quinta-feira, 17 de maio de 2018

A maioria escravizada

A história revela através dos tempos que o ser humano sujeito à escravização pelos poderosos esconde o seu medo com uma máscara de alegria e palavras elogiosas para agradar o opressor. É o único recurso que tem para evitar as agressõesque "compensam" a manutenção da vida do escravo.

Os africanos que serviram de moeda nas transações coloniais como "peças" vendidas em feiras como escravos para os mais variados trabalhos bem conheciam a necessidade de esconderem a sua dignidade humana para poderem sobreviver. Assim ensinaram os seus filhos a cumprirem as ordens dos "seus senhores" sem revelar o repúdio ou a tristeza.

A literatura mostra que o mesmo recurso de sobrevivência era utilizado pela mulheres europeias, orientais e por todo o mundo, que tinham no casamento mesmo com um bruto insensível aos valores humanistas, ou no comércio sexual, a solução de sobrevivência. Faziam-se atraentes e carinhosas para alegrar o algoz que assim deixava de lado a ferocidade do explorador.

Esta alegria forjada como "arma de defesa" era assimilada pelos escravos e escravas como uma forma de alívio para suportar a vida. Era o antídoto ao desejo de morrer, assim como os medicamentos ou atividades lúdicas que desviam a atenção dos sentimentos deprimentes que hoje afetam milhões, senão biliões de pessoas em todo o planeta. Os médicos combatem os efeitos da depressão mas não combatem as causas da tristeza que corroi a humanidade. E não só os médicos, mas todos os que se recusam a lutar contra a exploração e a própria existência de um poder que condiciona a desigualdade e todas as formas de autoritarismo que destroem a liberdade do ser humano.

No livro de M. Rita Kehl, ed. Boitempo, a renomada psicóloga escreve: "Cabe perguntar que tipo de cisão do eu permite que o brasileiro ria das feridas sociais do país em que vive, como se estivesse sempre do lado de quem segura o cabo do chicote - como se não percebesse as lambadas e a humilhação que também o atingem. (...)". 

Esta é uma verdade terrível que ocorre não só no Brasil. A consciência de escravo, portanto da impotência cidadã, diante dos opressores que se assenhorearam não só do capital que move a economia de subsistência mas "das características avançadas em termos de valores republicanos, lutas igualitárias, etc. (...)" , como refere a autora, mas da fonte do progresso, do desenvolvimento do conhecimento científico, e dos recursos civilizatórios criados pela luta da humanidade através de milênios!

O que impõe a consciência de escravo é o medo de que lhe seja negado o espaço na vida social. As crianças ainda de tenra idade aprendem a temer os gritos, as palmadas; mais tarde temem as repreensões, os limites à sua liberdade reivindicativa; na escola temem as avaliações negativas; o mesmo na experiência de trabalho profissional; ou as culpas de que podem ser acusados no relacionamento humano. Uma das explicações para a morosidade dos processos judiciais é o medo de julgar errado. Isto foi afirmado em Portugal por uma brilhante Magistrada do Ministério Público português, dra. Maria José Morgado, há dias em entrevista televisiva, recordando que a liberdade trazida pela Revolução dos Cravos havia sido asfixiada pela antiga cultura gerada durante os 50 anos de ditadura fascista de Salazar.

Também no Brasil temos assistido à uma embrulhada jurídica que se fez presente no Supremo Tribunal Federal onde uma juiza vota no sentido contrário ao que tinha julgado anteriormente "para não contrariar a maioria que a vencera naquela ocasião". Ou seja, por medo de errar, altera a sua convicção na Justiça. E assim, alinha-se ao comando político que vinha desde a decisão tomada por um juiz de primeira instância derrubando todos os degráus do sistema judiciário do Estado brasileiro, sem provas de crime para justificar ao seu voto que correspondeu à necessidade dos golpistas poderosos. O resultado foi a condenação do ex-Presidente Lula, o herói do povo brasileiro, sem prova de culpa, à prisão solitária. Duplamente herói, Lula enfrentou a prisão sem medo, para lutar pela Justiça como lutou contra a fome no Brasil de mais de 40 milhões de cidadãos.

As conquistas de Lula em benefício da libertação do povo brasileiro das garras da escravidão - entregando a alimentação básica, o atendimento à saúde, a formação escolar, a possibilidade de aplicar as suas capacidades individuais a nível superior no desenvolvimento científico, tecnológico e cultural, a criação de empregos em todo o terrirório - são admiradas em todos os países e divulgadas como modelo pelas Nações Unidas. 

Então porque o medo dos altos dirigentes de defenderem a libertação de quem está sendo vilmente injustiçado no Brasil sob um golpe externo?

O medo tem uma história tenebrosa no mundo e as imagens da vítimas que com dignidade enfrentam os opressores são sangrentas mas também heróicas. A Igreja Católica santifica os seus divulgando a história exemplar de cada um para inspirar a formação dos seguidores da sua doutrina, o Oriente promove os pensadores que transmitem o modelo dos princípios de dignidade, cada religião ou filosofia divulga a imagem dos que superam o medo com a coragem de ser humano íntegro. 

Nos tempos modernos, por vaidade estúpida dos responsáveis pelos assassinatos de líderes que enfrentaram com dignidade a morte imposta pelos exploradores mundiais, foram divulgados pela televisão e jornais os atos de barbárie contra homens que lutaram sem medo: Sadam Hussein, Kadafi e tantos outros heróis dos seus povos em luta. Nos dias que correm sabe-se de uma lista de vítimas de brasileiros, divulgada pela CIA, cuja morte foi autorizada pelos generais da Ditadura no Brasil que incutiu o medo, por 21 anos, minando a defesa da dignidade no Brasil na formação das novas gerações.

Vivemos mundialmente um período de formação mediática fascista que se apoia no medo que quebra a noção de dignidade trazida pela consciência de liberdade normal aos seres humanos. Meticulosamente os poderosos do sistema procuram "comprar a dignidade de cada um" através de suborno (corrupção financeira ou colocação em altos cargos) uso de drogas, dependências psiquicas ligadas ao sexo ou á imagem de riqueza, perturbações mentais provocadas por excessos de som e luz, ou de cenas de terror e violência fartamente divulgadas pelos meios de comunicação social. Cresce a robotização da clientela assídua da divulgação mediática que se infiltra também nas redes paralelas de comunicação.

Ontem, dia 15 de Maio, a TV em Portugal informou que nas escolas os adolescentes recebem instruções atraentes das modernas tecnologias para se "sentirem independentes". Os aparelhos de telefone hoje têm as redes de internet através das quais podem dispor de dinheiro (bitcoins) mesmo sem os cartões bancários. Os seus pais ou responsáveis adultos terão de pagar as suas despesas e não poderão formar-lhes a capacidade de gestão dos recursos nem a solidariedade familiar, ou seja a dignidade mínima do ser humano. Imaginem o que já foi feito nos países mais ricos que são considerados mais desenvolvidos! Enquanto a União Europeia e o FMI recomendam aos países membros ou dependentes a austeridade no orçamento para desenvolver setores sociais ou de produção nacional, as empresas privadas de origem multinacional corrompem os valores éticos através de redes de escolas e de clínicas médicas que recebem incentivos fiscais do Estado.

Qual o futuro neste nefasto percurso? 

Com coragem e dignidade, venceremos!

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