zillah Branco

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A democracia e o ornitorrinco



É preciso clarificar o conceito de "democracia" dentro do sistema capitalista. Para melhor compreender o que significa, em termos sociais e econômicos a democracia capitalista reconhece os direitos humanos e garante os privilégios da classe dominante. Corresponde, no reino animal, ao estranho "ornitorrinco" que existe na Austrália e na Tasmânia. Tem uma pitada de cada interesse, por mais contraditórios que sejam.


O bichinho tem pelo, bico de pato, bota ovo e amamenta sem ter mamilos, chega a viver 17 anos se o protegerem. Assim é a social-democracia. O povo não pode tirar o olho de cima, para evitar que desapareça.

No planeta em que vivemos, por enquanto existem experiências na construção do sistema socialista - Cuba, China, Vietnam, Coreia do Norte e Laos - que conseguiram desenvolver os países com maior igualdade de direitos sociais para todos os cidadãos, sempre condicionados pelo capitalismo no relacionamento externo. E convivem com os "ornitorrincos" como podem, improvisando soluções que permitem o equilíbrio, sempre com otimismo sem deixar ser realistas.

A elite imperialista que controla o sistema através do capital e das ações militares prossegue a sua política de bloqueios e de intimidação e, como simboliza o presidente Trump, ameaça com "fúria e fogo" para travar as iniciativas de solidariedade e de apoio às nações mais frágeis. No entanto, as crescentes ameaças revelam uma crise sem precedentes da política financeira que está centralizada nos bancos, desestabilizam os países conservadores do capitalismo social-democrata onde a conscientização dos trabalhadores se manifesta contra os privilégios impeditivos da verdadeira igualdade de direitos. Surgem formas progressistas que buscam atender democraticamente às necessidades populares ao contrário das exigências das elites enfraquecendo-as apesar das ameaças.

Com o fim do bloqueio contra Cuba, declarado "inútil" pelo ex-presidente Obama, 75 paises entraram em contacto com a Ilha revolucionária para estabelecer laços comerciais e de troca de conhecimentos. Nas áreas científicas e técnicas, no inicio de 2018, a União Europeia assinou em Cuba um protocolo de parceria. Isto demonstra que existem características multipolares dentro do sistema capitalista que pretendem um convívio fraterno com as experiências socialistas.

As nações mais pobres querem aprender como Cuba superou o subdesenvolvimento herdado de uma colonização expoliadora que foi a causadora das suas próprias misérias. Mesmo as nações mais ricas do continente Europeu precisam conhecer o caminho que Cuba seguiu para levar toda a população a frequentar escolas formando a mão de obra necessária para desenvolver a educação e mais a produção agrícola e industrial em todo o país, e formar os quadros universitários que assumiram as funções no Estado que alcançou um nível de organização invejável. Têm de reconhecer, como demonstram os estudos da ONU, que Cuba está à frente de nações ricas na defesa do seu povo, pondo fim à fome, ao analfabetismo, impulsionando a criatividade da sua gente na produção industrial e no aproveitamento dos produtos naturais para a alimentação, na elevação do nível da saúde e da formação cultural, na garantia dos recursos de habitação e emprego para todos.

Enquanto os defensores do capital multiplicam as imagens de riqueza com alta tecnologia, muitas luzes e som alto, as pessoas normais se dão conta de que lhes falta sossego, tranquilidade para apreciar a beleza natural e a arte. Começam a dar atenção ao ser humano, inclusive ele próprio, e decidem conhecer a simplicidade cubana onde encontram um produto, escasso no "mundo desenvolvido", que é a fraternidade e a disposição de lutar pela pátri e por uma democracia sem contradições de classe.

O território brasileiro é bastante rico em terras, minérios, gado, além de ter mão de obra competente para transformar os produtos naturais em industriais de boa qualidade devido aos conhecimentos tecnológicos e científicos que concorrem com os dos países mais desenvolvidos. E, não se pode esquecer, este patrimônio pertence a todos os brasileiros, pobres e ricos. O problema nacional não está na capacidade de desenvolvimento mas sim na cobiça de alguns que trabalham no sentido da desnacionalização das empresas e da associação com estrangeiros ligados ao capital financeiro e às multinacionais para impor o agro-negócio que polui o mundo com tóxicos e escravisa os trabalhadores sem qualquer princípio humanista.

No sentido de se definir um projeto de desenvolvimento será necessário superar a dinâmica existente que aponta para uma "regressão colonial", como diz o professor Luiz Bernardo Pericás (artigo "Desnacionalização e Violência", Jan/2018, blog Boitempo).

"Não há nenhum projeto para levar o Brasil a superar seus dilemas históricos e fazer avançar um processo de desenvolvimento autônomo e soberano, com a elevação material, intelectual e cultural da maior parte da população. Pelo contrário, temos uma dinâmica econômica baseada na desindustrialização, na desnacionalização e na privatização, no fim dos assentamentos rurais, na reconstrução da estrutura fundiária, na desestatização e no aumento dos oligopólios e transnacionais em nosso território".