segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A democracia e o ornitorrinco



É preciso clarificar o conceito de "democracia" dentro do sistema capitalista. Para melhor compreender o que significa, em termos sociais e econômicos a democracia capitalista reconhece os direitos humanos e garante os privilégios da classe dominante. Corresponde, no reino animal, ao estranho "ornitorrinco" que existe na Austrália e na Tasmânia. Tem uma pitada de cada interesse, por mais contraditórios que sejam.


O bichinho tem pelo, bico de pato, bota ovo e amamenta sem ter mamilos, chega a viver 17 anos se o protegerem. Assim é a social-democracia. O povo não pode tirar o olho de cima, para evitar que desapareça.

No planeta em que vivemos, por enquanto existem experiências na construção do sistema socialista - Cuba, China, Vietnam, Coreia do Norte e Laos - que conseguiram desenvolver os países com maior igualdade de direitos sociais para todos os cidadãos, sempre condicionados pelo capitalismo no relacionamento externo. E convivem com os "ornitorrincos" como podem, improvisando soluções que permitem o equilíbrio, sempre com otimismo sem deixar ser realistas.

A elite imperialista que controla o sistema através do capital e das ações militares prossegue a sua política de bloqueios e de intimidação e, como simboliza o presidente Trump, ameaça com "fúria e fogo" para travar as iniciativas de solidariedade e de apoio às nações mais frágeis. No entanto, as crescentes ameaças revelam uma crise sem precedentes da política financeira que está centralizada nos bancos, desestabilizam os países conservadores do capitalismo social-democrata onde a conscientização dos trabalhadores se manifesta contra os privilégios impeditivos da verdadeira igualdade de direitos. Surgem formas progressistas que buscam atender democraticamente às necessidades populares ao contrário das exigências das elites enfraquecendo-as apesar das ameaças.

Com o fim do bloqueio contra Cuba, declarado "inútil" pelo ex-presidente Obama, 75 paises entraram em contacto com a Ilha revolucionária para estabelecer laços comerciais e de troca de conhecimentos. Nas áreas científicas e técnicas, no inicio de 2018, a União Europeia assinou em Cuba um protocolo de parceria. Isto demonstra que existem características multipolares dentro do sistema capitalista que pretendem um convívio fraterno com as experiências socialistas.

As nações mais pobres querem aprender como Cuba superou o subdesenvolvimento herdado de uma colonização expoliadora que foi a causadora das suas próprias misérias. Mesmo as nações mais ricas do continente Europeu precisam conhecer o caminho que Cuba seguiu para levar toda a população a frequentar escolas formando a mão de obra necessária para desenvolver a educação e mais a produção agrícola e industrial em todo o país, e formar os quadros universitários que assumiram as funções no Estado que alcançou um nível de organização invejável. Têm de reconhecer, como demonstram os estudos da ONU, que Cuba está à frente de nações ricas na defesa do seu povo, pondo fim à fome, ao analfabetismo, impulsionando a criatividade da sua gente na produção industrial e no aproveitamento dos produtos naturais para a alimentação, na elevação do nível da saúde e da formação cultural, na garantia dos recursos de habitação e emprego para todos.

Enquanto os defensores do capital multiplicam as imagens de riqueza com alta tecnologia, muitas luzes e som alto, as pessoas normais se dão conta de que lhes falta sossego, tranquilidade para apreciar a beleza natural e a arte. Começam a dar atenção ao ser humano, inclusive ele próprio, e decidem conhecer a simplicidade cubana onde encontram um produto, escasso no "mundo desenvolvido", que é a fraternidade e a disposição de lutar pela pátri e por uma democracia sem contradições de classe.

O território brasileiro é bastante rico em terras, minérios, gado, além de ter mão de obra competente para transformar os produtos naturais em industriais de boa qualidade devido aos conhecimentos tecnológicos e científicos que concorrem com os dos países mais desenvolvidos. E, não se pode esquecer, este patrimônio pertence a todos os brasileiros, pobres e ricos. O problema nacional não está na capacidade de desenvolvimento mas sim na cobiça de alguns que trabalham no sentido da desnacionalização das empresas e da associação com estrangeiros ligados ao capital financeiro e às multinacionais para impor o agro-negócio que polui o mundo com tóxicos e escravisa os trabalhadores sem qualquer princípio humanista.

No sentido de se definir um projeto de desenvolvimento será necessário superar a dinâmica existente que aponta para uma "regressão colonial", como diz o professor Luiz Bernardo Pericás (artigo "Desnacionalização e Violência", Jan/2018, blog Boitempo).

"Não há nenhum projeto para levar o Brasil a superar seus dilemas históricos e fazer avançar um processo de desenvolvimento autônomo e soberano, com a elevação material, intelectual e cultural da maior parte da população. Pelo contrário, temos uma dinâmica econômica baseada na desindustrialização, na desnacionalização e na privatização, no fim dos assentamentos rurais, na reconstrução da estrutura fundiária, na desestatização e no aumento dos oligopólios e transnacionais em nosso território".


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Feliz Brasil Novo !

FeliFeliz Brasil Novo!

Manuela d'Avila surge como uma lufada de ar puro acima do hábito repetitivo de velhos discursos. Atrai pela serenidade e firmeza com que enfrenta o desafio de abrir um panorama novo para varrer o lixo criado pelo golpe e toda a execrável corja que, atrás de Temer, defendeu o seu preço e o seu posto no Estado devastado pela indignidade dos corruptos e pela sanha de um "cupinzeiro" que se tornou "dono dos destinos dos brasileiros".

É preciso mesmo ter muita firmeza e serenidade para, com o apoio do povo trabalhador, fazer uma faxina completa que liquide a praga imperial. Ela vem de terras que produziram destacados lutadores: Getúlio, conhecido como "pai dos pobres" e que morreu depois de nacionalizar as empresas de energia, Prestes, o "Cavaleiro da Esperança" que desvendou a vida do povo brasileiro do sul ao norte, e outros que também deram a vida pela democracia no país dos coronéis.

Sem qualquer presunção Manu conversa com profissionais respeitados que levantam problemas econômicos, sociais e políticos sem amarras às viciadas forças políticas nacionais ou internacionais; consulta essa juventude inovadora que tomou para si a tarefa de defender a educação com a valentia necessária; debate com os movimentos sindicais as questões trabalhistas e com as várias associações que combatem os preconceitos contra as mulheres, os negros, as etnias que povoam o Brasil, os que defendem a própria independência sexual, enfim, todos os que levantam a cabeça para afirmar os seus direitos de cidadãos; acompanha os trabalhos da Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo, estuda o longo caminho do MST em defesa da reforma agrária e da formação técnica e cultural dos que vivem esquecidos nos campos; visita o Maranhão tornado livre da família ex-proprietária do governo, que retardou o seu desenvolvimento agora plenamente visível; visita indústrias onde ouve as questões apresentadas pelos seus trabalhadores; enfim, estuda o Brasil a partir do conhecimento dos estudiosos e da gente brasileira que constrói de baixo para cima esta imensa riqueza natural e cultural que está sendo esbanjada pelos "vende-pátria" desonrados.

Manuela está fazendo um curso intensivo da realidade brasileira porque, como diz,  "mudar o sistema político sem debater com o povo, é golpe". Quer aprofundar o conhecimento das carências que mantêm um país, com o enorme (e cobiçado) patrimônio natural, científico e artístico, na condição de subdesenvolvimento periférico.

Esta é a base para traçar um sistema político que garanta uma política pública de desenvolvimento social e econômico. Esta é a causa que incentiva a unidade de todas as tendências de esquerda a se integrarem, dos que defendem os oprimidos contra a exploração, dos que sentem a responsabilidade por criar uma sociedade melhor para os seus filhos e netos, dos que ainda acreditam ser possível um futuro digno para os povos.

O exemplo de Cuba que, para aguentar 60 anos de bloqueio do sistema capitalista mundial e superar o atraso (imposto pelos Estados Unidos e herdado da sua condição de subdesenvolvimento para enriquecer milionários escravocratas), construiu uma nação livre e soberana onde não há analfabetismo e nem crianças com fome. A sequência da sua história inicial pode ser sintetizada nas grandes linhas no programa nacional seguido pelo governo revolucionário para criar bases do desenvolvimento democrático: 1959 - Ano da Libertação; 1960 - Ano da Reforma Agrária; 1961 - Ano da Educação; 1962 - Ano da Planificação; 1963 - Ano da Organização; 1964 - Ano da Economia.

Apesar da demolição dos setores sociais do Estado no Brasil, que com a eleição de Lula criou serviços públicos que estenderam à toda a sociedade equipamentos escolares e de centros de saúde, criando empregos e distribuindo Bolsas Família, a situação nacional aqui tem muito menos problemas que Cuba enfrentou. Pelo menos neste ano de eleições.

Se o povo escolher quem merece a sua participação entusiástica na retomada da democracia, um novo Brasil poderá ser construído.

Zillah Branco Brasil Novo!

Manuela d'Avila surge como uma lufada de ar puro acima do hábito repetitivo de velhos discursos. Atrai pela serenidade e firmeza com que enfrenta o desafio de abrir um panorama novo para varrer o lixo criado pelo golpe e toda a execrável corja que, atrás de Temer, defendeu o seu preço e o seu posto no Estado devastado pela indignidade dos corruptos e pela sanha de um "cupinzeiro" que se tornou "dono dos destinos dos brasileiros".

É preciso mesmo ter muita firmeza e serenidade para, com o apoio do povo trabalhador, fazer uma faxina completa que liquide a praga imperial. Ela vem de terras que produziram destacados lutadores: Getúlio, conhecido como "pai dos pobres" e que morreu depois de nacionalizar as empresas de energia, Prestes, o "Cavaleiro da Esperança" que desvendou a vida do povo brasileiro do sul ao norte, e outros que também deram a vida pela democracia no país dos coronéis.

Sem qualquer presunção Manu conversa com profissionais respeitados que levantam problemas econômicos, sociais e políticos sem amarras às viciadas forças políticas nacionais ou internacionais; consulta essa juventude inovadora que tomou para si a tarefa de defender a educação com a valentia necessária; debate com os movimentos sindicais as questões trabalhistas e com as várias associações que combatem os preconceitos contra as mulheres, os negros, as etnias que povoam o Brasil, os que defendem a própria independência sexual, enfim, todos os que levantam a cabeça para afirmar os seus direitos de cidadãos; acompanha os trabalhos da Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo, estuda o longo caminho do MST em defesa da reforma agrária e da formação técnica e cultural dos que vivem esquecidos nos campos; visita o Maranhão tornado livre da família ex-proprietária do governo, que retardou o seu desenvolvimento agora plenamente visível; visita indústrias onde ouve as questões apresentadas pelos seus trabalhadores; enfim, estuda o Brasil a partir do conhecimento dos estudiosos e da gente brasileira que constrói de baixo para cima esta imensa riqueza natural e cultural que está sendo esbanjada pelos "vende-pátria" desonrados.

