domingo, 15 de abril de 2018

A quem serve a guerra?

A quem serve a Guerra?


A guerra sempre foi o maior recurso dos poderosos para extender os seus domínios apropriando-se das terras para produção (e da mão de obra escrava já existente), de situações geo-políticas para crescimento de alianças com vizinhos mais frágeis, e como mercado para a sua produção de armas e destruição de camadas da população pobre transformadas em soldados, ou seja, "bucha para canhão".

A demoniaca "trindade" hoje composta por Trump, May e Macron, deram início a uma agressão à Síria, na madrugada de 14/04/18, como prenúncio da Terceira Guerra Mundial. Cada chefe de Estado age como um robô de um comando superior e papagueia uma estafada justificação de "eliminação de armas químicas" para o monstruoso crime contra a Paz, igual à "comprovada mentira" utilizada para invadir e arrazar o Iraque em 2003. Os agressores não tiveram pejo em repetir uma farsa, que mereceu a denúncia internacional contra a invenção de um pretexto inexistente.

Para o sistema capitalista globalizado a guerra é uma necessidade para: reafirmar o seu poder no planeta, vender armas e consumir material bélico produzido por robôs, apropriar-se da situação geo-política no Oriente Médio, assenhorear-se das reservas de petróleo da Síria, reduzir drásticamente a população civil que já vinha sendo assassinada pelos grupos terroristas financiados pelos Estados Unidos e Israel, e destruir um país que se destacou, entre os demais territórios árabes, por ultrapassar as limitações medievais da cultura religiosa que existe como pressão imposta por famílias dominantes nos países vizinhos, e proporcionar um desenvolvimento moderno ao nível das nações ricas ocidentais.

Para a elite do sistema capitalista que manobra as nações ocidentais mais desenvolvidas foi necessário: levar ao poder governamental pessoas como Trump - visivelmente um boneco de ventríloquo, irresponsável e desprovido de qualidades humanas - e Macron (versão elitista europeia de robô moderninho), e promover o Brexit que deixou todo o Império Britânico submetido ao poder comercial e político dos EU. Foi o primeiro passo para dominar a União Européia e a própria ONU, que ainda mantêm uma ponte social-democrata anti-fascista com a esquerda e as populações que se consideram apolíticas no esforço por construir um mundo onde a paz e o trabalho progressista garantam o desenvolvimento positivo da humanidade.

Com a divulgação das mentiras e das ameaças de catástrofe de uma Terceira Guerra Mundial através da mídia globalizada, a elite comandante pressiona os responsáveis governamentais das nações dependentes da UE para, como nas duas Grandes Guerras anteriores, aderirem à composição "aliada" (agora integrando a Alemanha), na nova "guerra fria" contra Rússia, Síria, e os países que os apoiam na região Oriental. Não utilizam ainda o jargão anterior ("anti-comunismo") que está implícito no conceito de "guerra-fria" referido pelo Secretário da ONU.

Diante dos gravíssimos problemas que têm ocorrido na Europa - com a política de desmonte do pouco que havia de Estado Social e com o desemprego e miserabilização das populações para pagarem as dívidas criadas pela política neo-liberal financeira (e mais a corrupção que levou os governantes a esbanjarem o dinheiro dos contribuintes em obras publicas faraônicas e desvios de verbas incontroláveis), os trabalhadores têm manifestado a sua crescente consciência de classe explorada com manifestações de todas as profissões - dos operários e auxiliares braçais aos tecnicos e cientístas, dos auxiliares de saúde aos médicos, dos porteiros aos professores ou juizes, dos jovens estudantes, artistas, pedagogos, funcionários públicos, bancários, comerciários, todos os que trabalham e desenvolvem a sociedade. E as famílias protestam contra os problemas criados por falta de verbas para manter o ensino e a saúde em condições democráticas e apoio social aos idosos e carenciados. Todos exigem o mínimo que uma social-democracia deveria oferecer.

Os protestos na Europa estão identificados com os que levantam os povos latino-americanos agora sob a onda de golpes também nascidas da mesma elite supra-nacional que declara a Terceira Grande Guerra. Contra quem?

Contra todos os que, de uma forma ou outra, lutam contra os preconceitos que nos marginalizam - raciais, de gênero, de liberdade de expressão - em defesa das populações abandonadas e exploradas que perdem as esperanças de viverem. Contra Lula que é um símbolo do defensor de uma sociedade organizada em função da maioria que é pobre e lutadora. Contra os revolucionários que não desistem de construir uma sociedade justa e soberana!

Lutemos todos contra a Guerra, pela Paz e o respeito pela igualdade e a dignidade de toda a humanidade!

Zillah Branco

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Brasil invadido


O "novichoc" jurídico

A invasão do Brasil deu-se através de uma onda tipo "novichoc jurídico" que minou os canais institucionais através de uma espécie de diarréia mental fatal para a honorabilidade dos seus agentes públicos. Ao que parece, a ameaça externa, com preparação interna na área militar, seria de uso das armas em caso de falhanço nos artifícios jurídicos. Assim se deduz da tranquila informação do general Villas Boas.

Pode-se também pensar que a execução da vereadora Marielle foi uma demonstração da pontaria dos atiradores nas cidades, já fartamente conhecida nos campos onde a população forja os seus líderes mais imediatos que vão sendo eliminados por "jagunços" a mando da elite rural

O golpe introduzido por Temer foi definido como "democrático e justiceiro", mas os seus executantes estão processados por corrupção. Os custos da operação "justiceira" devem ter levado a fonte financeira do golpe a dar um basta nos biliões distribuidos e na crescente chusma de adeptos de mão estendida em troca de uma mentira conveniente.

