quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Os modelos do capitalismo e a destruição das nações



A criação de "modelos" - visuais e mentais - definidos pelos critérios impostos pela elite dominante,  pretende uniformizar a população tornando-a mais facilmente controlável. É a "formatação" imprescindível para manter uma organização do poder, autoritária e inflexível, transmitida pelos meios sociais de informação e por variadas formas de publicidade.
A lógica do sistema capitalista, especialmente na sua fase de imposição do mercado a nível global, é intrínseca à acumulação centralizada do capital nas mãos de uma elite que exerce um poder discriminatório sobre os povos. Esta dinâmica foi despoletada na expansão colonialista com a descoberta do Terceiro Mundo, dando início à destruição progressiva de civilizações indígenas e seguiu, mesmo nos países colonizadores onde as antigas culturas ficaram marcadas pela pobreza e o atraso por falta de acesso à comunicação e desenvolvimento do conhecimento intelectual fechado nos cofres dos "escolhidos" pelo poder.

A estrutura administrativa deste tipo de poder define a sociedade como uma estratificação de acordo com a qualificação econômica dos que tiveram oportunidade de formação profissional e adquiriram conhecimento moderno e comportamento social consideradas "superiores". Os privilegiados atingem graus de chefia com autonomia para classificarem os seus subalternos, enquadrados de acordo com os seus próprios critérios eivados de preconceitos e má fé.
As instituições que dinamizam o Estado, formadas de cima para baixo reproduzem o "modelo" do poder central e garantem a sua permanência executando as "ordens" emitidas pelos seus superiores mesmo que contrárias aos conceitos específicos da matéria pela qual é responsável profissionalmente. Aqueles que se rebelarem apresentando argumentos alternativos às decisões superiores serão afastados da escala de poder administrativo ou mesmo demitidos.

O medo é o móbil do comportamento funcional para alcançar e conservar o emprego com os benefícios oferecidos pelas instituições do Estado e empresas. Em função do medo proliferam as formas de oportunismo que anulam os conceitos éticos básicos no comportamento humanista e independente que caracterizam a formação de personalidades criativas e solidárias com o desenvolvimento coletivo da sociedade, contrária às ambições individualistas e mesquinhas dependentes das estreitas metas oferecidas pelo poder de uma elite.

O sistema capitalista, hoje predominante em todo o planeta, nasceu pela via financeira que passou a servir as famílias da nobreza que dominavam nações, feudos e condados herdeiros da situação medieval. Financiaram confrontos, guerras de expansão territorial, intrigas palacianas, crimes que eliminam opositores, enquanto consolidavam as primeiras instituições que constituíam o eixo dos futuros Estados republicanos. As famílias reais passaram a coadjuvantes daqueles que haviam sido os seus antigos assessores e investidores.

Foram abandonados os punhos de renda e a roupagem pouco prática para os novos políticos e executivos que assumiram os trabalhos que o poder capitalista exige aos  executivos do sistema. Conservaram a gravata distinguindo-se dos trabalhadores mais rudes, pertencentes a uma classe que apenas recebe para sobreviver. Entre as duas classes com condições de vida e interesses opostos, permaneceu uma classe média que tem capacidade de adquirir formação profissional e de consumir mantendo a dinâmica do mercado e recebendo benefícios do Estado como cidadãos. A perspectiva de futuro a faz adotar os modelos da classe dominante mesmo que construídos com matéria prima e técnica de qualidade inferior. São escolhidos pelo crivo político do alto poder tanto pelo talento de que são dotados como pela feição maleável com que aceitam o autoritarismo das instituições. Relativizam a ética esquecendo a riqueza da cultura e do humanismo das suas origens de classe trabalhadora diante do brilho e do conforto da modernidade com seus múltiplos privilégios.

A luta pela democracia está em curso

Disse Nelson Mandela, no discurso de posse na presidência da República na África do Sul em 1994, depois de passar 27 anos prisioneiro por liderar o movimento contra o appartheid : "Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é que somos poderosos além de qualquer medida. É a nossa luz, não as nossas trevas, o que mais nos apavora. Nós nos perguntamos: Quem sou eu para ser Brilhante, Maravilhoso, Talentoso e Fabuloso?
Na realidade, quem é você para não ser? Você é filho do Universo. Se fazer pequeno não ajuda o mundo. Não há iluminação em se encolher, para que os outros não se sintam inseguros quando estão perto de você. Nascemos para manifestar a glória do Universo que está dentro de nós. Não está apenas em um de nós: está em todos nós. E conforme deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo. E conforme nos libertamos do nosso medo, nossa presença, automaticamente, libera os outros".