Manuela está fazendo um curso intensivo da realidade brasileira porque, como diz,  "mudar o sistema político sem debater com o povo, é golpe". Quer aprofundar o conhecimento das carências que mantêm um país, com o enorme (e cobiçado) patrimônio natural, científico e artístico, na condição de subdesenvolvimento periférico.

Esta é a base para traçar um sistema político que garanta uma política pública de desenvolvimento social e econômico. Esta é a causa que incentiva a unidade de todas as tendências de esquerda a se integrarem, dos que defendem os oprimidos contra a exploração, dos que sentem a responsabilidade por criar uma sociedade melhor para os seus filhos e netos, dos que ainda acreditam ser possível um futuro digno para os povos.

O exemplo de Cuba que, para aguentar 60 anos de bloqueio do sistema capitalista mundial e superar o atraso (imposto pelos Estados Unidos e herdado da sua condição de subdesenvolvimento para enriquecer milionários escravocratas), construiu uma nação livre e soberana onde não há analfabetismo e nem crianças com fome. A sequência da sua história inicial pode ser sintetizada nas grandes linhas no programa nacional seguido pelo governo revolucionário para criar bases do desenvolvimento democrático: 1959 - Ano da Libertação; 1960 - Ano da Reforma Agrária; 1961 - Ano da Educação; 1962 - Ano da Planificação; 1963 - Ano da Organização; 1964 - Ano da Economia.

Apesar da demolição dos setores sociais do Estado no Brasil, que com a eleição de Lula criou serviços públicos que estenderam à toda a sociedade equipamentos escolares e de centros de saúde, criando empregos e distribuindo Bolsas Família, a situação nacional aqui tem muito menos problemas que Cuba enfrentou. Pelo menos neste ano de eleições.

Se o povo escolher quem merece a sua participação entusiástica na retomada da democracia, um novo Brasil poderá ser construído.

Zillah Branco
Feliz Brasil Novo!

Manuela d'Avila surge como uma lufada de ar puro acima do hábito repetitivo de velhos discursos. Atrai pela serenidade e firmeza com que enfrenta o desafio de abrir um panorama novo para varrer o lixo criado pelo golpe e toda a execrável corja que, atrás de Temer, defendeu o seu preço e o seu posto no Estado devastado pela indignidade dos corruptos e pela sanha de um "cupinzeiro" que se tornou "dono dos destinos dos brasileiros".

É preciso mesmo ter muita firmeza e serenidade para, com o apoio do povo trabalhador, fazer uma faxina completa que liquide a praga imperial. Ela vem de terras que produziram destacados lutadores: Getúlio, conhecido como "pai dos pobres" e que morreu depois de nacionalizar as empresas de energia, Prestes, o "Cavaleiro da Esperança" que desvendou a vida do povo brasileiro do sul ao norte, e outros que também deram a vida pela democracia no país dos coronéis.

Sem qualquer presunção Manu conversa com profissionais respeitados que levantam problemas econômicos, sociais e políticos sem amarras às viciadas forças políticas nacionais ou internacionais; consulta essa juventude inovadora que tomou para si a tarefa de defender a educação com a valentia necessária; debate com os movimentos sindicais as questões trabalhistas e com as várias associações que combatem os preconceitos contra as mulheres, os negros, as etnias que povoam o Brasil, os que defendem a própria independência sexual, enfim, todos os que levantam a cabeça para afirmar os seus direitos de cidadãos; acompanha os trabalhos da Frente Brasil Popular e Povo Sem Medo, estuda o longo caminho do MST em defesa da reforma agrária e da formação técnica e cultural dos que vivem esquecidos nos campos; visita o Maranhão tornado livre da família ex-proprietária do governo, que retardou o seu desenvolvimento agora plenamente visível; visita indústrias onde ouve as questões apresentadas pelos seus trabalhadores; enfim, estuda o Brasil a partir do conhecimento dos estudiosos e da gente brasileira que constrói de baixo para cima esta imensa riqueza natural e cultural que está sendo esbanjada pelos "vende-pátria" desonrados.

Manuela está fazendo um curso intensivo da realidade brasileira porque, como diz,  "mudar o sistema político sem debater com o povo, é golpe". Quer aprofundar o conhecimento das carências que mantêm um país, com o enorme (e cobiçado) patrimônio natural, científico e artístico, na condição de subdesenvolvimento periférico.

Esta é a base para traçar um sistema político que garanta uma política pública de desenvolvimento social e econômico. Esta é a causa que incentiva a unidade de todas as tendências de esquerda a se integrarem, dos que defendem os oprimidos contra a exploração, dos que sentem a responsabilidade por criar uma sociedade melhor para os seus filhos e netos, dos que ainda acreditam ser possível um futuro digno para os povos.

