quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Terceira via, falsa alternativa


Zillah Branco *

"Nem peixe, nem carne". Quando a realidade é clarificada e os dois polos contrários se defrontam, surge sempre o "deixa disto" para encontrar um meio termo que protela a solução.


Em Portugal, quando as forças armadas optaram pelo golpe de Estado para derrubar uma ditadura de meio século, que empobrecera o país e criara um regime fascista que amordaçara a sua população, o povo organizado clandestinamente lançou a bandeira da Revolução dos Cravos que na defesa da produção e da democracia impôs a nacionalização dos bancos e das empresas fundamentais, a reforma agrária e o apoio aos pequenos produtores, o fim do sistema colonial, a democratização do Estado, a legislação do trabalho com a criação do salário mínimo e da segurança social para todos.

As forças políticas, da esquerda à direita, subscreveram a Constituição que estabelecia os fundamentos jurídicos para as transformações que revolucionavam o sistema de forma pacífica, com cravos nas armas. A discordância veio de fora, dos Estados Unidos, pela voz de Kissinger, secretário de Estado, e de Carlucci, diretor da CIA feito embaixador em Portugal depois de ter defendido Pinochet e colaborado para a queda de Allende no Chile.

A social-democracia, de inspiração alemã, representada por Mário Soares, lançou a idéia da terceira via, macia, que agradava ao imperialismo e ia distribuindo lucros aos que aceitavam partilhar os riscos empresariais para impedir o fortalecimento do Estado social que se fortalecia para consolidar a democracia. As cooperativas de produção conjugavam assembleias onde a liberdade de expressão era assegurada a todos, trabalhadores e administradores, e uma gestão adequada ao mercado e instituições financeiras privadas. Ou seja, cooperativas no nome e sociedades anônimas no funcionamento. Iludidos, os trabalhadores foram absorvidos pela classe patronal, destruindo a coletivização sindical que era a sua força popular.

Hoje, Portugal é comandado por um governo subordinado à União Europeia que, com o FMI integra o império capitalista, paga as dívidas patronais e dos bancos mal geridos com as pensões de velhice, o aumento dos impostos, as importações que substituem a produção nacional, a emigração dos desempregados. É o resultado da terceira via, que para fugir ao confronto com a exploração pelo capital, criou uma ilusão de terceira margem irreal e irresponsável que entregou a nação a um Império expansionista.

O Brasil de Lula encontrou o caminho da democratização social e da superação da fome e do abandono de milhões de brasileiros. Carrega ainda poderes oligárquicos grudados na estrutura do Estado e nas instituições financeiras. As mudanças são demoradas e os movimentos sociais têm suportado uma luta permanente pelos direitos dos trabalhadores e das suas famílias como cidadãos brasileiros. Muitos obstáculos foram derrubados, discriminações e preconceitos extirpados, enquanto germina a democracia e é formada uma nova geração que constrói uma consciência de cidadania para que o povo seja dono da sua pátria. Muito falta para que seja implantado o Estado social livre de comandos externos. Mas o caminho aberto por Lula não terminou, segue com Dilma que aceita os protestos populares com o peso de razões válidas.

É a unidade na margem esquerda, traçada por Lula saído do povo e eleito pelo povo, que integra o Brasil na América Latina na luta pela independência continental, que vencerá a via da direita e do Estado mínimo neocapitalista subordinado ao império. Não há terceira via nos caminhos naturais da história.
* Cientista Social, consultora do Cebrapaz. Tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde.
* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.

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