quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Foco mundial de corrupção nos EUA

10/08/2011

A nação norte-americana guardou, da história pioneira do seu povo, o “título de pátria da democracia” e a “estátua da liberdade” no seu porto de entrada. 

Alguns dos seus grandes escritores – como Haward Fast e Irving Stone, traduzidos no Brasil – revelaram desde a década de 1930 a sua preocupação com o tipo de sociedade que se formava a partir de uma elite dominante oportunista, sem escrúpulos, que abandonava os velhos princípios de cidadania e de integridade individual, além dos conceitos de responsabilidade social e honra patriótica, para defender a sua desmedida e egoísta ambição de lucro pessoal.

Os que leram aqueles autores sofreram solidariamente com os valorosos norte-americanos que recordavam o exemplo dos antepassados pioneiros que construíram com sacrifício os primeiros acampamentos em uma terra desconhecida para onde fugiram das perseguições religiosas e da falta de condições de trabalho na velha Inglaterra. Lembravam o heroísmo de alguns na Guerra de Independência que livrou a nova nação do jugo colonial imposto pela Europa, e os primeiros profissionais juristas, engenheiros ou médicos, que sem títulos universitários adquiriram auto-formação para lançar as melhores sementes da jovem pátria democrática e moderna.

Lamentavelmente os valorosos norte-americanos foram vencidos pela elite que usou como arma cultural a sua esperteza de bandidos sem lei e sem escrúpulos e liquidou os indígenas, escravizou os africanos, humilhou os homens e mulheres brancos que pretenderam manter a dignidade humana acima do lucro material e do poder das armas assassinas. Em pleno século 21 a crise do sistema capitalista global desvenda a triste realidade do “império norte-americano dirigido por uma elite, verdadeira corja de bandidos inescrupulosos, que faz guerras de conquista em países menos desenvolvidos para roubar-lhes as riquezas naturais e impedir a concorrência comercial, utiliza instituições internacionais – Otan, Banco Mundial, FMI – para falsear um apoio mundial às suas invasões, chacinas, sequestros, destruição de economias em desenvolvimento, e despreza o próprio povo norte-americano com medidas financeiras que tanto servem para corromper os mais fracos como para empobrecer os que confiam no Estado que foi transformado em instrumento de poder privado da gangue elitista”.

O que eu afirmo aqui, muitos intelectuais norte-americanos têm divulgado em livros – como por exemplo o Premio Nobel de Economia Joseph Stiglitz e outros – e em filmes – como “Trabalho Interno” de Charles Ferguson ou “Captalismo: uma história de amor” de Michel More. Nasce um grupo de bons profissionais que põem em risco a própria condição e mesmo a vida para se tornarem militantes do conceito honesto de pátria democrática e de povo livre no combate à degenerescência do sistema de poder que usurpou o comando dos Estados Unidos transformando-o em arma imperialista. As adesões se multiplicam em todo o mundo a esta militância saneadora do sistema capitalista. Acreditou-se que Obama teria capacidade de liderar esta transformação dentro do Governo dos Estados Unidos, mas ele não teve coragem para tal heroísmo, empalideceu e fez um discurso imperialista ao receber o Prêmio Nobel da Paz, assumindo o papel de traidor da humanidade militante da paz, da dignidade humana e do desenvolvimento independente das nações.
Traduzindo a linguagem financeira

O livro de Stiglitz “O mundo em queda livre – os Estados Unidos, o mercado livre e o naufrágio da economia mundial /Companhia das Letras, 2010” explica com clareza popular as fraudes cometidas sistematicamente pelos bancos e instituições financeiras (com conivência de Banco Centrais e governantes) com o jogo dos empréstimos, transações de hipotecas, venda de produtos financeiros que são reconhecidas, por eles próprios, como lixo tóxico. As consequências comprovadas nos Estados Unidos é o empobrecimento de uma classe média que investe as suas economias na compra de habitações, e, comprovadas nos países em desenvolvimento que empobrecem ao seguirem as receitas fraudadas do FMI e do Banco Mundial para cortarem as despesas sociais para compensar os erros dos bancos na gestão da riqueza nacional. Um caso de polícia - se o Estado fosse o instrumento de desenvolvimento nacional e dos cidadãos.

