domingo, 15 de dezembro de 2013

União para organizar a resistência

Portal Vermelho, 15/12/13


É urgente a união para resistir. Para isto as divisões formais de sigla partidária, religião, grupo, tribo e as pequenas vaidades, oportunismos e preconceitos, que disfarçam a alienação dos que "preferem ficar em cima do muro", precisam ser omitidas.

Por Zillah Branco*


Os especialistas das múltiplas áreas do conhecimento que vêm sendo abertas pela humanidade (há bem mais que um milênio), para a construção de um mundo melhor onde o ser humano e a natureza sejam respeitados - filósofos, artistas, missionários religiosos, militantes políticos, e sociais, médicos, juristas, economistas, sociólogos, professores, pais e mães, camponeses, pescadores e trabalhadores em geral - têm sido mantidos isolados uns dos outros por um modelo de sociedade traçado sempre de acordo com os interesses mesquinhos de um restrito grupo que manobra o poder. 

A História registrada desde séculos antes da Era Cristã, acumula provas de que este caminho sempre foi (e continua a ser) seguido através dos tempos para manter uma elite dominante que escraviza toda a humanidade - dividida em categorias que se iludem com diferentes níveis de compensação e conforto entendidos como "formas de poder", que asseguram a divisão entre a enorme massa de explorados. As categorias ilusórias têm por base a vaidade pessoal, os preconceitos, o acesso à formação intelectual, a disponibilidade de recursos materiais que alimentam a estrutura organizada da sociedade em subpoderes onde se repete a dicotomia do explorador e o explorado. São as empresas, os títulos profissionais, a publicidade dos melhores ou dos mais belos, as hierarquias e as propriedades, os velhos e históricos conflitos entre tribos, grupos e clubes, religiões e filosofias, etnias, gêneros, opções de vida, muros que separam famílias e amigos, sempre manipulados com o único fim de dividir para dominar.

O modelo de dominação, visto no seu simples esqueleto, é transparente e sempre repetido. Complexo e confuso é o manto que o recobre traduzido em valores - financeiros, talentos específicos (meritocracia), beleza e força física, capacidade de liderança, ausência de escrúpulos para cumprir qualquer (sub)missão de comando, desumanização e individualismo absoluto. Exatamente o contrário dos valores humanitários que caracterizam os expoentes admirados pelos sacrifícios feitos para defender os explorados de todos os tempos (por exemplo, Nelson Mandela, e tantos outros que suportaram perseguições, torturas, campanhas de difamação, assassinatos) e só recebem menções oficiais honrosas depois de mortos. Inclusive de seus velhos inimigos que agora exibem falsos sentimentos para que os povos, que choram em multidões a perda do seu ídolo considerado pai por todos os que sempre lutaram, os aceitem como se fossem seres humanizados como a maioria.

Há, portanto, dois modelos de conduta humana, opostos nos seus objetivos e nos seus princípios filosóficos e ideológicos, representados pelos explorados cuja força reside na grande maioria quando se une, e pela elite exploradora cuja força está no controle econômico e no uso de armas, produtos mortíferos e meios de informação que manipula as culturas e ações da grande massa.

Não vou (para resumir a ideia essencial) citar autores, livros e filmes, que têm explicado ampla e profundamente este quadro que hoje torna mais visível a situação dramática em que a humanidade vive pressionada e escravizada por poderes nacionais que aceitam covardemente as ordens impostas por um império que estabeleceu a globalização mundial para governar o mundo anulando as diferenças entre os povos, destruindo as tradições culturais, transformando os seres humanos em robôs que não pensam mas cumprem ordens, deixando morrer à mingua milhões de crianças e adultos que fogem às guerras e à fome provocadas por agentes secretos pagos pelo império. 

Diante deste panorama catastrófico é urgente a união para resistir. Para isto as divisões formais de sigla partidária, religião, grupo, tribo e as pequenas vaidades, oportunismos e preconceitos, que disfarçam a alienação dos que "preferem ficar em cima do muro", precisam ser omitidas. Vivemos um período de guerra sob uma capa pacífica cheia de imagens festivas para distrair os mais ingênuos. Usamos a internet para nos comunicarmos sem as limitações da mídia, mas somos vigiados de mil maneiras, não há privacidade e o sistema pode ser bloqueado a qualquer momento. 

Encontremo-nos nas ruas, nos lugares possíveis para combinarmos formas de organização e de ação. Voltemos a agir como seres humanos sem o modelo moderno que "programam" a nossa linguagem e a nossa vida.

*Zillah Branco é cientista social, militante comunista, colaboradora do Vermelho e integrante do Conselho do Cebrapaz.

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