quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A lógica do poder contra a lógica do viver

A crise do sistema capitalista, que é traduzida em termos financeiros com estrondosas falências de bancos e denúncias de corrupção sem limites, tem despertado em todo o planeta a atenção para outras crises que estão no DNA do sistema: 


A crise dos princípios éticos e da capacidade humanitária de respeitar a igualdade dos cidadãos, a crise de pudor dos que exibem a desonestidade como esperteza, a crise do desrespeito pelos direitos humanos e de cidadania, a crise moral dos que manipulam a formação cultural através da mídia.

Conclui-se, diante dos abusos de poder, dos golpes contra a democracia, das invasões e guerras que destroem civilizações, da promoção de grupos terroristas que chacinam inocentes, dos desvios do patrimônio nacional para favorecer negócios escusos e privar o povo dos recursos sociais, que o raciocínio capitalista parte de uma lógica do poder contrária a lógica do viver que rege uma política socialista.

A ambição da elite está centrada na acumulação de capital, os altos salários, a promoção da supremacia pessoal, mesmo que escondendo incompetências, ilegalidades, mentiras e falsidades de todo tipo. O comportamento da Câmara Federal na teatral sessão de aprovação do impeachment contra Dilma; as declarações boçais de deputados que falam em "golpe democrático"e demonstram total ignorância da função que exercem; o comportamento irresponsável de senadores, ministros, magistrados, que se protegem da lei com falsas "delações premiadas" e a imunidade devido ao cargo que ocupam; as visíveis irregularidades de um sistema político que mantém um terceiro poder, o judicial, fora do controle democrático eleitoral e com benefícios financeiros e de estatuto profissional acima do estabelecido para o Estado como perversa corrupção e poder sem submissão ao próprio sistema político; indiciam uma crise de valores incompatível com o nível civilizatório que as sociedades já alcançaram. Será devido à lógica que orienta o capitalismo ou uma crise de QI (quociente de inteligência)?

Um professor universitário chinês, em entrevista televisionada, criticou os EU por dar vistos a qualquer profissional que quer fazer altos estudos científicos nas suas instituições universitárias, porque lá deixa o seu now how enriquecendo o país. Aquele país que se considera democrático mantém uma elite cada vez mais distanciada da grande massa populacional que é formada pela mídia divulgando uma cultura de baixa qualidade para (de)formar "populações burras" facilmente controladas por temas em quadradinhos, shows ridículos com som elevado, movimentos rápidos e luzes intermitentes para provocar as reações cerebrais descontroladas como de "comportamento com coleira". O que dizem os médicos e especialistas em psicologia? Estarão também inertes pelas condições privilegiadas que auferem?

Mas não só no Brasil a crise de QI ou de responsabilidade profissional revela a falência do sistema capitalista. Em Portugal, um renomado economista-filosofo, que navega por altos cargos nos bancos, desconhece aritmética ao dizer que "ha 50 anos o povo português sofria a mesma austeridade que hoje. A diferença é que agora os pobres têm ambições de consumismo". Deixa a culpa para os que são formados pela imbecilizante mídia que promove as vendas de um mercado para enriquecer seus empresários. A sua filosofia também passou ao largo da ética e do humanismo que ensina a respeitar direitos sociais de seres humanos pobres, e da história nacional que revela há 50 anos um Portugal sob uma ditadura fascista. Custa-me dar o nome deste renomado profissional que escorrega nas suas explicações não por ter precária inteligência, mas por ser um repetidor da lógica do capital que lhe garante altos salários.

Mas, é indiscutível que o poder capitalista domina o planeta e os seus líderes foram formados para juntar dinheiro e não para resolver problemas sociais. Preferem matar (ou deixar morrer) os idosos que, como diz a diretora do FMI, constituem um problema insolúvel por não produzirem mais e necessitarem recursos que fazem falta a outros. Também não se pode pensar que a senhora Lagarde está com carências do QI, o mais certo é que estupidificou com o uso continuado da lógica capitalista e perdeu a perspectiva de ser humano normal.

Não é por acaso que uma juventude saudável, ainda na escola secundária, tem desenvolvido manifestações surpreendentes em defesa do ensino no Brasil contra o malfadado PEC 241 produzido pelo retrógrado Temer e sua equipe (especialistas na lógica do capitalismo). Esta juventude nasceu no período de limpeza mental introduzida pelas medidas democráticas trazidas por Lula ao Brasil. Será difícil colocar a "coleira da estupidez" em quem não se deixou escravizar pela mídia e conheceu tantas alternativas socialistas de apoio aos mais pobres que escrevem a história mundial.

Crianças pensam com liberdade e ficam com a inteligencia lúcida. Uma conversa com garotinha de 6 anos que explica aos adultos o filme que viu: "No Egito antigo, faraós "folgados" faziam piramides sem trabalhar, os escravos sofriam para carregar aquelas pedras enormes e morriam de fome e esforço no lugar deles, que iam para caixões cheios de ouro e joias!". Outra, de 7 anos, vai ajudar alegremente o tio a lavar e secar a louça acumulada: ele termina a sua parte e vai deitar-se no sofá enquanto ela continua sozinha a trabalhar murmurando "assim é uma escravidão!". Não têm a lógica do sistema em crise e tanto aprendem a ser solidárias e ver no trabalho coletivo um prazer como sabem defender-se da falta de correspondência no adulto que pediu ajuda e "explorou" a sua boa vontade.

Uma jovem de 16 anos, Ana Júlia Ribeiro, deu uma aula de cidadania ao discursar dia 26/10/16 na Assembleia Legislativa do Paraná para demonstrar a legalidade e a legitimidade do movimento de ocupação (de mais de 1200 das escolas) que se alastrou pelo Brasil. Disse da formação que este processo de participação política da juventude contra o PEC 241, que os obriga a discutir as informaçōes da mídia e os insultos divulgados, melhor que estarem enfileirados em uma aula padrão. Responsabilizou os representantes do Estado pela morte de um jovem combatente pela causa da educação e os ferimentos de muitos nos confrontos com a Polícia.

Vivemos um momento de grandes mudanças neste confronto entre o mundo capitalista em crise e uma parte da sociedade, em todo o planeta, que despertou para caminhos alternativos a serem criados a partir das experiências que revolucionaram os conceitos fixos e autoritários com que os "donos do poder", em cada momento histórico, tentaram embrutecer os cidadãos para que cumprissem ordens sem discutir, aceitando como fatalidade a existência de uma elite soberana.

A nível internacional as análises que referem com indignação o golpe temeroso e covarde no Brasil são mais que muitas. Refiro algumas:

. Max Neef, economista norte-americano, diz que o neo-liberalismo mata mais que as guerras, com produções de objetos inuteis e formando consumistas desvairados.

. Em 21/10/16, no Bundestag, Parlamento da Alemanha, o partido Esquerda pediu o repúdio ao governo de Temer e a CDU, partido de Angela Merkel, ressaltou a crise economica que agora prejudica o Brasil ( parceiro da Alemanha). No final da discussão, o Parlamento concluiu que o Supremo Tribunal Federal (brasileiro) é que deveria resolver o problema do seu país.

. 19/10/16 Geoffrey Robertson australiano formado advogado renomado Oxford, fez uma brilhante carreira na Inglaterra sobre Direitos Humanos e apresentou defesa de Lula à ONU acusando o sistema jurídico brasileiro, formado por Portugal em 1820 ainda sob inspiração no sistema inquisitorial católico do sec XVII. (é visível para qualquer democrata que o "terceiro poder" existe como se fosse uma antiga monarquia)

. O discurso do Presidente da Russia, em Sochi dia 24/10/16 demonstra que os Estados Unidos tem liderado um processo imperialista que se recusa a ouvir os povos que estão lutando pela paz e sendo destroçados por guerras provocadas pela insanidade de grupos terroristas mercenários que recebem armas e dinheiro dos que ambicionam o petróleo e as riquezas dos países àrabes.

