sábado, 7 de junho de 2014

O caminho revolucionário que Abril abriu

O desmoronamento da URSS e de vários países do bloco socialista fez com que os actuais países com meta socialista – China, Laos, Vietname, Coreia do Norte e Cuba – procurassem nas suas condições históricas e filosóficas de resistência permanente às formas de domínio imperial o esteio para prosseguir a luta pela autonomia nacional dentro das condições adversas do sistema capitalista.

A destruição das potencialidades de desenvolvimento económico autónomo dos países subdesenvolvidos pelo domínio colonialista e imperialista despertou as nações latino-americanas para a necessidade de construir a independência política. O conhecimento de cada realidade nacional aponta o caminho de libertação inspirado naqueles que sobreviveram às pressões externas dos predadores.
Perdeu-se o apoio de uma potência socialista – a URSS – que enfrentava frontalmente a sua opositora capitalista – os EUA – que representava a ponta de lança do imperialismo, e continuaram a suportar a pressão que vinha de séculos de atraso e miséria herdados do colonialismo. Aquelas nações foram mantidas em situação de pobreza extrema como as demais dos continentes da América Latina, Ásia e África, infiltradas por espiões e provocadores de distúrbios internos, recebendo a título de informação e cultura um lixo selecionado pela grandes empresas de comunicação social, espoliados nos valores de seus produtos e mão de obra exportados.
Tanto a cultura milenar do Oriente como o sofrimento secular dos países subdesenvolvidos ensinaram aos povos a arte da guerrilha e a conscientização das massas para criar um substrato resistente capaz de suportar as dificuldades de vida, impostas pelas elites dominantes, sem
abandonar a formação do ser humano e o preparo revolucionário para emergir diante do inimigo quando em crise sistémica. As oito décadas de existência de uma potência socialista serviu de suporte ao acesso a uma cultura moderna sem a censura da elite capitalista para que o mundo
subdesenvolvido desenvolvesse as bases do seu conhecimento da realidade e a consciência de um caminho revolucionário.
A colonização europeia iniciada no século XVI foi seguida pelo neocolonialismo quando surgiram movimentos de independência nas nações dominadas, e modernizada pelo neocapitalismo de versão democrática dentro do espartilho do imperialismo tendo como instrumentos o Banco Mundial e o FMI. Estes processos mantiveram os países subdesenvolvidos da América Latina, África e Ásia afogados na pobreza e na dependência política e económica de um sistema hostil à humanidade, que era considerado «civilizado e cristão» por ter institucionalizado as fontes do saber científico e religioso nas suas nações ricas do Ocidente que sugava as riquezas das colónias.
Os «impérios colonizadores» fizeram tábua rasa das nações dominadas, sem reconhecer as culturas milenares do Oriente e de povos nativos na África e no continente americano para dizimá-los e escravizá-los como se fossem animais. Obtiveram grandes lucros com o comércio de seres humanos
espalhados por todo o mundo, espoliaram os seus patrimónios, apropriaram-se dos seus conhecimentos, esmagaram as suas culturas e crenças impondo o modelo institucionalizado nas universidades e igrejas, a ferro e fogo.
Aos povos que resistiram com a força das suas comunidades introduziram, sob a via das acções caritativas, as doenças contagiosas e as drogas como vírus sociais – varíola na América e ópio no Oriente. Bem conhecida ficou a Guerra do Ópio entre a China e o Império Britânico no século XIX. Durante o século XX as experiências com produtos abortivos misturados ao leite em pó doado a populações famintas no Brasil, ou que provocavam várias doenças neurológicas através do abastecimento de água, foi denunciado por Fred Kennedy pouco antes de ser assassinado nos EU. As redes internacionais de droga assim como as formas mais variadas de corrupção de membros de
estados para manter o poder imperial dominante são uma constante na vigência do sistema capitalista. 
Sementes 
Hoje ficamos surpreendidos com o crescimento da violência na sociedade, da destruição dos valores humanistas, da unidade das famílias, dos processos não concluídos contra altas personalidades que roubam milhões ao Estado, com o apagamento da responsabilidade de mortes ocorridas nas praxes académicas, com a utilização de cobaias humanas por famosos laboratórios farmacêuticos, e tantas torturas mentais e físicas praticadas impunemente. Mas isto sempre ocorreu durante a história do sistema capitalista desde a sua origem colonialista.
A experiência socialista europeia sucumbiu ao poder capitalista, mas deixou sementes nos países que souberam resistir adaptados à sua história de pobreza gerida com integridade e convicção nos próprios valores éticos e de independência. Os BRIC convivem com o sistema adverso por caminhos diferentes que a história legou a cada um. A participação popular é fortalecida na consciência da sua responsabilidade para enfrentar a luta ou aceitar a escravidão. Os caminhos contornam os obstáculos desgastando as pressões que se multiplicam sem perder de vista o rumo da liberdade.