O que importa agora é entender :

porquê esta sanha contra um operário brasileiro que teve a ousadia de se tornar exemplo mundial de Presidente da República e criar um programa para acabar com a fome de 50 milhões de cidadãos;

retirar as crianças do trabalho escravo;

integrar todos os brasileiros no sistema jurídico constitucional;

criar medidas para permitir que todos os estudantes, quaisquer que sejam as origens étnicas, possam cursar as universidades;

abrir o caminho de desenvolvimento para todas as regiões do país e levar água e energia elétrica para todas as casas;

apoiar as mais diversas iniciativas de produção e criação de emprego;

atender aos problemas de saúde dos milhões de brasileiros;

promover a integração do Brasil nos mais altos escalões da política mundial;

projetar a economia brasileira em associações internacionais pioneiras;

afirmar a soberania da Nação perante todo o planeta;

cooperar com os países latino-americanos para superarem as condições de atraso e subdesenvolvimento;

receber da ONU os louvores pelas conquistas democráticas que animaram os países africanos e asiáticos, ainda em condição de miséria e domínio colonial disfarçado, a levantarem a cabeça ...

Se calhar, foi exatamente por Lula ter feito tudo isto que o imperialismo animou o processo golpista que Temer iniciou e os juizes de vários escalōes se prestaram a dar um tom de justiça.

O STJ envergonhou não apenas o povo brasileiro como a comunidade jurídica internacional ao condenar sem provas um herói nacional à prisão para evitar que concorra às eleições e reponha a democracia que foi enxovalhada no Brasil.



Zillah Branco

terça-feira, 3 de abril de 2018

o fascismo em curso



O xadrêz da mudança para trás

Em 29/03/18, no jornal O Expresso (de centro direita em Portugal) um militar na reserva,        major-general Carlos Branco, escreveu: "Encontramo-nos numa estrada perigosa. Assistimos a algo que se assemelha ao início de uma guerra. As guerras, leia-se os confrontos militares generalizados, são sempre precedidos por uma escalada que passa pela subida de tom na retórica, a demonização do oponente, o reforço dos dispositivos militares e a conquista da opinião pública para apoiar ações mais assertivas contra o oponente. Depois é necessário criar um acontecimento, um pretexto que não tem necessariamente de ser causado pelo oponente e que é normalmente provocado por quem pensa que vai beneficiar com o resultado da guerra. Sabe-se hoje quem montou a armadilha que levou à guerra do Vietnam, à guerra espanhola-americana e muitas outras mais recentemente. Por isso, convinha que prevalecesse o bom senso."

Fica no ar a pergunta: porquê um instrumento midiático como o Expresso, cauteloso mas de direita, desvenda a intenção fascista que está por trás das primárias provocações do Império Britânico que foi o autor do Brexit revelador da fragilidade bagunçada da União Europeia? A ridícula constatação, do Governo da Inglaterra, de que o espião russo (que estava a serviço dos Estados Unidos e vivia em Londres), fora envenenado pela Rússia com um gás utilizado em uma fábrica do Uzbequistão desmontada em 1993 sob supervisão norte-americana, mereceu do articulista a comparação jocosa com "alguém atropelado por um Mercêdes, que atribui a responsabilidade do acidente à Alemanha".

Mas, isto coincide com a sugestão (complementar no esquema preparatório da guerra), do "missionário da Opus Dei na alta política" - Antonio Guterres -, alçado a secretário geral da ONU, de que "urge recuperar os mecanismos criados anteriormente para enfrentar a Guerra Fria". Com palavras ambíguas e covardes, coloca como alvo de uma guerra justa contra o comunismo (a Guerra Fria) o confronto com a Russia de Putin que hoje alia-se à poderosa China socialista, à nação (rica em minérios) Síria, à petulante e socialista Coréia do Norte, e aos que no Oriente Médio não aceitam o controle do imperialismo.

"Donos" da palavra justiça, que está completamente destroçada nos chamados estados democráticos em todo o planeta, voltam a apelar para o conceito ainda santificado em fase medieval, de guerra justa em defesa dos direitos humanos, como se alguma vez estiveram preocupados com os humanos e seus direitos. E o articulista do Expresso acrescenta: "Começa a ser claro que o campeonato mundial de futebol será um palco desta luta. Mas enquanto for só isso… a histeria russofóbica faz parte da operação de moldagem das opiniões públicas, preparando-as para o confronto. Com o clima criado poderá nem ser necessário conceber um pretexto. Bastará um imprevisto, um erro de cálculo para nos levar para uma situação sem retorno, fazendo com que a crise político-militar se transforme numa confrontação militar direta. Essa possibilidade afigura-se-nos muito elevada. A nova postura nuclear dos Estados Unidos e a crença de que se consegue manter uma guerra ao nível nuclear tático, sem evoluir para o patamar estratégico e para a destruição total são mais alguns ingredientes que nos devem fazer refletir. A presente crise – real ou fictícia – enquadra-se perfeitamente no modelo. O que está mesmo a fazer falta é testar os efeitos das novas armas hipersónicas."

