segunda-feira, 6 de julho de 2015

Do medo à conivência

Medo, auto-defesa, conivência


A sociedade moderna, onde a pressa impõe decisões ultra-rápidas, retira ao ser humano a sua capacidade de pensar e refletir utilizando princípios éticos que vieram de tempos melhores. Eram tempos em que o convívio pausado permitia aprender com a experiência do outro, ouvir o que ensinavam os mais velhos, ponderar considerando a sua realidade e a de outros a quem teria o prazer de ajudar. Não se vivia sob a pressão de um mercado bem publicitado para convencer o cidadão a consumir produtos cuja utilidade pode ser desnecessária.

Se observarmos uma criança de 3 anos vemos que ela quer aprender, quer participar, quer colaborar. Tendo essas oportunidades, passará a ter idéias próprias e a criar soluções. Se for atropelada por uma "educação" autoritária, apenas vai repetir o que viu, como um robô. Terá sido amedrontada, alienada e transformada em um instrumento repetidor do comando que recebeu.

As conquistas da humanidade ao longo da sua experiência desde a Idade da Pedra, transformou aquele ser, que disputava o território com outros animais, em um pensador capaz de escolher as melhores condições de sobrevivência inserido na coletividade. Selecionou os princípios que propiciam um bom relacionamento social, solidário com os que têm alguma dificuldade, exemplar para formar bons parceiros de vida, firme para evitar eventuais erros de quem revela egoísmo, criativo para introduzir ou receber novas idéias, defensor da comunidade quando agredida.

Com a má divisão das riquezas, formou-se uma elite poderosa que passou a escravizar os que trabalhavam pela subsistência. Surgiram as classes sociais, uma explorando a outra, dando apenas os recursos para sobreviverem sem tempo para cultivarem o seu próprio desenvolvimento intelectual e tomarem conhecimento das idéias novas que promoviam o avanço das artes e ciências. Houve confrontos entre os que trabalhavam e os que mandavam, pois nem todos desistiram de pensar e de lutar pela liberdade. Ocorreram momentos revolucionários que impuseram as idéias de liberdade, igualdade, fraternidade, contidos na definição de democracia e direitos humanos nos regimes políticos de organização das sociedades.

Tudo isto leva tempo para ser concretizado em cada país, dependendo da história de cada povo e do poder militar da elite que o governa. O sistema denominado capitalista condiciona o poder do capital como o que forma a elite governante. Os poderosos eram as famílias que controlavam as riquezas produzidas pelo povo ou conquistadas a outros povos vencidos em batalhas. Durante muitos séculos os países mais ricos colonizaram os mais pobres, e as monarquias europeias enriqueceram com os produtos extraídos de outros continentes vencidos e escravizados. Ao serem organizadas as instituições financeiras - bancos, moedas, papéis de crédito - as monarquias passaram a ser dependentes desta nova elite que organizava o capital. Permaneceram aliadas as duas elites, uma burguesa e outra "nobre" para manter a imagem de "poder familiar tradicional" que fazia parte da cultura transmitida aos povos.

Surgiu a definição de um sistema de organização das sociedades em que a elite seria subordinada, como todo o povo, a um Estado Socialista que aplicaria os recursos em benefício da coletividade. Todos teriam direitos de cidadania - saúde, ensino, moradia, transporte, alimentação e vestimenta - e trabalhariam de acordo com as suas aptidões, para o desenvolvimento nacional. A primeira revolução socialista, definida por Marx e Engels no "Manifesto Comunista" em 1848 foi liderada por Wladimir I. lenine e seus camaradas, na Rússia em 1917. Foi criado o poder Soviético (do russo soviets=popular) que passou a ser combatido por todos os países capitalistas mesmo depois de vencer o exército de Hitler ao lado dos aliados europeus e norte-americanos. Uma guerra surda, sob o título de cortina de ferro, desenvolveu-se contra os 14 países socialistas que se uniram à Rússia Soviética para manter o regime socialista e apoiar todos os movimentos de libertação nacional e os partidos comunistas que surgiram em todos os continentes. A China, Vietnam, Laos, Coreia do Norte e Cuba realizaram as suas revoluções e instituíram o regime socialista nos seus territórios.