O exemplo de Cuba que, para aguentar 60 anos de bloqueio do sistema capitalista mundial e superar o atraso (imposto pelos Estados Unidos e herdado da sua condição de subdesenvolvimento para enriquecer milionários escravocratas), construiu uma nação livre e soberana onde não há analfabetismo e nem crianças com fome. A sequência da sua história inicial pode ser sintetizada nas grandes linhas no programa nacional seguido pelo governo revolucionário para criar bases do desenvolvimento democrático: 1959 - Ano da Libertação; 1960 - Ano da Reforma Agrária; 1961 - Ano da Educação; 1962 - Ano da Planificação; 1963 - Ano da Organização; 1964 - Ano da Economia.

Apesar da demolição dos setores sociais do Estado no Brasil, que com a eleição de Lula criou serviços públicos que estenderam à toda a sociedade equipamentos escolares e de centros de saúde, criando empregos e distribuindo Bolsas Família, a situação nacional aqui tem muito menos problemas que Cuba enfrentou. Pelo menos neste ano de eleições.

Se o povo escolher quem merece a sua participação entusiástica na retomada da democracia, um novo Brasil poderá ser construído.

Zillah Branco

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Os dilemas da luta


Este artigo foi peblicado no Portal Vermelho
e no blog Foicebook

Escrever sobre as conquistas democráticas e revolucionárias de um processo de luta, nem sempre permite o reconhecimento das contradições e dos dilemas enfrentados pelos seus construtores. Tais contradições abrem caminhos que podem, ou não, serem opostos à meta fundamental que define o caminho na sua essência "revolucionária" ou "reformista".

O conhecimento aprofundado da realidade vivida pelo povo, desde as camadas mais pobres até as mais abonadas, detectando as variações intermédias que definem os estratos sociais pelas suas carências, ambições e propriedades dão, pelos registros da sua importância numérica e pelas funções sociais e econômicas que exercem, a magnitude das questões políticas que representam. Não basta, a quem analisa a população, classificar em termos gerais e tradicionais a dependência de uns, a capacidade de outros, a exploração da elite. Além da posição de cada estrato social dentro da escala de prestação de serviços, a remuneração pelo trabalhos, as propriedades adquiridas, assim como a escala do usofruto dos beneficios oferecidos pelo Estado e o acesso aos privilégios de classe dominante, que geram uma determinada consciência social, existe o peso cultural com que foram marcados os princípios morais e éticos pela história nacional e pela imposição de valores pela elite governante.

O livro clarificador da "História Agrária da Revolução Cubana" (Alameda Casa Editora, 2016), extraido da tese que Joana Salem Vasconcelos apresentou à FAPESP, indica, ainda na sua capa, "0s dilemas do socialismo na periferia". O leitor mergulha em um relato da história épica daquele povo que, liderado pelo grupo revolucionário que desceu a Sierra Maestra conduzido por Fidel Castro que derrotou a ditadura de Baptista apoiado pelos Estados Unidos, e transformou a pequena ilha caribenha explorada como colónia do grande império em uma nação socialista independente. Mas o relato não é apresentado como uma ficção de êxitos e vitórias sucessivas. Ao contrário, e aí está o seu maior valor, desvenda os dilemas enfrentados e debatidos árduamente pelos dirigentes revolucionários cubanos com o apoio de inúmeros intelectuais estrangeiros e nacionais que participavam de organismos internacionais como a CEPAL, o Banco Mundial e universidades de vários países.

Diante do cerco imperialista, - que impôs o "bloqueio" econômico e político internacional por quase 60 anos para impedir o desenvolvimento de Cuba - a tarefa de superar o subdesenvolvimento de um país periférico e criar as bases para uma estrutura socialista que extinguiu os privilégios dos mais ricos e garantiu à toda a população o direito à habitação, à alimentação, à saúde, aos níveis fundamentais do ensino escolar, ao emprego, foi possível graças à solidariedade do bloco de nações socialistas e aos que ultrapassavam a fiscalização imperialista e conseguiam levar o seu apoio ao povo cubano. O resultado está à vista, um país sem analfabetismo e com índices de proteção à saúde mais elevados que em muitos países capitalistas considerados ricos, com um serviço médico que tem ajudado muitos outros povos a enfrentarem carências dos seus sistemas ou as catástrofes causadas pelo clima.

Os problemas enfrentados por Cuba para superar os seus problemas de subdesenvolvimento, de país periférico em relação ao centro capitalista que domina o mercado e detém o poder financeiro e o militar, tem muita semelhança com a de todas as nações latino-americanas, inclusive o Brasil apesar do seu tamanho e de ter vivido experiências democráticas que o destacaram no conjunto internacional representado no G20, no BRICS, no MERCOSUL, na UNASUL, na CELAC, inspiraram a ONU na divulgação da Bolsa Família para o combate mundial à fome.

O que explica o retrocesso golpista que hoje é imposto pelo imperialismo no Brasil - através dos políticos e profissionais com elevados cargos públicos que assumiram a função subalterna de traidores da pátria e corruptos - foi a escolha de caminhos inseguros e dúbios nas alianças governamentais que não respeitaram os princípios éticos de um programa democrático e de independência nacional, que esteve na base das propostas de desenvolvimento social, econômico e político de todos os brasileiros. Foi dada atenção ao desenvolvimento material do país, ao seu crescimento financeiro, ao seu prestígio no sistema capitalista global, mas não ao povo brasileiro que deve ocupar a função motora do desenvolvimento e de proteção do patrimônio nacional.