Os chefes de Estado que representam o modelo mais imbecilizado dos dirigentes (para poderem estar "de quatro" no alto cargo sob comando à distância, sem chamar à atenção geral para a submissão vergonhosa) participam como atores réles do teatro que antecedeu às duas Grandes Guerras. Divulgam mentiras ridículas nas suas mídias ou por própria voz, reacendem a moda do anticomunismo primário e atribuem à Rússia um eterno papel de revolucionária e de URSS. Só estão à espera de um atentado que mate uma personalidade incauta para soltarem a NATO à caça dos imaginários inimigos da justiça terrena.
Mas, em outros países, onde os trabalhadores estão capazmente organizados e a esquerda tem voz, esta triste figura imbecilizada não sobrevive no alto cargo e quem lá chega tem de ser bom equilibrista para aguentar a pressão contradictória dos impérios e a das suas populações. Nesta árdua tarefa estamos em Portugal, por exemplo, para que fique neutro na Europa agressora desde que o Império Britânico declarou o Brexit e se aliou ao outro império seu filho. Já vimos este filme, mas antes era o fascismo declarado sob a liderança de Hitler e Mussoline.

Porque não mudam o roteiro? Afinal o mundo evoluiu muito, a África tem nações independentes e já contrói um caminho de união não só africana mas com outros continentes que foram igualmente colonizados; na América Latina Fidel Castro, Hugo Chaves e Lula abriram o caminho para superar a dependência neo-colonial; os povos já descobriram que a democracia sempre precisa de um Estado Social sem discriminação e que a pobreza não é uma fatalidade; todos sabem que a mídia é um instrumento de poder do imperialismo;  a juventude começa a demonstrar que está farta de desordens e preconceitos divisionistas; a humanidade liberta-se do doutrinamento medieval e escolhe a sua filosofia humanista sem peias clericais; as crianças aprendem nas creches que têm idéias próprias e podem exigir atenção sem chorinhos ineficazes; os programas televisivos preparados para retardamento mental massivo já são rejeitados pelos adolescentes; a petulância dos prepotentes já só provoca risos; o hábito de corromper só tem exito quando as notas são de milhões e a máquina de fazer dinheiro pode ser montada em qualquer lugar; os espiões estão sendo assassinados pelos colegas ou chefes; os textos que ensinam o que é a dialéctica e como as revoluções levaram o sistema capitalista à crise de poder através da história estão na internet para quem quiser estudar, enfim, a humanidade está apta a sair do bolso da desmoralizada elite poderosa.

Inventem outros pretextos para a briga entre os que controlam a guerra atômica final. Reunam-se em Davos ou Bildberg e troquem figurinhas como quiserem, contanto que cheguem ao acordo elementar de destruirem as armas fatais que hostentam. Os povos batem palmas e promovem vocês a salvadores do planeta com direito a um museu especial na falecida ONU. Deixem a humanidade viver e criar soluções saudáveis no seu percurso com liberdade.

Zillah BrancoE

terça-feira, 27 de março de 2018

Entendam a dialéctica!

O PS entre a "cruz e a caldeirinha"

O PS, como todos na sociedade, viveu o processo desencadeado no 25 de Abril de 74 sofrendo contradições internas, pessoais e geracionais, que refletem a formação de esquerda ou de direita, dialécticamente contraditórias. Mário Soares aliou-se a dois representantes do imperialismo - Kissinger e Willy Brandt - que com financiamentos e trabalhos secretos conduziram o PS a negar a sua anterior aliança com a luta dos democratas portugueses. Combateu tenazmente as acções de Vasco Gonçalves na defesa das nacionalizações da banca e das empresas essenciais ao desenvolvimento nacional, no apoio à Reforma Agrária e à organização dos pequenos agricultores para fazerem face à cobiça das multinacionais que assumiam o comando da revolução industrial no campo expulsando os camponeses para as cidades ou o circuito da emigração. Colocou o PS como "social-democrata" contra a esquerda organizada nacional.

Com tal postura o PS, ao combater o entusiasmo libertador que abalava a população portuguesa, tornou-se responsável pela incultura política associada ao medo histórico contido na onda de anti-comunismo fossilizado que a direita (moderna e antiga) impôs com mentiras divulgadas e bombas assassinas dominando uma população que não tivera acesso à formação escolar e social em meio século de ditadura.

Vários dos seus ilustres camaradas abandonaram o PS que adotava a vocação da direita com um projecto liberal capitalista. O inimigo principal havia sido transferido do combate à ditadura fascista para a guerra fria imperialista contra a esquerda liderada pelo PCP. Deixando as acções terroristas para os partidos de direita - CDS e PPD - manteve-se perante o eleitorado como defensor da Revolução dos Cravos. E assim dominou o governo com uma política neo-liberal que partilhou com a direita - PSD atrelado ao CDS.

Aderiu à UE, sempre pela mão dos antigos mentores, vendendo a pátria por investimentos aplicados no visual do território a ser modernizado e no enriquecimento da banca e empresas privadas, e impedindo o desenvolvimento social que tocava directamente o povo português: impulso à pequena produção agrícola e artesanal, controle da produção empresarial para manter as leis trabalhistas e os benefícios necessários ao Estado Social que atende gratuitamente a população com serviços de saúde, formação escolar, assistência social aos idosos, invádos e desempregados, que a esquerda e muitos democratas sem partido defendiam.

Pintou de dourado um "Portugal de ricos" que oferece as suas qualidades naturais de paisagem e de uma antiga cultura camponesa aos turistas ricos. Deixou-se invadir por uma cultura capitalista importada que afogou o dinamismo natural do povo portugues e das forças produtivas existentes com tradição milenar específica. Adoptou o ingles como segunda lingua (subserviente ao imperialismo) e estilhaçou o idioma que serviu de base a povos da América, África e Ásia, na criação de linguas próprias enriquecidas pelos contactos históricos com várias etnias, além de constituir a expressão da riqueza literária de Portugal. Enfim, reduziu Portugal a uma peça do xadrez da UE, sem soberania para recusar, pelo menos, participar nas guerras invasoras do Oriente Médio e Norte da África, ou das repúblicas europeias de expressão socialista.