Internacionalmente os EU prosseguem a velha política colonialista, agora modernizada com o modelo imperialista, invadindo os países pobres para destruir a sua economia e promover conflitos internos - os países da Ásia que há 190 anos produzia 60% do PIB mundial e hoje não passa de 18%, a África com as suas populações a morrerem de fome, o Afganistão e o Iraque destruídos, os bombardeios contra o povo Líbio, a América Latina que só agora liberta-se do cerco imperial e entra no caminho da independência elegendo governos populares que fortalecem o seu desenvolvimento. Um caso de revolução, se os povos recusarem a submissão ao comando das elites poderosas.

Stiglitz, defensor do sistema capitalista condena o modelo capitalista dos Estados Unidos e explica como válida a oposição histórica dos defensores do socialismo contra o sistema capitalista. Não se trata de discutir aqui as razões ideológicas que fundamentam os que militam por melhores condições de vida no planeta inspirados na meta do socialismo, mas sim de reconhecer onde estão os usurpadores de um poder nacional e internacional. Exige-se que, necessariamente, o sistema válido deverá corresponder aos valores éticos, democráticos, de respeito humano, sem preconceitos, sem discriminações. Diante de uma visão humanista apenas, o modelo capitalista norte-americano corresponde à hipocrisia de uma elite sem dignidade que sacrifica a vida da humanidade como fazem os criminosos que ambicionam o maior poder.

Quando nos Estados Unidos um juiz pergunta ao banqueiro “se ele vendeu lixo tóxico ao seu cliente como se fosse uma forma para enriquecimento mas que o levou a uma falência prevista, e ele responde que sim”, toda a sociedade fica enlameada pela aceitação sem punição da convivência com tal bandido. Pior ainda quando o Governo perdoa e concede um resgate para restaurar o poder do ladrão. É um ato de vandalismo com a riqueza nacional, com as instituições de justiça e de todo o Estado, e um assalto aos direitos dos cidadãos. Um crime imperdoável que mancha a história do país e fica como mau exemplo cultural para toda a humanidade.

Quando o Governo dos Estados Unidos confessa que desencadeou a guerra contra o Iraque porque acreditou na falsa informação de que aquele país preparava-se para uma guerra biológica, ocultando a verdadeira causa que era a ambição do controle da produção de petróleo, a sociedade planetária sente que não foi capaz de impedir mais um grande crime contra a humanidade por ter confiado em um Governo que mente para o seu povo e para o mundo inteiro, e mancha a história global com a sua perversidade execrável que deve ser banida.

As teorias sobre o mercado livre, que apregoam a desregulamentação da economia e a privatização das empresas fundamentais de uma sociedade independente, para reduzir a capacidade de um Estado dos cidadãos de manter a justiça social e garantir o desenvolvimento de toda a população e permitir que uma elite irresponsável e criminosa trace o rumo nacional, serviram de máscara intelectual para deformar a cultura globalizada. A função das instituições criadas ao longo da história humana – do Estado para organizar a sociedade e garantir os direitos iguais da população e dos Bancos criados para fazer depósitos financeiros, facilitar transações e propiciar empréstimos de acordo com as estratégias de desenvolvimento traçadas pelos governos democráticos – estas funções foram desvirtuadas pelas elites que usurparam o poder democrático e passaram a servir como instrumento de poder privado que enriquece com a miséria dos povos e com a escravização dos trabalhadores.

