terça-feira, 9 de agosto de 2011

A Era da Mentira



Este título é o do livro publicado recentemente pelo egípcio Elbaradei, conhecido diplomata e consultor jurídico na AIEA – Agência Internacional da Energia Atômica -, organismo das Nações Unidas criado com base no conceito de “´Átomos Pela Paz” sugerido por Eisenhower em 1953 quando disse: “Se existe um perigo no mundo, é um perigo partilhado por todos; e, da mesma forma… se existe esperança na mente de uma nação deveria ser partilhada por todos.”

Em 1970 foi elaborado o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares subscrito por 189 países até 2010 com a triste ausência de Israel, Paquistão e India e da desistência da Coreia do Norte que em 1994 assinou um Quadro Acordado apenas com os Estados Unidos.

Ao contrário dos objetivos com que a Agência foi criada, e do uso da diplomacia nuclear que traduzia um compromisso entre os signatários para promover a cooperação tecnológica para o uso da energia nuclear para fins pacíficos e para evitar o crescimento das armas nucleares, após a queda da URSS, cujo poder equilibrava o dos Estados Unidos, cresceu a instabilidade mundial com a proliferação de novas iniciativas de produção nuclear, a AIEA passou a ser pressionada pelos Estados Unidos a denunciar as emergentes ambições nucleares como motivos para serem desencadeadas invasões militares. Os serviços secretos ocidentais foram infiltrados na UNISCOM, - nova Comissão Especial das Nações Unidas que subsidiava diretamente o Conselho de Segurança - e na própria AIEA com a entrada de novos técnicos, o que propiciou o surgimento de falsas informações sobre a preparação de armas biológicas no Iraque logo utilizadas pelos Governos dos Estados Unidos e do Reino Unido como pretexto para desencadear a Guerra do Golfo.

Elbaradei revela grande preocupação em respeitar a cultura e as religiões do povo iraquiano e critica duramente o comportamento tipo cowboy adotado por técnicos norte-americanos das Agências. O mesmo não ocorre ao analisar o trabalho feito pela AEIA na Coreia do Norte em 1992, referindo com sobranceria a falta de conforto em aviões, carros e hotéis, visivelmente pobres e o poder do “Grande Lider” presente em todas os encontros oficiais. Mas em ambos os casos, mostra com riqueza de referências factuais a manipulação imposta pelo governo norte-americano sobre os trabalhos técnicos das agências, inclusive citando frases de Condoleezza Rice que declarou: “a Carta da ONU é baseada no papel primordial e na responsabilidade dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança. Como sabe, a segurança dos Estados Unidos está ameaçada e, portanto, somos livres de tomar quaisquer medidas que consideremos necessárias para proteger a nossa segurança”. Baradei comenta: “Dei por mim grato por ela ter parado antes de dizer que a ONU é o Conselho de Segurança, e o Conselho de Segurança são os Estados Unidos”. A referência que faz ao Vice-Presidente Dick Chenney é breve e conclusiva: “Ele estava sentado atrás da sua secretária, e não perdeu tempo com conversa de circunstância. Tinha uma mensagem direta e simples para transmitir: “Os Estados Unidos estão preparados para trabalhar com os inspetores das Nações Unidas, mas também estão prontos para desacreditar os inspetores, com vista a desarmar o Iraque”.

É difícil para um cidadão comum imaginar a prepotência e a falta de respeito que um técnico do mais elevado nível internacional, se vê obrigado a suportar de políticos grosseiros que falam em nome do imperialismo. O nome e prestígio institucional parecem contar mais que a dignidade humana que é o grande valor de quem não tem riquezas materiais. E esta é a distância que separa os povos em luta pela afirmação nacional e os direitos democráticos dos poderosos imperiais. Talvez Baradei tenha chegado a esta conclusão ao juntar-se ao seu povo, no Egito, no início de 2011 para derrubar o regime autoritário de Mubarak.

É interessante notar que “a era da mentira” foi instaurada pelo imperialismo quando o socialismo foi implodido na União Soviética. E o nível dos governantes norte-americanos baixou vergonhosamente desrespeitando em primeiro lugar o seu próprio povo e a história da pátria que, lamentavelmente, representa perante o mundo. Isto explica a farsa da campanha de Obama construída com os maiores recursos técnicos e científicos da publicidade para iludir os democratas de todo o planeta, mas sobretudo o jovem senador negro (e os que o apoiaram) que acreditou que um Presidente norte-americano estará acima das forças imperiais. Talvez ele também, descubra que a dignidade de cidadão vale mais que a figura institucional que o império esvaziou e enlameou sem qualquer respeito humano ou patriótico.

E as mentiras continuam, para abrir caminho às guerras. Agora é contra a Líbia e, para distrair a comunidade internacional que estava preocupada com a chacina provocada no norte da África, apresentam a grande cena do assassinato de Bin Laden com requintes de terrorismo nunca vistos. Para não terem em mãos um líder, matam-no mesmo desarmado. Para não ficarem com um cadáver comprometedor, atiram-no no mar. Que mar encontraram no Paquistão ou no Afganistão? Mentiras, de todo o tipo.
                                                          

 (publicado no Vermelho, 2011)

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