Mas a dialética não se apaga com um sopro, nem com a guerra fria. Os governos do PS foram de mal a pior até chegarem a Sócrates, formado pela juventude PSD e pela escola da média (especializada em projectar futuros membros do Clube de Bildenberg ou de governantes dóceis). Os desmandos foram tais, que contribuiram muito para a crise mundial do capital que escoa em maior volume para paraisos fiscais e formas de corrupção, retirando os lucros prometidos aos seus modestos depositantes e levando-os à miséria e muitas vezes à morte (como foi o caso do BES e tantos outros bancos internacionais).

Diante de tal cenário caótico, uma nova geração que leva à sério o título de "social-democrata" como um compromisso de honra com a população para criar um Estado Social controlado com base na equidade e justiça, abriu o Congresso do PS em 2013 exigindo uma auto-crítica.  É verdade que o jovem orador, apesar de bastante aplaudido, teve o seu nome retirado do site do Congresso e foi visivelmente censurado pela mesa dirigida por Maria Belém. Mas, a sua coragem teve eco e lançou uma ponte para evitar que o PS, ainda de Seguro e seus anquilosados próceres, sofresse o esvaziamento que Passos Coelho provocava no PSD. Sentiram a necessidade de limpar a expressão "socialista" de toda a carga de reacionarismo que conspurcara os seus princípios republicanos nas cedências vergonhosas à direita que serve ao imperialismo nas suas devastações planetárias.

Neste contexto as eleições conduzidas pela TV controlada pela direita e investimentos mal explicados repetiram o programa neo-liberal recomendado pela Troika. A esquerda, liderada pelo PCP, abriu uma porta ao PS - em fase de auto-critica - para que, assumindo compromissos com critérios sociais e não financeiros, para poder governar o país que exigia a correção dos muitos erros praticados em nome de uma falsa "austeridade" que apenas enriquecia o poder financeiro da UE e destruia o povo e a soberania da Nação.

O atual PS herdou um país enfraquecido pela continuada extinção das conquistas democráticas do 25 de Abril e a prática do neo-liberalismo imposto pela UE. O grande incêndio de 2017 demonstrou que há muito vem sendo desgovernado o campo para ceder à espoliação das terras e matas por empresas privadas com apoio multinacional. Para garantir proteção mínima o atual governo só vê (à luz do neo-capitalismo, e não da necessária auto-critica) a possibilidade de carregar os camponeses que restam para a periferia de cidades e deixar a terra para os grandes empresários que a cobiçam. Não se atreve a retomar o que a esquerda elaborou em 1974 para modernizar um campesinato com a sua força produtiva apoiada pelo Estado.

Mas, na queda de prestígio da velha direita diante de algum alívio nacional ao sacrifício da população (com a memória e a Constituição progressista de Abril) e às denúncias dos crimes incontroláveis do sector financeiro (devido ao que apelidaram "a geringonça" que aproximara o PS dos aspectos sociais exigidos) os grandes problemas que estão à vista de todos foram também reconhecidos pela TV. Porque? Agora o tema de interesse popular é apresentado pelos partidos de direita, que também recordam a costela "social-democrata" e põem a "boca no trombone" (com discursos que revelam o que a esquerda repete há décadas sem apoio mediático), com o conhecimento por dentro dos erros que ajudaram a cometer nos governos alternados há mais de 40 anos), que os direitos dos trabalhadores não são respeitados, os salários estāo congelados, a saúde e o ensino perdem investimentos que vão para as empresas privatizadas, os pequenoa agricultores vão sendo expulsos do campo, não há apoio social para acompanhar os idosos, as mães desempregadas ou sem marido perdem o direito de educarem seus filhos, enfim... não há Estado Social. Portugal volta a ser "um jardim a beira-mar plantado, com bela arquitectura e boa culinária, servida por pessoas risonhas e submissas", para o requinte dos turistas ricos! E o povo que construiu esta Nação emigra!

Para mais, o que é um problema em todos os países capitalistas, os defensores de um sistema honrado judicial vêm-se impossibilitados de limpar a sociedade dos sangue-sugas do sistema neo-liberal que é o motor da contra-democracia imposto pelo imperialismo global. Há uma crescente convergência com as permanentes críticas feitas mundialmente pela esquerda consequente.

De facto o PS, agora curvado à UE e seus aliados (com os quais concorre eleitoralmente), está "entre a cruz e a caldeirinha". Para usar uma expressão bem portuguesa: "temos pena". No entanto, podemos apontar o caminho dialéctico da saída: coragem para defender o socialismo real, como apontou a auto-crítica já proposta.

Estes problemas ocorrem em todo mundo capitalista em decorrência da crise sistémica. Os povos estão em luta contra as invasões, os golpes, as provocações de confitos internos por grupos financiados pelo imperialismo, mas também dos abusos de poder e os roubos avassaladores dos recursos nacionais em prejuizo exclusivamente das condições de vida dos povos. A solução depende da capacidade de compreensão dos que prezam a democracia, a liberdade social, a solidariedade humana, a honra pessoal e a soberania da pátria, acima dos interesses mesquinhos de poder e riqueza.

Zillah Branco

quarta-feira, 21 de março de 2018

Caravelas e preconceitos

Zillah Branco *

O Brasil de hoje, apesar de golpeado por uma corja de políticos nacionais que "batem as orelhas" para o imperialismo e forçam a destruição das conquistas democráticas introduzidas por Lula a partir de 2003, revela a pujança de um povo que assume a sua consciência patriótica e de trabalhadores. 


