sábado, 4 de julho de 2015

Crise de quê?




A crise, ou as crises, se instalaram. Isto ninguém pode negar. São tantas - financeira, ética, de competência administrativa, de caráter, de respeito humano, de sensibilidade, de percepção da inteligência popular e dos valores patrióticos, e outras mais - que a situação política na Europa sob a liderança da União Europeia de braços dados com o FMI e o Pentágono tem ministrado um curso intensivo de política que aponta metas contrárias às dos seus dirigentes. Saltando de galho em galho para corrigir as escorregadelas conseguiram aproximar o raciocínio de toda a gente honrada, seja de esquerda ou de direita. A dialética passou a gerir as consciências.

Fica claro que os tecnocratas de serviço só conseguem pensar em dinheiro sonante quando falam em desenvolvimento. São capazes de recomendar a uma família em dificuldade para sustentar 10 filhos que a solução é exportar 3 dos mais fortes, deixar morrer 4 dos mais débeis e manter sob controle austero os que restam para poder amealhar cada ano mais uns tostões. E com as oportunidades oferecidas pelo turismo e graças à paisagem e à culinária de origem rural, vende-se de tudo um pouco para aumentar o pé de meia a qualquer custo. A visão reduzida dos financistas dogmáticos impede que lembrem o que é um ser humano, os seus valores tradicionais, a sua sensibilidade e afeto, a criatividade comprovada, a história patriótica e o património herdado, a dignidade de um povo, a independência nacional.

Diante da catástrofe que é ter por dirigentes continentais e nacionais espécimes tão precários, naturalmente as pessoas normais se encontram no protesto apesar de divergências ideológicas ou de tendências menos drásticas. Em Portugal todos os dias alguém protesta e faz greve por falta de interlocutor governamental: os trabalhadores mal pagos, os desempregados, os pensionistas que morrem à mingua, os reformados com os cortes nos rendimentos, os espoliados das suas moradias por não poderem suportar as coimas, os doentes que não podem pagar os medicamentos, os que não são atendidos nos Centros de Saúde, os médicos contratados com salários de quem não tem formação superior, os enfermeiros que não têm descanso, os juízes que não têm condições de trabalho, os estudantes que não têm aulas, os professores que não são contratados, os comerciantes que depositaram os seus recursos e foram roubados por banqueiros sem escrúpulos, os pais de crianças especiais que não são mais recebidos na escola, idosos acamados que deixaram de ser atendidos apesar de viverem sozinhos, bombeiros que arriscam a vida com equipamentos inadequados e sem salários suficientes, polícias mal pagos que precisam fazer serviços remunerados incompatíveis, militares que afirmam não existirem mais condições para a defesa do país, autarcas que sentem as omissões do governo central pesarem sobre os concelhos como se fossem uma federação sem orçamento próprio, políticos conservadores que não suportam a vergonha de representarem os seus partidos que cumprem ordens externas, toda agente que vê o património empresarial do Estado a ser vendido a preço de saldo na feira. A lista é enorme. Ficamos à espera que entrem em greve os padres e freiras, assim como os voluntários e os recém nascidos.

E dizem que o caos está na Grécia onde o governo e o seu povo não aceitam mais os sacrifícios impostos pelos credores com seus modelos de crescimento do capital que insistem em chamar de desenvolvimento.

Zillah Branco

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