Foram muitas as iniciativas de professores universitários e de outros níveis escolares, assim como de profissionais de outras carreiras (advogados, médicos, enfermeiros, engenheiros, cineastas, músicos, e tantas outras áreas do conhecimento científico e artistico) de levarem às populações que vivem à margem da cidadania formas de apoio para os incluirem na sociedade e abrirem caminhos para o desenvolvimento daqueles brasileiros que estavam esquecidos nos programas políticos. Podemos dizer que houve participação efetiva dos autores de tais iniciativas, mas não houve tempo para que os brasileiros mais desprovidos de recursos chegassem a participar da democratização anunciada. Faltaram políticas complementares para criar uma estrutura que fiscalizasse e criasse os caminhos para transformar os que estavam excluidos em trabalhadores qualificados para desenvolver a indústria e a agricultura modernas. O golpe cortou este caminho emancipador, e antes dele, a ausência de uma reforma das instituições do Estado que abolisse o carater burguês dominante e o poder da burocracia, impeditivos da implantação da democracia de maneira plena.

A abertura ao poder financeiro internacional e ao agro-negócio, com a entrega de cargos e funções governamentais a funcionários de instituições estrangeiras, foi um dos principais fatores de anulação das políticas progressistas que os partidos e militantes de esquerda levavam à prática sem o apoio institucional. A aceitação governamental de um poder judiciário como poder paralelo e de uma mídia igualmente independente do programa nacional, foram contradições que impediram que os eleitos pelo povo pudessem efetivamente corresponder à confiança que lhes foi confiada por mais de 50 milhões de eleitores e de milhões de jovens adolescentes que refletiam a inovadora cultura democrática que o Brasil respirou a partir de 2003.

A consciência cidadã não se forma a partir de discursos ou da leitura de cartilhas. Ao contrário do pensamento preconceituoso dos conservadores, o trabalhador e sua família são inteligentes e  estão atentos à comprovação das promessas com a acuidade de quem tem fome de um alimento bom para a sua alma. Não aceitam falsificações e deslealdades, não aceitam jogos políticos como os que são praticados nos encontros formais entre elites. Os que pensam poder manipular as grandes massas populares que se apresentam nas ruas para um convívio animado com bandeiras e músicas, devem prever que a atração da ação coletiva sobre as populações não se prende a um compromisso político mas sim uma integração social. Não se pode confundir "participação social" com "presença massiva". Basta ver que o carnaval e os grandes jogos de futebol são mais mobilizadores que os comícios.

A longa luta pela reforma agrária dirigida há mais de duas décadas pelo Movimento dos Sem Terra tem demonstrado a capacidade de formar consciências de cidadania levando-os a exercitar uma vida democrática que organiza várias formas de produção e escolas para superar o analfabetismo e desvendar a história do Brasil e da América Latina. O conhecimento tem início nas condições em que vivem (e sobrevivem às perseguições violentas) para depois abordarem os fatos da história nacional e regional passada que explicam porque enfrentam as condições de dificuldade existentes. Então podem compreender as histórias dos países vizinhos e dos povos irmãos, assim como o de outros continentes de civilizações mais antigas ou de países mais ricos. É um exemplo de formação a ser utilizado para outros setores ainda marginalizados no Brasil.

Ao pensarmos na construção de um programa político capaz de dar origem a uma proposta governamental de restauração da democracia nacional não podemos deixar de considerar tudo o que o Brasil produziu com características progressistas como eixo fundamental. E devemos rever os erros cometidos, como alertas para serem evitadas as portas abertas ao domínio imperial.

Zillah Branco

Bibliografia:

História Agrária da Revolução Cubana - Joana Salem Vasconcelos - Alameda Casa Editora,2016

Oficina das Fundações: Perseu Abramo, Maurício Grabois, Leonel Brizola-Alberto Pasqualini
www.anitagaribaldi.com.br.  /. www.grabois.org.br

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Virando a casaca?



O canal "Odisseia", dos Estados Unidos passou a divulgar no primeiro aniversário da morte de Fidel Castro - comemorado em todo o mundo pelos partidos e movimentos de esquerda - um filme de John Hedge, sobre o Comandante da Revolução Cubana . Ao contrário da sanha com que sempre procuraram demonstrar com injúrias o herói gigante que enfrentaram, sempre vencendo as perfídias do grande império ianque, o filme adoçou a linguagem com algum respeito pela figura histórica que "sempre  defendeu o povo cubano da fome e da miséria instaladas em Cuba por governantes corruptos e a máfia". Arranjaram uma maneira de deixar o imperialismo, que bloqueou o desenvolvimento de Cuba durante 60 anos, de fora.

Até Kissinger deu um depoimento tranquilo, sem salivar veneno como de hábito. E referem a boa opinião que alguns políticos norte-americanos tinham da capacidade de diálogo e de compreensão de Fidel, como foi o caso de Kennedy, (depois de colocar navios de guerra diante da Ilha para apoiar a invasão norte-americana à Baía dos Porcos e receber a visita do Presidente da URSS avisando que dotaria Cuba de mísseis para se defender),  em entrevista referiu Fidel como um homem que não temia a morte e lutava ao lado do povo com enorme coragem.

O filme nem mesmo deixou de mostrar o assassinato do presidente Kennedy, ocorrido em seguida à suspensão da invasão da Baía dos Porcos, dentro do território norte-americano. Ao ter que renunciar àquela invasão que destruiria a pequena ilha e sua grande revolução socialista, Kennedy pagou caro aos donos do império. O filme não entrou nas confusas  explicações, deixando para o bom entendedor tirar as suas ilações.

Enfim, depois de morto, Fidel foi reconhecido como tendo algumas boas qualidades pessoais e de bom governante pelos que o perseguiram tenazmente durante seis décadas (e tentaram centenas de vezes assassiná-lo) sem qualquer capacidade para impedir que, nas barbas dos Estados Unidos, sobrevivesse com êxito político imbatível uma sementeira revolucionária que sempre esteve presente junto aos movimentos de libertação da América Latina e África.

A habilidade dos defensores do sistema capitalista de adotarem uma posição contrária a que sempre tiveram de antagonismo com as características do socialismo na promoção do desenvolvimento social com condições igualitárias de vida - saúde, educação, habitação, transporte e emprego remunerado - para toda a população trabalhadora. Começam a chamar a divulgar agora algumas mudanças ocorridas no comportamento das suas elites imperiais. Estudam a maneira de aumentar as esmolas para que as populações possam sobreviver e consumir o seu mercado tóxico, dos alimentos às quinquilharias e aos grandes eventos anti-culturais, como se fosse um arremedo de socialismo sem revolução.

Em Portugal, referem o apoio da esquerda ao PS no Governo como uma "geringonça" inexplicável e, certamente, de pouca duração. Mas, passados dois anos em que foi atenuado o sacrifício da população miserabilizada pela austeridade imposta pela política da União Europeia e FMI para concentrar o capital nos Bancos privados, defendida a Caixa Geral de Depósitos sob a responsabilidade estatal, desenvolvidos processos que desvendaram desvios bilionários (que enriqueceram alguns banqueiros e políticos corruptos) resultante de depósitos pessoais que "desapareceram" devido ás convenientes falências bancárias, cresceu o prestígio do PS na Europa e tem atraído políticos dos grandes países para analisarem os bons efeitos da sua aliança com a esquerda que não exige cargos no Governo mas, sim, o respeito pela legislação trabalhista conquistada ao longo do século XX, e pelos protocolos de apoio democrático e social a todo o povo assinados com os organismos específicos da ONU para a Previdência Social.

Será que, diante da crise irreversível dos bancos, os defensores do capital resolveram abrir um pouquinho a mão para reduzir a distância quilométrica entre pobres e ricos? Surgem até discussões abertas para combater o consumismo que impede as classes médias de gerir com equilíbrio os seus parcos recursos.

Dá para acreditar que as elites criam vergonha, - apesar das longas listas de depositantes em paraísos fiscais para lesar o fisco - ou começam a se preocupar com o Juízo Final que ameaça o sistema capitalista e sua elite? Ou é apenas uma manobra para reduzir o excesso de "carrapatos" que aderiram como "especialistas tecnocratas" à elite e, com a recuperação dos "desvios" e outras falcatruas, a elite poderosa pode aumentar as esmolas sociais e reduzir o peso da austeridade?

Interessante a distância que a mídia internacional vai criando entre os impérios - liderado por Trump ou pela União Europeia - na defesa do sistema capitalista. Na Europa, que ainda recorda o horror da Segunda Guerra, preocupam-se em falar na humanidade sem descartar o capitalismo com o poder da elite, enquanto Trump recusa qualquer "desvio humanitarista". E foi o ministro das finanças de Portugal, pela capacidade de um governo PS apoiado pela esquerda, que foi eleito para liderar o Eurogrupo onde aplicará a sua tese de que "há uma disfunção na moeda única que prejudica os países do sul da Europa". Habilidade para manobrar com palavras caras não lhes falta.

De qualquer modo os combatentes revolucionários não acreditam que os direitos democráticos caem do céu e que os lobos de antes tornaram-se cordeirinhos. Este processo de "virar a casaca" não convence, pois permanecem os mesmos grandes senhores, mesmo sem gravata, agarrados ao poder globalizado.

Igualdade com os pobres nunca a elite poderá aceitar, pois são totalmente incompetentes para enfrentar a vida e a realidade dos comuns mortais sem os seus privilégios de classe e escravos domésticos.

Zillah Branco

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Respeitar o povo, para a direita, é uma questão "comezinha"



O Partido Socialista em Portugal, ao formar governo apoiado pela esquerda com a qual alcançou a maioria eleitoral em 2015, abriu um novo percurso ao país europeu tratado como um dos mais pobres do continente europeu. A elite de direita que comandava o governo desde a eleição de Mario Soares em 1976 quando aceitou as orientações de Kissinger, pelos Estados Unidos,  e da Democracia Social europeia, procurou apagar as conquistas da Revolução do 25 de Abril que permitira ao povo organizado na reforma agrária e nos sindicatos construir um caminho verdadeiramente democrático para toda a nação.

Em alternados governos do antigo PS e do PSD, Portugal foi diluindo o respeito pelas questões sociais que atendiam ao desenvolvimento humano e social da sua gente, e prestando vénias à elite europeia filiada ao imperialismo estadunidense com a criação da União Europeia. Tais vénias tornaram-se visíveis pelos gestos de política subserviente nas acções invasoras da NATO no Oriente Médio e Norte da Africa, além da participação na destruição da Jugoslávia, e no recurso a créditos vorazes do Banco Europeu para obras megalómanas que serviram interesses estrangeiros no "pobre" país enfeitado com recursos de luxo para receber turistas e favorecer mercados externos. Enfim, a conhecida fórmula da colonização que destrói as forças produtivas nacionais e importa os maus hábitos do consumismo das sociedades ricas vestidos de "modernidade desenvolvimentista".