As manifestações corajosas das populações mais pobres, em várias cidades do país e outras da Europa, contra o assassinato da vereadora Marielle Franco que, no Rio de Janeiro sob o domínio da Polícia Federal desenvolvia intensa campanha pelos direitos humanos, são a imagem real do despertar do povo para uma luta institucional.

Quinhentos anos de escravidão e de miséria fechando ao cidadão o pequeno mundo da sobrevivência nos limites da família ou mesmo do indivíduo, que era a condição para não contestar o domínio político da nação pelos diversos "donos" que se sucederam no colonialismo até chegar ao moderno "império global", ficaram para trás encerrados pelo último governo do tucano FHC e agora trazido como ameaça pelos renegados golpistas.

A miséria persiste gerida pelo poder financeiro e a politicagem capitalista, o crime organizado é sustentado pelas forças imperialistas e os "vira-latas" nacionais, mas o ser humano brasileiro que compõe a maioria dos 220 miliões de habitantes que trabalham, estudam, improvisam maneiras de sobreviver, descobriu através de Lula quando eleito Presidente que, mesmo tendo sofrido a fome na infância e sem poder alcançar uma formação escolar superior, foi formado pela realidade injusta que o cerca. Esta é a nossa universidade popular. E esta formação somada à honra pessoal vence qualquer modelinho de intelectual formatado pelo sistema capitalista para repetir frases eruditas sem saber pensar por si.

Esta compreensão de que nascemos em um país rico - de solo, subsolo, inteligência, sensibilidade, arte, belezas naturais, solidariedade humana, amor e ternura - que nos tem sido roubado desde o ano 1500 por predadores capazes de abandonar os seus próprios conterrâneos na selva e voltarem com ouro e pedras preciosas para registrarem do outro lado do mundo as suas conquistas de novos territórios. Ao longo dos séculos usaram a nossa riqueza para suprir as suas próprias carências sem reconhecerem que somos "gente", humanos, com valores que foram sendo esquecidos pelos grosseiros e ambiciosos que se vendem por uma migalha de poder. Esta experiência que o povo brasileiro teve em 2003, de um Presidente honrado, com orgulho do seu passado pobre de trabalhador, mostrou que o mundo será melhor quando houver respeito humano, igualdade de direitos para os que são diferentes no gênero, na cor, nas capacidades físicas e nas idéias. Os preconceitos não têm lugar no Brasil, tal como os golpistas e traidores desprezíveis. Podem voltar nas caravelas que os transportaram antigamente.

Não venham os "doutores que combatem a ideologia da liberdade" nos ensinar a lingua e o pensamento das suas elites quadriculadas pelo capital. Os brasileiros compõem a sua língua e o seu caminho político de unidade democrática com a mesma alta qualidade das suas músicas e letras que são traduzidas nos grandes centros culturais das nações ricas pelo mundo inteiro. Conhecemos as nossas carência que são manipuladas por espertos políticos doutorados que elogiam a ingenuidade de quem segue a estrela da dignidade como utopia, e à socapa acumulam o capital para corromper incautos. Sabemos que o atual governo é golpista, que o Estado foi minado por infiltrados da bandidagem imperialista, que a nossa situação geopolítica é cobiçada por Trump e seus colegas mundiais, que a nossa riqueza natural faz inveja a todos, que o poder financeiro corrompeu importantes setores do judiciário, que a privatização da saúde e do sistema de ensino ameaça o futuro dos nossos filhos, que a poluição mata quase tanto como a violência instituida pelo crime organizado, que não poderá haver justiça enquanto o poder nacional estiver nas mão de uma elite "vira-lata" que lambe as botas dos impérios.

Sabemos isto tudo mas sabemos lutar também, conquistar terras para produzir alimentos e construir casas populares, crescer nas favelas e ser eleitos para defender os direitos humanos, fazer cursos superiores e voltar para o convívio com os irmãos indígenas da comunidade onde nascemos levando-lhes a cultura moderna. E somos a maioria dos que trabalham e lutam por uma pátria soberana. Soberana, não duvidem!

Acolhemos com carinho os que vierem lutar ao nosso lado. Já fazemos isto há séculos, ajudando os que emigraram e foram expulsos das suas terras para que a revolução industrial e o sistema financeiro se fortalecesse na Europa expulsando os camponeses pobres. Entendemos as suas línguas através dos gestos de amizade e solidariedade, mesmo sacrificando a gramática. Não fomos formatados para só compreender o vocábulo perfeito. Temos sensibilidade e não preconceitos. Somos como outros povos que também lutam contra a exploração imposta por suas elites "vira-latas".

Lula alterou as regras diplomáticas com a sua simpatia e a sua linguagem popular brasileira, mas sobretudo pela sua tenacidade e respeito humano na luta permanente pela democracia verdadeira. O povo brasileiro vai alterar as regras do poder mundial impondo como valores a ética e a honra ao definir os limites democráticos em lugar das falsidades e os salamaleques que hoje disfarçam a perfídia dos eternos predadores da humanidade que dão o título de "democracia" ao "seu" direito de roubar e fugir à aplicação das leis constitucionais.

domingo, 11 de março de 2018

A falência humana do sistema capitalista



O sistema capitalista entrou em colapso com a perda dos princípios éticos e humanistas que caracterizam a humanidade. Criou uma selva sem natureza, de cimento e aço, que não serve aos seres naturais que habitam o planeta. Aos poucos extende o seu poder destruidor sobre as nações que pretenderam ser soberanas.