Pontualmente vemos hoje as conquistas de um longo processo revolucionário para efetivar um Estado democrático apesar do poder capitalista controlar financeiramente as relações políticas em todo o planeta. Referimos líderes que caminharam não por uma ascensão pessoal, mas do coletivo humano que representam. Fidel Castro e seus companheiros, reviveram a liderança de Martí e sustentam, por mais de meio século, as conquistas de Cuba revolucionária apesar da permanente perseguição do vizinho império, Hugo Chavez introduziu na América Latina a luta traçada antes por Simon Bolívar e hoje a Alba, UNASUL e CELAC fortalecem a unificação das nações que carregam o peso da antiga colonização. Amilcar Cabral conseguiu criar um Estado Popular dentro de uma nação colonizada e venceu a guerra contra a ditadura de Salazar. São muitos os líderes revolucionários que abrem caminho para que os povos sigam o processo natural de desenvolvimento do espaço e da história dos seus territórios. A barreira a ser vencida é o modelo hegemônico do capitalismo criado para escravizar a humanidade. Modelo político, cultural, mental, comercial, que transforma as sociedades "enquadradas"  em uma camisa de força que anula a criatividade e a participação dos povos.

O Brasil elegeu Lula, antigo metalúrgico que se construiu como grande estadista na defesa de uma real democracia dentro de um território minado pelo poder imperialista que ainda tenta anular os esforços revolucionários do Governo eleito. Dilma impôs o respeito à Presidenta, e às mulheres brasileiras, para prosseguir o caminho aberto por Lula. No seu governo uma conquista notável, entre muitas que consolidam a democracia, é simbolizada por um feito inédito: primeiro médico indígena formado na UNB (Universidade Nacional de Brasília) que trabalhará para seu povo - Josinaldo da Silva, representante da tribo Atikum, no sertão pernambucano, é o símbolo de um projeto de diversidade. "Meu objetivo é voltar para a aldeia tão logo termine a formação. É um acordo que faz parte do convênio da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), mas é mais do que isso, é um compromisso meu com o meu povo, com os Atikum, minha origem e minha razão de estudar. O índio é o que pode cuidar melhor da saúde do índio, compreende os costumes, conhece a tradição. Um índio tem todas as condições de cuidar de uma tribo, reunindo o saber da universidade com o saber tradicional. É esse o meu objetivo."

Europa colonizada

Curiosamente, enquanto os povos do Terceiro Mundo que lutam para implantar uma verdadeira democracia e aos poucos vão cortando as amarras lançadas pelo sistema colonialista que desde o século XVI afogou as suas características culturais e destruiu os seus recursos de desenvolvimento nacional, a moderna exploração imperialista voltou-se para antigas nações europeias colonizadoras. A criação da Troika pela União Européia e o FMI exerce hoje um poder que anula a existência de Governos nacionais e traça os programas de Estados, que eram independentes há dezenas de séculos, como se fossem suas colônias. Isto já ocorre em Portugal, Espanha e Grécia, avança na Irlanda e Itália, e invade com maior ou menor visibilidade todos os demais países do Velho Continente enquanto dilacera as nações do Oriente Médio. O valor cultural e humano das nações europeias hoje sofre o mesmo aniquilamento que as civilizações na África, nas Américas, no Oriente Médio e na Ásia imposto pela invasão colonial. Para além de ser um crime hediondo contra a humanidade é o retorno da barbárie fascista.

As grandes empresas farmacêuticas multinacionais substituíram o uso de cobaias nos laboratórios dos países ricos pelos testes feitos com pessoas que vivem na miséria a quem pagam uns tostões e, no melhor dos casos, dão uma "compensação" financeira à família quando a "cobaia humana" morre em consequência dos testes. Isto foi denunciado em filme (TVI em Portugal - programa Observatório) com entrevistas na Índia onde cresce a estatística de mortes por responsabilidade de laboratórios norte-americanos, franceses, suíços e alemães.

O colonialismo britânico, ao dominar aquela civilização milenar, abriu as portas à desagregação nacional e foi expulso em 1947 pelo movimento conduzido por Ghandi, deixando o território minado para a infiltração imperialista da qual faz parte. Este é um dos muitos exemplos que explicam as chacinas e os projetos "errados" aplicados pelo Banco Mundial que levou povos inteiros à fome na África.

Hoje os "projetos de desenvolvimento econômicos e organização de supostos Estados Sociais" são aplicados impunemente pelo FMI e a Troika nos paises mais pobres da Europa (como anteriormente em todo o Terceiro Mundo) e têm o desplante de reconhecerem que "não deu certo, por falhas técnicas dos governos subalternos de cada nação", e inventam outro programa. Portugal está aberto ao saque estabelecido pelo sistema de privatizações dos serviços públicos, especialmente saúde e educação, e a liquidação de empresas valiosas como os estaleiros de Viana do Castelo. O mundo todo está servindo de "cobaia" para os cérebros doentios de uma elite que só visa lucros financeiros imediatos para fortalecer o sistema bancário que lhes pertence.

Zillah Branco




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