Traduzindo a confusão que os economistas (que ainda confundem economia com finanças) apregoam pela midia e até nas escolas universitárias, enquanto um pouco por todo o mundo cresce a exigência dos povos pela transformação do Estado (que sempre foi instrumento de dominação da elite) em Estado Cidadão, portanto democrático, nos Estados Unidos a democracia é poesia e ficção e o poder é comandado explicitamente pela elite dominante que prioriza os seus interesses e a maior ganância por lucros que já se viu no planeta. Em nome desta sede de poder e riqueza inventam métodos de espoliar o seu próprio povo com mentiras refinadas pela esperteza financeira que corrompe os políticos, os professores, e quem quiser vender a alma por um prêmio em dólares, e lutam no parlamento para que os ricos não paguem impostos enquanto os pobres apertam mais os cintos. O conceito de cidadania não existe naquela sociedade desigual e desumana. Como se não bastasse o sacrifício de milhos de famílias norte-americanas que perdem os seus empregos, as suas casas, o nível de vida de classe média já conquistado, a elite imperial comanda invasões de países que defendem a sua independência, mata e oprime povos que lutam pelo próprio desenvolvimento.

O erro está no modelo ou no sistema?
Stiglitz preocupa-se em assegurar que “o modelo capitalista norte-americano “tem uma forma licenciosa de ação”, exerce “o fundamentalismo do mercado”, a “falta de controle”, “é falho” e “fracassou”. Ele acredita que todos esses erros “minaram a credibilidade no sistema capitalista e na democracia”, mas que poderiam ser corrigidos.

Ao mesmo tempo, o autor chama a atenção para o “modelo chinês” que tem investido em vários países da África na construção de infra-estruturas que “promove o desenvolvimento com a abertura de novas estradas que ligam cidades antes isoladas, criando uma nova geografia económica, propiciando o crescimento económico, como o comércio, o desenvolvimento de recursos, a criação de empresas e a agricultura”. Dessa forma, “a China investiu mais que a soma dos recursos aplicados pelo Banco Mundial e o Banco Africano juntos”.

Stiglitz reconhece que tais fatos permitem aos que condenam o capitalismo como um “ sistema que beneficia a elite em prejuízo do povo em geral”, que defendam com bons e comprovados argumentos dados pela realidade histórica, o sistema socialista.

Pessoalmente penso, como dizem os chineses, que o “modelo ocidental de capitalismo não deu certo, e que a revolução comunista na China ensinou a administrar com equilíbrio o desenvolvimento gradual do país de modo a extinguir a miséria de 400 milhões de pessoas, criar infra-estruturas que asseguram o desenvolvimento geral nacional, introduzindo sistemas de educação, saúde, esporte e cultura de primeiro mundo e levando uma nação que saiu da condição feudal para competir e vencer os países capitalistas que enriqueceram com o colonialismo e o imperialismo.

A história dos Estados Unidos demonstra que, apesar do grande esforço dos bons norte-americanos e inclusive de Presidentes como Roosevelt combaterem os malefícios do sistema capitalista – monopólios, corrupção, mentiras políticas, escravidão, opressão sobre outros povos, chacinas como as causadas pela bomba atómica, e tantos outros crimes contra a humanidade dentro e fora do país, - o sistema capitalista é dirigido por uma elite mais forte que o Governo. O mandato de Obama comprova este fato e o assassinato de Kennedy e de Lincoln registraram esta verdade.

O mundo globalizado, com esta crise do sistema capitalista e com a vitória da estratégia socialista de investir no desenvolvimento de toda a sociedade e não apenas no crescimento da riqueza monopolizada pelas elites, abre um novo caminho onde os preconceitos não têm lugar e as mentiras históricas são crimes contra a humanidade. Será necessário falar e escrever com clareza para que a população que mergulha a vida na realidade possa contribuir com a sua sabedoria e para que as elites que têm privilégios culturais não utilizem falsas teorias para dar crédito, como esmola, enganando a iludida classe média que pretende evoluir por si sem a solidariedade com todo o povo e a regulação institucional fiscalizada pelo Estado.


* Publicado no Vermelho

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