quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A lógica da esquerda é muito melhor do que a do sistema




Depois da surpresa com a eleição de uma maioria de esquerda em Portugal e do início das conversações do novo governo PS com os partidos PCP, Bloco de Esquerda, e Verdes, para atender às reivindicações recolhidas junto à população de todo o território, e os contínuos debates com sindicatos e associações empresariais para encontrar a viabilidade dos necessários aumentos salariais e de pensões, e reduções em impostos e taxas, e ainda observando os novos critérios com que os ministros da educação, da saúde e do mar olham para os problemas da população a serem resolvidos sem a imposição de modelos importados, sente-se uma descompressão social no relacionamento nas ruas.

Até que enfim, foi retirada a nuvem pesada que esmagava os portugueses que já não viam luz alguma no fundo do túnel. Ressurge a fraternidade, a confiança de que o governo tentará manter-se do lado do povo com um estreito relacionamento com as forças políticas e personalidades que sempre o defendem, não só em período eleitoral. A direita ou muda ou pode fazer as malas para emigrar, como Passos Coelho aconselhou à juventude em busca de emprego quando era governo.

Há quem continue agastado e insiste em combater "os sonhos e utopias" dos jovens que procuram formar-se em "empreendedorismo". Paulo Portas não muda, talvez emigre, seria bom. Mas que direito tem um adulto de cortar os sonhos e as utopias que alimentam as esperanças dos jovens? Bem se vê que P.P. nada sabe de futuro, nem pensa para além de si mesmo. Recomenda que estudem o "empreendedorismo" circunscrito nos conceitos autorizados pelo modelo da União Europeia.

Para alguém empreender, precisa ser capaz de sonhar, de olhar para lá dos limites de um modelo cristalizado, de abarcar com o pensamento a humanidade com a sua diversidade cultural e investigar a fundo a realidade do país onde vive e produz. Ou então ele será apenas mais uma maquina para manter em movimento o que outros empreenderam para obter o fim que buscam. E isso, pode ser uma insignificância humana que visa apenas o lucro financeiro dentro de uma situação pré-estabelecida, que não se sabe até quando vai durar. Então o que o ex-vice primeiro ministro comete é um crime por cortar as asas aos jovens que sonham para que eles fiquem iguais a tantos outros que mediocrizaram a sua existência embasbacados com a direita que está a caminho do brejo.

A Europa toda está a ser sacudida por uma nova consciência da necessidade de mudança: a Grécia levantou o povo no referendo à esquerda para combater a austeridade imposta pela UE, mas a liderança do Syrisa, que conta com a extrema direita, cedeu à Comissão Europeia e aumentou a dívida bancária. A França ainda não saiu do susto com a ameaça de vitória do fascismo, e Sarkosy recebe o apoio socialista que repudiara para não ter compromissos à esquerda. Vários países que adotaram o repúdio ao socialismo para poderem entrar na União Europeia também seguem o radicalismo da direita nacionalista que lembra a preparação da Segunda Guerra de má memória para todo o mundo. Na Espanha, depois da vitória do partido Ciudadanos no referendo popular a favor da independência da Catalunha, o bipartidarismo é vencido, dividindo o eleitorado em três partes com o crescimento do Podemos à esquerda, e vê surgir a Unidad Popular para reunir toda a esquerda. O líder do PSOE inaugura um discurso mais à esquerda do que sempre foi, para combater a direita enredada em erros de governação submissa e questões de corrupção mal contadas, e espera que a esquerda o apoie. Na Inglaterra também a esquerda aflora pondo o Partido Trabalhista em brios. O apelo popular é pela unidade das esquerdas, incluindo franjas descontentes de partidos de centro-direita.

A situação dos velhos líderes da União Europeia, que até agora se têm aguentado em cima do muro com o equilibrismo dos sociais-democratas antigos mais voltados para a direita, não está nada fácil. Ainda mais que têm de enfrentar a ameaça do fascismo que cresce diante da falência à vista e, para isso, terão de abrir espaço para as forças de esquerda, tal como ocorreu com os Aliados na Grande Guerra só vencida com o decisivo ataque do exército soviético que entrou na Alemanha de Hitler.

A grande mudança começa a ocorrer com a consciência social popular, de que a esquerda raciocina e luta a partir de uma lógica em que a população é o sujeito da governação (a sua vida e bem estar, formação e trabalho) e não, como impõe o sistema capitalista e seus defensores de direita, o lucro e a acumulação do capital que, teoricamente, garantiria o desenvolvimento nacional.

O exercício do poder pela social-democracia com os programas neo-liberais (em Portugal pelo PS ou pelo PSD desde 1976 até 2015, mas também em outros países da Europa e do continente americano) demonstrou a impossibilidade de promover benefícios sociais e desenvolvimento nacional quando a sua política acentuava a concentração do capital nas mão de uma elite e a pobreza no das classes trabalhadoras.

Zillah Branco

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