A Justiça foi banida deixando em seu lugar sistemas repetidores de leis que perseguem e obrigam os cidadãos a agirem como automatos sem alma; o ensino cortou o diálogo para adaptar os alunos à uma fôrma que servirá à produção prèviamente escolhida pela elite poderosa; o sistema de saúde aplica tratamentos e medicamentos produzidos por laboratórios especializados em armas químicas e substitui o médico por instrumentos eletrônicos; a previdência social torna-se uma dependência do sistema financeiro; as cidades amontoam as famílias em poleiros ou gavetas; os trabalhadores são escravizados e empobrecidos para melhor serem explorados; a solidariedade humana é substituida pela caridade dos que têm mais poder; o transporte é feito em maior velocidade; as músicas são ensurdecedoras; o idioma reduz-se para ceder lugar aos termos técnicos em inglês; os servidores públicos são treinados como robôs para que não pensem nem entendam o que os usuários dizem; os líderes do sistema são autistas imbecilizados para servirem aos desígnios do poder financeiro e militar supremo; as eleições "democráticas" não podem ser realizadas com o candidado escolhido pelo povo.

O Brasil é um rico país miserabilizado. Como ele tantos outros que permanecem neo-colonizados. Os que defendem a sua soberania são atacados por emissários terroristas financiados pela elite dominante do sistema capitalista. Fecha-se o cerco.

A lógica adoptada pelo sistema capitalista exclui qualquer consideração ética e humanista, impondo como realidade apenas a condição financeira para resolver problemas pessoais ou sociais. Isto vemos até nas nações mais desenvolvidas, na Europa, que supomos serem independentes. Esta lógica define as condições da independência para as nações e, dentro delas, nos sectores controlados pelo Estado. São independentes para cumprirem as exigências que o sistema capitalista a todos os níveis. A realidade criada pela dinâmica histórica da vida de um povo foi descartada pelos que aplicam as "ordens" do jogo capitalista.

A lógica dominante no sistema capitalista indica o desempenho exigido.

No artigo (1) Jorge Seabra analisa o sistema de avaliação profissional que vem sendo aplicado na Europa e, portanto, aos países membros da UE que submissamente aderem. Diz ele: "Os trabalhadores não se revoltam por serem avaliados. Revoltam-se contra critérios que servem apenas de pretexto para excluir os menos bem aceites pelas chefias. O actual «sistema avaliador», perverso e empapado de ideologia neoliberal, serve para tudo – menos para avaliar."

"É difícil precisar a data em que a sociedade portuguesa foi atingida pelo novo paradigma «da avaliação do desempenho», que se infiltrou por todos os poros, por todas as frinchas da actividade laboral, extravasando os proletários do campo e da ferrugem, atingindo trabalhadores de escolas, hospitais e centros de Saúde infectando investigadores de humanidades ou de ciências exactas, artistas, empregados dos shopping’s, de agências imobiliárias ou de viagens, vendedores de automóveis ou de latas de conserva. O inimaginável acontece: treinar «avaliadores» como psicopatas".

"Abordando o tema na sua vertente clínica, Christophe Dejours (2), que analisou maus-tratos graves passados na Renault e na France Telecom, numa entrevista dada ao Público de 1/2/20101 (em plena «crise» financeira que acentuou a desregulação do trabalho em Portugal), falou do sofrimento da avaliação, do assédio, do suicídio nas empresas:

«A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, o que altera completamente as relações de trabalho: O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho!...».

"Quanto ao perfil dos que são alvo preferencial da agressão das chefias, Christophe Dejours, precisa:

«São justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que estão envolvidas e que quando começam a ser censuradas de forma injusta, são muito vulneráveis. Por outro lado, são pessoas muito honestas e algo ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da profissão, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho, recusam a fazê-lo…».

«A ausência de um debate sério sobre o conteúdo e a imposição de «avaliações» irracionais (...) tem mostrado o seu carácter instrumental ao serviço de objectivos alheios à justa valorização do trabalhador e à sua progressão e aperfeiçoamento profissionais.»

Segundo Dejours há técnicas organizadas com o apoio de psicólogos para ensinar chefias e responsáveis de recursos humanos a fazerem o assédio. E cita um exemplo:

«No início de um estágio de formação em França, cada um dos quinze participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. No fim, o director do estágio deu a todos a ordem… de matar o seu gato». Catorze mataram o gatinho e a única participante que se recusou, adoeceu e foi tratada por Christophe Dejours que, assim, ficou a conhecer o caso. «O estágio era para ser impiedoso, uma aprendizagem de assédio», explica o psiquiatra."

A lógica apresentada na formação profissional, economicista e desumana, é a que se exige aos trabalhadores com contratos precários. Isto verificamos hoje em muitos sectores das instituições do Estado, incluive às da área de atendimento social, onde é maior o número de trabalhadores precários. O objectivo de tornar o trabalhador "impiedoso" é fundamental para anular a sensibilidade humana e, portanto, de pensar sobre os efeitos negativos que vão produzir sobre o "outro" (seja o colega ou o utente do serviço onde trabalha).

