quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A gestão da pobreza


Por Zillah Branco*, para o Vermelho



Em uma voo de Lisboa ao Brasil conheci alguns jovens que comemoravam o final de um curso de Administração com uma viagem pelo interior do território brasileiro. 


Perguntaram- me sobre lugares fora dos habituais circuitos turísticos ( que já conheciam por vídeos e tv). Falei sobre as diferenças acentuadas entre as regiões devido à fixação de imigrantes de várias nações europeias que marcaram com as suas culturas o tipo de cidades e de produção que compõem uma colcha de retalhos muito interessante.

"Será que isto determina também uma variação no tipo de administração que praticam? ", perguntaram. recomende-lhes a leitura de trabalhos feitos por especialistas em Geografia Humana e o grande mestre nessa matéria que foi Milton Santos, autor de "A Natureza do Espaço" (1996).

A conversa continuou dexando-me encantada com uma juventude que fez um curso que habitualmente dá maior enfase à gestão empresarial, tendo em vista o sucesso no mercado, com o ideal do "lucro", mas que revelava interesse pela administração pública adequada à realidade social das regiões.

Sugeri que recolhessem dados para um estudo que nunca encontrei divulgado: "A gestão da pobreza". O interior do Brasil oferecia (hoje alterados pela política "Fome Zero" criada pelo governo Lula em 2003) fartos exemplos de populações que, de tão miseráveis viviam marginalizados das instituições sociais e do sistema de trabalho no país. Como conseguem sobreviver estes milhões de brasileiros, que muitos deles nem o registo de nascimento têm? Como gerem os recursos mínimos que conseguem obter? Os jovens comentaram que um projeto sobre esta realidade daria uma tese de doutoramento muito polêmica.

Lembrei-me do aprendizado que fiz, tanto no Brasil, como no Chile, em Portugal e em Cabo Verde, observando a capacidade de pessoas com diferentes graus de pobreza garantirem um alimento essencial à sobrevivência. A capacidade de organização e gestão de recursos escassos exige inteligência e firmeza especiais. Em Cabo Verde conheci uma família que à entrada de uma casa paupérrima, mantinha um verdadeiro jardim em vasos de lata que impressionava pela beleza verde onda a falta de água impede a existência de canalização. Demonstrei a minha surpreza perguntando como faziam aquele "milagre"em um país sem rios. Explicaram que toda a família quando lavava as mãos ou os pratos e panelas iam distribuindo a água pelos vasos de modo a manter o verde.

Os exemplos são muitos nas zonas rurais de Portugal, contados como situações do passado que os programas de austeridade (trazidos pela Troika e seu comparsa FMI) trouxeram para hoje. No Alentejo, antes da Revolução dos Cravos, era comum haver para a sopa, servida à família de trabalhadores agrícolas, apenas uma sardinha ou um chouriço que a mãe partia para que todos tivessem um naco coroando o prato de pão que recebia o caldo do cozimento daquele petisco com alho ou ervas. Outra demonstração de planeamento vitorioso é na Ilha da Madeira e regiões do centro e norte de Portugal, a formação de terrenos de cultivo, em solo empedrado, com a cobertura de terra transportada em sacos às costas por antigos agricultores. 

No sul do Chile aprendi com os trabalhadores rurais mapuches a enganar a fome tomando chicha de maçã com um pouco de farinha de trigo torrada misturada. Fez-me recordar um hábito de índios guarani do litoral de São Paulo, no Brasil, que quando criança visitávamos com meus pais, que nos ofereciam café com farinha de mandioca granulada ( manema) misturada, para alimentar como o pão que não tinham.

Há uma infinidade de soluções para amenizar a fome que, certamente, os pobres de todo o mundo poderiam ensinar como sobreviver sem os recursos que os mais ricos desperdiçam sem qualquer sensibilidade humana. O desprezo soberano que leva muita gente a repudiar as soluções inteligentes de populações pobres para poderem sobreviver é o resultado da discriminação social que está na base da cultura das elites. Não lhes basta a possibilidade de comer e viver melhor, precisam demonstrar que podem destruir ou deitar no lixo o que poderia servir a outros. A ideia de solidariedade é, neste caso, o contrário da sua formação de administradores porque reduz o lucro e, portanto o seu poder.

Os programas da Troika/FMI aplicados na Grécia e Portugal não deram certo (como foi publicamente reconhecido pelos seus autores quando crescem as manifestações populares) e os Ministros das Finanças que executarm os erros pedem demissão e são promovidos a conselheiros em altos cargos. Em boa verdade os mandantes da Troika/FMI mentem ao referirem o próprio erro, pois voltam a fazer um percurso alternativo para destruir a capacidade produtiva dos países mais pobres com a esperança que a população desista de lutar contra esta forma de colonização e esbulho dos recursos financeiros dos contribuintes. Seguem o modelo incompetente dos administradores e gestores que desprezam a inteligência, a criatividade e a dignidade dos que consideram a vida humana como um valor muito maior do que a riqueza e o poder dos tecnocratas da política que vendem a Pátria.

*Zillah Branco é cientista social, militante comunista e colaboradora do Vermelho

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