Em Portugal, a Revolução de Abril teve as suas raízes na luta clandestina popular durante o período da ditadura fascista. Ao contrário de outras nações empobrecidas da Europa que também exerceram o poder colonial como pontas de lança sob controle do domínio imperialista britânico, desenvolveu-se uma consciência cidadã entre os trabalhadores, a intelectualidade e as forças militares, que teve por meta a independência, o fortalecimento autónomo das forças produtivas e a defesa intransigente dos valores e do património nacional. A ambição de uma elite capitalista que participou daquele processo revolucionário através do golpe militar e de uma rápida adesão política às estruturas de poder recém formadas para conduzir o País, serviu de fio condutor para que o imperialismo lançasse os seus «vírus» para transformar o processo revolucionário numa modernização subordinada ao
centro económico e militar da Europa.
O governo de Vasco Gonçalves, no qual participou o PCP com apoio do movimento sindical e das forças democráticas de ampla abrangência ideológica e religiosa, tomou as medidas basilares para uma transformação revolucionária nacional: fim do domínio colonial, nacionalização da banca e das empresas públicas a favor do património nacional, combate ao monopólio privado dos factores de produção, sobretudo latifúndios e riquezas naturais, que deveriam ser organizados tendo em vista a ocupação da mão-de-obra existente, a investigação científica e tecnológica, a produção dos alimentos e bens indispensáveis à toda a população e à exportação.
Estavam lançadas as bases para que fosse criada uma economia e organizada uma sociedade com autonomia e liberdade de consciência de cidadania, bases para um país afirmar a sua independência perante as outras nações e aperfeiçoar as condições de vida do seu povo. Os insidiosos preconceitos anticomunistas e contra-revolucionários promovidos por elites externas e internas, que perderiam a soberania sobre um povo que ainda não conhecera a liberdade, despertaram antagonismos e competições políticas prometendo lucros individuais na partilha dos produtos nacionais e privilégios de classe para os seus apoiantes. Introduziram a cultura capitalista como meta de crescimento económico e uma falsa linguagem caridosa contrapondo-se à luta necessária para o desenvolvimento das forças produtivas com solidariedade e respeito humanista da coesão popular. 
Da ficção à realidade 
A linha do golpe prevaleceu sobre a da consciência nacional adequada à realidade de Portugal. Foi adoptado o modelo do que viria a ser a União Europeia, uma ficção que cobriu o território de centros comerciais, estádios de futebol e indústrias estrangeiras que vieram explorar a mão-de-obra barata, de estradas por onde escoam os produtos importados e saem os emigrantes em busca de empregos, de uma cultura moderna pré-fabricada para alienar as populações sem acesso à verdadeira informação negada pelos meios de comunicação submissos às elites mundiais. E, depois veio a crise do sistema com as dívidas contraídas pela gestão perdulária de governantes irresponsáveis que traíram a Revolução de Abril, venderam o património nacional ao desbarato, destruíram a capacidade produtiva e enriqueceram os seus comparsas poderosos, apagando o caminho para a independência de Portugal.
Com o velho discurso fariseu da humildade necessária ao povo «devedor», da caridade com os que tudo perderam, confessam que a «austeridade imposta em Portugal é demasiada porque os que a definiram não tinham experiência» (declaração do Conselho Europeu divulgada pela RTP a 28/04/14). E nada dizem da esperteza que tiveram de aplicar a austeridade aos trabalhadores,
idosos e crianças, enquanto os altos cargos recebem salários milionários apesar da «falta de experiência». Assim agiu a troika e o FMI na sua fatídica missão de destruir os povos.
Interessantes as palavras de Vasco Graça Moura: «A Europa Comunitária deixou de ser, para terceiros, o Eldorado mítico que foi durante muito tempo para terceiros. E alguns convencimentos mais ingénuos dos autóctones quanto às excelências da fórmula encontrada começam também a esboroar-se».(...) «a experiência tem mostrado que, na prática, as coisas não são bem como se esperava e que esse ideal de uma Europa harmoniosamente construída e convergente, quer no desenvolvimento económico sustentado, quer na qualidade de vida dos seus cidadãos, está a sair tão caro quanto frustrado». (...) O sistema não é de freios e contrapesos institucionais ao nível da Europa. É antes uma teia obscura de interacções e condicionamentos políticos por via de uma intergovernamentalização do todo ditada pelos mais fortes e acolitada pela coreografia impune dos euroburocratas» (in «A identidade cultural europeia», FFMS, Novembro/2013, pp.15-18).
O País perdeu uma oportunidade de se tornar independente, mas o caminho da liberdade não foi fechado. Hoje compreende-se melhor a realidade de uma História de heróis, conquistadores, colonizadores e de grandes personalidades que se destacaram como ideólogos, filósofos, músicos,
literatos, cientistas, intelectuais e trabalhadores a nível internacional. Os «donos do poder em Portugal» é que estão a mais, como esteve Salazar (e Caetano), ditador aliado de Hitler por meio século.
Portugal, com as suas riquezas naturais, aí está com o seu povo, capaz de retomar o caminho revolucionário sem se deixar enganar por traidores ou inexperientes ambiciosos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário