terça-feira, 7 de março de 2017

Do sentimento de discriminação à consciência de classe




Ao contrário do processo de despolitização que a direita promove junto aos grupos sociais que protestam contra a discriminação social e o preconceito cultural que impede a sua livre participação na sociedade por razões etnicas, de gênero, de opções sexuais, religiosas ou ideológicas, professoras universitárias dos Estados Unidos lançaram um manifesto baseado em aprofundados estudos da história e da filosofia do movimento feminista mundial, propondo a organização de um movimento fortalecido pela consciência de cidadania e de classe.

Só quando os movimentos sociais forem estruturados em função dos seus objetivos de luta poderão impor os seus direitos ao Estado com a participação em todos os níveis do poder saindo da fase de angariação de proteção paternalista à elite dominante que sempre está sujeita à manipulação política e às chantagens oportunistas que caracterizam o sistema.

Os problemas da violência contra todos os que lutam por mudanças na sociedade, pelo respeito à justiça e aos direitos humano, tem-se agravado especialmente contra as mulheres que suportam as tarefas domésticas e o trabalho remunerado para a sobrevivência familiar. Os estupros, as violações, os espancamentos em casa, o desprezo e humilhações de todo o tipo, são hoje moeda corrente em todos os países e servem de pasto à exploração midiática e ao comércio sexual de milhões de empresas dos mais diversos níveis sócio economicos sem que os responsáveis pelos governos ponham fim a estes flagelos. Combater tais crimes é uma necessidade urgente das mulheres, mas também de todos os que defendem a possibilidade de organização das famílias, da formação elevada das crianças, do apoio aos carentes e idosos, de sociedades civilizadas e saudáveis.

O texto amplamente divulgado atraves da net (Revista Jacobin de São Paulo 03/03/17 e blog Junho, Boletim Opera Mundi 04/03/17) que apoiam a convocação de uma greve internacional militante das mulheres para o próximo dia 8 de março de 2017, é da autoria de Cinzia Arruzza, professora adjunta de filosofia na New School e de Tithi Bhattacharya, professora associada de história na Purdue University. Ambas assinam, junto com Angela Davis, Keeanga-Yamahtta Taylor, Linda Martín Alcoff, Nancy Fraser e Rasmea Yousef Odeh, o manifesto que originalmente convocou “Por uma greve internacional militante no 8 de março“.

"Organizações feministas, populares e socialistas de todo o mundo convocaram uma greve internacional das mulheres no 8 de março para defender os direitos reprodutivos e contra a violência, entendida como a violência econômica, institucional e interpessoal.

A greve ocorrerá em pelo menos quarenta países e será o primeiro dia internacionalmente coordenado de protesto em escala tão grande depois de anos. Em termos de tamanho e diversidade de organizações e países envolvidos, será comparável às manifestações internacionais contra o ataque imperialista ao Iraque, em 2003, e os protestos internacionais coordenados sob a bandeira do Fórum Social Mundial e do movimento de justiça global no início dos anos 2000. Greve indica possibilidade concreta de um movimento feminista novo, poderoso, anticapitalista e internacionalista".


No outono de 2016, as ativistas polonesas adotaram a estratégia e a mensagem da greve das mulheres de Islândia em 1975 e organizaram uma greve massiva de mulheres para impedir a aprovação de um projeto de lei no parlamento que proibisse o aborto. Ativistas argentinas fizeram o mesmo em outubro passado para protestar contra a violência masculina contra as mulheres.

Esses eventos – que estimularam a ideia de uma greve maior no Dia da Mulher – demonstram como uma greve de mulheres é diferente de uma greve geral. A greve das mulheres surge da reflexão política e teórica sobre as formas concretas do trabalho feminino nas sociedades capitalistas.

No capitalismo, o trabalho das mulheres no mercado formal é apenas uma parte do trabalho que realizam. As mulheres são também as principais realizadoras do trabalho reprodutivo – trabalho não remunerado que é igualmente importante para a reprodução da sociedade e das relações sociais capitalistas. A greve das mulheres destina-se a tornar este trabalho não remunerado visível e enfatizar que a reprodução social é também um local de luta.

Além disso, devido à divisão sexual do trabalho no mercado formal, um grande número de mulheres ocupam postos de trabalho precários, não têm direitos trabalhistas, estão desempregadas ou são trabalhadoras sem documentos. As mulheres que trabalham no mercado formal e informal e na esfera social não reprodutiva são todas trabalhadoras. Essa consideração deve ser central para qualquer discussão sobre a reconstrução de um movimento operário não só nos Estados Unidos, mas também globalmente.

Enfatizar a unidade entre o local de trabalho e o lar é fundamental, e um princípio organizador central para a greve de 8 de março. Uma política que leve a sério o trabalho das mulheres deve incluir não só as greves no local de trabalho, mas também as greves do trabalho reprodutivo social não remunerado, as greves de tempo parcial, os chamados para redução do tempo de trabalho e outras formas de protesto que reconhecem a natureza de gênero das relações sociais.

Os Estados Unidos têm talvez as piores leis trabalhistas entre as democracias liberais. As greves gerais e as greves políticas são proibidas, as permitidas estão ligadas a exigências econômicas restritas dirigidas aos empregadores e os contratos têm frequentemente cláusulas explícitas anti-greves, cuja violação pode fazer com que o trabalhador perca o emprego e acarretar multas pesadas para o sindicato que organiza-las. Além disso, vários estados, como Nova York, têm leis que proíbem explicitamente funcionários públicos de entrar em greve.

A discussão sobre como reverter esta situação e empoderar os trabalhadores tem sido a principal preocupação estratégica da esquerda dos Estados Unidos nas últimas décadas. No entanto, um dos perigos desta discussão é o de reduzir a luta de classes apenas à luta econômica e de unir as relações sociais capitalistas com a economia formal em sentido restrito.

A transformação das relações de trabalho nos Estados Unidos requer não apenas uma ativação da classe trabalhadora com base em demandas econômicas no local de trabalho, mas sua politização e radicalização – a capacidade de realizar uma luta política dirigida à totalidade das relações de poder, instituições e formas de exploração em vigor.

Isto não pode ser alcançado apenas melhorando e expandindo a organização do trabalho de base no local de trabalho. Um dos problemas centrais que o trabalho político radical enfrenta é seu isolamento e invisibilidade. Estabelecer as bases para a revitalização do poder operário exigirá operar em diferentes níveis – criando grandes coalizões sociais, agindo dentro e fora dos locais de trabalho e estabelecendo laços de solidariedade e confiança entre organizadores e ativistas trabalhistas, antirracistas, feministas, estudantes e anti-imperialistas. Também significa aproveitar a imaginação social através de intervenções criativas, intelectuais e teóricas, além da experimentação com novas práticas e linguagens.

Em vez de um foco estreito sobre as lutas no local de trabalho, precisamos conectar movimentos baseados em gênero, raça, etnia e sexualidade, em conjunto com a organização do trabalho e o ativismo ambientalista. Somente criando essa totalidade coletiva seremos capazes de abordar a complexidade das questões e demandas apresentadas pelas diversas formas de mobilização.

Este é o caminho que a greve internacional das mulheres está perseguindo com sua plataforma política expansiva e inclusiva. O 8 de março não será uma greve geral. Mas será um passo importante para um novo ciclo de legitimação do direito de greve contra as degradações do capitalismo sentidas em todas as esferas da vida por todos os povos."


Podemos acrescentar que o movimento pelos direitos das Mulheres, que existe desde o século 19 e foi desenvolvido mundialmente com a Revolução Soviética, ao conseguir criar uma estrutura política combativa que permitirá aprofundar os conhecimentos relativos aos direitos de cidadania, dará um salto de qualidade assumindo a consciência de classe a partir do sentimento de discriminação social.

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