Isto explica a quantidade de trabalhadores burocratas que são insensíveis às alegações dos utentes aos quais são impostas condições inaceitáveis. Os exemplos são muitos: hospitais efectuam cobranças sem fundamento legal, dão indicações imprecisas do lugar  onde o utente deverá aguardar uma consulta, indicação de outro estabelecimento para obter exames prévios; serviços de finanças que não explicam quais os direitos do utente ou dão orientações orais que mais tarde serão negadas, fazem ameaças de expoliação dos bens pessoais para pagar uma multa que o utente não tem como pagar; serviços de segurança social que não apresenta as informações sobre o tempo de trabalho cumprido pelo utente ou elimina dados referentes a países conveniados, transfere um utente desempregado que tem alta por doença para o fundo referente ao do seu (inexistente) trabalho que ao ser esgotado fica suspensa o seu pagamento, e assim por diante...para não falar nos que atendem por telefone (call center) transmitindo as imposições limitativas aos benefícios que o utente necessita. O filme inglês "Eu, Daniel Blake" mostra claramente esta situação na Inglaterra, que hoje se expande por todos os países que se associam à UE ou que adotam o seu modelo neo-liberal.

São conhecidos os relatos médicos sobre trabalhadores que depois de praticarem as imposições patronais para não perderem o emprego, entram em depressão por contrariarem a sua própria ética e solidariedade humana, e muitos se suicidam desesperados.

Um cidadão que se solidariza com os trabalhadores na luta pelo direito ao trabalho fica em dúvida se deve ou não denunciar as suas falhas que dificultam o atendimento aos utentes. Mas, sabe que o trabalhador que cumpre uma determinação criminosa (matar o gatinho ou impedir um socorro) deverá adquirir consciência da sua carência ética como respeito à sua função social. O combate ao oportunismo impõe-se.

O governo de Portugal informa que as vítimas de incêndios nos campos, que foram imensos em 2017, só receberão apoio financeiro para reconstruir a sua habitação se mudarem para perto de povoações densas onde existirá protecção civil por bombeiros. A medida é a da capacidade financeira de agir e a incapacidade de obrigar os proprietários das florestas de as protegerem. Ou seja, reconhecem que o governo é incapaz de gerir a produção florestal e programar a defesa da agricultura e pecuária necessárias à alimentação nacional. É a perspectiva capitalista de colocar os cidadão apertados nas cidades e entregar a produção rural às grandes empresas privadas. Aos poucos esvaziam as funções de gestão social e deixam os cidadão entregues à responsabilidade de empresários. A democracia foi desfeita assim como as forças produtivas que ficam fora do âmbito governamental. Só sabem organizar empresas, a lógica não abrange questões humanas. Por isso apostam na substituição de "gente" por robôs.

Zillah Branco

______________________________________________________________________
Notas:

(1) "Revisitação à perversidade da «avaliação de desempenho»", (https://www.abrilabril.pt/sites/default/files/styles/node_aberto_vp768/public/assets/img/tim_1.jpg?itok=ql4h7sUP)

(2) Psiquiatra, psicanalista e director do Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção do Conservatoire National des Arts et Métiers, de Paris

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Os donos do poder constroem a depressão



Os laboratórios farmacêuticos transnacionais empurram a medicina moderna para desenvolver conceitos que classificam as doenças mais frequentes na sociedade moderna desviando a atenção da construção política de um imenso vírus, pelos donos do poder mundial, para liquidar a humanidade e a natureza no planeta. O problema não está apenas no âmbito da medicina, a qual é usada como um dos meios de comunicação social, está em todos os que detêm alguma forma de poder e se tornam coniventes com a missão destruidora negando-se a fazer a denúncia das origens dos males e a buscar o antídoto. Trata-se de uma questão de consciência da realidade e do compromisso ético de combater a catástrofe.

Os casos mais graves de terrorismo político, hoje ocupando a chefia dos Estados Unidos, através de Trump (que, diante das trajédias escolares que aumentam, recomenda que os professores saibam usar armas e ensinar aos alunos) e de Israel, por Netanyahu (que persegue os palestinianos e ameaça outros povos árabes, impedidos de viver em paz), não recebem o tratamento psiquiátrico necessário e dirigem poderosas máquinas militares e financeiras em nome dos seus povos a caminho do desastre planetário com as ameaças de guerra atômica. Os seus respectivos povos tornam-se coniventes com os crimes na medida em que não os substituem no governo nacional. Também a ONU, ao se manter calada a espera de "apoios legais" diante do risco imposto à humanidade, vê-se impotente e conivente com a ameaça de terrorismo planetário que paira sobre todos.

Com a imagem das invasões externas trazidas pela mídia internacional, do terrorismo mercenário, da mortandade de civis, de crianças órfãs sujeitas ao tráfico de escravos, de jovens estupradas, de legiões de famélicos expulsos de suas terras, da rejeição dos países ricos aos imigrantes de diferentes etnias, das prisões superlotadas por quem roubou para alimentar a família, das mães com bebês ao colo ou grávidas atiradas em cárceres imundos, das crianças que crescem nas ruas tendo por heróis os bandidos espertos e cruéis, e os abusos de poder contra os mais fracos, ou a despudorada corrupção que compra políticos venais e os elege forjando uma aparente democracia, qualquer pessoa que tenha um dia conhecido a esperança de viver em paz está sujeito a entrar em depressão. Mas há níveis de depressão a combater antes de se tornar uma doença: a decepção, a tristeza, a frustração, a raiva, a impotência, o desânimo, a alienação. Alguns recorrem às utopias, aguardam "milagres", outros confiam nas reformulações das leis deixando a responsabilidade dos sofrimentos alheios a prováveis erros processuais cometidos por outros. Sendo verdadeiramente honesto consigo mesmo e com a humanidade, ainda estará em tempo de redefinir a sua capacidade de sentir e fazer e encontrar o caminho do trabalho e da luta.