Mas a história caminha com a dialética como parceira. As crueldades contra os dominados despertam as consciências éticas e valorizam as associações para a luta do povo unido. O pensamento progressista disseminou-se tanto pela via política de esquerda como pela noção de dignidade e solidariedade dos que não se satisfazem com riquezas supérfluas e costumam olhar com interesse a realidade social que os cerca. E o grande partido de direita em Portugal, os aliados PSD e CDS-PP ficou menor que a soma dos progressistas e perdeu a condição de governar. Dois anos são passados e o PSD não perde a "dor de cotovelo" nem adquire lucidez política. Empacou.

Segundo o porta-voz do PSD no Parlamento, deputado Hugo Soares, o Governo PS está refém da esquerda - PCP e BE - "para resolver apenas questões menores, comezinhas, de reformas conjunturais" e precisa do apoio do PSD para realizar "o mais importante para o país, que são as reformas estruturais". Traduzindo em "bom português", as questões "menores e comezinhas" dizem respeito à legislação trabalhista para repor salários e condições de carreira para a maioria dos trabalhadores a todos os níveis, ao apoio ao sistema de saúde nacional e ao do ensino público ameaçados pelos privilégios da privatização, ao desenvolvimento de condições de sobrevivência com dignidade aos pensionistas, ao fortalecimento da capacidade de sobrevivência da Caixa Geral de Depósitos sob gestão do Estado, ao reordenamento das florestas de modo a reduzir a destruição causada pelos incêndios, a redefinir as formas de segurança social para defender com competência as populações surpreendidas por acidentes climáticos e de origem criminosa, enfim a organizar o país para que a população seja respeitada e tenha garantia de proteção social.

O que o partido de direita, PSD, supõe ser "o mais importante, por referirem as reformas estruturais", tem a ver com o favorecimento aos lucros dos empresários nacionais e seus parceiros estrangeiros, ao reforço pelo Estado, dos capitais em bancos privados, à submissão incontestável aos (des)mandos da Troika que minou a soberania de Portugal e proporcionou o endividamento responsável pela austeridade que foi suportada pela população mais pobre com o desemprego, a emigração, a fome e a miséria em índices gravíssimos registados pelas organizações internacionais.

Até quando irá a capacidade do PS, no Governo de Portugal, de suportar a pressão dos políticos  de direita que estão na União Europeia e dentro de cada país membro, a favor da acumulação do capital e contra os interesses dos povos pelo desenvolvimento humano e nacional? A dúvida paira em relação à sobrevivência da humanidade e da natureza em todo o planeta.

Os processos de colonização hoje repetem-se, executados por elites nacionais de cada país onde a democracia tornou-se uma ficção. Não só ocorre no Brasil, que vai sendo oferecido em feira de saldos pelos traidores enquistados no Governo, mas em outros paises onde as conquistas populares foram esmagadas a mais tempo ou não chegaram a se instalarem como vitórias. É a moda da direita ocidental que usa um discurso democrático e movimenta as armas através de mercenários ou da NATO antecedida por uma falsa campanha em "defesa" do povo a ser vitimado. Puras falsidades a encobertarem perfídia, como Gandhi responsabilizava o Império Britânico, na luta pela independência da Índia ha quase 70 anos.

Foram aperfeiçoadas as formas de exploração e de escravidão, mas a perversidade das elites atingiu níveis que ultrapassam a normalidade do ser humano. Passou a ser mais que um mero egoísmo, ou uma simples alienação dos que vivem acima das dificuldades da vida, é um fenómeno patológico que requer atenção, médica como o gosto pela violência, pela visão do sofrimento alheio, pela extinção dos que os contrariam simplesmente por existirem. O ódio aos pobres e às minorias étnicas, o desprezo pelas questões sociais, revela-se na incapacidade da elite de distinguir povo de clientela, de confundir desenvolvimento nacional com aumento de capital.

Povos em luta, uni-vos!

Que a solidariedade internacionalista desvende as diferentes formas de ameaças que mascaram o novo colonialismo!

Zillah Branco

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Heróis/Bandidos




A história da humanidade passa por fases que acrescentam, vagarosamente expandidas, conquistas pessoais dos indivíduos que fortuitamente puderam conjugar a percepção sentimental e racional às condições de realização de actos de efeito social. Assim, foi fruto de uma época denominada do "romantismo", a figura de Robin Hood (que teria vivido no século XII e descrito como herói mítico na Inglaterra em meados do século XIX) como o esperto rebelde de uma classe poderosa que "roubava para dar aos pobres".

A comunicação social, ha quase dois séculos, divulga e promove este modelo, adaptando a sua imagem às modas mais prestigiadas nas sociedades modernas. Dessa maneira a cultura social do sistema capitalista mundial elogia a "coragem individual de quem contraria os princípios que fundamentam a estrutura jurídica institucional, para proteger os cidadãos marginalizados na sociedade".

É de notar o fomento do "individualismo" e da "protecção caridosa" dos "heróis defensores" dos que constituem os "marginais" da sociedade, ao contrário dos conceitos de "solidariedade humana e social" que justificam o "valor ético da luta colectiva em defesa dos direitos democráticos de uma classe social explorada por uma elite financeira politicamente poderosa".