Grandes conquistas foram alcançadas em benefício de toda a humanidade que teve acesso ao conhecimento, que era propriedade apenas das elites, e que impôs os princípios democráticos e dos direitos humanos através da ONU, os direitos trabalhistas através da OIT, a defesa da saúde através da OMS, os direitos das crianças através da UNICEF, a orientação na produção de alimentos através da FAO e outros serviços internacionais de apoio às conquistas como a da igualdade de direitos das Mulheres, das diferentes etnias, etc. Não se pode esquecer que todas estas conquistas foram reconhecidas no plano jurídico e que só são impostas pela força política dos movimentos populares, pois mundialmente segue o poder capitalista que minou por dentro até mesmo o poder soviético que ruiu na década de 1990, depois de uma experiência de quase 80 anos que transformou a Rússia na segunda potência mundial.  Mas, a luta continua, entre os que pensam e lutam e os que cumprem as ordens do modelo capitalista.

As crises periódicas do sistema capitalista mostram a sua fragilidade e desvendam as formas de comando exercidas para transformar os humanos em robôs. O título deste artigo refere a situação dramática em que os povos se vêm atualmente, ano 2015, submetidos ao poder imperial (que reune as elites capitalistas sob o comando dos EU) que promove invasões dos países árabes em busca de petróleo, assassinatos de governantes depois de promoverem conflitos sociais internos em cada país, formação de grupos terroristas (como o chamado Estado Islâmico) que são armados para destruir o equilíbrio social tanto no Oriente Médio como na Europa, controle da comunicação social e das técnicas de publicidade para formar opinião pública favorável aos interesses capitalistas (transformando o ser pensante em robôs para elegerem governantes da elite, mas também para sucumbirem ao medo dos perigos anunciados, à auto-defesa para  preservarem os seus interesses pessoais, e tornarem-se coniventes com as orientações imperiais).

Esta despersonalização de cidadãos capazes de defender a humanidade é que cria uma inércia e um insensibilidade dominantes em populações que assistem sem aparente emoção que governantes incompetentes destruam as instituições do Estado instaurando o caos na Justiça, nas Finanças, na Previdência, na Economia, nas Escolas, nos Transportes, nas Forças Armadas e na Polícia e vendam o patrimônio nacional ao desbarato para fazer dinheiro, como fazem os ladrões comuns; que os que confiaram as suas poupanças a um banco nacional vejam que os donos usaram para si os seus depósitos e nada pagam; que as crianças cheias de fome queiram frequentar as escolas mesmo durante as férias onde comem alguma refeição; que os idosos só recebam o suficiente para comer ou comprar medicamentos; que todos os dias vejam as notícias de grandes barcos, carregados de refugiados dos países destroçados pelo imperialismo, flutuem sem tripulação pelo mar Mediterrâneo em busca de um porto europeu que os aceite; que os credores da Troika/FMI imponham aos países o programa de miséria que favorece os donos do capital; que desesperem uma geração de jovens que não podem pagar as propinas das escolas, ou não têm emprego com os diplomas nas mão, que não acreditam nos governantes nem nos adultos cheios de medo de perderem o pouco que têm, nem nos deuses tradicionais, nem nas drogas oferecidas em cada esquina, e que são capazes de se deixarem levar pelos terroristas para saciarem o ódio que lhes sobra de uma rebeldia amordaçada na alma de robôs.

Os fabricantes de terroristas, (que hoje são apresentados pelas revelações que a mídia recebe de redes de ex-funcionário da CIA e de hackers, como Assange, que usaram as suas capacidades para trazerem a público as decisões criminosas dos imperialistas) são os grandes culpados pelo sofrimento da humanidade e pela anulação da capacidade de pensar e de lutar que o ser humano tem. Mas cada um tem de lutar intimamente para compreender que não pode aceitar tornar-se um robô. Os que se desviaram do caminho bem pago da CIA ou dos hackers que roubavam informações em benefício próprio, deram um exemplo do despertar da razão humana na cabeça de um robô. Com mais razão um cidadão comum, trabalhador honesto, descobre em si o dever de lutar e a satisfação em participar numa luta coletiva para reabilitar a humanidade extirpando o caos agora instalado no planeta.

Zillah Branco

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