São muitas e variadas as vozes que hoje começam a levantar-se mundialmente propondo mudanças na maneira de pensar e agir, ou seja na aplicação de uma lógica adequada à defesa da humanidade e da natureza do planeta e não das instituições financeiras como quer a elite imperialista que ocupa o poder mundial.

Se o sistema faliu e a sua estrutura mostra-se incompetente ou inerte para salvar os países, temos o dever de buscar uma alternativa a partir de outra lógica. E esta alternativa está na mente e na ação das novas gerações.


Um comentário:

  1. Embora as pessoas não reconheçam, a classe dominante tem um projeto muito bem elaborado para o país (e o está aplicando com bastante sucesso). Este projeto é o de acabar com a ideia de desenvolvimentismo, ou seja, a ideia de que Estado deve induzir o desenvolvimento, em detrimento de uma ideia de que o Estado deve garantir as condições de funcionamento do mercado; acabar com a ideia de Estado de bem-estar social, ou seja, que o Estado tem a função de garantir alguns direitos sociais aos cidadãos - e, para isso, não estão preocupados com a degradação da democracia -; e o retorno a um tipo de sociedade em que o Estado tem a única função de garantir a segurança e o controle orçamentário. Esta classe pretende acabar com a ideia de que os cidadãos têm qualquer direito a ser garantido pelo Estado, para que o setor privado possa vir a suprir as necessidades das pessoas e obter lucros com isso, e também que o Estado tem qualquer função de administrar empresas públicas, que devem ser privatizadas. Para que as pessoas possam adquirir planos de saúde, pagar pela educação e pela previdência privada, enfim, tudo o que precisam, este projeto inclui o estímulo à iniciativa privada, as pessoas devem abrir seus próprios negócios e assim se dará a manutenção da economia. Os cortes dos gastos primários (sem contar os juros da dívida) tem isso como objetivo, a única função do Estado é a segurança e o pagamento dos juros da dívida pública, e, para pagá-los, o Estado deve arrecadar impostos, que servirão apenas para isso, para o pagamento dos juros para os detentores da dívida pública. Enfim, estamos em um momento em que os interesses financeiros domina todas as sociedades, que devem canalizar toda a arrecadação para o sistema financeiro, e a sociedade acabar com toda a regulação e controle do Estado para que os investidores privados possam atender às necessidades das pessoas por meio da iniciativa privada. Por fim, não vemos resistência porque para isso precisamos de uma classe trabalhadora forte, e a classe trabalhadora se torna forte com a garantia e a proteção de direitos - sobretudo a garantia de emprego, e com o crescimento da economia; com a política, ou seja, a disputa do Estado através da organização de partidos políticos capazes de apresentar um projeto e obter apoio de massa; e com a mobilização dos movimentos sociais. Não há outro caminho para lidar com estas questões, mas a economia e as condições de emprego estão degradadas, e a classe trabalhadora, frágil; e a política, e, sobretudo, os partidos de origem popular, foi deliberadamente deslegitimada pela classe dominante exatamente para impedir a resistência aos seus interesses... Mais especificamente, acho que o objetivo é que o atual governo aprove essas medidas duras e estruturais (o teto dos gastos, a reforma da previdência, a flexibilização das leis trabalhistas, e, também, a privatização das empresas públicas) já que ele não tem condições de disputar eleições e, portanto, não tem problema em sofrer com o desgaste político, e depois o PSDB deve entrar para controlar essa sociedade. Em geral, apenas os setores das classes populares são prejudicados. O único setor da classe dominante que também está sendo prejudicado é o da indústria, e não sei porquê eles aderem a esse projeto. Mas, de qualquer forma, esse é um projeto do setor financeiro internacional, que a mídia, a política, os poderes constitucionais, e a sociedade em geral, entram de roldão... Enfim, houve um setor da classe dominante, o setor financeiro internacional, que ascendeu ao domínio, e que esta situação, embora ruim para a sociedade como um todo, e mesmo para a manutenção do capitalismo e da democracia, é bom para esse setor, e, enquanto for bom para esse setor, este continuará impondo os seus interesses sobre o restante da sociedade.

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