Com as várias crises, próprias ao desenvolvimento do sistema capitalista como previsto por Marx e economistas de diversas tendências teóricas, e com as crescentes conquistas no âmbito da democracia e da justiça social alcançadas pelos trabalhadores unidos em sindicatos, no segundo milénio surgem alterações na forma de imposição do domínio imperialista no moderno processo de "colonização" de nações menos desenvolvidas por aquelas que participam da elite do poder financeiro e militar. Aos poucos desvenda-se a "utilidade do individualismo" para uma afirmação do poder elitista contra a realidade em que sobrevivem os povos.

Os habituais "golpes" para derrubar governos que, de alguma maneira defendem a soberania das suas nações frente às exigências dos "donos do mundo", dão-se através da corrupção de agentes destacados dentro da estrutura dos Estados e da formação mental de membros do sistema judicial, militar, policial. São os agentes golpistas que se sobrepõem aos seus colegas profissionais, com capacidade financeira e política vindas do exterior para anular critérios democráticos instituídos e adotarem medidas de exceção. Dessa forma, aparentemente legal, validam um efectivo golpe sobre os governantes que recusam as formas de corrupção oferecidas para atraiçoar a pátria. Evitam a violência das  anteriores acções armadas dirigidas pelas forças armadas do país visado.

Na América Latina, onde depois da chamada "década perdida" em que as economias nacionais foram destruídas pelo neo-liberalismo introduzido por Pinochet no Chile e pela acção do FMI nos demais países "em desenvolvimento", desencadeou-se um movimento de classe média com objectivo nacionalista mas também de unidade continental. Sob a liderança da Venezuela com Chaves e o exemplo de Cuba socialista, vários governos progressistas enfrentaram a oposição de direita para afirmar a soberania das suas nações perante o mercado e as pressões políticas e midiáticas imperiais, desenvolvendo um Estado Social para melhor distribuir a riqueza e combatendo as discriminações derivadas de um poder oligárquico escravista herdeiro do período colonialista no século XVI.

A fase das ditaduras militares que culminaram com o assassinato de Allende no Chile,  deixando um saldo de chacinas e prisões políticas em todos os países latino-americanos, transitou para o Oriente Médio e Africa em busca de petróleo e minérios de alto valor, na promoção das chamadas "Primaveras" resultante das invasões pela OTAN e consequentes assassínios de governantes que resistiram à corrupção. A tarefa destruidora ficou a cargo do "terrorismo" abastecido em armas por Israel e Estados Unidos, evitando comprometer directamente as Forças Armadas nacionais.

Combatido internacionalmente, o "terrorismo" (atribuído aos grupos com denominações árabes, treinamento e armas imperialistas) e fortalecida a participação social na América Latina, a pretexto de salvar o sistema capitalista das crises que minaram os governos ricos, voltaram-se contra os frágeis governos democráticos e progressistas com um novo modelo de golpe "legalizado" mediante farta corrupção. No Brasil Michel Temer e seus seguidores baixaram a cabeça a preços variáveis e minaram o sistema judicial e policial para destroçarem as instituições sociais e, por seu lado, agradarem aos poderes internacionais que os apoia, vendendo ao desbarato as riquezas nacionais.

Em outros países foram colocados, com apoio midiático (na função de ponta-de-lança dos invasores) expoentes milionários, tal como Trump nos Estados Unidos, cumpridores de ordens do poder financeiro mundial. Estes figurantes, se o movimento de massas manifesta a sua força reivindicativa, vestem a fantasia de Robin Hood e passam a distribuir esmolas aos pobres, carinhos às crianças, beijocas às velhinhas, caçarolas às "madames". E vendem a pátria às fatias na feira internacional. Circulam pelo mundo como caixeiros viajantes das industrias de armas, químicos e farmacêuticas, repetindo ameaças de um poder militar mítico com frases desconexas de baixo QI que desperta sorrisos dúbios nos interlocutores.

Na Europa, onde o Estado tem tradição milenar com feição social, a dança é outra. Levam à cadeia ex-governantes (como o ex-primeiro ministro Sócrates, em Portugal, e alguns outros destacados políticos acusados como corruptos com abuso de poder) e aplicam multas bilionárias ao banqueiro Salgado (do centenário Banco Espirito Santo) pelas fraudes fiscais e outras, em processos que não terminam nunca e dão matérias para manter a mídia ocupada em confundir os espectadores e leitores dos jornais e livros, enquanto desmoralizam, aos olhos do povo que exige justiça, as instituições judiciais, militares e policiais que resistem à dissolução moral que, entretanto, vai "comendo pela borda" políticos e agentes administrativos incautos.

De modo geral esta "virose corruptora" não respeita fronteiras. Basta ver a lista de ilustres personalidades que, para fugir ao fisco, colocam as suas reservas financeiras nos "paraísos fiscais", como reis e rainhas (do Império Britânico, por exemplo) que passam por respeitáveis e são sustentados pelos contribuintes que mal têm o salário mínimo para escapar à marginalidade social.

Os noticiários sobre crimes (que alternam as notícias dominantes dos grandes clubes de futebol e grandes "shows" de altos sons, cores e roupas caras, como se a realidade do dia a dia fosse assunto só para os pobres) revelam que os mais pobres vão para a cadeia e os ricos para as suas mansões com direito a múltiplas entrevistas (sempre em feição de Robin Hood) e promoção das suas pretensas qualidades, como vítimas do Estado que ameaça todo e qualquer bandido, como se um milionário pudesse ser um "qualquer". Herói-bandido vá lá.

Zillah Branco