O jornal espanhol, "El país", divulgou as palavras do secretário-geral da ONU, António Guterres, recolhidas na cerimônia em que a Universidade de Lisboa fez a entrega do título de "doutor honoris causa" ao ex-Primeiro Ministro de Portugal que hoje ocupa o cargo de Secretário Geral da ONU.

António Guterrez "defendeu a criação de regras globais para minimizar o impacto da ciberguerra sobre os civis."

“Já existem episódios de guerra cibernética entre Estados. E o pior é que não há um esquema de regulamentação para esse tipo de guerra, não está claro se aí se aplica a Convenção de Genebra ou se o Direito Internacional pode ser aplicado nesses casos”, reconheceu o principal dirigente da ONU mostrando-se preocupado com os novos desafios do mundo, como a mudança climática e a revolução tecnológica. E também com os novos sistemas de fazer guerras no mundo.

“Ao contrário das grandes batalhas do passado, que se iniciaram com um bombardeio de artilharia ou aéreo, a próxima guerra começará com um ciberataque maciço para destruir a capacidade militar, sobretudo do comando, do controle e da comunicação, com a finalidade de paralisar as tropas e a infraestrutura básica, como as redes elétricas”, disse,  “para evitar riscos reais”. “Estamos totalmente desprotegidos de mecanismos regulatórios que garantam que esse novo tipo de guerra obedeça àquele progressivo desdobramento de leis de guerra, que garanta um caráter mais humano naquilo que é sempre uma tragédia de proporções extraordinariamente dramáticas”, afirmou.

Guterres ofereceu a ONU como mediadora de Governos e empresas, cientistas e universidades para estabelecer protocolos de modo que o uso da web seja feito com benefícios para a humanidade. “Nós todos temos de nos unir, não só os Estados, para garantir que a Internet seja um bem para a humanidade. As normas tradicionais, por intermédio de Estados ou convenções internacionais, não estão hoje adaptadas à nova realidade porque são lentas.”

Tais pronunciamentos, feitos por uma personalidade que está na cúpula visível do poder político mundial, define um quadro depressivo grave que não se resolve com medicamentos tranquilizadores. Tem o mérito de associar Guterres ao comum dos mortais que, por consciência política já há anos vem denunciando, na luta  pelos direitos humanos e sociais sustentada pela esquerda internacional militante, a ação destruidora erguida meticulosamente pelo domínio imperialista contra os povos e a humanidade em geral.

Mas, é preciso aguardar que a lucidez do alto dignitário da ONU seja somada à coragem de reconhecer que os que lutam por uma sociedade realmente justa o antecederam na descoberta do lado certo do combate, à esquerda. E foram duramente perseguidos e desprezados por defenderem a classe trabalhadora e condenarem a elite exploradora que ocupa o poder onde ele se situa. Esta é a função dos que ocupam um poder nacional ou internacional.

Esta mudança na percepção da raiz dos crimes na organização do poder em cada Estado e no Mundo, que o sistema capitalista define pelo controle das finanças e propriedades econômicas, decorre da crise sistêmica que se tornou avassaladora nos últimos anos, com a sucessão de invasões militares com o falso pretexto da "defesa dos princípios democráticos" ou de "pacificação de grupos religiosos ou etnias" que se confrontam em um território em que convivem forçados historicamente por pressões colonialistas seculares.

A mídia só recentemente passou a dar alguma divulgação às comprovadas formas de apoio, por Governos de nações ricas, aos grupos terroristas que agem na promoção de conflitos internos nos países cobiçados, destacando-se a criação, treinamento e armamento do grupo criminoso intitulado Estado Islâmico (nome visivelmente criado com a intenção de condenar os adeptos do islamismo). Durante anos a mídia ocultou a raiz da propaganda imperialista contra nações do Oriente Médio e norte da África que foram invadidas por forças da NATO, que era a existência de riquezas minerais como o petróleo e outras, ou no caso de antigas repúblicas soviéticas onde o interesse maior é o domínio de áreas geopolíticas. Curiosamente foram divulgadas informações políticas e militares a partir de jovens agentes da CIA que, tal como Guterres, despertaram para a compreensão do perigo planetário que representa o poder imperial, mas que agiram corajosamente e com perda da liberdade pessoal, utilizando a internet para se sobreporem ao bloqueio midiático e informarem a humanidade sobre a perversidade da polícia do Mundo.

São mudanças pontuais, de profundo valor ético e político, que comprovam a existência das leis dialéticas e, exigem cada vez maior esclarecimento científico para a formação de uma consciência da realidade social que condiciona a vida no planeta. Este caminho encontrou um grande impulso nas transformações processadas no Vaticano que hoje encontrou no Papa Francisco um elemento capaz de corroborar com o valor da Teologia da Libertação que germinara anteriormente na Igreja Católica mas encontrava fortes obstáculos internos à sua difusão.

Que cada um, ao assumir uma consciência da realidade em que vivemos (e em que muitos milhões de inocentes estão morrendo), desenvolva com coragem e objetividade as suas capacidades de defesa da sociedade humana, seja animado por crenças religiosas, solidariedade fraterna ou convicções científicas.

A maioria das formas de depressão (sentidas como frustração) não precisam ser dopadas como processo de cura alienante, não são uma doença para quem pode agir e ainda tem força para pensar com respeito no ser humano e no benefício da fraternidade em sua defesa. Muitas formas de aparente "depressão" podem ser superadas com a participação em movimentos sociais que agem contra as raízes dos problemas políticos e sociais que hoje vivemos, deixando de lado as "leis engessadas" e os "medos" que, pela sua imobilidade, impedem acções dinâmicas que correspondem ao momento histórico do processo de vida.

Zillah Branco