quinta-feira, 30 de abril de 2015

Vitórias permanentes e derrotas pontuais



Os que lutaram, através de dezenas de anos, pelo fim da ditadura fascista em Portugal, enfrentando uma dura realidade de sacrifícios e perseguições políticas que impediram a fruição da vida familiar e profissional se houvesse liberdade social no país, certamente hoje se ressentem da "derrota" sofrida pela Revolução dos Cravos que floresceu em 1974.

Em menos de um ano, sob os Governos dirigidos por Vasco Gonçalves, foram abertos os caminhos iniciais de um processo democrático e de dignificação patriótica pela esquerda organizada: fim da colonização, reforma agrária, apoio aos pequenos e médios produtores, nacionalização da banca e das empresas fundamentais ao Estado, legislação em função dos direitos dos cidadãos, organização sindical, legislação trabalhista, escola pública, saúde pública, previdência social, salário mínimo e férias, que se compunham com a defesa ampla da liberdade de expressão, da defesa dos direitos de igualdade social entre homens e mulheres, proteção aos idosos e crianças, combate aos preconceitos raciais e de classe.

Durante este tempo o Partido Socialista, que se apresentara inicialmente como parceiro do PCP, bandeou-se para o combate ao comunismo sob a influência norte-americana e alemã (representadas por Kissinger e Helmut Kohl) e dividiu os militares que haviam dado o golpe fatal à ditadura marcelista. A direita sentiu-se fortalecida para sair das cinzas do fascismo, criou grupos terroristas como o ELP e outros com vestimentas multicoloridas de esquerda radical anti-comunista que serviram de ponta de lança para criar desordens e confundir a população recém saída de um longo período de repressão. À reboque do medo instilado naquele ambiente de liberdade, exigiram uma primeira eleição que os colocou à frente do Governo onde bloquearam as decisões democráticas.

As reformas começaram com a devolução das nacionalizações ao capital privado e estrangeiro, com o fim da reforma agrária e compensações aos proprietários do latifúndio absentista, com a redução do apoio aos serviços sociais. O Governo ficou entregue ao PS que passou a alternar os seus programas com o PSD que o sucedia, dando início na década de 80 à submissão ao projeto da União Europeia de centralizar o governo continental por meio da criação de um Banco Europeu e da moeda única, o Euro. Aos poucos a UE estendeu os seus tentáculos sobre as nações europeias substituindo os seus governos nacionais por verdadeiros "interventores" eleitos pelos povos agora conduzidos por uma imprensa anti-revolucionária, que despejou a cultura norte-americana disfarçada em europeia, para alimentar a fome de conhecimento de uma população que preparada para ser consumista podia comprar televisões e outros apetrechos da modernidade.

No início do século XXI desaparecera o ambiente de luta popular pelas conquistas de Abril, por um desenvolvimento nacional em que o povo era o principal sujeito, motor da produção nacional e da defesa da dignidade patriótica. Reduziu-se o espaço da liberdade com a imposição do modelo europeu de grandes superfícies de mercado e extensas estradas absolutamente inadequadas à vida nacional mas que favoreciam a entrada dos produtos e turistas vindos dos países ricos. O povo, este ficou à espera de algum emprego para os mais velhos, mandando os jovens para a emigração, vivendo nas velhas casas onde cuidam dos netos sem amparo social. Floresceram os agentes da prostituição internacional, do tráfico de drogas e da corrupção dos políticos com poder público. Sentiu-se o peso da derrota.

Os sociais-democratas de turno no governo, sendo eleitos com o apoio dos grupos económicos europeus e os órgãos de informação social orientados para selecionar temas de debate ou entrevistas com base no anti-comunismo ditado pelo Clube de Bildenberg onde são escolhidos os candidatos interventores na política nacional, passaram a esbanjar riquezas em obras faraónicas e a tolher o desenvolvimento de Portugal. O povo, levado pelo cabresto mediático e pelo medo de perder o emprego e a liberdade anunciada  em tempos de revolução, votou nos que vestiam a capa do socialismo.

O Estado foi subordinado aos apadrinhados dos interventores que, abdicando de pensar em português foram contratar assessores estrangeiros para ditar modelos de conhecimento da realidade e de condução ao enriquecimento de uma elite superior que bebe o saber junto ao Conselho da Europa e FMI. Começaram a venda ao desbarato do património nacional, inclusive as velhas construções de Lisboa e os recantos aprazíveis do Alentejo e Algarve, e a privatização dos serviços sociais. A soberania nacional foi oferecida como brinde aos assessores que, para serem contratados, o país pediu créditos que o conduziram à banca-rota. A história do BES, com todo o malabarismo para roubar os contribuintes, estendeu-se à outras instituições. Temos um ex-primeiro ministro preso por crimes de peculato e improbidade administrativa, mas os outros vestiram-se de defensores de Abril em ano de eleições.

A vitória da Revolução dos Cravos, no entanto, prossegue o seu curso histórico no mundo. Como todas as revoluções, desde a revolta de Espártaco, antes da Era Cristã, e depois a Revolução Francesa que se manteve por 15 anos, a Comuna de Paris que durou semanas, a Revolução Soviética que aguentou quase 80 anos, a da China, a do Vietnam, a de Cuba, todas semearam conquistas que alteraram a história mundial fazendo avançar a humanidade contra o poder de uma elite que tem o poder do capital. As revoluções não morrem, deixam as brasas sob as cinzas da destruição causada pela ambição capitalista. Uma lufada de ar livre reacende o movimento histórico com a sua força imbatível.

A Revolução de Abril deixou em Portugal o sentido da justiça social gravado na Constituição e nas leis sociais do trabalho e da segurança social que os interventores da União Europeia fazem tudo para enterrar. Poucos são os países que têm sindicatos da polícia e que o movimento sindical reune operários, professores, artistas, médicos, funcionários públicos, juízes, pescadores, trabalhadores rurais, enfermeiros e todas as categorias de trabalhadores unidos nas reivindicações. A força revolucionária de Abril está viva e recebe a solidariedade de outros povos que cultivaram as sementes de 1974. A dignificação do trabalho, a defesa patriótica, formou a mentalidade popular com os valores políticos de esquerda que sempre está ao lado dos que sofrem e lutam pela sobrevivência de uma sociedade justa.

O importante é perceber quem vestiu a pele do revolucionário como o lobo a do cordeiro. Tornou-se hábito falar em democracia como um modelo a ser aplicado sobre a sociedade capitalista que mantém a estrutura de exploração de uma elite privilegiada sobre os que trabalham. Os Estados Unidos, que lidera o poder imperialista, escolheu um negro para Presidente demonstrando a ausência de preconceitos para ganhar os votos da população mestiça que predomina no seu território e elevou. Nada mudou na sua política de invasões e destruição para espoliar os povos indefesos, a miséria invadiu as casa da classe média norte-americana e a revolta dos jovens foi liderada pelo terrorismo que a CIA espalhou como modelo nas sociedades árabes para quebrar a sua estabilidade mantida pelos princípios tradicionais.

Na comemoração do 25 de Abril no Parlamento Português, os partidos de direita louvaram a Revolução dos Cravos substituindo o sentimento impregnado pela participação do povo pela "inteligência e eficiência" que julgam ser os únicos que as têm. Típico complexo de superioridade de uma elite que está longe de conhecer a realidade do seu povo expressa pelos políticos de esquerda. Vestirão a pele revolucionária para quem não conhece a falta de ética e de patriotismo que procuram ocultar. "Cuidado com as imitações!"

Zillah Branco

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